Isabelle Autissier seguia a bordo do seu iate de 20 m, o PRB, naquilo a que alguns marinheiros chamam o «buraco», uma parte do Pacífico Sul tão remota que nem sequer as aeronaves de busca e salvamento podem lá chegar. A umas 1900 milhas a oeste do cabo Horn — bem no interior da zona dos gelos flutuantes do Antárctico —, ela estava o mais longe de terra que qualquer ser humano, à excepção dos astronautas, pode estar. E vindo de ocidente, um sistema de baixas pressões avançava na direcção do barco da francesa. Nesse dia de Fevereiro do ano passado, Isabelle Autissier, que em França é tão famosa como as estrelas de rock, liderava por escassa margem a Around Alone 1998-99, uma regata em solitário que cobre 27 000 milhas marítimas em torno do Globo. Nos cinco meses anteriores, ela percorrera já cerca de 17 000 milhas, enfrentando a solidão, o medo e a fadiga. Agora, precisava de dormir para estar em boa forma quando a tempestade a alcançasse. Mas quando o piloto automático não reagiu com a rapidez necessária a uma mudança brusca na direcção do vento, a retranca varreu o convés como uma gadanha e veio esmagar-se contra a enxárcia de sotavento. Em dois segundos, o PRB adernou, batendo com os mastros na água. Isabelle Autissier saiu com dificuldade da cabina para tentar remediar a situação. Tinha que aliviar o leme e arriar a vela grande. Esta era a sua quarta corrida a solo à volta do Mundo, e já vira pior. O barco conseguiria reendireitar-se, estava convencida. Mas, para seu espanto, o PRB, empurrado por uma vaga que embateu nele precisamente no momento em que adernava, continuou a rolar. Isabelle mal teve tempo de voltar a reenfiar-se na cabina e selar a escotilha antes de o PRB ficar completamente virado, com a quilha de 5 m no ar, o mastro e as velas mergulhando 28 m nas águas. Mais de uma tonelada de água invadiu o compartimento da proa quando uma escotilha se abriu. Mas o anteparo resistiu e Isabelle conseguiu selar o resto da embarcação. Olhando para fora pelas grandes janelas da cabina do PRB, ela tinha a sensação de estar dentro de um aquário. Olhando para baixo, viu as velas rasgarem-se e o mastro partir-se. O óleo que se escapava do motor invertido empestou a cabina. Activou o EPIRB (sinal rádio de emergência indicador de posição). Sabia que não havia navios mercantes num raio de mil milhas, e que apenas um companheiro de corrida poderia salvá-la. A Around Alone começa em Charleston, na Carolina do Sul, e é disputada em quatro etapas, com paragens na África do Sul, Nova Zelândia e Uruguai, para acabar novamente em Charleston. Nesta corrida, os concorrentes pilotam embarcações de mar alto ao longo dos limites do tempestuoso oceano Antárctico, infestado de icebergues. Este representa aquilo a que Melville chamava «toda a monstruosidade do mar». Isabelle Autissier já conhecia aqueles adamastores. Durante uma tempestade feroz, na Volta ao Mundo de 1996-97, o canadiano Gerry Roufs desaparecera a uma centena de milhas do local onde ela estava agora virada. Ao leme do PRB, Isabelle liderara as buscas. Enfrentara os mesmos ventos de 65 nós (120 km/h) que Roufs, e já estava exausta, com vagalhões da altura de um prédio de sete andares a caírem sobre ela. O PRB fora derrubado pelas vagas seis vezes, e Isabelle atirada contra o tecto da cabina. «Estou em condições de sobrevivência, nos meus limites físicos», comunicou ela. Não conseguia distinguir as vagas das nuvens. Mourejou durante quatro horas contra o vento, mas pouco conseguiu avançar. O EPIRB de Roufs não fora activado. Sem essas coordenadas, a sua tarefa era inglória. Os directores da equipa de busca e salvamento libertaram-na de quaisquer obrigações, e ela retomou a corrida. A busca de Roufs fora a experiência mais difícil da sua vida. «Estava sem recursos», disse ela. «Foi frustrante, terrível, porque havia uma vida em jogo, e eu não pude fazer nada.» Quando o centro de operações da corrida captou o sinal de Isabelle Autissier, dois seus companheiros de corrida estavam próximos. O francês Marc Thiercelin estava a menos de 100 milhas, contra o vento. Giovanni Soldini, um italiano, estava cerca de 200 milhas mais a norte, mas a favor do vento. Era crucial conseguir chegar a ela rapidamente. Dentro das próximas 30 horas, a depressão que avançava na sua direcção estaria em cima dela, com ventos de 40 nós e vagas de 8 m. Mesmo usando as coordenadas do EPIRB, um salvador poderia levar dias para encontrá-la. E não havia garantias de que o anteparo do PRB, a única coisa que o mantinha a flutuar, continuaria a aguentar-se. O centro de operações avisou Soldini e Thiercelin do acidente. A equipa de terra de Thiercelin comunicou que a sua retranca se partira e que seria difícil, senão impossível, voltar contra o vento até à posição de Isabelle Autissier. Soldini, que gastara três anos e milhões de dólares a preparar-se para a corrida, não hesitou. «Vou já para lá», disse numa mensagem por email. «Não desistirei enquanto não encontrar a Isa.» A 15 de Fevereiro, às 17.30 TMG, Soldini voltou o seu barco, o Fila, e apontou para sul. À luz de uma lanterna, na cabina escura como breu, Isabelle Autissier empurrou a sua quilha de emergência o mais que pôde. Mas a capacidade desta quilha para endireitar o barco foi calculada para mar agitado, e nas condições relativamente calmas que prevaleciam, o mar não tinha força para encetar o movimento de rotação. Antes de a sua aparelhagem electrónica ter falhado, Isabelle conseguira fazer uma rápida chamada por satélite para a sua equipa de terra, em França. Tudo o que conseguiram ouvir antes de a comunicação falhar foi: «Estou de pernas para o ar.» Isabelle começou a acumular tudo o que podia do lado da popa do PRB, para contrabalançar o peso da água que invadira o compartimento da proa. Uma escotilha de fuga no lintel do barco era a sua única via de saída. Agachada no tecto da cabina, olhava ansiosa para os pedaços do mastro e da retranca que giravam por baixo. Preocupava-a que eles pudessem esmagar o casco ou uma escotilha. Giovanni Soldini, baixo e seco de carnes, de 32 anos, sabia exactamente aquilo por que passava a sua amiga Isabelle. Em 1988, numa travessia do Atlântico no Fila para tentar bater um recorde de velocidade, ele e os quatro amigos que compunham a tripulação viraram-se durante uma tempestade. O barco reendireitou-se rapidamente, mas um dos homens, Andrea Romanelli, nunca mais foi visto. Durante as primeiras 12 horas, Soldini rumou precisamente na direcção das coordenadas fornecidas pelo EPIRB de Isabelle Autissier. Mas às 6.30 de 16 de Fevereiro, comunicou que o Fila estava a ser forçado a bordejar contra ventos quase de tempestade, e que ainda estava a 50 milhas de distância. Quando o vento mudou, encurtou a distância para 40 milhas em duas horas, avançando contra vagas de 8 m. Dentro da cabina, tinha que agarrar-se a tudo o que podia para não ser atirado contra as paredes ou o tecto. Às 13 horas estava a 8 milhas de distância. Então, o vento amainou um pouco, para 25 nós, numa breve aberta. Soldini chegou à área de busca já noite. A posição do EPIRB era apenas aproximativa, podia variar 1 milha ou mais, uma distância que, dadas as condições do tempo, com mar engrossado e fraca visibilidade, bem podia ser de 100. Às primeiras luzes do dia, Soldini não viu sinais do PRB. Começou a navegar metodicamente ao longo das linhas de uma grelha de busca. Ao fim de meia hora, subiu à barra do mastro principal para tentar ver melhor. Nada. A tempestade estava a apenas algumas horas de distância, e o PRB poderia não lhe sobreviver. Desceu do mastro e estava a preparar-se para mudar de rumo quando, de repente, como por milagre, avistou o barco. Aproximou-se do PRB. Gritou repetidamente, mas não obteve resposta. Fez outra passagem, mas não havia sinais de Isabelle Autissier. A sua alegria começou a desvanecer-se. Agarrou num martelo e lançou-o com força contra o casco voltado. Dentro da sua cabina, Isabelle ouviu qualquer coisa embater no barco. Veio à escotilha de fuga espreitar. Viu o Fila, e logo depois Soldini a acenar, rindo, aos gritos. Isabelle meteu-se na sua jangada salva-vidas e, pela última vez, disse adeus ao PRB. Soldini manobrou para aproximar-se, e ela trepou para bordo. O italiano enviou um email para a direcção da corrida, dizendo: «Isa está a bordo comigo. Vamos os dois retomar a corrida.» Enquanto o barco, agora em piloto automático, navegava no meio da tempestade que depressa os apanhou, Soldini e Isabelle Autissier aconchegaram-se na cabina, a beber chá e vinho tinto. Falaram sobre navegação durante horas. Falaram também daqueles que não tinham tido tanta sorte. Para Soldini, encontrar Isabele Autissier fora a sua hipótese de equilibrar o marcador. «Ele perdeu uma vida e salvou outra», comentou Isabelle mais tarde. Antes da madrugada de 3 de Março, meia dúzia de barcos da imprensa balançavam nas águas em frente de Punta del Este, no Uruguai. Dali a pouco, começaram a distinguir-se os contornos do Fila, iluminado pelas suas luzes e pelo projector de um helicóptero. Ao aproximar-se, Soldini lançou foguetes luminosos para celebrar. A vista do barco iluminado e aparentemente frágil, surgindo das profundezas do mar, evocava aquilo que conta nestas regatas: a coragem, capacidade e resistência dos marinheiros e o seu honroso código de assistência mútua. No dia seguinte, quando perguntaram a Giovanni Soldini e a Isabelle Autissier o que os fazia voltar sempre ao Pacífico Sul, a paixão contida nas suas respostas foi assombrosa. Soldini disse que gostava do desafio, porque lhe permitia sondar os seus próprios limites. Não conhecia alegria maior que encontrá-los e ultrapassá-los. Para Isabelle Autissier, esta seria a sua última corrida pelos mares do Sul. Quatro já bastavam. Mas o que realmente importava era a forma como ela os enfrentara. «Procurei fazê-lo como deve ser», disse ela. «Com garra, perícia, dando tudo o que tinha para dar, até ao fim.»

A 8 de Maio de 1999, Giovanni Soldini entrou destacado no porto de Charleston, para vencer a Around Alone em 116 dias e 20 horas, batendo o recorde da prova por quatro dias e 21 horas.

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