Foi a 18 de junho de 1896 que se ligou pela primeira vez um projetor de cinema em Portugal e a novidade foi recebida com grande espanto pelos lisboetas, que durante um mês se deslumbraram em sessões diárias, num constante aplauso de «bravo», no antigo Real Coliseu de Lisboa, na Rua da Palma.


Mário Augusto


As  primeiras imagens em movimento já tinham chegado a Portugal discretamente, como mera curiosidade tecnológica, num único aparelho que foi instalado numa loja no Rossio. Por uns centavos podia-se espreitar por uns binóculos no topo de um caixote de madeira, onde se mostravam imagens que ganhavam vida. Essa primeira experiência era o vislumbrar o futuro antes de este se revelar massivamente ao mundo. As fotografias mexiam, tinham vida e deixavam toda a gente de olhos arregalados.

Esse «caixote mágico e tecnológico» chegou a Lisboa em março de 1895 e ficou instalado na Tabacaria Neves do Rossio: um kinetoscópio Edison (na verdade, esse equipamento era uma versão fabricada em Londres por Robert W. Paul). 

O passa-palavra fez do investimento da conhecida loja um considerável êxito porque toda a gente ia lá espreitar a novidade.


Por essa altura, o cinematógrafo já andava a ser testado em Lyon, para ser apresentado no final desse mesmo ano, a 27 de dezembro, na histórica e primeira sessão de Paris, em que os irmãos Lumière inauguravam o verdadeiro milagre, um espetáculo que iria revolucionar o século que estava quase a chegar. A notícia da novidade também chegou rápido a Lisboa e os jornais deram conta dessa invenção, relatavam maravilhas das sessões esgotadas do cinematógrafo Lumière. Faziam-se longas filas para ver imagens em movimento para uma plateia deslumbrada por assistir à projeção de fotografias que ganhavam vida numa grande tela branca. Consta que alguns espectadores apanhavam grande susto com um dos filmes, a chegada de um comboio à estação e que parecia seguir de frente em direção à plateia.n 


Um verão de novidades    na capital


Foi preciso esperar meio ano até que a novidade também chegasse a Portugal. No dia 18 de junho de 1896 anunciava-se a primeira sessão do Animatógrafo. Era uma pequena parte do programa anunciado para o Real Coliseu, que integrava uma «opereta cómica de costumes» em três atos, O Comendador Ventoínha, e os filmes eram exibidos durante um dos intervalos. Uma grande inovação que deixava a plateia espantada, pelo ineditismo do evento, acabou por ser o quadro que deu mais que falar. O cartaz tinha um sugestivo slogan: «É o quadro mais extraordinário que até hoje tem sido exibido em Paris e Londres.»


Por antecipação, e promovendo a iniciativa, o Jornal Ilustrado dava conta do que estava para chegar: «Vamos admirar dentro de poucos dias a novidade mais prodigiosa e mais recente que tem sido o assombro de Londres, Paris e Madrid. É o animatógrafo apresentado por Mr. Rousby. Nesta máquina apresenta-se a fotografia viva, exibindo as cenas da vida real com a maior perfeição e fidelidade, pois com o animatógrafo obtém-se a fotografia instantânea com a rapidez de 15 provas por segundo.»

A ideia para tal espetáculo foi do empresário do Real Coliseu, António dos Santos Júnior, que, tendo assistido a uma sessão em Madrid, decidiu contratar Edwin Rousby, o projecionista húngaro (ou americano de origem húngara, não se sabe ao certo), para vir a Lisboa fazer algumas sessões de tal deslumbre. Rousby chegou de comboio, com todo o seu equipamento, no dia 15 de junho.

A máquina usada nessas primeiras sessões públicas não era o original cinematógrafo dos Lumière, mas o aparelho de um concorrente, o inglês Robert W. Paul, eletricista e fabricante de instrumentos óticos, também ele pioneiro do cinema em Inglaterra (sabe-se que Rousby era o agente comercial do equipamento). Os irmãos franceses chamaram à sua invenção Cinématographe; as exibições portuguesas eram anunciadas como o «Animatógrafo».

A sessão inaugural estava apalavrada para 17 de junho, mas como o Real Coliseu ainda não tinha a instalação elétrica para ligar o projetor, foi necessário alugar um gerador que, para azar, avariou logo nesse primeiro dia, obrigando a adiar os planos de estreia. A expectativa, que era grande, esmoreceu: os cerca de 200 convidados receberam as desculpas do projecionista e a sessão foi adiada para o dia seguinte.

Regressaram todos muito mais curiosos. Durante a tarde desse dia houve uma apresentação formal à imprensa. À noite, fez-se a primeira sessão pública. Lisboa, no dia 18 de junho de 1896, tornava-se, assim, a oitava grande cidade europeia a receber o novo e revolucionário espetáculo de projeção de imagens em movimento, o nascimento do cinema.

Os filmes que Rousby trouxe para exibir eram os que se mostravam por toda a Europa, umas produções simples, paisagens e fotos animadas que tinham títulos como Bailes Parisienses, A Ponte Nova em Paris, O Comboio Real ou A Dança Serpentina. No total, o projecionista exibia oito filmes, com uma duração inferior a um minuto cada.

No palco surgia uma tela branca de tecido com dimensões generosas (quase oito metros quadrados) a servir de ecrã. Essas primeiras sessões eram feitas em retroprojeção: o projetor estava por trás do palco e a tela era humedecida para aumentar a transparência e ganhar mais luminância.

Nessa sessão inaugural, a plateia reagiu com espanto, como escreveu, na altura, o repórter do Diário de Notícias que assistiu ao evento: «O Sr. Rousby coloca o aparelho ao fundo do palco, vemos as figuras projetar-se num quadro de tela fixado à boca de cena, algo que encanta e maravilha, por ser a reprodução da vida.» E acrescentava ainda o jornalista, já com falta de mais adjetivos para o seu espanto: «É uma prodigiosa novidade.»

Edwin Rousby chegara com contrato para cinco dias de exibição e planeava seguir depois para Barcelona, mas com o êxito arrebatador das primeiras sessões o promotor António dos Santos Júnior conseguiu convencê-lo a ficar na capital mais algum tempo. Continuou a exibir os seus filmes durante um mês inteiro, até 16 de julho, sempre com assinalável sucesso, renovando o programa com novas produções que, entretanto, lhe chegavam da Europa. Foi tão aplaudido que, no fim, emitiu um comunicado de despedida no qual escreveu: «(...) o meu sincero reconhecimento pelo acolhimento carinhoso e gentil que a ilustrada imprensa e o inteligente e generoso público dispensaram aos espetáculos».


A viagem para o Norte


Rousby acabou por ficar meio ano, ao fim do primeiro mês seguiu para o Porto, exibindo o seu espetáculo no Teatro-Circo do Príncipe Real (o atual Teatro Sá da Bandeira). Na Invicta, apesar de exercer a mesma magia e espanto nos espectadores, não foi tão efusiva a receção a tamanha novidade. Os jornais da cidade davam conta das sessões com magnificência: «É uma grande maravilha» ver fotografias a mexer. 

Entre todos os espectadores, quem lá esteve em todas as sessões foi um afamado fotógrafo, floricultor, reconhecida figura romântica da cidade, Aurélio da Paz dos Reis. Ele, sim, ficou deslumbrado com as potencialidades técnicas do equipamento.

Depois da sua tournée nortenha, voltou a Lisboa para mais uma longa temporada de vários meses, não sem antes mostrar a novidade do cinema aos veraneantes das praias de Espinho e Figueira da Foz.  

A partir de 29 de setembro, instalou-se de novo em Lisboa com uma nova série de curtas-metragens, algumas delas já filmadas em Portugal pelo operador inglês Harry Short. Alguns desses filmes foram salvos e restaurados a partir da inflamável película de nitrato e são hoje curiosas sequências preservadas na Cinemateca Portuguesa com títulos como A Boca do Inferno e A Praia de Algés na Altura do Banho. 

O eletricista húngaro, que veio por uma semana de projeções, a 15 de junho de 1895, só se despediu definitivamente de Lisboa a 6 de janeiro de 1897. Durante esse meio ano em que por cá ficou, fomentou com as suas projeções um certo entusiasmo entre investidores curiosos que começaram a adquirir equipamentos com que fizeram os primeiros registos verdadeiramente portugueses, filmes já exibidos nos novos animatógrafos que no início do século XX começaram a surgir um pouco por todo o país. 


Do entusiasmo da novidade aos primeiros estúdios


Do que não há dúvidas é que o portuense Aurélio da Paz dos Reis, mesmo antes de Rousby se ir embora definitivamente, foi o primeiro a dar à manivela da sua nova câmara de filmar, trazida da sua viagem a França. Ele foi, assim, o primeiro cineasta português.

Em agosto de 1896, o empresário e figura ilustre da cidade não descansou enquanto não se meteu no comboio rumo a Lyon com o amigo e patrocinador desta aventura, António da Silva Cunha. Seguiram viagem com o objetivo de adquirir uma dessas máquinas que faziam esse «milagre» de captar e projetar imagens em movimento. 

Como na casa Lumière não lhe venderam a novidade, não desistiram e foram procurar um equipamento com a mesma função, optando por um fabricante da concorrência, um aparelho da marca kinétographe de Bedts, maquineta muito idêntica à dos Lumière e que também era dois em um – podia ser usada como câmara, mas também servia de projetor.

Mal regressou ao Porto, começou logo a experimentar o equipamento e a filmar. Em novembro de 1896, Aurélio da Paz dos Reis mostrava em sessão pública os seus primeiros filmes. É hoje consensual a ideia de que foi ele o primeiro realizador português, muito embora se saiba que outros entusiastas dessa novidade começaram também a rodar filmes quase na mesma altura. O Porto foi, assim, a cidade pioneira na rodagem de filmes. Foi também nesta cidade que, poucos anos depois, se construíram os primeiros grandes estúdios de cinema do país. 

No mesmo ano da implantação da República (1910) foi fundada a empresa Invicta Film, a mais importante e reconhecida produtora portuguesa do tempo do mudo. Ao longo de uma década e com muitas produções de qualidade, a Invicta contruiu de raiz uns grandes estúdios e laboratórios na quinta da Prelada, dos mais modernos da Europa. Foram contratados técnicos e cineastas estrangeiros, quase todos vindos dos famosos estúdios Pathé, destacando-se o realizador francês Georges Pallu e o italiano Rino Lupo, que se mudaram para a cidade, dinamizando uma indústria de cinema que parecia estar a crescer, com um modelo de produção igual ao que já se fazia na Europa e nos Estados Unidos. 

O ambiente nesses novos estúdios seria o que hoje se chama um cluster de cinema que se transformou num verdadeiro centro de formação, um laboratório criativo onde acabaram por aprender muitos técnicos, atores e futuros nomes do cinema português desse tempo.

A Invicta Film foi a mais importante e mais duradoura produtora portuguesa do período do mudo, conseguindo exportar para todo o mundo algumas das suas produções mais famosas, como Rosa do Adro, Fidalgos da Casa Mourisca ou Mulheres da Beira, rodado em cenários naturais da serra da Freita, em Arouca. 

Desse entusiasmo amador inicial à tentativa de criação de uma indústria, o cinema em Portugal começou assim um tempo mágico de mais de duas décadas de espanto e curiosidade... uma sensação de se estar a assistir ao despertar do futuro, nessa altura em que tínhamos um cinema bem alinhado com o resto do mundo.