Clarence Bartley, aliás «Bart», um piloto veterano do Alasca, acelerou o motor do seu hidrovião Cessna 180A e viu, ansioso, o seu jovem amigo Dennis Pollard, aos comandos de um Piper Super Cub, preparar-se para descolar. O vento levantara-se sobre as águas cinzentas do lago Tazlina, 270 km a leste de Anchorage. «Isto está a ficar complicado», pensou Bartley. A superfície do lago estava cada vez mais encapelada desde que, há meia hora atrás, os dois pilotos tinham pousado para largar uma trintena de caçadores. Bartley fez sinal com os polegares para cima ao seu colega. Segundos depois, Pollard subiu a crista de uma onda de 1 m e o seu ligeiro Super Cub saltou para o ar como um pato bravo assustado. Bartley sabia que para ele não ia ser tão fácil. O seu Cessna tinha quase o dobro do peso do Super Cub, requerendo mais velocidade e distância para descolar. Ainda assim, com 68 anos e quase 30 000 horas de voo sem incidentes, o piloto entroncado estava confiante. Empurrou o comando de potência e os seus flutuadores começaram a avançar pesadamente na água, contra o vento que soprava a uns 50 km/h. Subitamente, uma onda a rebentar ergueu a aeronave e depois deixou-a cair com um baque. «Eh pá, já chega disto», pensou Bartley. «É demasiado arriscado.» Com aquela turbulência, só havia uma solução: atravessar o lago, uns 11 km, até encontrar uma enseada abrigada para descolar. Apontou o Cessna a sul, na direcção dos montes Chugach e do glaciar Tazlina. O glaciar erguia-se do lago contra a imensidão do céu, como uma magnífica faixa prateada de enganadora serenidade. Mas Bartley tinha outras coisas em que pensar. Tinha que esforçar-se para controlar o aparelho nas águas agitadas, com o motor a roçar o dorso das vagas. Dali a bocado, cerca das 11 horas, começou a sentir o aparelho inclinar-se pesadamente para a esquerda. Três obturadores do flutuador esquerdo tinham sido deslocados durante a descolagem abortada, e os balastros dianteiros estavam a encher-se de água. O nariz do flutuador estava já mergulhado, fazendo levantar a asa direita. Uma rajada de vento vindo do glaciar apanhou a asa direita, e o Cessna começou a voltar-se. Não havia tempo para pedir socorro pelo rádio ou mesmo para activar o sinal localizador de emergência. No instante seguinte, Bartley estava pendurado de cabeça para baixo no cockpit, que se enchia de água escura a uns gélidos 4°C. Bartley debateu-se para desapertar o cinto de segurança e o arnês. Empurrou a porta à sua esquerda, mas ela não se abriu. A fuselagem estava 1,5 m debaixo de água; a pressão da água selava a porta. Deu-lhe um encontrão com o ombro. Nada. Procurando às apalpadelas, soltou o trinco da porta do lado direito, encolheu as pernas contra o tronco e depois esticou-as com toda a força contra a porta. Ela abriu-se. Libertando-se, deu um puxão no cartucho de CO2 do seu colete de salvação para inflá-lo. Com dificuldade, trepou para um dos flutuadores invertidos, vestido apenas com um casaco de algodão, camisa, jeans, botas altas e o colete. A tremer de frio, analisou a situação. Podia tentar nadar até à margem, mas o vento e as ondas eram implacáveis. Teria mais hipóteses se ficasse no avião. Decerto, Pollard voltaria à sua procura. Mas chegaria a tempo? A temperatura do ar era de 7°C, e ele estava ensopado. A cada dez segundos, uma onda gelada vinha bater nele. Dali a pouco, já só a parte traseira do flutuador de 6 m estava acima da superfície. Por volta do meio-dia, o seu corpo começara a ficar entorpecido. Deixara de tremer, o que era um sinal claro de hipotermia. Moveu-se um pouco para a frente, ficando em cima de uma barra transversal que unia os dois flutuadores, com água pelos joelhos. Apoiando-se com uma mão na quilha do flutuador para não perder o equilíbrio, começou a fazer alguns exercícios para manter a circulação sanguínea. Passou-se mais meia hora. E outra. Então, ouviu o ruído inconfundível do motor do Super Cub e avistou o aparelho vermelho e branco de Pollard a sobrevoar a margem oeste do lago, a uns 6 km de distância. Gritou desesperadamente, mas não era mais que um ponto ínfimo quase no meio de um lago agitado com 32 km de comprido. Pollard teria que voar por cima dele para detectá-lo. Bartley tirou um foguete luminoso à prova de água do colete de salvação, mas tinha as mãos dormentes e não conseguia agarrar na argola do foguete. Enfiou uma esferográfica pelo meio da argola e deu um puxão, mas só conseguiu que ela caísse na água. Num frenesim, precipitou-se para apanhá-la, quase caindo do flutuador. Ao fazê-lo, os outros quatro foguetes luminosos que lhe restavam escorregaram do colete e perderam-se na água. Instantes depois, o Super Cub desapareceu no horizonte. «Oh, não», pensou Bartley. «Não pode ser.»

Depois de o deixar naquela manhã, 10 de Setembro de 1995, Pollard fora verificar o que se passava com um outro grupo de caçadores, antes de regressar ao campo-base de Bartley, por volta do meio dia. Quando soube que o seu companheiro não tinha regressado, começou a preocupar-se com a possibilidade de ele ter tido problemas mecânicos. Assim, voltou para dar uma vista de olhos pela margem ocidental do lago, esperando ver o avião de Bart ainda por lá, por causa do vento. Mas não havia sinais dele. Deu duas voltas ao lago e regressou ao campo para reabastecer e pedir a ajuda de um dos trabalhadores para que viesse com ele passar o lago em revista. Às 2.45, Pollard estava novamente a circundar o lago quando viram o que pareciam dois caiaques com um homem num deles a acenar-lhes. Pollard fez uma volta rápida e aproximou-se em círculos. Mal acreditava no que estava a ver. Os dois «caiaques» eram os flutuadores virados do Cessna de Bart. «Ele está aqui há horas!», pensou. «É dos tesos.» Bartley ficou a ver, com ansiedade, a aproximação de Pollard. O Super Cub não fora feito para estas águas agitadas. Pollard estava a arriscar a vida. Mas, bem vistas as coisas, outra coisa não era de esperar de um camarada piloto. O Super Cub bateu na água, oscilou, mas amarou em segurança. O vento empurrou-o velozmente na direcção de Bartley. Quando se chegou perto dele, Bartley, enregelado, agarrou no cabo de amarração do aparelho, mas não tinha forças. «Oh, não!», gritou com a voz enrouquecida quando o cabo se lhe escapou das mãos geladas. O avião afastou-se. Pollard ligou o motor e aproximou-se novamente. Porém, o aparelho deslizou para fora do alcance de Bartley. À quinta tentativa, Pollard conseguiu conseguiu colocar o Super Cub praticamente em cima do flutuador onde estava Bartley, e calou o motor. Arriscando a vida, saltou do cockpit, agarrou-se ao apoio da cauda do Super Cub e, ao passar pelo flutuador, agarrou-o com um pé. Usando toda a sua força, procurou evitar que os dois aparelhos se afastassem. Mas o vento foi mais forte e voltou a separá-los. «Sai daqui enquanto podes!», gritou-lhe Bartley. «Pede uma equipa de salvamento.» Relutante, Pollard voltou a saltar para os comandos do Super Cub e levantou voo. Tinha que subir até uns 1500 m para ter sinal rádio por cima das montanhas. A equipa de salvamento mais próxima estava em Anchorage, a mais de uma hora de helicóptero dali. Se estivesse disponível. O dia já ia longo para o piloto de helicópteros Don Willey, de 36 anos, mas quando ouviu pelo rádio o apelo de Pollard, por volta das 4 da tarde, nem duvidou: havia um piloto em perigo, tinha que ir ajudar. Os seus dois passageiros, topógrafos da Direcção-Geral da Administração do Território, concordaram em dirigirem-se para o local do acidente, e aterraram no aeródromo mais próximo para reabastecer. Para diminuir o peso, um dos homens ficou em terra. Pouco depois, Willey e o topógrafo Ron Walter aproximaram-se do lago Tazlina, vindos de nordeste, enfrentando os ventos que vinham do glaciar. Nessa altura, já três aviões circundavam a área — Pollard no seu Super Cub, um piloto não identificado que estava a retransmitir mensagens da cota de 1500 m, e Al Lee, um outro piloto. Willey fez descer o helicóptero e ficou a pairar mesmo por detrás de Bartley, que estava sentado no flutuador. O seu rosto tisnado estava branco como a cal, os olhos vidrados devido ao choque hipotérmico. Estava na água há quase seis horas. Willey sabia que o seu helicóptero, um Bell 206B equipado com esquis, não flutuadores, não era o mais adequado para uma tentativa de salvamento como aquela, mas o aparelho da Guarda Nacional ainda estava a mais de uma hora de distância e Bartley estava a afundar-se. Cautelosamente, Willey aproximou ainda mais o heli, fazendo os esquis bater nos flutuadores para testar a sua estabilidade. Quando Ron Walter se inclinou para fora da porta do lado direito e agarrou Bartley por um braço, o peso dos três homens ficou do lado de estibordo, deslocando o centro de gravidade do heli. «Largue-o!», gritou Willey, procurando freneticamente reequilibrar o helicóptero. Mas este baixou o nariz e inclinou-se fortemente para estibordo, mesmo na direcção de Bartley! Willey usou toda a sua força para empurrar os pedais do leme para baixo, para tirar dali o helicóptero, rogando aos céus para não despedaçar o corpo de Bartley com as pás. O aparelho afastou-se, mas a pá do rotor principal bateu na água, e o helicóptero despenhou-se. Don Willey ficou lá dentro, enquanto o aparelho submergia. Como não tinha flutuadores, o heli afundava-se como um pedregulho. Cegado pela água escura e glacial, Willey debateu-se para se libertar. Combatendo o pânico, conseguiu esgueirar-se do cockpit e nadar para a superfície. Para seu alívio, viu que Bartley e Walter estavam na água a poucos metros de distância, vivos e conscientes. Mas Bartley estava ferido. Um dos esquis do heli tinha-lhe batido no peito, partindo-lhe nove costelas e perfurando-lhe ambos os pulmões. «Temos que tirá-lo da água», disse Willey para Walter. Walter agarrou numa almofada do helicóptero, que flutuava ali perto. Pô-la sob o corpo de Bartley e depois ajudou-o a içar-se para um dos flutuadores do Cessna. Willey nadou até ao outro flutuador e içou-se também. Havia agora três homens agarrados ao avião em riscos de afundar-se. Voando em círculos 150 m acima deles, no seu Beaver De Havilland, Al Lee assistira à bizarra sequência de acontecimentos. Em condições normais, nunca procuraria amarar em águas tão agitadas. Mas naquele momento não tinha alternativa. Sabia que se fosse ele a estar naquela situação, um outro piloto arriscaria também a vida por ele. «Aguentem-se. Vamos descer», disse para o seu passageiro, Larry Ransom. Desceu rapidamente num arco prolongado, apontando o nariz do Beaver ao vento sul. Ao aproximar-se da superfície do lago, ficou ainda mais alarmado. As ondas rebentavam na sua direcção. Se o nariz do avião apanhasse uma delas a meio da rebentação, o Beaver podia voltar-se. Com o aparelho perigosamente perto da sua velocidade mínima de sustentação, escolheu o momento certo e amarou. Bateu na água com força, o aparelho ressaltou, deu um pouco de potência para ultrapassar uma vaga que se aproximava e depois assentou o aparelho na superfície das águas, a cerca de 20 m dos três homens, a favor do vento. Antes que pudesse reagir, ultrapassou-os, tal como acontecera a Dennis Pollard com o seu Super Cub. Lee sabia que não havia tempo a perder. Deu a volta e reaproximou-se dos três homens. Com perícia, sobrepôs o seu flutuador esquerdo à parte submersa de um dos flutuadores virados. Calou imediatamente o motor, consciente do perigo que representava a sua hélice, e começou a sair. Mas o vento estava já a empurrar lateralmente o Beaver, afastando os dois aparelhos. Teria que ficar no cockpit, com os pés nos pedais do leme, a manobrá-los para manter o nariz face ao vento enquanto os outros ajudavam Bartley. Ransom e os dois homens do helicóptero esforçaram-se por içar Bartley para dentro do Beaver. Ele era grande, e os seus ferimentos no tórax faziam-no urrar de dor. Foram precisos 15 minutos de esforços para pô-lo a bordo. Lee ligou o motor. As pontas dos seus flutuadores estavam quase submersas — pesava quase três vezes mais que o Super Cub e uns 500 kg mais que o Cessna. Era impossível descolar, de maneira que Lee encetou uma árdua jornada: atravessar quase 5 km daquelas águas traiçoeiras. Com os pés sempre a manobrar os pedais do leme, para combater a tendência do aparelho para rolar lateralmente, Lee começou a sentir as pernas pesadas. A cada vaga maior, o aparelho balançava na crista, forçando-o a dar mais potência para não ser atirado para trás. Depois, tombava para a frente. Um erro seu, e afogar-se-iam todos. Finalmente, após 30 longos minutos e centenas de momentos de ansiedade, Al Lee soltou um enorme suspiro de alívio quando conseguiu fazer o Beaver chegar à margem acinzentada do lago Tazlina. Pouco depois, o helicóptero da equipa de salvamento transportava Bartley para Anchorage. A temperatura do seu corpo descera aos 29°C, pondo a sua vida em perigo. Recebeu tratamento para a hipotermia e para os ferimentos no tórax. Nenhum dos outros precisou de ser hospitalizado. Al Lee passou uma noite sem dormir, atormentado com cãibras nas pernas, devido ao esforço que fizera para controlar os lemes do avião. «Nada de especial dadas as circunstâncias», diz ele. «Estou satisfeito por ter resultado.» Bart Bartley sente-se agradecido. «Aquela rapaziada arriscou muito para salvar-me o canastro», diz ele. Para continuar a manter bem alto o código de honra que une os pilotos do Alasca, jura que um dia há-de fazer o mesmo por outro. «Espero que um dia possa retribuir o que fizeram por mim.»

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