Restos de madeira ganham nova forma
e mudam vidas
A partir de sobras de madeira da indústria do mobiliário nascem peças únicas e criativas. A conceção é de alunos de design e a execução é feita por utentes de instituições de apoio a pessoas com deficiência.
Mário Costa
«Isto começou numa altura em que estava com a minha mulher, na carpintaria, a fazer o presente de Natal da minha irmã. E sobravam umas pecinhas de madeira, umas pareciam estrelas, outras trevos, várias peças com uns formatos engraçados. E começámos a pensar: “Porque não guardamos isto para depois fazermos qualquer coisa?” Foi evoluindo, começámos a guardar mais peças, e mais peças, até que um dia pensámos dar as peças a instituições sociais do concelho que usam este tipo de produtos para dinamizar atividades com os seus utentes e ganharem dinheiro em épocas como o Natal. E depois pensámos em dá-las também a instituições de ensino, numa lógica de os alunos poderem usar para fazer peças que seriam expostas e posteriormente vendidas. Lançámos o repto ao IPB – Instituto Politécnico de Bragança, que aceitou de imediato através do curso de Arte e Design.» A explicação é de Filipe Mofreita, CEO da Carpintaria Mofreita, em Macedo de Cavaleiros.
Uma simples ideia nascida da vontade de guardar os restos da produção de mobiliário deu origem, em 2004, ao projeto Excedentes Criativos, em que os alunos do último ano do curso de Arte e Design do IPB são desafiados a desenhar peças usando esses mesmos restos. Depois, os projetos selecionados são concretizados por utentes da CERCIMAC, de Macedo de Cavaleiros, parceiro da primeira hora, a que se juntou mais tarde a APPACDM de Mirandela. «A primeira edição correu muito bem, aproveitámos os excedentes que tínhamos, os utentes fizeram um trabalho fantástico, e já vamos na terceira edição do projeto», refere Filipe Mofreita.
Bárbara Meireles, hoje designer da Mofreita, era uma das alunas da primeira turma do IPB que foi desafiada a conceber peças de design a partir de excedentes de madeira. Hoje é responsável pelo projeto Excedentes Criativos e recorda como a ideia foi recebida: «Foi um bocado assustador, para ser sincera. Isto porque além de estarmos a trabalhar com formas muito diferentes, porque as peças eram muito diferentes umas das outras, as quantidades também eram limitadas, o que fazia com que muitas fossem peças únicas. Além disso, também tínhamos a situação social, porque tínhamos de ter a noção de que todos os projetos que desenvolvêssemos ou projetássemos iriam ser executador por utentes da CERCIMAC. Ao mesmo tempo, tínhamos de saber como iríamos transformar um excedente que por norma é triturado, nem sequer é valorizada a forma, num produto que pudesse dar valor à instituição. Porque o mote é este: nós projetamos, os utentes produzem e depois a venda reverte a 100% para a instituição. Posso dizer que este valor agregado foi uma grande pressão para os alunos», salienta Bárbara Meireles às Selecções.
A CERCIMAC, de Macedo de Cavaleiros, é parceira do projeto desde o início, tendo a adesão sido imediata: «Esta ideia veio encaixar dentro de uma dificuldade que estas instituições têm, que é a ajuda das empresas. Muitas vezes nem é monetária, para fazerem integrações, para fazer com que estas pessoas se sintam úteis na sociedade. Eles não entraram no projeto por dinheiro, claro que ajuda – e nós já entregámos cerca de 2000 euros do resultado da venda das peças –, mas sim pela utilidade que isto tem em termos de saúde mental dos utentes e para que os utentes se sintam úteis. Eles abraçaram logo o projeto, já tivemos várias reuniões com o IPB e depois avançamos para a formação técnica dos alunos, como dos utentes», garante Filipe Mofreita.
Nascido em 2023, o projeto Excedentes Criativos tem nos alunos do IPB um dos seus mais elementos principais. Os alunos do primeiro semestre do terceiro ano curso de Arte e Design são desafiados, na cadeira de Projeto, a criar um objeto, um produto, com a premissa de que é para ser construído por pessoas com deficiência. A dificuldade aumenta, porque é dado um tema ao qual têm obedecer: «No primeiro ano não demos tema, estávamos todos a aprender e cada aluno fazia o que quisesse. No segundo já demos um tema, que foi a Luz, em que projetavam objetos com luz, como os candeeiros, e este ano o tema foi desenhar espaços de coworking. Temos um parceiro, que é a Avila Spaces, que tem espaços de coworking em Lisboa e que também participou na avaliação dos projetos», conta o CEO da Mofreita. Bárbara Meireles, ex-aluna do IPB e designer da Mofreita, admite que este ano a dificuldade é maior, mas também permite que os melhores talentos sobressaiam e que possam aparecer projetos inovadores. «Eu acho que sim, porque a interpretação que damos a uma forma é diferente de pessoa para pessoa. Nós às vezes idealizamos uma peça de uma determina forma, e o aluno acaba por a representar de uma outra maneira, por lhe dar vida de uma outra maneira. Este ano teve um grande impacto, ainda por cima, com um parceiro externo que foi quem lançou o desafio. E, como as peças são para espaços de coworking, tem de ser tudo muito bem adaptado para os espaços deles, e podemos dizer que os resultados foram bastante bons, e já estamos em fase de selecção para produção.»
A parte social está muito vincada no projeto, tudo é feito em função dessa vertente para dar oportunidade aos utentes das instituições de se sentirem úteis. Ou até de encontrarem um emprego. Foi o que aconteceu com quatro desses utentes – estão a trabalhar na Mofreita. «Estão a trabalhar maioritariamente num projeto que temos mais ligado à floresta, no caso à floresta e aquilo que é a floresta de Trás-os-Montes, chamado Revive. Nesse projeto, o tratamento, a organização, tratamento das peças, lixagem, catalogação, tudo o que é preciso para que o projeto ande para à frente, é feito por estes utentes», explica Filipe Mofreita. O projeto Excedentes Criativos tem provocado o interesse de muita gente, e são várias as instituições de cariz social, bem como instituições de ensino, que manifestaram interesse em se associarem ao projeto, nomeadamente duas universidades portuguesas. Mas Filipe Mofreita diz que ainda é cedo para divulgar quais são. Tudo a seu tempo.
(Saiba mais sobre este projeto em:
https://mofreita.com/produtos/excedentes-criativos/



