Vindos do frio
Depois de séculos de exclusão, os ciganos de Espanha encontram o seu lugar na sociedade «normal».
By Fiona GovanNieves Muñoz Amaya puxa as suas longas tranças castanhas e aconchega-as na touca de papel. Pega numa faca e começa a amanhar com perícia o peixe com que vai preparar o prato do dia. Ela trabalha muito e ganhou o respeito dos seus colegas empregados num restaurante italiano em Valência, no Leste de Espanha. Mas o que torna Nieves excecional é o facto de ser gitana – a palavra espanhola para cigana–, e ter um tal emprego seria virtualmente impossível há apenas uma geração.
A mãe de três filhos, divorciada, com 45 anos, lembra-se das histórias que costumava ouvir agarrada ao joelho da avó. «Eram os tempos sombrios de Franco», diz, referindo-se à ditadura do general Francisco Franco, cujo regime fascista durou desde o fim da Guerra Civil Espanhola até à sua morte, em 1975.
Naquele tempo, as comunidades ciganas eram nómadas, vivendo em acampamentos nos arrabaldes das cidades. Iam de lugar para lugar, negociando gado e procurando trabalho sazonal nos campos, recorrendo frequentemente à mendicidade e aos pequenos furtos para sobreviverem. Desprezados e vilipendiados pela sociedade, viviam com medo da Polícia Militar.
«Na altura, vivíamos em acampamentos em condições terríveis. E à mínima desculpa a Guarda Civil chegava em carrinhas e destruía as nossas casas», conta Nieves, baixando as pesadas pestanas dos seus olhos maquilhados. «Juntavam-nos todos. Havia espancamentos, por vezes até mortes. Então, éramos forçados a mudar-nos e a começar de novo noutro lado. Não éramos tratados como pessoas, mas como animais.»
Perseguições destas aos ciganos, que chegaram a Espanha vindos da Índia no século XV, tinham como finalidade expulsá-los do país. Outras medidas incluíam a assimilação forçada. Em certa altura, eram obrigados por lei a casar com não ciganos, uma política que foi um falhanço total, e noutro momento foram proibidos de se juntar em grupos maiores que quatro.
Mas depois da morte de Franco uma transformação notável teve lugar, e Espanha agora serve de modelo para outros países europeus com populações ciganas – ou Roma, como também são conhecidos – de alguma dimensão.
Começou com a transição de Espanha para a democracia, quando a nova Constituição assumiu a diversidade do país, e pela primeira vez os ciganos receberam o estatuto de cidadãos espanhóis. O que se seguiu foram três décadas de esforços concertados das autoridades para integrar os ciganos na sociedade espanhola, sem forçar a perda da sua identidade e cultura.
No caso de Nieves, o resultado foi conseguir um trabalho estável, poder mandar as crianças para a escola local e viver num bloco de apartamentos com famílias de origens diversas. «Sou antes de mais nada cigana: isso será sempre assim», diz com orgulho. «Mas também sou espanhola e o desafio tem sido fazer as outras pessoas aceitar-nos como tal.»
Não tem sido uma batalha fácil, admite, e, como outros ciganos, ainda sofre indignidades diárias, resultado de um preconceito antigo. «Por vezes, quando vou a uma loja, o segurança anda a seguir-me, suponho que para garantir que não roubo nada.»
E ao portão da escola, onde o filho mais novo é aluno, volta e meia há encontros complicados. «Lembro-me de uma vez uma mãe dizer-me que tínhamos que estar atentas aos piolhos porque tinha ouvido dizer que havia crianças ciganas na escola. Teve um choque quando eu lhe disse que eram as minhas crianças as ciganas. Suponho que estava à espera de que andássemos todas de saia florida comprida com grandes brincos pendurados e a cantar flamenco», diz a rir.
Dos 6,5 milhões de Roma que vivem na Europa, a Espanha tem a terceira maior comunidade, estimada em perto de 700 000, cerca de 1,5% da população espanhola. A integração tornou-se provavelmente mais fácil porque as tradições artísticas ciganas, ao longo dos séculos, foram adotadas como algo intrinsecamente espanhol: tanto o flamenco, a música e a dança como o traje tradicional espanhol têm raízes na comunidade cigana.
Os Roma de outras partes da Europa, que se estima serem uns 40 000 em Espanha, não estão tão bem e permanecem uma comunidade distinta às margens da sociedade, mas com os ciganos locais a Espanha pode reclamar um justo sucesso.
Na última década, a Espanha gastou quase 36 milhões de euros anuais em programas de integração, muitos deles vindos de fundos comunitários. E apesar das medidas de austeridade a nível nacional, mais de 130 milhões terão sido investidos entre 2007 e 2013 em programas sociais para ciganos em Espanha.
Em 1978, 74% dos ciganos viviam em bairros de lata ou acampamentos, mas agora apenas 4% vivem nessas condições. Cerca de metade dos ciganos adultos têm casa própria. Quase todos têm acesso a cuidados de saúde e, embora não haja números mais recentes, em 2005 cerca de 50% estavam formalmente empregados, apesar de serem uma das comunidades mais atingidas pela crise económica de Espanha.
Nieves, como muitos outros, encontrou emprego depois de se registar na Acceder, um programa gerido pela Fundación Secretariado Gitano, uma organização com fundos públicos que providencia formação e que arranjou já 40 000 empregos para ciganos nos últimos 10 anos. Tem sido um tal sucesso que a Roménia está a tentar aplicar a sua versão do mesmo.
Nieves mal foi à escola, admite, e aprendeu apenas a ler e a escrever, o máximo que se esperava de uma rapariga cigana da sua geração. Casou com um primo aos 17 anos, e só depois do divórcio, 23 anos mais tarde, decidiu que precisava de formação para encontrar um emprego e ser independente. As crianças ciganas não eram bem-vindas às escolas normais. Uma experiência inicial de colocar crianças ciganas em «escolas de transição» falhou, mas agora virtualmente todas as crianças ciganas começam a escola primária.
A educação tem sido a chave do sucesso da integração, e ninguém sabe isso melhor do que Ricardo Borrull, um cigano e professor de Matemática numa escola secundária nos arredores de Valência. Todas as horas de almoço vai a casa comer com a família. A esposa, a sogra, três filhas e um genro, todos apinhados num apartamento impecavelmente arrumado no primeiro andar de um edifício residencial em Paterna, um subúrbio de Valência.
Agora com 54 anos, é um pioneiro, por ser um dos primeiros ciganos do país a tornar-se professor, inspirado pela sua vocação em jovem durante os anos 70, depois de ver as crianças a viverem em bairros de lata.
«Fiquei chocado ao ver como a minha gente vivia nos bairros de lata. As crianças eram criadas na rua com pouca ou nenhuma educação, no meio do medo. Outros pais não queriam crianças ciganas nas escolas e os ciganos tinham medo de as mandar porque pensavam que isso levaria a uma perda da sua própria cultura.»
Ricardo envolveu-se na instalação de «escolas de transição» concebidas para preparar as crianças ciganas para a educação normal. «Foi uma experiência interessante, mas acabou por não funcionar. O que era preciso era as crianças ciganas serem colocadas numa escola “normal” desde o início em pé de igualdade», explica.
«Tem sido um processo lento, mas a pouco e pouco temos mudado os estereótipos negativos dos ciganos.» Funciona nas duas direcções: comunidade cigana aceita a pouco e pouco a cultura de ir à escola e de ver as possibilidades que isso abre, enquanto as famílias não ciganas agira aceitam normal haver ciganos na sua sociedade».
O problema de fundo, acredita, era que as pessoas confundiam a cultura cigana com a cultura da pobreza. «Se melhorarmos o nível de vida básico de um grupo que é o mais baixo dos baixos da sociedade espanhola, ele pode melhorar e ver as possibilidade que a educação traz.»
Ricardo é um exemplo não apenas para as poucas crianças ciganas nas suas salas de aula, mas também para as crianças não ciganas e para os seus pais. «Há uma boa dose de surpresa quando os pais sabem que sou cigano, porque não esperam que um cigano seja capaz de manter um emprego, quanto mais ser professor, dos seus filhos. Mas eu sou um bom professor, e isso torna-lhes mais difícil manterem os velhos estereótipos dos ciganos de que são ladrões, sujos e inúteis.»
As suas próprias filhas estão a encetar carreiras que eram impensáveis para a sua gente. Uma filha é radiologista, outra, corretora financeira e a mais nova estuda Química na universidade local. «Isso não quer dizer que sejam menos ciganas», insiste. «Ainda mantêm os calores que são importantes na nossa sociedade: os valores da família, da lealdade e respeito pela nossa cultura tradicional.»
O desafio agora é combater os elevados níveis de abandono escolar dos ciganos na educação secundária. Estima-se que 80% das crianças ciganas deixem de estudar entre os 12 e os 18 anos, sem completar o liceu.
Foi lançada no ano passado uma campanha que incita os jovens ciganos a pensarem em grande e lutarem para ser o que quiserem na vida. Os especialistas insistem que o segredo do sucesso de Espanha é que o foco foi feito na inclusão social e em aspetos práticos como a assistência médica, habitação e emprego. Por contraste, outras instituições europeias concentraram-se mais em direitos políticos e no tema do preconceito.
«Em vez de nos focarmos nos direitos cívicos, fomos por uma via diferente e parece ter funcionado», explica Isidro Rodriguez, diretor da Fundación Secretariado Gitano. « Em Espanha, o foco nos últimos 30 anos foi em aumentar o nível de vida de uma das faixas mais pobres da sociedade. Isso só por si traz mudanças.»
Para ciganos como Ricardo e Nieves, o futuro parece risonho.
«A nossa cultura está a mudar, isso é certo», diz Ricardo, metendo um CD do seu artista de flamengo favorito na aparelhagem do carro. «Os meus avós não acreditariam que o que conseguimos fosse possível. Poderiam nem me reconhecer como cigano por o meu estilo de vida ser tão diferente. Quanto ao meus netos? Bem, tudo é possível. Mas uma coisa é certa, acrescenta com orgulho «Onde quer que cheguemos na sociedade, nos nossos corações e no nosso sangue, seremos sempre gitanos.»
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