Uma vida maravilhosa
Os habitantes de Barbados têm uma relação especial entre si e com a sua ilha.
By Charles Kulander
Numa praia banhada pelo sol, uma família em roda de um piquenique acena-me e convida-me para uma refeição de peixe-voador acompanhada com rum. Quando lhes digo que têm muita sorte por viverem naquela bela ilha, o meu anfitrião interrompe-me para me dizer que barbados não é de todo uma ilha. como convidado, alinho na brincadeira: «Ok, então é o quê?» «Somos um continente», diz, levantando os braços ao céu, «porque os nossos corações são tão grandes!» ri-se.
Um verdadeiro riso barbadiano começa fundo na barriga, ganha ressonância ao subir e sai como um rugido da garganta, frequentemente seguido por réplicas. Este riso, aprendo, é a expressão despreocuppada de uma ilha que tem um profundo amor por si mesma. Mais do que um amigo caribenho já me referiu Barbados – «Pequena Inglaterra» – como a ilha mais civilizada e bem-educada das redondezas, ou, por outras palavras, como um pouco … bem, maçadora. Mas isso não se coaduna com a minha experiência até agora. Para mim, parece-me a mais cativante ilha das Caraíbas. Em sentido estrito, Barbados nem está bem nas Caraíbas. «Estamos no Atlântico Norte», diz Adrian Loveridge, o meu guia de visita à casa George Washington, um museu situado numa plantação do século XVIII nos arredores de Bridgetown.
«Barbados fica no extremo da placa das Caraíbas, a leste do arco das ilhas de Barlavento, que tradicionalmente marcam a separação entre as Caraíbas e o Atlântico.»
Enquanto Loveridge me mostra a casa onde George Washington passou dois meses, aprendo que a famosa máxima de «Não à taxação sem a [correspondente] representação» estava inscrita na carta de foral de Barbados mais de um século antes da Revolução Americana, que a percentagem de alfabetismo da ilha – 99,7% – é mais alta que a dos EUA (99%) e que Barbados se gaba de ter um dos governos mais estáveis do hemisfério. Isto deve-se em parte a 339 anos de administração britânica, que culminaram na independência em 1966.
No entanto, se lhe chamarmos «Pequena Inglaterra», veremos os indígenas a revirarem os olhos. «Isso é só meio verdade», diz-me um vendedor de rua em Bridgetown, perto do edifício do Parlamento, em estilo britânico.
«Podemos ser pequenos, mas não somos a Inglaterra.» Relanceando o olhar em volta, percebo o que quer dizer: bares de rum em vez de pubs, carrinhas que emitem música alto e bom som em vez de autocarros de dois andares, isto para não falar dos rabos de porco assados que estou a comer. Mas ao passear na Baixa, noto que paira sobre as ruas históricas e ordenadas um decoro inconfundível.
No entanto, por debaixo deste aparente civismo está a ferida que deixou cicatrizes em tantas das ilhas das Caraíbas: a escravatura. Quando as plantações de açúcar se disseminaram no clima tropical de Barbados na década de 1640, o Governo Britânico trouxe para ali 1000 escravos da África Ocidental.
A escravatura foi abolida na ilha em 1834, mas a psicologia de escravo-e-patrão levaria gerações a mudar. Como é que Barbados transcendeu a sua história de escravatura para se tornar neste comité de boas-vindas das Caraíbas?
Descubro uma pista no dia seguinte em Surfer’s Point, na costa sudoeste de Barbados. Estava a conversar com Zed Layson, dono da Zed’s Surfing Adventures. Quando notei um toque de irlandês no seu sotaque, ele disse-me que era um barbadiano de quinta geração, também conhecidos como Bajan. É descendente de prisioneiros vindos da Irlanda. «Que bênção!», ri-se. «Cometer um crime contra a Coroa e ser desterrado para o paraíso!» Pergunto-lhe como é que esses primeiros colonos izeram para estabelecer comunidades nesta terra distante.
«Está tudo relacionado com a ideia de partilha. Nós descendemos da nossa cultura de escravos africanos e das nossas culturas inglesa, irlandesa, escocesa e indiana, pequenos temperos que fizeram um caldo de boa vida.»
Este espírito é evidente na fritada de peixe de sexta-feira à noite na cidade de Oistins, na costa sul de Barbados. A cozinha Bajan tem como base o mar. Na verdade, os Bajan não comem muita carne vermelha, mas podem empanturrar-se até ao pescoço de peixe fresco.
E quando os pratos de papel começam a empilhar-se, arranca a música ao vivo. Mas quando a soca começa a tocar, são os turistas, e não os locais, que saltam para abanar o capacete. Os Bajan preferem deslizar na pista do Lexie’s Bar ao som de músicas dos anos 60.
A pista de dança, reparo, é um court de ténis em miniatura, outra parte do quebra-cabeças cultural da ilha. O «ténis de estrada» é uma versão popular daquele desporto, um toque Bajan na Pequena Inglaterra. «Começou na década de 30, quando as pessoas de cá viam os brancos a jogar ténis na relva», explica McArthur Barrow, um fanático de ténis de estrada. «Nós não podíamos entrar nos clubes deles, por isso inventámos o nosso próprio jogo.» É engenhoso – uma tábua estreita em vez de rede, raquetas feitas de contraplacado, uma bola de ténis sem pêlo – e joga-se em qualquer superfície pavimentada, muitas vezes a rua.
«Cada comunidade tem o seu campeão de ténis», diz-me Barrow. «O pessoal compete uns com os outros: joga-se o dia todo, cozinha-se qualquer coisa e descontrai-se.» Ele passa-me uma raqueta e arranja-me um adversário.
Os jogadores gritam conselhos: «Mexe os pés, enquadra-te com a bola.» Cinco minutos disto e já arvoro o mesmo sorriso que toda a gente.
Outra tradição de inspiração britânica, a corrida de cavalos ao sábado em Garrison Savannah, a sul de Bridgetown, oferece outra amostra da cultura Bajan. «A corrida já vem do tempo das plantações», conta-me um homem bronzeado de cabelo grisalho desgrenhado que está junto de mim. Apresenta- se: «Cow ... como o animal do estábulo», e a seguir partilha um facto surpreendente acerca das corridas de cavalos em Barbados. «Os Barbadianos não apostam. São muito conservadores financeiramente.» São os turistas que fazem todas as apostas de vulto. Os ilhéus contentam-se em fazer piqueniques em volta da pista, a apreciar o espectáculo e a conviver.
Pergunto a Cow o seu verdadeiro nome: «Sir Charles Williams, armado cavaleiro pela rainha Isabel em 2000 pelo desenvolvimento do desporto.» Surpreendido, balbucio: «Hã, é inglês?» «Cem por cento barbadiano», responde com desdém. «Os meus antepassados foram enviados para aqui como prisioneiros de Oliver Cromwell. A minha família vive cá há 356 anos.»
Em 1600, os caçadores de homens de Cromwell vagueavam pela Grã-Bretanha e Irlanda para capturar rebeldes e revoltosos para trabalhos forçados nas plantações de Barbados. Ser «Barbadado» era considerado um destino pior que a morte. A maior parte dos seus descendentes, como Zed e Cow, estão integrados na sociedade Bajan, mas tinham-me contado histórias de «Pernas Vermelhas» que viviam miseravelmente em zonas remotas na ilha.
As plantações barbadianas, pelo que descubro, eram adeptas da «igualdade de oportunidades». Quando se adaptaram do tabaco e algodão para o mais lucrativo açúcar, os Pernas Vermelhas foram largamente substituídos por escravos africanos. Não se encontram muitos vestígios desta história de escravatura, excepto na estátua de um chefe de escravos rebeldes chamado Bussa numa rotunda à saída de Bridgetown, que me encaminha para a ventosa costa leste da ilha. Ali, ainda sobrevivem
comunidades de descendentes dos Pernas Vermelhas de olhos azuis e cabelo louro.
No Hotel Atlantis, em Tent Bay, um edifício histórico do século XIX, converso com o dono, Andrew Warden, sentado ao bar, renovado recentemente, tal como tudo o resto, no que é hoje um hotel de charme. Noto-lhe um sotaque.
Como é que um australiano acaba do outro lado do Mundo em Tent Bay? «A minha mãe é barbadiana», explica ele, apontando para uma fotografia sépia com homens de barbas hirsutas e faces assombradas. «Aqueles são os meus parentes.»
«Pernas Vermelhas?»
«Pode crer», assente ele. «Pessoas assim ainda vivem nas colinas por aqui.»
Na manhã seguinte, dirijo-me ao interior, em direcção às colinas. O primeiro «perna vermelha» que vejo parece-se com os homens na fotografia de Warden. Barba hirsuta, camisa às riscas, calções velhos – e com uma catana na mão. Ele acena e volta para o mato. O segundo homem que encontro, Richard King, não é tão tímido. Já passa bem dos 70 e viveu ali toda a vida, cultivando inhames e outros vegetais. Não sabe de onde vieram os seus antepassados, mas os seus olhos azuis cintilantes contam a sua própria história.
Qual é a melhor coisa de viver neste lugar? «Sempre tivemos paz e sossego», diz. «Sei que a ilha está a mudar. Espero que o sossego continue.»
Não encontro aqui uma única pessoa descontente. «A Irlanda?», diz Ann Banfield, que acaba de descascar uma pilha de cocos. «Não trocava a minha vida aqui por nada.»
Interrogo-me sobre aqueles cujos antepassados foram enviados dos fortes de escravos do Gana. Conduzo para o interior até àquela que é a mais antiga aldeia sem brancos de Barbados. O local que procuro foi fundado um século antes da abolição da escravatura, quando o dono de uma plantação cedeu terra à sua amante escrava e aos seus quatro filhos. Mas não encontro Sweet Bottom no mapa – e a razão só a descubro quando finalmente encontro a localidade. «O Governo considerou o nome demasiado maroto, por isso mudaram-no para Sweet Vale», explica Velda Merrick, uma de um grupo de mulheres com longas saias de flores e blusas brancas a trabalhar nas hortas de inhame.
Pergunto a Velda como é que ela lida com um trabalho que parece duríssimo. «O sol é quente, o dia é longo, o dinheiro é curto, mas é a vida de que gostamos», diz enquanto as outras mulheres acenam em concordância.
Para ter outra perspectiva, visito Richard Hoad, criador de cabras e cronista irascível do jornal Nation. A família de Hoad veio de Inglaterra por volta de 1850 para abrir um negócio em Bridgetown. Sentados no seu pátio pergunto-lhe o que pensa da simpatia aparentemente congénita da ilha. «Nós, os Bajan, encontramo-nos no que temos em comum, comemos a mesma comida, ouvimos a mesma música», diz Hoad.
«Até pensamos da mesma maneira. Isso dá um grande sentimento de pertença.»
Como é que Barbados passou de uma virtual sentença de morte para se transformar numa experiência tão amistosa? Atribuo isso a uma alquimia especial entre os Barbadianos e a sua ilha mágica. Cria momentos em que de repente nos sentimos parte do que nos rodeia. E não é preciso ser Bajan para sentir isso. O meu momento acontece na minha última noite, quando vejo uma multidão a assistir a um jogo de ténis de rua em Speightstown. Quando vêem a raqueta na minha mão, fazem-me alinhar também, e de repente vejo-me cara a cara com o actor de filmes de acção Dwayne «The Rock» Johnson. Ele não me dá quartel, mas eu estou inspirado, vendo a bola com clareza absoluta. O Rock atira-me uma bola fraca e eu devolvo-a com o máximo de força e topspin que consigo, fazendo-a passar entre as pernas dele.
Todos aplaudem e riem, e eu fico ali com um sorriso parvo debaixo da luz da rua. Com o coração do tamanho de um continente, tenho a convicção de que acabo de ser «barbadado».
|
| |||||
Faça um Comentário
| Nome* | |
| Email* | |
| Comentário* | |

Mais Populares
Mais Populares
Favoritos da Semana
![]() Receitas e Alimentos | ![]() Dicas e Truques | ![]() Alimentação Saudável | ![]() Destinos e Viagens | ![]() Notas de Lazer | ![]() Conselhos Saudáveis |
Precisa-se: Uma Boa História!
Precisa-se: Uma Boa História!
Escreva-nos e poderá ganhar:
50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Partilhe























