O segredo maior dos filmes!
Mário Augusto
Há histórias que nos ensinam a viver, experiências que não se explicam, simplesmente reconhecem-se. Sentamo-nos num auditório, ou diante de um ecrã em casa, e de repente uma história que não é nossa começa a dizer-nos mais sobre a vida do que aquilo que muitas vezes conseguimos pôr em palavras. O cinema é um espaço de sonho, de aprendizagem e também de fuga. No escuro de uma sala, encontramos não apenas histórias, mas muitas vezes respostas. Para os nossos olhos é um processo complexo de perceção, mas para a nossa consciência é um jogo de aprendizagem e emoções.
A explicação básica da visão de imagens em movimento é simples: descodificamos o movimento de uma projeção pela chamada persistência retiniana. A partir de uma determinada velocidade, o nosso cérebro não processa imagem a imagem, entrelaça-as todas em sequência, e assim se cria a ilusão de movimento. Com a evolução da ciência, hoje sabe-se que é um processo bem mais complexo; os investigadores já conseguiram compreender que o nosso olhar não é contínuo: os olhos saltam em focos constantes, de pormenor em pormenor, chamam-lhe movimentos sacádicos que fixam a cada momento dezenas de pormenores, desligando intermitentemente de outros sem que nos apercebamos. São movimentos muito rápidos e involuntários dos nossos olhos que acontecem constantemente quando estamos a observar algo.
Em vez de deslizar suavemente na perceção da imagem – que é reflexão de luz –, o olhar salta motivos, numa procura de outros pormenores, de ponto em ponto e assim sucessivamente, múltiplas vezes a cada segundo. O cérebro nessa sequenciação, praticamente «desliga» a visão por milionésimos de segundo a cada instante e interliga as imagens durante todo o processamento, dá-lhes sequência. Os cientistas designam esse momento como supressão sacádica e é por isso que não vemos o mundo aos saltos e em flashs, mas como um fluxo contínuo de imagem. Entre esses saltos existem momentos muito breves, chamados «fixações», onde o cérebro realmente «capta» e processa a informação mais importante da imagem que lhe chega e interessa naquela situação.
Com a evolução e complexidade desse conhecimento o cinema foi aprendendo a explorar isto, intuindo de forma brilhante. Basta pensar que a montagem guia o nosso olhar a cada cena, o enquadramento ajuda a decidir o onde vamos fixar, o movimento dentro do plano orienta essas sequências de perceção para melhor apanharmos a mensagem.
Talvez como nenhuma outra arte, o cinema aprendeu a guiar esses saltos impercetíveis da visão e a transformar esse processo em emoção, servindo uma narrativa. Assim se criam gostos pelas cenas e histórias, afeições pelas personagens e vidas refletidas no ecrã.
O que tudo isto tem de mágico é que, para lá da ciência e dessa complexidade que os processos neurológicos desencadeiam, ao longo de mais de um século ensinou-nos a ver a vida com outros olhos, a compreender as emoções, a enfrentar os medos e a questionar o mundo.
Há filmes que nos divertem, outros que nos inquietam, e há aqueles que ficam connosco para sempre porque, lá no fundo, ajudam-nos a perceber quem somos. Os filmes têm essa capacidade rara de entrarem no nosso universo pessoal sem pedirem e ficam como que a dar ideias, obrigando a reflexões constantes. Por vezes, são apenas fragmentos que guardamos numa frase, num olhar, numa cena que recordamos dias seguidos, até anos, como se tivesse sido vivida por nós. Não é apenas entretenimento, é também um jogo de memória emocional que se foi ajustando e moldando ao longo de mais de um século.
Uma ilusão que nos conta histórias
Desde os primeiros filmes dos irmãos Lumière que a novidade se tornou mais do que uma invenção técnica. Muito embora nesse início de deslumbramento eles considerassem a inovação surpreendente como uma espantosa curiosidade científica, mas nunca uma arte para contar histórias. No entanto, logo nessa primeira sessão (em dezembro de 1895), perante uma plateia de 30 espectadores, alguns viram logo ali uma forma de narrativa. Não passou muito tempo para se transformar numa linguagem universal capaz de atravessar gerações, culturas e estados de espírito. O cinema ensinou-nos a amar, a perder, a esperar... e, sobretudo, a compreender a humanidade. É também por isso que continuamos a regressar às boas histórias clássicas, revendo filmes, recordando cenas e diálogos, porque é aí que encontramos ecos daquilo que somos ou daquilo que ainda não sabemos ser.
Como defende o escritor e académico americano, Jonathan Gottshall, o ser humano é, antes de tudo, um «animal contador de histórias». E o cinema, nessa tradição milenar, tornou-se uma das suas formas mais completas: um lugar onde ensaiamos emoções, onde testamos decisões e onde, muitas vezes, encontramos sentido para as dúvidas. É a partir desta ideia simples, mas profundamente reveladora, que também se deve entender o cinema como uma arte que nos ensina a viver. Por vezes, basta um diálogo de personagens para que se faça luz na nossa mente.
Há diálogos e momentos dos filmes que nos ficam para a vida, ajudam a refletir, a ultrapassar fragilidades, a encarar um problema com outra perspetiva, simplesmente porque uma personagem ou uma história ganharam alguma afinidade connosco, parecem estar por dentro do nosso problema ou inquietude.
Nos filmes, seja em diálogos, nos argumentos que contam ou nos mundos que projetam, temos sempre forma de aprender com uma personagem, uma frase dita que nos pode ajudar a viver e a ter sentido crítico, até mesmo a percecionar os temas de um modo mais clarividente. Hoje, mais do que nunca, precisamos desse sentido crítico, desse saber que a ficção nos passa porque não é mais do que um espelho da realidade.
As histórias ajudam-nos a simular experiências de vida sem correr riscos reais; funcionam como um treino para as emoções, decisões e relações sociais.
É, na verdade, um processo profundamente ligado ao modo como pensamos, como aprendemos e organizamos o mundo. Basta pensar que, quando o corpo descansa e vai dormir, a nossa mente fica uma parte da noite a contar histórias a si própria – faz filmes inteiros através dos sonhos. A consciência é alterada nesses sonhos, mas não extinta.
Contar histórias está na base de tudo: da literatura ao cinema, da música, mas também da política, do desporto ou da justiça. Nenhuma outra forma de contar é tão agregadora como o cinema. Ele não muda o mundo, mas, ao longo de mais de um século, foi muitas vezes usado para mudar a forma como o vemos. A história provou que pode moldar sociedades, até mesmo manipulá-las. E quantas vezes os filmes já foram usados com essa intenção!
Ao longo de todo o século XX, numa evolução constante, foi refúgio, espelho e, muitas vezes, uma espécie de manual emocional. Bastou por vezes um diálogo, uma frase lançada por uma personagem, para nos desinquietar o pensamento de forma diferente sobre um determinado tema – ou, pelo menos, nos questionarmos.
Em momentos de crise, de guerra ou de solidão, as salas de cinema foram sempre espaços de fuga e refúgio de emoções. Encheram-se de pessoas à procura de vidas de ficção que lhes devolvessem sentido e funcionassem como um espelho de sonho. A projeção de cinema sempre foi uma marca de escapismo emocional. Com toda a evolução tecnológica, esta arte maior continua a guardar esse desafio para os nossos olhos.
Frases e histórias que nos desinquietam
Era Jean Luc Godard quem dizia que um filme não é mais do que uma história com princípio meio e fim... não necessariamente contada por esta ordem.
Dos filmes, do que nos fica, primeiro, são as imagens que guardamos – uma cena, um momento da ação – mas, acima de tudo, são muitas vezes as falas, as frases que nos desinquietam o pensamento. Mesmo quando as apanhamos soltas, vêm connosco da projeção e damos por nós a criar analogias com outros contextos mais reais. Escrever bons diálogos é uma arte, por vezes têm a capacidade de nos devolver a perspetiva. Vermos a nossa vida refletida, ampliada ou distorcida no ecrã, permite-nos compreendê-la melhor nos momentos difíceis. É o que basta para sermos um pouco mais felizes, ou mais clarividentes nas nossas opções. Recordo um dos muitos diálogos do clássico filme de Frank Capra, Do Céu Caiu Uma Estrela, em que se diz: «Ninguém é um fracasso se tiver amigos.»
Projetando outro exemplo, o clássico Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, é, à primeira vista, um filme sobre o amor ao cinema, mas sobretudo o que nos fica é a ideia de memória, crescimento e perda. A relação entre o jovem Totó e o projecionista Alfredo é uma metáfora daquilo que o cinema faz connosco sempre que vamos à sua procura, fugindo à realidade por momentos: ensina-nos a ver o mundo numa linha de luz, mas também nos obriga a pensar no que a vida nos faz ir deixando para trás. Naquele final – que muitos recordam para sempre, a montagem dos beijos censurados – percebemos que o cinema é, acima de tudo, uma celebração das emoções.
Mas há outros filmes que nos ensinam a viver através da dor. Basta rever com outros olhos Os Condenados de Shawshank, de Frank Darabont. É uma produção que guarda uma curiosidade interessante: na origem, o argumento é um conto de meia dúzia de páginas, escrito por um mestre do terror, Stephen King, mas que consegue a magia de encantar num ambiente de prisão, onde tudo parece perdido, fazendo nascer nesse cenário, e num diálogo poderoso, uma das mensagens mais fortes, a cena em que uma das personagens diz: «A esperança é algo de bom, talvez o melhor de tudo, e o que é bom jamais morre.»
A esperança, mesmo nas circunstâncias mais adversas, é muitas vezes apresentada no cinema como um ato de resistência; noutras, simplesmente como um alerta, uma semente de consciência que fica para crescer quando já não há projetor ligado. Basta lembrar um outro poderoso diálogo, na produção de 1962, com Gregory Peck, adaptada do romance Mataram a Cotovia, de Harper Lee. Por cá chamou-se Na Sombra e no Silêncio e tem uma das falas mais coerentes e poderosas do cinema, mantendo uma atualidade inquietante. É a cena em que um advogado, a defender um inocente numa América racista e conservadora, diz à filha: «Nunca percebemos bem uma pessoa enquanto não virmos as coisas do seu ponto de vista... e pormo-nos na sua pele, vermos como é tudo a partir das suas circunstâncias...». Para lá da projeção, diz-nos que por vezes devemos, em vez de criticar, simplesmente calçar os sapatos do outro para entender a sua visão, o que talvez nos dê outra perspetiva mais abrangente e justa das coisas.
Curiosamente, muitos dos filmes que nos ensinam, pelas frases e diálogos, não são necessariamente «felizes»; não são comédias leves nem histórias sem conflito, bem pelo contrário – falam de perda, de dúvida e de fracasso. E talvez seja aí que reside o seu poder maior de nos tocar, lançar pontes, agarrar-se ao pensamento para lá da projeção, e saem connosco da sala, como implante de ideia. O bom cinema não nos promete felicidade fácil, dá-nos as ferramentas para lidar com a complexidade da vida.
Veja-se Forrest Gump, de Robert Zemeckis. Um homem aparentemente simplório, com um QI limitado, que, quase acidentalmente e sempre vencedor, atravessa décadas da história americana, desligado e com uma inocência desarmante. É ele quem diz: «A vida é como uma caixa de chocolates... nunca sabemos o que nos vai sair.» Uma frase por demais repetida, mas que continua a fazer sentido porque nos lembra algo de essencial à própria vida: a imprevisibilidade não é uma ameaça – é só uma possibilidade a contornar.
Seguindo na projeção deste jogo emocional em que os filmes nos desafiam, há também o cinema que nos ensina a aceitar no meio de vicissitudes. Exemplificando, evocando frases e diálogos, poderia escolher muitas produções que nos ficam guardadas no subconsciente. Recordo Little Miss Sunshine – Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos. Mostra-nos uma família em viagem apressada, numa carrinha pão-de-forma amarela, uma família disfuncional mas unida pelo sonho e desejo da filha mais pequena em participar num concurso de beleza infantil. Ela é a mais desengonçada, mas a mais genuína que lá chega à cerimónia. Temos uma família na qual ninguém corresponde ao ideal de sucesso, uns fracassados que sofrem, cada um à sua maneira, passam a mensagem de que os dramas são para ultrapassar em união... doem menos assim. No entanto, neste filme aprendemos que é precisamente na imperfeição que encontramos a essência da humanidade, aprender a lidar não é consequência, tem que ser atitude. Mesmo à beira desse ataque de nervos, as personagens, nos seus pequenos conflitos, dizem-nos com humor e ternura que falhar também faz parte.
Nos filmes com diálogos e cenas que nos lançam a reflexão, não podemos esquecer o francês O Fabuloso Destino de Amélie, de Jean-Pierre Jeunet, que nos mostra que a felicidade nasce dos pequenos gestos – no dar, no valorizar pequenos momentos, contrariando com atitude a solidão e a desilusão. É uma narrativa de fantasia interessante que prova que, às vezes, basta o pouco que damos com sentido para se fazer alguém muito feliz.
Em quase todos os filmes temos nos diálogos motores emocionais que ecoam para lá do próprio argumento. E estou a lembrar-me de À Procura da Felicidade, com Will Smith. É um filme inspirado numa história real, banal na sua narrativa de superação, mas que tem uma troca de palavras que ficou como uma das mais citadas do cinema: «Nunca deixes que ninguém te diga que não és capaz de fazer alguma coisa.»
É mais do que um diálogo motivacional, funciona porque é sobre resistência, sobre continuar mesmo quando tudo falha, e por isso inspira.
Há também o cinema que nos confronta com a verdade no filme Into the Wild – O Lado Selvagem, de Sean Penn. Durante grande parte da ação a felicidade parece estar em fuga e embrenhada na solidão. No final, nessa solidão gélida e já sem retorno, surge como uma revelação, anotada no diário da personagem (que acaba mal), a frase: «A felicidade só é verdadeira quando partilhada.» De repente, uma história triste, ainda por cima verdadeira, numa nota do diário da personagem, parece que ganha outro peso porque nos dá que pensar e ensina.
Outro exemplo poderoso está em A Vida de Pi, de Ang Lee, quando lá se diz: «Suponho que, no fim de contas, toda a vida se torna um ato de desapego.» É uma linha de diálogo que resume uma das grandes lições de um filme – saber aceitar o tempo, a mudança, a perda.
O cinema ajuda-nos a viver porque nos ajuda a sentir. Dá-nos linguagem para as emoções que muitas vezes não sabemos nomear. Permite-nos experimentar vidas que não são as nossas, sem sairmos do nosso lugar.
Durante a grande depressão nos Estados Unidos, na década de 30 do século passado, num meio da crise geral e miséria, o número de espectadores de cinema aumentou significativamente. As pessoas tinham pouco dinheiro, não tinham esperança, mas continuavam a ir ao cinema porque tinha uma razão – durante duas horas, podiam imaginar uma vida diferente da realidade que viviam. E esse caminho de sonho tinha ali um valor real, passava mensagens de esperança e vontade.
Hoje, o contexto é outro, a oferta é massificada e de multiplataformas, mas a essência mantém-se. Vemos um filme, lemos um livro, porque continuamos a procurar histórias que nos façam rir, chorar e, acima de tudo, pensar – histórias que nos lembrem que não estamos sozinhos.
No fundo, o cinema não nos ensina a felicidade no sentido mais simples, não nos dá respostas fechadas, mas oferece-nos algo talvez mais importante: consciência, empatia e perspetiva. Um filme ajuda-nos a viver porque nos ensina a olhar por muito complexo que seja o processo neurológico da captação de imagens. Sentir e refletir... é só isso que precisamos para sermos um pouco mais felizes. Porque basta um filme, uma cena, uma frase... e parece que alguém está a falar de nós. No escuro de uma sala, encontramos não apenas histórias... mas, muitas vezes, respostas para as coisas que não ousamos perguntar.
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