Viseu

..e nos documentos que ficaram em arcas de avós e gavetas de arquivo ou se guardam em museus ou nesse privilegiado campo de memória que é a cidade organizada ao longo de muitos séculos. Panos de muralha antiga com as suas portas, a catedral, igrejas e paços barrocos, moradias burguesas; mais recentes são as letras grandes de um livro de todas as horas. O perfume das tílias do Rossio e das avenidas carrega de poesia estas memórias. Quem vier de longe vai sentir-se em casa.
A Rua Direita
Entre a Porta dos Cavaleiros, a nascente, e a desaparecida Porta de S. José, sobre o poente, corria esta longa rua que atravessava a meio a cidade, acompanhando as voltas e o declive do terreno, ficando torta. Mas era o caminho mais directo medido entre as duas portas. Por ali passaram sempre feirantes, soldados, romeiros, gente do campo, fidalgos e servos. Era rua de tendeiros, que traziam para a boca da loja as mercadorias.
Era rua com casas de ofícios e de prestação de serviços.
Hoje, a Rua Direita mantém esta memória. É espelho curioso e verdadeiro de um tempo reservado como património. Mas está viva ainda como antes. Há comerciantes vendendo ao balcão a mercadoria exposta na rua. Mantêm-se ofícios e serviços. E o corropio da gente que passa em alvoroço.
O Rossio da Cidade
Na Idade Média, o Rossio era um campo amplo e deserto rodeado de quintais. Quando a cidade cresceu para fora das muralhas, a partir do final do século XV, permaneceu como espaço reservado à utilização comunitária. Em seu redor levantou-se um convento franciscano, de que resta hoje a magnífica Igreja dos Terceiros, de traça já rocaille. Mais tarde, ergueram-se os Paços do Concelho. Depois, sedes de instituições ou residências de famílias. E o Rossio ficou como praça de prestígio, ponto privilegiado de encontro.
A História fica sob os nossos olhos
Mas melhor era ver do alto. As ruas desprenderam-se da colina, descendo em estrela, ou apertaram-na em abraços cada vez mais alargados. Uma linha de muralha encerrou, no século XV, a história antiga da cidade. Quem descer às ruas entende que viveram aqui comerciantes e artesãos. Ainda é fácil espreitar homens de ofícios antigos em lojinhas fundas. E ver comerciantes, na Rua Direita, exporem fora da porta os artigos do seu mercado. Quase se podem imaginar o bulício de uma feira no adro da igreja e os passos lentos de uma procissão.
Casa do Miradouro
Miradouro era um lugar alto na topografia da cidade, ao lado da catedral, olhando sobre o Norte e as veigas da ribeira do Pavia. No século XVI, o arquitecto que já levantara o claustro da sé (Francesco de Cremoa) terá sido chamado por um abonado e exigente cónego da catedral a fazer o risco desta sumptuosa moradia. Trocou de donos no tempo. Lá nasceu Azeredo Perdigão. Hoje, é património municipal, precioso e fecundo documento de todas as memórias.
A Catedral
A igreja-mãe da diocese revela, a seu modo, a história da cidade. As torres pesadas, os muros velhos coroados de ameias, a pátina densa das pedras, evocam os tempos heróicos e místicos de uma Idade Média que a nossa imaginação mal pode reinventar. A abóbada dos nós, sugestiva e poética, e o claustro renascentista, de profunda intimidade, lembram o prestígio da época de Quinhentos, com bispos sábios e mecenas. Os altares barrocos carregados de ouro lembram os tempos de triunfo de uma igreja cantando hossanas, com os seus clérigos paramentados de damasco e seda para as cerimónias da sé ou as extensas procissões.
O tempo barroco
No século XVIII, a cidade vive uma festa permanente. As igrejas enchem-se. Há música de órgãos. Incenso, sermões. O ouro resplandece em altares de talha e brilha nas alfaias de culto. Cá fora, a pedra rendada e a luz cortando as sombras ao longo do dia animam uma arquitectura solene. Há música nos Palácios dos Condes de Prime, dos Treixedos e dos Albuquerques. Carruagens transportam fidalgos, que o povo fica a ver passar antes de voltar, pagos foros e dízimos, ao cultivo das hortas e das vinhas, antes de responder à chamada para a guerra.
“Adoração dos Reis Magos”
Os reis Gaspar, Baltasar e Belchior rendem homenagem a um Deus Menino feito rei. São-lhe fiéis desde o século XVI, desde o tempo de Vasco Fernandes, o Grão Vasco. Baltasar é índio e ninguém estranha. É um homem novo num tempo novo. Chegou há pouco do Brasil e é já da família. Por muitos anos se demorou na catedral. Hoje, habita o Museu de Grão Vasco. Veste roupagens europeias. Mas guarda as marcas do seu povo e mantém o porte de um rei. Surpreende sempre o visitante que passa e se detém, reparando na cativante serenidade deste rei-moço que misticamente oferece a vassalagem do seu povo em troca de uma promessa de paraíso.
Viriato
A cidade adoptou-o como seu herói numa leitura romântica que fez da sua história. Confunde-se a lenda e a história deste pastor lusitano, cujo berço certo ninguém sabe onde o teve. Batalhou nos campos do Sul de Espanha, conduzindo lutas vitoriosas sobre os Romanos, que ameaçavam os limites do seu território. Morre atraiçoado por alguns dos companheiros de armas que a vileza do inimigo comprou. Todavia, a glória do seu nome, que permanece, é suficiente vingança. Viseu guarda-lhe a memória e evoca-o no monumento que o escultor Mariano Benliure ergueu em 1940, fronteiro à Cava, que lhe guarda uma vez mais o nome, apesar de este formidável reduto defensivo ter sido levantado muitos anos depois da sua morte para defesa das legiões que pacificavam de vez o Norte da Lusitânia.
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