Urgências - A vida no fio da navalha

«Acha que isto é vida? Agora que podíamos gozar alguma coisa, só os dois porque o filho está criado, acontece-nos isto. Veio estragar o esquema todo. Já nem tenho vida ...» O desabafo é de Luís Calçada, de 58 anos, reformado, no corredor das urgências do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Pouco passa da meia-noite. A chuva e o vento sacodem as vidraças da entrada das urgências. Um frio cortante vai enchendo o ar à medida que a porta automática abre e fecha. Luís, corpo franzino, está sozinho encostado a uma marquesa. As olheiras profundas e o ar sofrido fazem adivinhar um problema de saúde grave. «Não, não sou eu. É a minha mulher, tive de a trazer para aqui porque teve mais uma recaída», diz-nos quando o interpelamos. E sem nos dar tempo para qualquer pergunta, dispara: «Tem cancro da mama. Descobrimos em Janeiro de 2008 e nunca mais parou. Já lhe apanhou o fígado, os pulmões e ossos. É um sofrimento, para ela e para mim, que vocês não fazem ideia», garante, enquanto o olhar não pára quieto naquele imenso corredor. Ficamos ali, impotentes, a olhar a maca onde a mulher, Maria do Céu, está deitada, imóvel, sem saber o que dizer a seguir. Como se tivéssemos levado um murro no estômago.
Com um à-vontade desconcertante, desfia num tom conformado o calvário que partilha com a mulher: «Trabalhei toda a vida no Metropolitano de Lisboa. Aproveitei as reformas antecipadas e saí em 2007. A minha mulher é doméstica, e começámos a pensar em aproveitar a reforma, fazer algumas coisas que tínhamos planeado, gozar a vida. Em Janeiro de 2008, descobrimos que tinha cancro. Agora, todo o esquema que tínhamos pensado ficou desfeito. Todo o tempo que tenho é passado a tratar dela, porque ela não consegue fazer nada sozinha, ou a caminho dos tratamentos», desabafa enquanto espera que a mulher termine uma sessão onde lhe foi ministrado um cocktail de químicos para lhe atenuarem as dores e diminuírem os espasmos. O sofrimento de Luís e da mulher é um dos casos mais graves com que nos deparámos no tempo que estivemos nas urgências. Maria do Céu morreu no início de 2009.
Um acidente de carro, um acidente de trabalho e a dor que vê sofrer quem ama.
À hora marcada, picamos o ponto em Santa Maria, sem fazermos a mínima ideia de como são as noites numa urgência. O turno começa às 23 horas. Esperamos ver ambulâncias a chegarem a todo o momento, uma correria de macas pelos corredores. Mas não. Está tudo calmo. As macas estão lá, mas encostadas a uma parede. E não vejo em lado algum a bela enfermeira Carol ou a bonita médica Abby. E muito menos o charmoso Dr.Ross. Pois ... esqueço-me de que eles pertencem a uma urgência de Chicago e que o turno deles dura apenas uma hora, o tempo de cada episódio de Serviço de Urgência. Julianna Margulies, Maura Tierney e George Clooney não andam de certeza por aqui. É pena, porque nas mãos da Dra. Abby até uma injecção de atropina tem piada.
Apresentamo-nos na Segurança e perguntamos pelo enfermeiro Fernando Sousa. Mandam-nos para a sala de SO (sala de observação). Quebrado o gelo inicial, passamos ao trabalho: «Para que possam ter uma ideia de como tudo isto funciona, qual o percurso que os utentes das urgências fazem aqui dentro, quais os procedimentos que observamos, o melhor é fazermos uma visita a todos os locais», propõe o enfermeiro Sousa.
Voltamos a percorrer o corredor até à porta das urgências. Aqui, um doente pode dar entrada de duas maneiras: ou espera na sala após a inscrição, ou entra directamente se o caso inspirar mais cuidados.
Após a inscrição, o paciente aguarda na sala que o chamem para a triagem: «Aqui, um enfermeiro ou dois, dependendo do volume de serviço, analisam caso a caso e decidem qual a prioridade a dar a cada um, segundo o método de Manchester, onde se usa o sistema de cores», explica Fernando Sousa. A cor vermelha tem prioridade absoluta, entra directamente; a cor laranja aguarda 10 a 15 minutos; a cor amarela, até 1 hora; a cor verde, até 2 horas, e a cor azul, até 4 horas de espera.
A partir daqui, os doentes podem seguir dois caminhos diferentes. Os que podem aguardar ficam na sala de espera até os chamarem para ser vistos por um médico. Se após a consulta não tiverem de realizar qualquer exame, saem e vão às suas vidas. Caso tenham de realizar exames, permanecem na sala de triados, numa outra ala do hospital, até serem novamente observados. E daqui, ou vão para casa ou ficam internados.
Os casos que inspirem mais cuidados passam para as salas de urgência, onde são estabilizados até serem vistos por um especialista, por exemplo, ou para fazerem tratamentos. Em ligação directa, funcionam ainda, em permanência, uma sala de meios complementares de diagnóstico, uma sala de aerossóis, uma sala de pequena cirurgia (pequenas suturações), uma sala de preparação para internamento e uma sala de ortopedia.
Uma pequena «aldeia» médica preparada para tudo o que possa acontecer, ligada por corredores frios e sombrios que denotam os 50 anos de uso e que têm vindo a ser adaptados às necessidades de hoje. Mesmo assim, quem ali trabalha tem de percorrer dezenas de quilómetros dentro desta teia de salas e corredores para que tudo funcione.
À meia-noite, Carlos Cabral, de 66 anos, agente imobiliário no desemprego, faz uma entrada «directa» para a sala de urgência. Apresenta sinais de problemas cardíacos. O enfermeiro Jorge, de serviço à sala de tratamentos, tranquiliza-o e prepara-o para ser visto por um cardiologista. «Comecei a sentir um cansaço muito grande, uma pressão no peito, e decidi vir ver o que isto é», diz-nos enquanto espera deitado numa marquesa. «Isto é fruto da idade e da agitação do dia-a-dia. Moro no Cacém e tinha escritório no Prior Velho. Ainda por cima, tinha de fazer o IC19 duas vezes por dia», diz a rir. Apesar do desconforto, mantém a boa disposição.
Vidas cruzadas pelo infortúnio.
Depressa percebemos que a urgência não serve só para tratar doenças ou ferimentos de acidentes. É também um retrato frio e cru da sociedade, principalmente dos que vivem nas suas franjas, por opção ou por necessidade. «O facto de estarmos abertos 24 horas por dia leva a que muitos sem-abrigo venham para aqui dormir ou para se protegerem. Enquanto uns ficam por aí, no bar ou na sala de espera, existem alguns que se inscrevem para poderem dar entrada e dessa forma terem um tecto, comida e abrigo. Temos um caso de um senhor que em dois anos deu aqui entrada 128 vezes», explica o enfermeiro Fernando Sousa.
Mas há aqueles que, apesar da situação em que se encontram, recusam qualquer tipo de ajuda: «Nós proporcionamos-lhes um banho, uma refeição e até alguma roupa que nos vão dando. Mas nem isso eles querem», diz Fernando Sousa.
A noite vai andando, invulgarmente calma. Um bom sinal para quem está de serviço: «Vocês têm de cá vir mais vezes, dão-nos sorte», dispara o enfermeiro Jorge a rir.
As entradas que vão sendo registadas são quase todas provocadas pelo tempo frio, e os pacientes são quase todos idosos, o que nos revela um cenário que já tínhamos visto quando estivemos 24 horas com o INEM (Selecções n.º 443, Março de 2008): o de uma cidade com uma população envelhecida e sozinha. A maioria chega de ambulância, e poucos vêm acompanhados.
Às 3 da manhã, a sirene de uma ambulância interrompe a calma reinante. Uma cantoneira de uma câmara municipal da Grande Lisboa tinha acabado de sofrer um acidente de trabalho. Entrou directamente para a sala de urgência. Toda imobilizada, queixava-se de um ombro e das costas: «Trabalho na recolha do lixo. Ia pendurada na plataforma do camião quando ele deu um solavanco numa lomba e eu fui atirada para o chão», explica à nossa reportagem, ao mesmo tempo que pede para não ser identificada com medo de problemas no emprego. Saiu por volta das 6 da manhã depois de fazer vários exames. Da queda ficaram apenas as dores.
Um cenário que Fernando Sousa vê todos os dias.
Pelas 4 da madrugada, nova agitação, desta vez com a chegada de um carro da Divisão de Trânsito da PSP de Lisboa que trazia um detido: um taxista que acusou uma elevada taxa de alcoolemia numa operação STOP. Foi às urgências para fazer uma contra-análise ao teste feito no local. Meia hora depois, saía com a certeza de que a taxa apresentada iria custar-lhe a apreensão da carta durante vários meses e uma coima bem pesada.
A calma regressa às urgências. Tempo para fazermos uma passagem pelos vários serviços a operarem, nomeadamente o SO. Pela mão de Fernando Sousa, entramos num mundo à parte dentro das próprias urgências. É aqui que estão os pacientes que têm de estar sob observação permanente, ligados a monitores que controlam todas as suas funções vitais. Ficam aqui até se decidir se avançam para o internamento na especialidade ou têm alta e posterior acompanhamento.
Todo o serviço de urgência sofreu grandes reformas, nomeadamente no apetrechamento dos equipamentos.
Exemplo dessa modernização é o sistema de dispensa de medicamentos. Cada enfermeiro tem de colocar um código próprio e fazer a leitura da impressão digital. Só depois o sistema lhe permite retirar o medicamento pretendido: «Isto permite um controle mais rigoroso do acto de administrar o medicamento, porque se sabe sempre quem foi, e evita o desperdício ou uso indevido de medicamentos», explica Fernando Sousa. Ao mesmo tempo, em monitores colocados nas mesas podem ser consultadas as fichas dos doentes.
O fim do turno está perto. Mesmo na recta final, um táxi entra em alta velocidade nas urgências: «Uma cadeira de rodas, por favor, arranjem-me uma cadeira de rodas», grita o taxista. Do banco de trás, sai uma jovem a contorcer-se de dores abdominais. Entra directamente para as urgências, seguindo depois para a consulta de medicina interna.
Espera-se muito para se ser atendido. Vale o empenho e dedicação dos enfermeiros.
O turno termina com a entrada de um homem de 71 anos com problemas cardíacos. Vem de ambulância e é acompanhado por um médico e um enfermeiro da viatura médica de emergência e reanimação do INEM. Ao todo, foram atendidas 74 pessoas, a maioria para o serviço de medicina, alguns para tratamentos e nenhuma emergência. Uma madrugada anormalmente calma. «Vocês têm de cá voltar, dão-nos sorte», volta a pedir o enfermeiro Jorge.
Voltamos às urgências, desta vez já de dia, para acompanhar o turno diurno, sob a batuta do enfermeiro Carlos Neto. Tal como na madrugada anterior, os casos provocados pelo tempo frio – constipações, gripes, febres, fazem o historial da triagem, embora tenha havido dois pacientes a entrarem directos para a sala de emergência.
O primeiro, por volta das 9h, foi um homem com problemas cardíacos e que seguiu de imediato para o serviço de cardiologia. Cerca de 45 minutos depois, dá entrada uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Mafra com uma vítima de um acidente de viação. O ferido é um jovem de 18 anos, João Gomes, que teve de ser todo imobilizado devido a suspeita de lesão na coluna, uma vez que apresenta sinais de dormência no braço esquerdo. Transferido para a maca do hospital, foi estabilizado e ficou a aguardar que o chamassem para a consulta de ortopedia. Com ele, seguimos o percurso de um paciente nas urgências de Santa Maria. Cerca das 10.20, foi visto por um ortopedista, que o mandou fazer vários raios X. Após os exames, ficou à espera de ser novamente chamado para saber os resultados na sala dos triados. Deitado na maca, foi ocupando o tempo a mandar mensagens de SMS com o telemóvel, enquanto o pai e mãe não chegavam.
Pelas 11.38, foi finalmente chamado para o serviço de ortopedia para saber o resultado dos exames. Não partira nada nem tinha nenhuma lesão, mas como se queixava de uma pequena dor num ouvido, o médico mandou-o para a consulta de otorrinolaringologia, onde deu entrada por volta do meio-dia, mas já pelo próprio pé e ainda combalido do acidente: «Ele ainda está um bocado em choque, mas está tudo bem com ele. Vai ser visto pelo otorrino apenas por precaução», garante o pai, Álvaro Gomes.
De volta ao interior labiríntico das urgências, voltamos a fazer uma paragem em todos os serviços. A azáfama vivida não tem nada a ver com a calma da madrugada anterior. E apesar dos constrangimentos de espaço devido ao tamanho, o serviço consegue responder a todas as solicitações: «As instalações têm 50 anos. Não foram feitas para um volume de serviço como existe hoje. E apesar das remodelações, não se consegue obter uma concentração e uma proximidade maior de todos os serviços nas urgências. Mas mesmo assim estamos bem, nomeadamente em termos de equipamento. Ainda recentemente, esteve aqui uma equipa de enfermeiros e médicos de Israel que ficaram espantados com o equipamento que temos nas urgências», garante Carlos Neto.
As urgências são também o rosto de uma Lisboa envelhecida.
Após a hora de almoço, e com o agravamento das condições atmosféricas, chega a informação de que podem estar a chegar vários feridos de uma derrocada: «Caiu um muro na zona do Campo Grande, na área da Universidade Lusófona, e ainda não sabemos se alguém foi atingido ou não», diz o enfermeiro Carlos Neto. Dez minutos depois, vem a confirmação: o muro caiu de facto, mas não atingiu ninguém. Se calhar, fomos mesmo nós que lhes demos sorte.
«Chefe, estou nas urgências!»
Existem dias em que as urgências têm mais gente do que é considerado normal. A segunda-feira de manhã, por exemplo, é sempre um corrupio. São as consequências dos excessos de fim-de-semana? Parece que não. E se lhe dissermos que as urgências também servem para alguns chico-espertos enganarem os chefes ou os patrões?
«Existem pessoas que vêm às urgências à segunda de manhã, inscrevem-se e depois vão-se embora. Voltam passadas umas horas, pedem uma justificação e assim conseguem faltar ao trabalho sem terem problemas», garante Fernando Sousa. Mas mesmo assim, é um esquema arriscado, dado o controle existente. «Descobri um caso de uma senhora que fazia isso sem que déssemos conta. Uma vez, ela inscreveu-se e passadas umas horas reclamou alto e bom som que ninguém a tinha chamado, que não podia ser, que era uma falha grave. Bem, fomos ver e de facto a senhora já estava há várias horas nas urgências. Não percebemos como tinha acontecido. Pedimos desculpa à senhora e foi atendida», diz Fernando Sousa.
Mas o melhor estava para vir: «Uns dias depois, ao passar pelas urgências, vejo-a novamente de passagem. E fiquei alerta. Ela inscreveu-se e a seguir meteu-se num carro e foi-se embora. Eu assim que vi aquilo, vi logo qual era o esquema. Fui ter com a médica e pedi-lhe que desse alta por abandono das urgências.» E assim foi. A meio da tarde, a senhora voltou às urgências e tornou a fazer a mesma cena. Mas não contava é que Fernando Sousa estivesse novamente de serviço: «Deixei-a fazer o escândalo à frente de toda a gente e depois desmascarei o esquema dela. Não sabia onde é que havia de se meter. Nem foi buscar a justificação», diz a rir-se.
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1 Comentários |
| teresa C. on 15 October 2009 ,16:23 Artigo muito elucidativo e realista sobre a doença,sintomas inici ais,evolução " tratamentos "e atitude mais positiva. Sei o que isso é porque tb tenho que enfrentá-la e,embora pou co adiantada,saber que ela está connosco passa a fazer parte dum "destino "sem fuga... |
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