Chame-lhe crise financeira, recessão, crash – seja como for, a maior parte da Europa conhece o pior colapso financeiro das últimas décadas. No entanto, enquanto o desemprego, as falências e as penhoras fazem as capas dos jornais, muitos europeus descobrem novas formas de enfrentar – e vencer – a recessão.

Nas páginas seguintes, conheça três pessoas que aceitaram partilhar as suas lições de sobrevivência.
 
 
Acredite em si
 
Hoje, sentada no seu pequeno escritório no centro de Lisboa, Patrícia Dias reflecte nas decisões que a levaram a abrir a sua própria empresa em Janeiro passado e declara: «Foi o destino

No ano passado, a grande empresa de marketing e publicidade onde trabalhara, satisfeita, durante mais de cinco anos tornou-se vítima da economia debilitada de Portugal. À medida que o trabalho escasseava, os directores informaram Patrícia e os colegas de que, como os tempos estavam difíceis, teriam de lhes cortar cerca de um terço do salário.

«Eu adorava o meu trabalho e as pessoas com quem trabalhava, por isso fiquei, esperando que a empresa eventualmente me pagasse o que me devia», recorda esta mulher de 32 anos, casada e mãe de um filho. Mas a empresa não pagou. Pior, a empresa não tinha fundos para pagar a Patrícia uma indemnização por despedimento. Desempregada pela primeira vez e com uma criança pequena para criar, Patrícia tentou ser optimista e procurar trabalho, mas a situação ficou cada vez mais difícil. Por muito que procurasse, não havia trabalho adequado para ela. «Sentia-me desesperada», lembra. «O dinheiro já era pouco e nunca gostei da ideia de viver do subsídio de desemprego. É assustador ver a nossa vida cair em pedaços à nossa frente, os nossos sonhos de um futuro brilhante destruídos», diz.

Mas o marido, Pedro, nunca deixou de a apoiar. «Quando eu estava em baixo, ele animava–me», lembra. «Eu dependia imenso da minha família e amigos.»

O «destino» entra na história quando ela conheceu uma mulher com ideias semelhantes que sugeriu que juntassem forças e fundassem a sua própria empresa. Focar-se-ia em promover chefs de cozinha, e Patrícia, com a sua experiência em comunicação e planeamento de eventos, ajustava-se perfeitamente.

A jovem mãe tinha-se inscrito para subsídio de desemprego e fundar uma empresa significava desistir desse benefício, que representava cerca de dois terços do seu antigo salário. «Mas o meu marido sabia como era importante para mim ter um trabalho que me realizasse e encorajou-me a avançar», diz Patrícia. «Além disso, não sou o tipo de pessoa para ficar de braços cruzados sem fazer nada. Gosto demasiado de trabalhar.»

Desde que abriu a Chefs Agency, nunca mais olhou para trás. «Começámos com um cliente, mas agora temos sete», diz.
Recentemente, recrutaram uma técnica de contas para ajudar. Patrícia admite que começar um negócio pode ser assustador. Quando fundou a empresa, recusava-se a ver as notícias na televisão. «Havia tantas notícias negativas – empresas a falirem, a economia cada vez mais fraca. Fiz questão de me focar no positivo», diz ela. Trabalha muito mais horas do que no seu emprego anterior, mas não se queixa. «Vejo isto como um investimento no meu futuro», explica. «Estou a investir em qualquer coisa em que acredito mesmo – em mim e na minha família
 
 
Destacar-se na multidão
 
Feilim Mac An Iomaire estava desesperado. No passado mês de Agosto, depois de voltar de uma estada de um ano na Austrália, onde trabalhara numa agência de viagens e como coordenador de eventos, regressara à Irlanda com uma forte esperança de encontrar um emprego em vendas ou marketing.

«Sabia que seria difícil neste clima económico tão duro, mas ter passado um ano longe mostrou-me o quanto amo este país. Não queria ter de emigrar para arranjar trabalho como tantos dos meus compatriotas foram forçados a fazer.»

Este licenciado de 26 anos mudou-se para casa dos pais, em Galway, e viveu de subsídios do Estado no valor de 188 euros por semana enquanto procurava trabalho. «Enviei mais de 200 currículos a potenciais empregadores e quase não tive respostas», lembra. O que não surpreende, dado que a taxa de desemprego de 14,4% é a terceira mais alta da zona euro, atrás apenas da Grécia e de Espanha. «Foi frustrante e deprimente», admite agora. Oito meses de buscas tinham-lhe esgotado todas as poupanças, e já considerava mesmo a hipótese de emigrar como alguns dos seus amigos. «Não via outra alternativa», resume. Pior de tudo, ele culpava-se por não ser capaz de encontrar trabalho. «Comecei a duvidar do meu próprio valor
Mas a família e os amigos apoiaram-no sempre, incitando-o a não desistir. «Aconselharam-me a não encarar as recusas como algo pessoal», lembra.

«Percebiam o que eu estava a passar.»Depois de ler algures que os agentes de recrutamento gastam apenas oito segundos a olhar para um currículo, Mac An Iomaire teve a «ideia» que veio a mudar a sua vida. «Precisava de alguma coisa que me fizesse destacar de todos os outros candidatos», explica. «Decidi fazer marketing de mim mesmo

Contratou um designer para ajudar, e passadas umas semanas, quem chegava a Dublin via um enorme cartaz com uma fotografia de Mac An Iomaire junto ao mar, fitando imagens alusivas ao Reino Unido, Austrália, Canadá e EUA. O título era «Salvem-me da Emigração». Em baixo, tinha o seu endereço de e-mail, irlandês desempregado@gmail.com.

O cartaz, de 2000 euros, valeu a pena. Os meios de comunicação locais pegaram na sua história e Mac An Iomaire foi entrevistado na Irlanda e depois pelo Mundo. «Teve mesmo impacto» diz. Recebeu milhares de mensagens de apoio nas suas páginas de Facebook e Twitter.
 
Melhor de tudo foi que conseguiu mais de 20 entrevistas de emprego que resultaram em cinco propostas sólidas. Aceitou um emprego no departamento de marketing e comunicação da editora Paddy Power. «Estou na Lua», diz Mac An Iomaire. «Tem sido um sonho.»

Há alguma lição nesta abordagem invulgar à procura de emprego? «Nestes dias, temos que pensar “fora da caixa”; temos de nos tornar notados perante potenciais empregadores», diz o homem que já não precisa de se intitular «irlandês desempregado».
 
 
Um novo começo
 
Depois de trabalhar mais de 20 anos como atarefado e muito bem-sucedido designer gráfico e director artístico em regime de freelance, o milanês Davide Seminari recebeu uma proposta de trabalho irrecusável. «Em 2007, ocupei a posição de director artístico de uma muito prestigiada editora», explica. «O trabalho era interessante, o ordenado, bom, e eu apreciava a ideia de me estabilizar numa posição mais permanente.»

O futuro parecia risonho. De facto, Seminari estava tão confortável no seu novo trabalho que casou com a namorada em Junho de 2008. Passados uns meses, porém, o seu mundo desabou. Em Setembro, perdeu o emprego. Aconteceu devido a uma combinação de factores: reorganização da empresa, cortes e uma crise económica que atingiu o mundo editorial de forma especialmente dura. «Fiquei arrasado. Fui apanhado de surpresa», explica este homem de 48 anos.

Começou à procura de trabalho como designer gráfico e director de arte, mas havia revistas a fecharem a torto e a direito e nenhumas ofertas. Até o trabalho independente escasseava. Após meses de busca sem sucesso, Seminari perdera a esperança.
«Perdi mesmo a coragem. Não parava de se interrogar sobre como podia ter-me acontecido uma coisa destas.»
 
A sua mulher e família nunca deixaram de o apoiar. «Continuaram a encorajar-me e a dar-me a mão quando eu estava em baixo», diz. «Foi muito importante o seu apoio para mim.» Foi então que teve o seu momento Eureka!. Como ele próprio diz: «Sabia que tinha de começar do princípio, mas também sabia que precisava de algo de novo – alguma coisa que me apaixonasse.»

Ele e o irmão, Giovanni, um experiente gestor de restauração, decidiram associar-se e abrirem o seu próprio bar. O pai e o avô haviam tido restaurantes, por isso o negócio estava na tradição familiar.

Inscreveram-se num programa de reeducação em gestão de restauração patrocinado pelo Estado e começaram à procura de um local adequado. Em meados de 2009, os irmãos encontraram um pequeno café no meio do movimentado bairro de negócios de Milão. «Tinha uma boa tradição e uma excelente clientela», diz Seminari. «Só precisava da nossa paixão.»

Dois anos depois de abrirem o novo café, Seminari explica que o seu novo trabalho é cansativo mas recompensador. Compara o processo de aprendizagem de gerir um restaurante com «aprender uma nova língua». Como ele próprio explica: «Tenho que prestar atenção aos custos – ao bruto e ao líquido.» Apesar de parecer uma coisa muito diferente do seu passado como director de arte de uma revista, ele discorda: «Estou a usar tudo o que aprendi, desde o meu sentido de design para decorar o restaurante até apresentar os pratos da melhor forma.»

Reflecte em como fez esta transição bem-sucedida. «É preciso nunca perder o entusiasmo ou a confiança em nós mesmos. E também temos que ser capazes de pedir apoio aos amigos e família», avisa. «E é preciso não ter medo de mudar. Sorrir. Apreciar a vida – e tomar um bom café!»

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