José Rentes de Carvalho. Noventa e seis anos, um autor de grandes memórias. Marcámos encontro em Amesterdão para lhe registar testemunhos e as recordações da sua terra a que ele já chamou «o país do Solidó».


Mário Augusto


«Oficialmente, entrei hoje na velhice!»


Foi esta a nota que escreveu José Rentes Carvalho na última entrada do seu diário, precisamente no dia em que completou 65 anos, em 1995. Agora, que já passa a barreira dos 96, o autor de Ernestina, A Amante Holandesa, O Messas ou Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, continua a olhar Portugal como o único território transportado pela sua obra como quem analisa tudo o que guarda de recordações ou anota de vivências soltas. Traça na sua escrita um retrato sentimental onde vivem quase todas as personagens que habitam os seus livros, retratos que projetam os nossos sonhos e pesadelos, inquietações e sobressaltos que ele confessa assim: «Se não escrever, não tenho lugar para pôr a minha raiva. Não para pôr o meu amor, isso é fácil. Pôr a raiva naquilo que se escreve, isso é que é difícil.»


José Rentes Carvalho nasceu a 15 de maio de 1930, em Vila Nova de Gaia. Cresceu a ver o Porto do outro lado. Neto de um avô sapateiro e de um outro avô guarda-fiscal na alfândega do Porto, é uma alma transmontana que veio desaguar ao fim desse rio vital, o Douro, onde se encontra com o mar de onde depois ele partiu para o mundo. É um homem de sortes múltiplas, inquietudes constantes e uma ascendência bem vincada e clara: transmontana, pobre, solitária, rebelde, num retorno constante às raízes. Ainda hoje, divide o tempo entre Amesterdão e a paisagem de Estevais, em Mogadouro, metade do ano em cada lugar. Desde os anos 60 que percorre os 2200 quilómetros que separam esses seus dois lugares de poiso. Vem de carro, sempre ele a conduzir, a atravessar meia Europa, para chegar às raízes. Fez esse caminho até aos 95 anos porque é nessa aldeia, Estevais, que fica lá bem longe, onde ele enquanto puder responde ao chamamento telúrico. É o destino para o qual, desde que se lembra, viajou sempre para se encontrar. As primeiras recordações que guarda da meninice são do comboio, fumarento e lento até lá acima: «A gente saía da estação de São Bento, da cidade, e entrava de repente num mundo diferente, estranho e duro. Começava com o Douro. Uma parte do Douro ainda se suportava, mas depois era mesmo como chegar ao fim do mundo.»


Era a grande viagem pelo país real na primeira metade do século xx?

«Eu tenho isso escrito no Ernestina... era incrível... Ainda hoje, quando entro na estação de São Bento, volto a ser menino porque a cena era mais ou menos assim: um dia ou dois antes, a casa (no Monte dos Judeus, em Vila Nova de Gaia) estava num rebuliço porque a minha mãe – ela sozinha,
o meu pai era do género homem, não fazia coisa nenhuma – enchia as malas e os cestos e tudo mais que levava para a aldeia. Depois, na manhã da partida, aí uma hora ou duas horas antes da viagem, vinha um grupo de mulheres e cada uma levava à cabeça uma mala, um cesto ou uma trouxa para a estação de São Bento, no Porto. O meu pai ia à frente porque ele ia fazer o registo para que as coisas fossem em alta velocidade, porque no comboio a bagagem não se levava só no vagão, ia despachada. Então, iam as mulheres à frente e eu atrás com
a minha mãe, o meu pai já lá estava na estação. E depois era o tradicional: o meu pai ia tomar um café, nós esperávamos que ele voltasse. Era aí que entrávamos no comboio, a viagem levava das oito da manhã até – às vezes – às oito da noite porque era o comboio que parava em toda a espécie de estação
e apeadeiro. Lembro-me que havia a paragem de uma hora na Régua para os senhores que podiam ir almoçar no restaurante da estação. Depois, era a mudança no Pocinho para o comboio de via estreita. Uma aventura. No tempo da guerra tinham que levar duas locomotivas porque não havia carvão e a caldeira funcionava a lenha, que dava pouco aquecimento. Ia uma locomotiva à frente, outra atrás, e aquilo seguia muito devagarinho até chegarmos à estação de Carviçais. Talvez umas dozes horas depois. Lá estavam, em geral, quatro ou cinco burras ou mulas, das quais as destinadas ao meu pai, à minha mãe e a mim, três, não tinham só a albarda, tinham sobre a albarda um tapete. Era um sinal de cortesia, de luxo. A gente da cidade não se sentava na albarda tosca, sentava-se num tapete. E assim era a nossa partida e a nossa chegada.»


Estevais é hoje uma aldeia que fica longe e de pouca gente, na altura tinha mais população. Era um grande povoado, mas muito mais distante. Para si, continua a ser o seu lugar de todas as memórias e retornos constantes?

«Estevais, para mim, é muito especial. Para começar, pelo homem que não conheci, o meu avô materno. Ele fez, ou construiu ele próprio, uma casa que dizia ser para o neto que ia nascer, quando a minha mãe nessa altura só tinha 15 anos. Mas ele já tinha a certeza de que ia ter um neto único. E construiu a casa para esse neto, é a minha casa de hoje na aldeia. Enfim... Estevais não é só esse particular, é o carinho da minha avó materna.
A minha avó paterna também era carinhosa, mas muito diferente. Já era mulher da cidade, enquanto a minha avó Elisa, a minha avó materna, tinha todas as qualidades que se esperam de uma avó transmontana. Eu era muito miúdo, mas recordo-me tão bem disso tudo. Ela aquecia as meias que eu ia calçar à lareira. Não me dava as meias frias. Tinham de ser aquecidas. Enfim, o que dizer desses mimos.»


Pelo mundo de olhos postos  nas raízes


Um viajante com anos e anos de caminho por um destino longo, o Porto e depois Amesterdão com regressos contantes a Estevais, como se ensaiasse o retorno a onde um dia quer repousar por fim. 

Rentes de Carvalho teve uma vida de partidas constantes, primeiro de Gaia a Trás-os-Montes, depois para todo o lado onde chegou e andou desde jovem nessa atitude desafiadora. Começou por ser obrigado a abandonar o país por motivos políticos, um trajeto que lhe deu o mundo, levou-o de Paris ao Rio de Janeiro, de São Paulo a Nova Iorque, até chegar a Amesterdão, em 1956, para ficar uns tempos, mas que se tornou a sua segunda casa, a que lhe parecia ser definitiva.


«A minha relação com a Holanda é estranha. Começou por um sentimento mágico. Na manhã do primeiro dia que cheguei, saí do hotel, fui ao longo dos canais e tive esse sentimento estranho (estou quase a ser dado à bruxaria, mas não é!), tive o sentimento de que nada daquilo era estranho para mim. Gostei, achei bonito, mas não tive a sensação de estranheza que tive, por exemplo, quando cheguei a Paris, que foi como uma explosão de descoberta. Aqui foi um sentimento de familiaridade. Não achei nada distante de mim.»


Foi por isso talvez que, anos depois, se sentiu à vontade para ser crítico e escrever o que lhe ia na alma sobre o país de adoção. De alguma maneira, sentiu-se como se já fizesse parte dessa sociedade ao ponto de a retratar numa análise curiosa.
O livro Com os Holandeses foi um êxito editorial inesperado, no entanto faz nele e em cada página um retrato mordaz e crítico dos neerlandeses...

«Eu estava numa situação privilegiada que me permitia ser crítico e mau, maldoso nas observações. Dava aulas na universidade, conhecia bem a sociedade como estrangeiro, mas estando totalmente integrado. Amesterdão desde sempre foi especial para mim. Aqui eu pertenci à classe alta, pertenci aos pobres, pertenci
à mediania, pertenci por momentos aos ricos e abandonei a riqueza... E depois caí numa atmosfera totalmente diferente. Em consequência, da universidade veio a literatura, veio a bizarria de um livro de que eu só esperava pontapés e alguma rejeição. Escrevi com sinceridade o que pensava da sociedade que me recebeu e acabou por ser um enorme êxito. Ainda hoje, há gente que me escreve dizendo: “Olha, eu li.” Isso é muito bom. Por isso, Amesterdão é muito especial para mim. É um lugar onde me sinto bem. Sinto-me livre, sinto-me alegre. Sempre me aceitaram como sou e respeitaram.»


Foi realmente a cidade onde também se alcançou. Chegou para uma estadia breve e de trabalho e ficou para sempre, constituiu família. Entre 1964 e 1988, foi professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Amesterdão. Tornou-se um cronista muito lido de vários jornais, foi comentador de televisão, uma figura pública de destaque nos Países Baixos. Depois de editar o livro Com os Holandeses, que se tornou um dos seus livros mais vendidos, relatando o país que o recebeu e as suas gentes, com uma visão crítica e com humor na escrita, Rentes de Caravalho ficou famoso!


«Curioso, não é?! O livro tem alguma graça, mas devo dizer que parte do mérito desse êxito do livro é que foi traduzido de uma maneira brilhante. Eu escrevo sempre na minha língua.
O livro em português está lá inteirinho na tradução para holandês. Elegantíssimo nas palavras, igualzinho ao original português. Se não tivesse sido traduzido pelo August Willemsen não tinha tido certamente aquele impacto, porque as pessoas, os críticos, não caíram só no conteúdo, mas no estilo.»


A sua inspiração, o seu prazer de leitura, vem de muito jovem?

«Aprendi cedo o que se chama a boa literatura. Eu tive uma sorte estranha. O meu avô paterno era analfabeto. Foi para a tropa, aprendeu a ler ajudado por um capitão que lhe deu a cartilha de João de Deus. Quando aprendeu a ler, o meu avô ficou viciado em leitura. Até à morte, aos 66 anos, lia todos os dias o jornal Primeiro de Janeiro e mais. Cortava todos os folhetins do jornal e encadernávamos. Quer dizer, fazia um buraco e com uma agulha fazia... encadernava. Eu nasci numa casa cheia de montes de jornais. Li a vida toda de Napoleão Bonaparte nos folhetins do Primeiro de Janeiro. E depois, por estranha e misteriosa coincidência, quando fui para a tropa, a tropa não sabia o que havia de fazer comigo porque eu não... esqueci-me da carreira de tiro, era mau na ginástica, e então puseram-me na Biblioteca do Estado-Maior. Aproveitei para ler de tudo e em casa havia livros, o meu avô comprava livros. No quartel do meu pai havia um armário muito grande cheio de livros e eu lia tudo o que lá estava.»

rentes de carvalho é um dos derradeiros autores clássicos que não se envergonha da língua, trata-a com um cuidado delicado. A língua que aprendeu a amar e a defender.


«Sabe, a minha relação com a língua portuguesa não é normal. É como diz, de amor mesmo. Eu devia envergonhar-me de dizer essas coisas, mas sofro quando vejo a língua portuguesa maltratada. Mas sofro mesmo no íntimo. Sou um português entre 10 milhões de portugueses, mas se há alguma coisa que me faz sofrer é esse maltrato da língua portuguesa. De vez em quando ainda pego num sermão do padre António Vieira pelo simples prazer, pelo gosto de ouvir as palavras. Não diria obsessão pelo bom português escrito e falado, mas
o que sinto é amor mesmo.» 


Na verdade, o seu país é o seu problema e a sua perdição. Observador das pequenas coisas, recria personagens sempre à beira do desastre ou da heresia, cómicas, amargas, bondosas, malandras, invejosas, desmoralizadas, audazes. São sempre portugueses retirados às histórias reais que se encontram nestas páginas, nas quais desfilam mulheres destemidas e homens combativos, tão capazes de altíssimos momentos de coragem como de atitudes desprezíveis e medrosas. Os seus portugueses são como nós. São essas histórias de coragem e ressentimento que absorve da terra, que não poupam heróis nem economizam na maldade.

Ele escreve com uma tranquilidade doce e amarga, respeitando e reinventando palavras, porque cada tema, cada personagem e cada suspiro que exalam tem a marca dessa língua poderosa e tão antiga como as paisagens dos seus livros, onde se fala de nós, portugueses, seus irmãos e traidores, heróis de brincadeira capazes de rir e de chorar, de reinventar tudo por amor. Porque amor, lá está, é a palavra que explica quase tudo em José Rentes de Carvalho. As suas histórias, a sua língua, a sua vida, o seu olhar sobre a paisagem humana, as serras e os rios, as pessoas e o ar que anda
à solta nas suas palavras.


A sua escrita é uma poeira de amor


«O amor não se descreve, não se descreve e não se conta, não se confessa. Tem-se ou não se tem. E quando se tem, resiste a tudo: a mau humor, a aborrecimentos, a contratempos. E permite uma coisa sagrada que
é nunca deixar de falar e de manter a cortesia mesmo quando há irritação e raiva, manter a cortesia é muito importante.

E se há amor, há cortesia.» 


Das várias vezes que conversámos quando o fui visitar a Estevais de Mogadouro, seguimos no seu carro de Torre de Moncorvo até à aldeia. Fazendo agora o caminho rápido nas estradas alcatroadas do progresso, ousei perguntar como era chegar agora num carro confortável e rápido à sua aldeia de sempre, quando em miúdo era longa a viagem de comboio a vapor e seguia de mula até à aldeia. A resposta foi de escritor.


«É como se agora, a passar por aqui, estivesse a ver na beira da estrada todos os que conheci desde a minha meninice a acenarem-me com um sorriso enquanto vou passando.»