Viagem pela Manchúria
De comboio pelo nordeste mutante da China.
By Michael MeyerEnquanto os raios de sol vermelhos descrevem um arco sobre os campos castanhos, um condutor leva-me à minha cama no comboio 2624, com partida de Manzhouli e chegada a Harbin, na China. Viajo na classe do «sono pesado», nome dado aos beliches estreitos, três uns por cima dos outros até ao tecto.
Um corredor único com janelas panorâmicas estende-se a todo o comprimento do comboio. Os compartimentos, cada um com seis beliches, estão cheios de pessoas a partir sementes de girassol, a abrir garrafas de vinho de sorgo e a jogar às cartas. Pergunto-me se «sono pesado» quer dizer que «é difícil adormecer ali».
Quando entrei no meu compartimento, cinco rostos chineses observaram-me. Respondi às suas perguntas, rápidas como flechas: americano, 35 anos, atravessando a Manchúria.
«Não existe essa história da Manchúria», explica-me o Sr. Wang, cuja face redonda e cor-de-rosa é encimada por uns cabelos escuros e encaracolados. «Em chinês, dizemos dongbei, o Nordeste.»
Tem razão. O nome Manchúria, que deriva da raça manchu que habita aquela zona, foi oficialmente rejeitado devido à associação com o governo fantoche do Japão que governou aquela zona de 1931 até 1945. No entanto, a designação continua viva na imaginação dos viajantes e na geografia que se desenrola das janelas à medida que o comboio ganha velocidade.
Na próxima semana, tenciono explorar a Manchúria – a região a norte da Grande Muralha, que faz fronteira com a Mongólia, a Rússia e a Coreia do Norte –, fazendo 1200 km em duas das maiores linhas férreas do Mundo. A China Leste atravessa a região norte da Manchúria, enquanto a Linha da Manchúria do Sul cruza o Norte e o Sul do território. Planeio parar nas maiores cidades da região para ver com os meus próprios olhos a fascinante mistura que é a história do último século: a dominação russa e a colonização japonesa, seguida da industrialização sob o domínio de Mao, e, finalmente, a transição para a economia de mercado, que ditou o fim de muitas fábricas nacionalizadas.
Um corredor único com janelas panorâmicas estende-se a todo o comprimento do comboio. Os compartimentos, cada um com seis beliches, estão cheios de pessoas a partir sementes de girassol, a abrir garrafas de vinho de sorgo e a jogar às cartas. Pergunto-me se «sono pesado» quer dizer que «é difícil adormecer ali».
Quando entrei no meu compartimento, cinco rostos chineses observaram-me. Respondi às suas perguntas, rápidas como flechas: americano, 35 anos, atravessando a Manchúria.
«Não existe essa história da Manchúria», explica-me o Sr. Wang, cuja face redonda e cor-de-rosa é encimada por uns cabelos escuros e encaracolados. «Em chinês, dizemos dongbei, o Nordeste.»
Tem razão. O nome Manchúria, que deriva da raça manchu que habita aquela zona, foi oficialmente rejeitado devido à associação com o governo fantoche do Japão que governou aquela zona de 1931 até 1945. No entanto, a designação continua viva na imaginação dos viajantes e na geografia que se desenrola das janelas à medida que o comboio ganha velocidade.
Na próxima semana, tenciono explorar a Manchúria – a região a norte da Grande Muralha, que faz fronteira com a Mongólia, a Rússia e a Coreia do Norte –, fazendo 1200 km em duas das maiores linhas férreas do Mundo. A China Leste atravessa a região norte da Manchúria, enquanto a Linha da Manchúria do Sul cruza o Norte e o Sul do território. Planeio parar nas maiores cidades da região para ver com os meus próprios olhos a fascinante mistura que é a história do último século: a dominação russa e a colonização japonesa, seguida da industrialização sob o domínio de Mao, e, finalmente, a transição para a economia de mercado, que ditou o fim de muitas fábricas nacionalizadas.
À medida que o comboio avança na direcção do pôr do Sol, o Sr. Wang conta-me que o filho recebeu uma bolsa para estudar numa universidade do Dakota do Norte. «Sei que a educação lá lhe vai trazer vantagens», diz, «mas não quero que vá. Tenho medo das grandes cidades, do crime e da poluição. Com o que é que o Dakota do Norte se parece?» Aponto-lhe a janela, com os campos castanhos a passar. O Sr. Wang sorri.
Após um sono profundo, o nascer do Sol, às 5 da manhã, acorda-me numa carruagem em que as relações se assemelham ao dia seguinte após uma noite apaixonada: a intimidade é substituída por uma proximidade envergonhada. O Sr. Wang sorri sem palavras e enche o samovar com água fervida para o chá.
Lá fora, a paisagem também mudou: as estradas de cascalho e as pastagens tornaram-se ruas pavimentadas e edifícios de cimento. Lá em baixo, consigo ver linhas de torres de petróleo com as suas bombas a descerem à terra ritmicamente. A Manchúria é o maior produtor de crude da China e terra de muitos outros recursos naturais que a tornam apetecível a qualquer colonizador.
À medida que nos aproximamos de Harbin, o Sr. Wang diz-me que o filho vai tomar a sua decisão sobre ir estudar para a América. «A minha geração habituou-se a confiar no Governo», explica. A do seu filho terá que aprender a tomar conta de si.
Dou entrada no meu hotel e em seguida vou dar uma volta pela rua pedonal restaurada que atravessa o centro de Harbin.
Faz lembrar o tempo em que a colónia ferroviária russa era considerada «a Paris do Leste». Fachadas barrocas pintadas de verde-pistácio e amarelo abrigam marcas ocidentais como Fendi ou Armani. Muitas das igrejas ortodoxas e das sinagogas, com as suas cúpulas características, construídas pelos russos brancos presos após a Revolução Bolchevique, estão a ser transformadas em museus. Paro para tomar uma cerveja num passeio junto ao rio que ainda se chama Parque Estaline.
O passado mais recente de Harbin também salta à vista. O centro da cidade é marcado pela monotonia de prédios de apartamentos ao melhor estilo «caixa de fósforos», construídos nos anos 50, quando a indústria pesada florescia.
Recentemente, as fábricas de fertilizantes e de derivados do petróleo têm vindo a fechar, mas a fuligem mantém-se.
No entanto, nem a autarquia, de orientação capitalista, consegue resistir à tentação do planeamento central. Nos planos para a Nova Harbin, está contemplado um novo centro a norte do rio Songhua, que inclui «arranha-céus residenciais, torres de escritórios, vivendas de luxo, hotéis de cinco estrelas, lojas e complexos de entretenimento, zonas de comércio e parques industriais». Tudo numa área com cerca de 172 km2.
Três anos depois, apenas existe um arranha-céus: um edifício com 23 andares que abriga as instalações da autarquia. À volta, pequenos prédios multiplicam-se como cogumelos. O projecto está parado – as pessoas simplesmente não querem afastar-se do original centro da cidade.
Pelo menos, um homem está encantado por morar ali. Meng Zhaoguo tornou-se uma sensação nacional quando afirmou ter encontrado extraterrestres nas florestas da Manchúria em 1994. O frenesi mediático há muito que desapareceu, e Meng arranjou um emprego na manutenção da Escola Comercial da Universidade de Harbin.
Durante um almoço de repolho cozido e carne de porco no seu apartamento cedido pela universidade, pergunto a Meng o que nos diz a sua história. Ele sorri. «Humanos, se nunca tiverem visto uma coisa com os próprios olhos, duvidam de que exista ou que a vida possa ser assim.»
Mais tarde, quando atravessava o portão do campus da universidade, deparo-me com cerca de 40 estudantes embrulhados em cachecóis e casacos. Gritavam frases em inglês: «Estou farto dele!», «Hoje não estou em mim!», «Só por cima do meu cadáver!»
Este non sense veio de uma série de livros de aprendizagem da língua chamados Crazy English. Este método aconselhava os alunos a gritarem a plenos pulmões para ajudar a combater a timidez e a insegurança. Tornou-se francamente popular, em parte porque a fluência em inglês conduz a empregos mais bem pagos.
Estes alunos, que descobri estarem a estudar para vir a ser professores de Inglês, estão entre a primeira geração de licenciados chineses a quem o Estado não garante emprego. Em vez disso, pagam propinas, escolhem os seus cursos e procuram trabalho na cidade que entenderem.
Um estudante chamado Bai Jinghui desafia-me a liderar o grupo. «Não me venhas com indirectas!», leio de uma série de frases. Eles gritam em uníssono. Dou por mim a levantar a voz. «Estás a enganar-me?», grito. «Olha que eu só gosto de doces!» A multidão aplaude.
Quando me preparo para apanhar o comboio seguinte, sinto-me chocado pelo contraste entre a Velha China, planeada a nível central, e o som da nova geração, virada para o exterior. «Não se pode agradar a gregos e troianos!», gritam os estudantes. «É melhor do que nada! O tempo o dirá!»
Após um sono profundo, o nascer do Sol, às 5 da manhã, acorda-me numa carruagem em que as relações se assemelham ao dia seguinte após uma noite apaixonada: a intimidade é substituída por uma proximidade envergonhada. O Sr. Wang sorri sem palavras e enche o samovar com água fervida para o chá.
Lá fora, a paisagem também mudou: as estradas de cascalho e as pastagens tornaram-se ruas pavimentadas e edifícios de cimento. Lá em baixo, consigo ver linhas de torres de petróleo com as suas bombas a descerem à terra ritmicamente. A Manchúria é o maior produtor de crude da China e terra de muitos outros recursos naturais que a tornam apetecível a qualquer colonizador.
À medida que nos aproximamos de Harbin, o Sr. Wang diz-me que o filho vai tomar a sua decisão sobre ir estudar para a América. «A minha geração habituou-se a confiar no Governo», explica. A do seu filho terá que aprender a tomar conta de si.
Dou entrada no meu hotel e em seguida vou dar uma volta pela rua pedonal restaurada que atravessa o centro de Harbin.
Faz lembrar o tempo em que a colónia ferroviária russa era considerada «a Paris do Leste». Fachadas barrocas pintadas de verde-pistácio e amarelo abrigam marcas ocidentais como Fendi ou Armani. Muitas das igrejas ortodoxas e das sinagogas, com as suas cúpulas características, construídas pelos russos brancos presos após a Revolução Bolchevique, estão a ser transformadas em museus. Paro para tomar uma cerveja num passeio junto ao rio que ainda se chama Parque Estaline.
O passado mais recente de Harbin também salta à vista. O centro da cidade é marcado pela monotonia de prédios de apartamentos ao melhor estilo «caixa de fósforos», construídos nos anos 50, quando a indústria pesada florescia.
Recentemente, as fábricas de fertilizantes e de derivados do petróleo têm vindo a fechar, mas a fuligem mantém-se.
No entanto, nem a autarquia, de orientação capitalista, consegue resistir à tentação do planeamento central. Nos planos para a Nova Harbin, está contemplado um novo centro a norte do rio Songhua, que inclui «arranha-céus residenciais, torres de escritórios, vivendas de luxo, hotéis de cinco estrelas, lojas e complexos de entretenimento, zonas de comércio e parques industriais». Tudo numa área com cerca de 172 km2.
Três anos depois, apenas existe um arranha-céus: um edifício com 23 andares que abriga as instalações da autarquia. À volta, pequenos prédios multiplicam-se como cogumelos. O projecto está parado – as pessoas simplesmente não querem afastar-se do original centro da cidade.
Pelo menos, um homem está encantado por morar ali. Meng Zhaoguo tornou-se uma sensação nacional quando afirmou ter encontrado extraterrestres nas florestas da Manchúria em 1994. O frenesi mediático há muito que desapareceu, e Meng arranjou um emprego na manutenção da Escola Comercial da Universidade de Harbin.
Durante um almoço de repolho cozido e carne de porco no seu apartamento cedido pela universidade, pergunto a Meng o que nos diz a sua história. Ele sorri. «Humanos, se nunca tiverem visto uma coisa com os próprios olhos, duvidam de que exista ou que a vida possa ser assim.»
Mais tarde, quando atravessava o portão do campus da universidade, deparo-me com cerca de 40 estudantes embrulhados em cachecóis e casacos. Gritavam frases em inglês: «Estou farto dele!», «Hoje não estou em mim!», «Só por cima do meu cadáver!»
Este non sense veio de uma série de livros de aprendizagem da língua chamados Crazy English. Este método aconselhava os alunos a gritarem a plenos pulmões para ajudar a combater a timidez e a insegurança. Tornou-se francamente popular, em parte porque a fluência em inglês conduz a empregos mais bem pagos.
Estes alunos, que descobri estarem a estudar para vir a ser professores de Inglês, estão entre a primeira geração de licenciados chineses a quem o Estado não garante emprego. Em vez disso, pagam propinas, escolhem os seus cursos e procuram trabalho na cidade que entenderem.
Um estudante chamado Bai Jinghui desafia-me a liderar o grupo. «Não me venhas com indirectas!», leio de uma série de frases. Eles gritam em uníssono. Dou por mim a levantar a voz. «Estás a enganar-me?», grito. «Olha que eu só gosto de doces!» A multidão aplaude.
Quando me preparo para apanhar o comboio seguinte, sinto-me chocado pelo contraste entre a Velha China, planeada a nível central, e o som da nova geração, virada para o exterior. «Não se pode agradar a gregos e troianos!», gritam os estudantes. «É melhor do que nada! O tempo o dirá!»
Na Estação de Harbin, salto para o comboio 1548, que fará os 150 km até Changchun, e fico-me por um beliche na classe das camas macias. São quatro camas juntas numa cabina com porta fechada.
À medida que o comboio se dirige para sul, cenas campestres deslizam pela janela: telhados de palha, pombos em pinheiros amarelados, pilhas de cascas de arroz secas. Num compartimento com três homens que mais não faziam senão ressonar, pus tampões nos ouvidos e fui dormitando até Changchun.
Ao início da noite, saltei do comboio e apressei-me numa imensa praça. Vim até aqui porque Changchun era a capital da província japonesa de Manchukuo. Estou curioso por saber de que forma se tem tratado esta história.
Verifico que sem esconder nada. À medida que vou caminhando pelo centro urbano, vejo que partes dele me parecem ecléticas, mais como Tóquio nos anos 30 do que uma metrópole construída pela régua e esquadro comunistas. A zona do teatro, de arte moderna, alberga cinemas e lojas de roupa, enquanto o antigo quartel-general japonês, construído para se assemelhar a um castelo feudal, é o escritório provincial do Partido Comunista.
Em 1934, o Japão instalou Puyi como regente de Manchukuo. A história de Puyi é o reflexo da própria história da sua Manchúria natal: «entalada» entre poderes concorrentes, com resultados trágicos. Tornou-se imperador da China com 3 anos. Aos 6 abdicou. Foi banido da Cidade Proibida de Pequim aos 18 e aos 28 foi instalado em Changchun.
Actualmente, a principal atracção de Changchun é o Palácio do Imperador Fantoche. Mostra fotografias e manequins de cera de Puyi como um homenzinho pálido, com umas túnicas desajeitadas, mas ladeadas de medalhas. Outros manequins mostram-no convivendo com um general japonês. No final do corredor, Wanrong, «a imperatriz fantoche», é mostrada a fumar ópio numa chaise longue.
À medida que o comboio se dirige para sul, cenas campestres deslizam pela janela: telhados de palha, pombos em pinheiros amarelados, pilhas de cascas de arroz secas. Num compartimento com três homens que mais não faziam senão ressonar, pus tampões nos ouvidos e fui dormitando até Changchun.
Ao início da noite, saltei do comboio e apressei-me numa imensa praça. Vim até aqui porque Changchun era a capital da província japonesa de Manchukuo. Estou curioso por saber de que forma se tem tratado esta história.
Verifico que sem esconder nada. À medida que vou caminhando pelo centro urbano, vejo que partes dele me parecem ecléticas, mais como Tóquio nos anos 30 do que uma metrópole construída pela régua e esquadro comunistas. A zona do teatro, de arte moderna, alberga cinemas e lojas de roupa, enquanto o antigo quartel-general japonês, construído para se assemelhar a um castelo feudal, é o escritório provincial do Partido Comunista.
Em 1934, o Japão instalou Puyi como regente de Manchukuo. A história de Puyi é o reflexo da própria história da sua Manchúria natal: «entalada» entre poderes concorrentes, com resultados trágicos. Tornou-se imperador da China com 3 anos. Aos 6 abdicou. Foi banido da Cidade Proibida de Pequim aos 18 e aos 28 foi instalado em Changchun.
Actualmente, a principal atracção de Changchun é o Palácio do Imperador Fantoche. Mostra fotografias e manequins de cera de Puyi como um homenzinho pálido, com umas túnicas desajeitadas, mas ladeadas de medalhas. Outros manequins mostram-no convivendo com um general japonês. No final do corredor, Wanrong, «a imperatriz fantoche», é mostrada a fumar ópio numa chaise longue.
No dia seguinte, embarco para Shenyang no novo comboio de alta velocidade, que faz os 180 km para sul em apenas duas horas. Lá dentro, tudo tem um ar vivo e «de negócios». Os assentos estão dispostos de forma que os passageiros olhem para a frente, e não uns para os outros. As cortinas estão fechadas: quando puxo a minha para observar a extensão imensa de terra em pousio e os campos cobertos de gelo, uma assistente diz-me que a feche. É a ela que cabe a tarefa de patrulhar aquele corredor para ter a certeza de que os passageiros não fumam, não bebem, não fazem lixo e não falam demasiado alto ao telemóvel.
Os comboios antigos estão a ser, faseadamente, desactivados em favor destes modelos de alta velocidade, e sinto falta da amistosidade caótica das anteriores etapas desta minha viagem.
Sinto-me tenso e cansado quando desembarco em Shenyang e dirijo-me ao meu hotel – um edifício recuperado datado de 1927, chamado Yamato Hotel. Ao sair de um banho retemperador, sou saudado pela imagem do presidente Mao a olhar para mim através da janela: o meu quarto dá para uma estátua enorme cor de tijolo do Grande Timoneiro, cercado por operários com lanternas e empunhando chaves e espingardas.
Saio para ter uma imagem mais próxima e reparo que, nos tempos que correm, a estátua é honrada sobretudo por pombos. Na base, pontilham papéis autocolantes com propostas de emprego.
Shenyang é o centro económico da Manchúria, e teve os seus tempos áureos na altura da indústria pesada nacionalizada e da economia planificada. Com mais de sete milhões de habitantes, é a maior cidade da região.
Estou particularmente interessado em visitar a Aldeia dos Trabalhadores, que foi construída na década de 50 para abrigar cerca de 10 milhões de pessoas e 1000 fábricas estatais. Levo cerca de meia hora até descobrir um taxista que me leve lá. «Assim que lá o deixar, não estará lá ninguém para fazer a viagem de volta», diz-me o motorista.
Dois anos antes, durante a visita à Aldeia dos Trabalhadores, vi filas intermináveis de edifícios degradados cor de tijolo cheios de trabalhadores desempregados. Agora, tudo acabou.
São 10 da noite quando o meu táxi me deixa num campo de escombros, sob uma chuva torrencial e fria. Enquanto contemplo o destino da Aldeia dos Trabalhadores, um homem aproxima-se e dá-me um panfleto colorido que anuncia que ali vão ser construídos novos condomínios chamados River City. «Nunca é tarde para procurar um negócio», diz-me, apologético, antes de desaparecer na escuridão.
À procura de abrigo, caminho em direcção ao Palácio da Cultura dos Trabalhadores. Dentro do auditório, impecavelmente arranjado, deparo-me com o inesperado: casais de meia-idade dançam a valsa graciosamente. «O Governo limpou este local», explica-me um segurança. «É para pessoas com dinheiro.»
Na parede, sobre propaganda desactualizada a proclamar «A Construção do Comunismo», estão anúncios a seguros de vida e imobiliário. Enquanto a música desliza, o segurança pede-me que saia. O Palácio da Cultura dos Trabalhadores é actualmente um clube de dança privado.
Mas há mais sinais que mostram a transformação de Shenyang. No dia seguinte, fui a um museu instalado em terrenos opulentos que outrora pertenceram a Zhang Xueliang, um soldado nacionalista que combateu quer os Japoneses, quer os comunistas antes de voar para Taiwan, no final da Guerra Civil Chinesa.
Isso não impediu as autoridades locais de considerarem Zhang um patriota. Dentro do museu, vi turistas chineses posarem para fotografias em frente às bandeiras nacionalistas penduradas atrás da sua secretária.
A entrada no museu também me permite ver o antigo Bank Former, colonial, actual Museu do Dinheiro de Shenyang. Na exposição final, os turistas perfilam-se diante de um manequim de cera de Bill Gates. Não posso deixar de reparar que estes museus prestam homenagem a um general nacionalista e a um empresário capitalista sem mostrar o que esteve «no meio»: o comunismo.
Os comboios antigos estão a ser, faseadamente, desactivados em favor destes modelos de alta velocidade, e sinto falta da amistosidade caótica das anteriores etapas desta minha viagem.
Sinto-me tenso e cansado quando desembarco em Shenyang e dirijo-me ao meu hotel – um edifício recuperado datado de 1927, chamado Yamato Hotel. Ao sair de um banho retemperador, sou saudado pela imagem do presidente Mao a olhar para mim através da janela: o meu quarto dá para uma estátua enorme cor de tijolo do Grande Timoneiro, cercado por operários com lanternas e empunhando chaves e espingardas.
Saio para ter uma imagem mais próxima e reparo que, nos tempos que correm, a estátua é honrada sobretudo por pombos. Na base, pontilham papéis autocolantes com propostas de emprego.
Shenyang é o centro económico da Manchúria, e teve os seus tempos áureos na altura da indústria pesada nacionalizada e da economia planificada. Com mais de sete milhões de habitantes, é a maior cidade da região.
Estou particularmente interessado em visitar a Aldeia dos Trabalhadores, que foi construída na década de 50 para abrigar cerca de 10 milhões de pessoas e 1000 fábricas estatais. Levo cerca de meia hora até descobrir um taxista que me leve lá. «Assim que lá o deixar, não estará lá ninguém para fazer a viagem de volta», diz-me o motorista.
Dois anos antes, durante a visita à Aldeia dos Trabalhadores, vi filas intermináveis de edifícios degradados cor de tijolo cheios de trabalhadores desempregados. Agora, tudo acabou.
São 10 da noite quando o meu táxi me deixa num campo de escombros, sob uma chuva torrencial e fria. Enquanto contemplo o destino da Aldeia dos Trabalhadores, um homem aproxima-se e dá-me um panfleto colorido que anuncia que ali vão ser construídos novos condomínios chamados River City. «Nunca é tarde para procurar um negócio», diz-me, apologético, antes de desaparecer na escuridão.
À procura de abrigo, caminho em direcção ao Palácio da Cultura dos Trabalhadores. Dentro do auditório, impecavelmente arranjado, deparo-me com o inesperado: casais de meia-idade dançam a valsa graciosamente. «O Governo limpou este local», explica-me um segurança. «É para pessoas com dinheiro.»
Na parede, sobre propaganda desactualizada a proclamar «A Construção do Comunismo», estão anúncios a seguros de vida e imobiliário. Enquanto a música desliza, o segurança pede-me que saia. O Palácio da Cultura dos Trabalhadores é actualmente um clube de dança privado.
Mas há mais sinais que mostram a transformação de Shenyang. No dia seguinte, fui a um museu instalado em terrenos opulentos que outrora pertenceram a Zhang Xueliang, um soldado nacionalista que combateu quer os Japoneses, quer os comunistas antes de voar para Taiwan, no final da Guerra Civil Chinesa.
Isso não impediu as autoridades locais de considerarem Zhang um patriota. Dentro do museu, vi turistas chineses posarem para fotografias em frente às bandeiras nacionalistas penduradas atrás da sua secretária.
A entrada no museu também me permite ver o antigo Bank Former, colonial, actual Museu do Dinheiro de Shenyang. Na exposição final, os turistas perfilam-se diante de um manequim de cera de Bill Gates. Não posso deixar de reparar que estes museus prestam homenagem a um general nacionalista e a um empresário capitalista sem mostrar o que esteve «no meio»: o comunismo.
Escolhi de propósito o comboio T536 para a parte final da minha viagem pela Manchúria – 240 km até Dalian, na ponta da península de Liaodong. Leva quatro horas, mas, pelo menos, posso olhar pela janela em paz. Sou o único neste comboio lento e semanal. O céu é a sombra do solo rochoso e as fazendas estão separadas por cercas de pinheiros. À medida que nos dirigimos para sul, a cor borrifa os limites do cenário e depois domina-o por inteiro. Padrões vermelho-cereja e branco florescem nos ramos que bordejam os dois lados dos carris. Quando chego a Dalian, rapidamente percebo porque é que esta cidade costeira é chamada «a Hong Kong do Norte». Sou saudado por uma explosão de luzes de néon, hotéis elegantes e envidraçados e torres de escritórios. Dalian é um centro de moda, e os habitantes locais estão orgulhosos da sua aparência, que se estende até à mulher-polícia-sinaleiro que evita os engarrafamentos.
A única exposição cívica da cidade é o Museu Moderno, onde pasmo perante as melhorias e espaços ajardinados que valeram ao autarca Bo Xilai um prémio das Nações Unidas. Existem também fotografias do desenvolvimento da cidade e simuladores que permitem atracar um navio no porto, aterrar um avião ou conduzir um carro pelas ruas sem engarrafamentos. Estou entediado em Dalian. É moderna e limpa e não tem quaisquer pistas sobre o seu passado.
A única exposição cívica da cidade é o Museu Moderno, onde pasmo perante as melhorias e espaços ajardinados que valeram ao autarca Bo Xilai um prémio das Nações Unidas. Existem também fotografias do desenvolvimento da cidade e simuladores que permitem atracar um navio no porto, aterrar um avião ou conduzir um carro pelas ruas sem engarrafamentos. Estou entediado em Dalian. É moderna e limpa e não tem quaisquer pistas sobre o seu passado.
Termino a minha viagem com um passeio à praia Seastar. Tiro os sapatos e as meias e mergulho nas águas frias do mar Amarelo. Pescadores alinham as canas junto à costa, cujas ondas batem ritmicamente. Nos meus ossos, ainda sinto o comboio.
Michael Meyer é o autor do livro The Last Days of Old Beijing: Life in the Vanishing Backstreets of a City Transformed (Os Últimos Dias da Pequim Antiga: a Vida nos Becos em Vias de Extinção de Uma Cidade a Mudar).
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