«Há algo mais para além do cérebro»?
Médico e empresário reconhecido na indústria farmacêutica, Luís Portela criou há três décadas a Fundação BIAL, instituição dedicada a apoiar a investigação científica em torno das neurociências, parapsicologia e espiritualidade. O empresário que projetou no mundo uma farmacêutica com medicamentos inovadores, é também um atento estudioso das áreas onde a ciência toca o que ainda não compreendemos totalmente.
Mário Augusto
Essa inquietude está presente nos seus livros e documentários, onde há muito assume a missão de aproximar dois mundos que durante décadas caminharam separados – o rigor científico e a busca espiritual.
Em Ser Espiritual e, na continuação dessa reflexão, em Da Ciência ao Amor, ou a série documental Para além do Cérebro, o autor convida-nos a refletir numa pergunta antiga, mas sempre presente: afinal, o que somos realmente? Seremos apenas matéria organizada em complexos processos neurobiológicos ou existirá em cada um de nós uma dimensão mais profunda que liga consciência, espírito e universo?
São interrogações que atravessam a história da filosofia, da ciência e da religião e que continuam a desafiar o conhecimento humano, também aprofundado pelo trabalho da Fundação BIAL, que apoia investigadores em todo o mundo. É a partir desse universo de curiosidade e inquietação sobre espiritualidade que começa esta conversa com Luís Portela.
O que é isso do amor, a essência do amor para um espiritualista?
O amor, em termos emocionais, nasce na relação entre seres humanos. Na perspetiva materialista, é talvez a experiência mais elevada da amizade ou da ligação profunda entre duas pessoas e, quando envolve sexualidade, naturalmente entre um casal. Mas, na perspetiva espiritualista, eu diria que o amor é a plenitude. A Terra é uma escola: vimos aqui para aprender, para evoluir, para nos aperfeiçoarmos. No Ocidente fala-se em aperfeiçoamento; no Oriente, em purificação. Gosto dos dois termos, talvez até mais de purificação.
Vamo-nos aperfeiçoando, purificando e adquirindo características que nos aproximam da harmonia universal. Eu acredito que essa harmonia existe sempre; nós é que podemos estar, ou não, em sintonia com ela. Se andamos mergulhados na perturbação do dia a dia, afastamo-nos dessa harmonia. Se conseguirmos parar, centrar-nos e olhar para dentro, começamos a descobri-la. E, à medida que a descobrimos, percebemos que há uma inteligência universal, uma sabedoria universal, e que, no cimo de tudo, existe o amor universal. Esse amor pode traduzir-se, em termos humanos, na capacidade de gostarmos dos outros como gostamos de nós. E quando digo os outros, digo os outros seres humanos, os animais, as plantas, até o reino mineral.
Quando falo de amor incondicional, falo dessa capacidade de amar tudo e todos, até aqueles que, num dado momento, se assumem como nossos inimigos e procuram prejudicar-nos. O amor profundo é sermos capazes de olhar para eles e pensar: «Coitado, ainda não sabe fazer melhor. Está a prejudicar-me e a prejudicar-se a si próprio. Como o posso ajudar a não fazer nenhuma dessas coisas?»
Mas quem são, afinal, os maus da fita? O mundo parece cheio deles.
Somos nós. Somos todos nós quando nos deixamos dominar por pensamentos negativos, por atitudes erradas, por comportamentos que prejudicam os outros. Não há uma divisão simples entre bons e maus. Todos temos facetas mais polidas e facetas mais rugosas. Na minha perspetiva, cada ser humano é como um cristal com muitas faces. Algumas já estão trabalhadas, mais limpas, mais evoluídas; outras continuam ásperas, cheias de fricção, ainda em conflito. O nosso trabalho é precisamente polir essas facetas mais rugosas. Por isso, não há «os maus» de um lado e «os bons» do outro. Todos temos luz e sombra. E a mais alta expressão do amor é sermos capazes de olhar com amor para quem tenta prejudicar-nos e perguntarmo-nos como poderemos ajudar essa pessoa a ser melhor, a não se destruir ao fazer mal ao outro.
Ou seja, o nosso individualismo faz parte de um todo?
Sim. Cada um de nós é, na minha opinião, uma partícula do todo universal. E, à medida que vamos fazendo a nossa trajetória evolutiva, vamos deixando de sentir a necessidade de nos afirmarmos apenas como «eu». Vamo-nos libertando dessa obsessão com o nosso umbigo, com a nossa importância individual, e começamos a preocupar-nos mais com os outros, a querer ser úteis, a ajudar. Nesse caminho, sentimo-nos cada vez menos partícula isolada e cada vez mais parte integrante de um todo.
Mas o mundo parece pôr-nos constantemente à prova…
Eu não diria que o mundo é matreiro. Diria antes que estamos num mundo-escola. Viemos para aprender uns com os outros e com tudo o que nos rodeia. O desafio faz parte da aprendizagem.
Portanto, amar também é saber perdoar?
Mais do que perdoar. No amor profundo, a pessoa já não se sente propriamente ofendida. Percebe que o outro está a agir mal porque ainda não sabe fazer melhor. E, em vez de rancor, procura serenidade, lucidez e compreensão. Pergunta-se: «Como posso ajudar esta pessoa a não me prejudicar e a não se prejudicar a si própria?» Isso, para mim, é amor profundo. Amor universal.
A partícula do amor?
Exatamente. A partícula do amor.
A mente para além do cérebro
A mente não é apenas esta massa gelatinosa dentro da cabeça? O cérebro pode ser um recetor dessa centelha?
Na minha opinião, sim. E digo-o como espiritualista convicto: existe, para além do cérebro, algo mais importante do que o próprio cérebro. Algo que é o nosso verdadeiro eu, uma partícula da energia universal, a que podemos chamar alma ou espírito. Ora bem... isto ainda não é uma posição científica estabelecida. A ciência tem vindo a reunir indícios, por diferentes vias, de fenómenos que apontam para a possibilidade de existência de vida para além da morte física, ou para a existência da alma ou do espírito. Mas ainda não chegou a uma conclusão definitiva. Ainda assim, penso que não faltará muito, porque os sinais vêm de vários lados.
Um desses campos é a mediunidade. Desde a Antiguidade que se fala da possibilidade de alguns médiuns entrarem em contacto com seres espirituais. Durante muito tempo, isso foi encarado com grande ceticismo. Mas, nas últimas décadas, universidades europeias e norte-americanas começaram a estudar estes fenómenos com maior rigor. Hoje existem indícios sérios de que algumas pessoas poderão, de facto, entrar em contacto com realidades que não se explicam apenas pela atividade cerebral comum. A eletroencefalografia, a ressonância magnética funcional, fazem-se experiências científicas da mediunidade, os chamados ensaios triplamente cegos deram um impulso importante a esta área.
Mas o que são esses ensaios triplamente cegos?
São estudos desenvolvidos para impedir qualquer contaminação da informação. A pessoa que quer colocar perguntas sobre um familiar falecido não contacta com o médium. Um assistente recolhe as perguntas e passa-as ao investigador principal que, por sua vez, as faz chegar a outro assistente. Só este último é que entra em contacto com o médium.
O médium não sabe quem morreu, não sabe quem fez as perguntas, não conhece o contexto. Ainda assim, em alguns casos surgem muitas respostas coincidentes com factos depois conferidos pela família e, por vezes, com dados que ninguém sabia e que depois se confirmam. Isto não encerra a questão, mas torna a mediunidade mais respeitável como objeto de estudo. Faz-se um trabalho muito sério nestas áreas em universidades inglesas. Isso leva-me com curiosidade às experiências de quase-morte!
Está estudado que há pessoas que, por acidentes ou circunstâncias várias, são dadas como mortas durante minutos, horas e, em casos muito raros, mais tempo do que isso. Não respiram, o coração não bate, não há atividade elétrica cerebral registável. E, no entanto, regressam à vida. E, ao regressarem, descrevem acontecimentos que se passaram enquanto estavam clinicamente mortas, quer no local onde se encontravam, quer noutros sítios, de forma verificável.
São indícios de que poderá existir uma partícula de energia capaz de animar o corpo físico e, em certas circunstâncias, destacar-se dele de forma autónoma.
E entram aí as chamadas vidas passadas?
Entram. Há crianças muito pequenas, entre os dois ou três anos e os sete ou oito, que começam a falar de outras vidas: nomes, profissões, cidades, países, circunstâncias que não conhecem e que a família também não conhece de todo.
Muitas vezes os pais desvalorizam. Outras vezes preocupam-se e levam a criança ao médico ou ao psicólogo. Foi isso que levou, nos finais da década de 1960, o professor Ian Stevenson, da Universidade da Virgínia, nos EUA, a investigar quase três mil casos. Ouvem as crianças, registam o que dizem e procuram perceber se existe alguma explicação plausível: seja um familiar emigrado, uma história ouvida, um programa de televisão, um contexto que possa justificar aquela narrativa. Quando nada disso explica o relato, deslocam-se aos locais mencionados pela criança para verificar se existiu alguém com aquelas características. Agora repare: em cerca de 68% por cento dos casos estudados foi possível encontrar uma personalidade real que correspondia ao que a criança descrevia de uma suposta vida passada.
Ou seja, numa analogia percetível é como se fôssemos um computador recondicionado no qual o disco duro ainda traz informações do antigo dono?
É uma imagem curiosa e ajuda a perceber. Jim Tucker, sucessor de Ian Stevenson na Universidade da Virgínia, também estudou milhares de casos. Na verdade, a teoria das vidas sucessivas não está cientificamente demonstrada, mas estes indícios levam muitas pessoas a admitir que poderá haver continuidade para além da morte física. E, se assim for, quando deixamos o corpo físico assumimo-nos de forma independente em termos espirituais.
Estamos a falar da tal partícula?
Da tal partícula. Na teoria espiritualista, quem está muito agarrado à matéria, pouco consciente da sua dimensão espiritual, tende a permanecer mais próximo da atmosfera da Terra, por vezes sem se aperceber de que já morreu. Já os seres mais desprendidos, mais serenos, mais evoluídos, libertam-se mais depressa dessa ligação e seguem para outros planos. Essas experiências fazem parte, precisamente, do trabalho de polir as facetas da nossa existência. E quem não concluiu esse trabalho poderá regressar uma e outra vez para continuar a evoluir.
Então escolhemos os pais, a família, o ambiente em que nascemos?
Isso faz parte da teoria das vidas sucessivas. Cientificamente não está demonstrado, mas essa visão sustenta que cada um escolhe o contexto mais adequado à sua evolução: o meio, a família, as circunstâncias que melhor permitam limar aquilo que ainda falta limar.
Então não é um dom ter essas perceções, intuir sobre o invisível?
Antigamente dizia-se que certas capacidades eram um dom. Hoje, pelo menos segundo algumas perspetivas de investigação, fala-se antes de graus diferentes de perceção extrassensorial. Ou seja: todos nós teríamos algum nível dessa capacidade, embora mais desenvolvida nuns do que noutros.
Há pessoas que a conseguem treinar. E também acontece o contrário: há quem perca essas faculdades, sobretudo quando as transforma em negócio. A meu ver, não se deve explorar comercialmente uma capacidade espiritual. Quando isso acontece, essa capacidade tende a degradar-se e abre-se a porta ao embuste, ao descrédito e à perversão de uma área muito delicada.
A espiritualidade, para mim, assenta num princípio simples: o caminho é nosso. Ninguém pode fazê-lo por nós. Nem no plano físico, nem no plano espiritual. Não faz sentido pedir a terceiros, sejam santos ou médiuns, que façam aquilo que nos cabe a nós fazer. Temos de descobrir o nosso caminho, assumir as nossas dificuldades e trabalhar nelas. E, se fomos nós a escolher vir ao mundo numa determinada condição, então cabe-nos compreender porquê e fazer dela um instrumento de evolução.
Fé, religião e espiritualidade
Onde entra aí a fé e a religião?
Uma coisa é a espiritualidade; outra é a fé e a religião. Em geral, as religiões são espiritualistas. Mas tenho dúvidas de que os grandes mestres espirituais quisessem fundar religiões. Creio que quiseram transmitir mensagens de esclarecimento, de luz, e não criar estruturas, dogmas, hierarquias e negócios à volta dessas mensagens. Eu tenho um enorme respeito por esses mestres. A mensagem de Jesus é absolutamente fantástica, mas, a meu ver, foi deturpada, tal como a de Buda de Confúcio e de Lao-Tsé, são mensagens fantásticas.
O que lamento é que, muitas vezes, os seus seguidores tenham deturpado a essência da mensagem acrescentando regras, mistérios, milagres e mecanismos de poder. Ainda assim, as religiões prestaram um grande serviço à humanidade. Não sou religioso, mas também não sou antirreligioso.
O problema começa quando se pede às pessoas uma adesão cega, pela fé, sem espaço para o questionamento. Em jovem, eu não conseguia aceitar isso. E continuo a não aceitar. Mas também nunca me satisfez a posição oposta da ciência, quando dizia simplesmente: «Nada disso existe.»
Acho que é preciso estudar. Aceitar os fenómenos como objeto de análise e procurar compreendê-los com rigor. Não para provar uma crença ou demolir outra, mas para levantar o véu da ignorância.
Essa aproximação entre ciência e espiritualidade é o centro da sua reflexão?
É, claramente. Se a ciência investigar seriamente estas questões, talvez um dia possamos compreender melhor o que somos. E, se isso acontecer, a própria forma de viver na Terra pode mudar. Talvez percebamos que somos muito mais semelhantes do que pensamos e que faz pouco sentido andarmos permanentemente em competição, em conflito, em desequilíbrio.
O grande propósito humano talvez não seja apenas sobreviver. Talvez seja aperfeiçoar-se. Purificar-se e tornar-se melhor.
Isso passa pela meditação?
Sim, embora não veja a meditação como uma fórmula rígida. Não tem de ser aquela imagem convencional das mãos em posição ritual. Cada pessoa encontra a sua forma.
Orar pode ser uma forma de meditação?
Pode, sem dúvida. O importante é encontrarmo-nos connosco próprios. Uma ou duas vezes por ano, talvez valha a pena parar um dia ou um fim de semana e perguntar: quem sou eu? O que ando aqui a fazer? Para onde vou? O que quero ter feito quando olhar para trás, no fim da vida?
Esse exame mais profundo pode ser anual ou semestral. Mas, no dia a dia, acho importante guardar dez ou quinze minutos para verificar se estamos a seguir o caminho que desejamos ou se andamos distraídos com coisas sem valor.
É fundamental esse exame de consciência. Perguntarmo-nos: o que fiz nas últimas vinte e quatro horas que me afasta do que quero ser? O que fiz de errado? O que me envergonha? E depois escolher esse erro e decidir, com honestidade: nas próximas vinte e quatro horas não o vou repetir.
Pode parecer pouco, mas é realista. E, quando este exercício é feito com seriedade, vai havendo progresso. Um dia a pessoa olha para trás e percebe que venceu um defeito, um vício, uma fragilidade. Isso é crescimento espiritual. É ser melhor hoje do que ontem.
Portugal e a investigação
Porque é que em Portugal as universidades quase não investem nesta área?
Em termos de apoio, a Fundação BIAL continua a estar atenta e a apoiar a investigação. Já houve, por exemplo na Universidade de Lisboa, uma tentativa interessante, com um laboratório chamado LIMITE, liderado pelo professor Mário Simões, mas os resultados científicos não atingiram o impacto esperado e o projeto acabou por ser encerrado.
Noutras universidades portuguesas há pessoas interessadas, mas não existe investigação consistente nem estruturas consolidadas nesta área. Portugal continua a ser um país bastante conservador e isso talvez explique alguma resistência. Ainda assim, há cada vez mais gente interessada, são já vários os jovens investigadores portugueses que acabam por fazer doutoramentos nestas áreas no estrangeiro, sobretudo no Reino Unido, mas também na Alemanha e nos Estados Unidos. A Fundação BIAL tem procurado abrir portas e facilitar esse trabalho sério de investigação. Porque, para mim, este é um dos campos onde a ciência ainda tem muito para descobrir.
O Enigma da Consciência
Nos seus livros, Luís Portela lança uma reflexão pouco habitual: o encontro entre ciência e espiritualidade. Longe de os ver como campos opostos, sugere que ambos podem dialogar e ampliar a nossa compreensão sobre aquilo que significa ser humano.
A reflexão nasce da experiência acumulada ao longo de décadas de contacto com cientistas, médicos e pensadores, muitos deles apoiados pela Fundação BIAL, instituição que tem financiado estudos sobre a consciência, as experiências de quase-morte ou a possibilidade de a mente ultrapassar a atividade estritamente cerebral. Temas durante muito tempo considerados marginais pela ciência, mas que hoje já são ser abordados com maior abertura como se prova tambem na série documental Para além do Cérebro.
A questão que surge da leitura dos livros de Luís Portela é simples e profunda: será o conhecimento científico suficiente para explicar aquilo que somos? Para o autor, a ciência é indispensável para compreender o corpo e o cérebro, mas não esgota o mistério da consciência, da ética ou da experiência interior.
É neste ponto que surge o amor como dimensão estruturante da existência humana e não apenas como sentimento, mas como princípio capaz de ligar conhecimento e sabedoria, progresso científico e desenvolvimento interior.
Se Ser Espiritual explora a dimensão interior do ser humano, Da Ciência ao Amor amplia essa reflexão e propõe uma ponte entre dois territórios durante muito tempo vistos como incompatíveis: o rigor científico e a procura de sentido para a vida. Sem impor respostas, Luís Portela sugere que o verdadeiro progresso humano poderá depender da capacidade de transformar conhecimento em consciência e, consequentemente, consciência em amor.
A Fundação BIAL, desde a sua criação em 1994, já apoiou cerca de 1900 cientistas e investigadores de 31 países, 946 projetos desenvolvidos através dos seus programas de financiamento à investigação científica.







