Tubarão que ataca não morde

Respirando por um tubo, agarro-me às grades de uma jaula de dois por três metros, no interior da qual desço da popa de um catamarã em direcção ao fundo do mar, ao largo da costa sul da Austrália. Olho para baixo e pergunto-me: «Onde estão os peixes?» Durante toda a manhã, foram às centenas os pequenos peixes que afluíram ao rasto de composto moído que deixávamos atrás de nós, na esperança de atrairmos os tubarões brancos, que são nada menos que os mais temidos predadores dos mares. Mas agora os cardumes de peixinhos desapareceram e a visibilidade é perfeita desde o ponto onde me encontro até ao chão de areia, 20 metros mais abaixo. Embora tenha sido minha a escolha de estar aqui para observar o comportamento do tubarão branco pelos meus próprios olhos, sinto um medo súbito e instintivo. Virando-me no interior da jaula, nada vejo. É então que olho novamente para baixo e o meu coração dispara: um tubarão desmedidamente grande desloca-se rapidamente na minha direcção, com a sua boca cor de rosa com dentes afiados naquela posição como que sorridente a que os cientistas marinhos chamam «o sorriso da morte». Os seus olhos sempre abertos, negros como um manto fúnebre, fixam-me quando passa a menos de meio metro de distância da minha cara. Aquilo que à distância pareciam ser dois buracos sem expressão têm afinal uma espécie de um brilho lá dentro, numas pupilas que tremeluzem, embora mal se distingam. «Está alguém em casa», apercebo-me então. este, segundo me apercebo, não é um peixe normal. Preso às narrativas de ataques a pessoas e pelo famoso filme da década de 70 O Tubarão (sobre um tubarão gigante que aterroriza uma povoação americana), desde há muito que vejo o tubarão branco como um terrível predador de seres humanos, uma impiedosa e solitária máquina de morte. E não sou o único: na década de 1860, Jonathan Couch descreveu o tubarão branco na sua História dos peixes das Ilhas Britânicas como «o terror dos marinheiros, cujo medo de se tornarem numa das suas presas é constante». Mas esta ideia de um assassino da espécie humana por puro instinto é enganadora. Assim o dizem os especialistas desta espécie, tais como Valerie Taylor, a naturalista australiana que, juntamente com o marido, Ron, filmou as cenas subaquáticas d’O Tubarão. «Trata-se de criaturas altamente desenvolvidas, que se situam no topo da cadeia alimentar marinha», explica. «E as descobertas mais recentes proporcionaram-nos novas e fascinantes perspectivas sobre a forma como vivem». «Segundo as provas mais recentes, longe de ser uma criatura solitária e comedora de seres humanos», diz-nos Ian Gordon, investigador marinho de Sydney, «o tubarão branco é um animal sociável que por vezes caça e come em grupo. Prefere comer peixe a comer pessoas e a sua fisiologia assemelha-se mais à dos mamíferos que à dos peixes, permitindo-lhe regular a temperatura do corpo». mas mais notável ainda, segundo Gordon, é o facto de esta espécie parecer ser capaz de tirar conclusões e fazer planos. Diz-nos Mark Marks, biólogo e investigador do Museu Sul-Africano, na Cidade do Cabo: «Acredito que o tubarão branco seja uma criatura consciente daquilo que faz. Já vi alguns a tomar decisões e a alterar o comportamento consoante as situações em que se encontravam». De entre as novas descobertas, uma das mais surpreendentes é a de que este animal consegue manter a temperatura do corpo e da barriga até um máximo de 14 graus acima da água que o circunda, em vez de perder calor pelas guelras, como acontece com a maioria dos peixes. Além disto, os cientistas descobriram também que este predador pode nadar a uma velocidade explosiva (suficiente para conseguir elevar o corpo todo até acima do nível da água). A circulação de sangue quente no estômago permite-lhe processar rapidamente os alimentos, o que lhe dá um acesso mais rápido à energia que deles recebe. «Isto é pouco frequente entre os exemplares femininos», refere Ken Goldman, biólogo e investigador do Instituto de Ciências marinhas da Virginia. «Apenas alguns têm atributos semelhantes. É por isso que o tubarão branco é um caçador tão eficaz». Para observar a fisiologia desta espécie, viajo para a Cidade do Cabo, onde as grandes colónias de focas atraem muitos tubarões brancos. Numa cave do Museu Sul-Africano, sou apresentado à especialista em fisionomia piscícola Rachel Alexander, que me conduz até uma sala de dissecação onde me deparo com a cabeça triangular de um tubarão branco abandonada em cima de uma mesa de ferro, onde se procede às dissecações. «Este pobre coitado encontrava-se a apenas alguns meses de atingir a maturidade sexual quando foi apanhado por uma rede», explica-me ela. Com um bisturi, faz-lhe uma incisão no bico, colocando à vista um conjunto de canais estreitos que vão da pele, através da carne e das cartilagens, até aos receptores sensórios. Os canais, segundo nos explica, são as âmpulas de Lorenzini, que permitem a este animal detectar os impulsos eléctricos emitidos pelas presas. Espreme alguns, de onde sai um líquido sem cor, semelhante ao gel para o cabelo. «Este gel ajuda a conduzir os impulsos eléctricos», explica. As âmpulas do tubarão branco contam-se entre os electroreceptores mais sensíveis do mundo, sendo capazes de detectar uma corrente tão reduzida como um centésimo milionésimo de volt emitido pelo bater do coração de uma presa próximo de si, o que é equivalente a uma bateria ligada a eléctrodos e colocada a várias centenas de quilómetros no oceano. Alexander abre então a cavidade circular situada por detrás do olho, revelando extensões de um tecido semelhante aos tendões, que parecem pilhas de sacos de corda mergulhadas numa coluna de sangue. Passando pelo meio deste emaranhado de tecidos vê-se uma grande artéria, toda enrolada. Alexander mexe naquela massa com os dedos cobertos por uma luva. «Este reservatório de sangue quente transfere o calor para o sangue frio que corre pela artéria antes de entrar para os olhos e cérebro do animal», explica ela. «Calcula-se que a transferência de calor o ajude a ver melhor». A investigação sobre estes animais tem sido prejudicada pelo facto de, inexlicavelmente, estes raramente sobreviverem a mais do que alguns dias em cativeiro. Mas nos últimos oito anos, Goldman tem confirmado estes segredos fisiológicos dando transmissores de temperatura aos animais em liberdade, após o que os segue para registar os resultados. «Descobriu que se trata, em termos funcionais, de um animal de sangue quente, em muitos aspectos mais semelhante aos mamíferos que aos outros peixes», refere Alexander. «Agora vamos ao cérebro», continua. Após desfazer a cartilagem, coloca a descoberto a caixa craniana. O cérebro, cor de creme e com a textura do queijo, é do tamanho de um dedo indicador mais gordo. Apesar das reduzidas dimensões do cérebro do tubarão branco, Mark Marks e o Dr. Leonard Compagno, chefe do Centro de Investigação de Tubarões do Museu Sul-Africano, descobriram em trabalhos de campo recentes que estes animais são suficientemente espertos para possuírem a sua própria «linguagem», um sistema característico de comunicação visual. Quando, por exemplo, abrem muito a boca para mostrar os dentes, podem estar a desafiar os outros, mostrando-lhes as armas. Ao mesmo tempo, quando se colocam com o corpo direito de focinho no chão e cauda fora de água, normalmente com uma presa como uma foca na boca, poderão estar a vangloriar-se perante os outros companheiros de espécie. Ao todo, Compagno e Marks compilaram já uma lista de 80 comportamentos característicos como estes.
Após O Tubarão, os tubarões brancos começaram a ser impiedosamente caçados. A sua apanha por parte de caçadores comerciais nas águas da Califórnia atingiu nada menos de 3652 kg em 1982. Dez anos mais tarde, no entanto, este número baixara já para os 434 kg, numa quebra que se verificou por todo mundo. Graças aos esforços de gente como Gordon e os Taylor, que (tanto na Austrália como noutros pontos do planeta) têm levado a cabo campanhas contra este massacre, os governos da Austrália, EUA, Namíbia e África do Sul declararam o tubarão branco espécie protegida, proibindo a sua pesca nas respectivas águas territoriais. Segundo Gordon, esta foi uma medida importante: tal como os predadores terrestres matam os elementos mais fracos de cada espécie, também os tubarões brancos são necessários para eliminar os mais fracos das diferentes espécies de mamíferos marinhos e peixes, fortalecendo assim o código genético de cada uma delas.
Os dados estatísticos recentemente publicados por George Burgess, director do Arquivo Internacional de Ataques de Tubarões (uma compilação de investigações de ataques feitos por tubarões em todo o mundo), actualmente sediado no Museu de História Natural da Flórida, apoiam a teoria de que muitas vezes os ataques perpetrados pelo tubarão branco aos seres humanos se devem à curiosidade deste animal: quando se depara com algo de estranho, o tubarão branco costuma fazer uma incursão exploratória, para transmitir aquilo a que Compagno chama uma mensagem de «agarra e larga». «Se o tubarão branco, cujas mandíbulas exercem ao morder uma pressão de três toneladas por centímetro quadrado, mordesse os seres humanos com a máxima força, estas suas vítimas ficariam sempre transformadas em carne picada», refere Compagno. Mas não: desde o primeiro ataque a seres humanos registado (ocorrido em 1876 em águas australianas), houve já mais 244, tendo 74% das vítimas conseguido sobreviver. Compagno defende que se trata de um número de sobreviventes tão elevado que nunca seria possível se estes esquálidos quisessem de facto comer todas as suas vítimas humanas. O tubarão branco encontra-se em todas as águas temperadas, mas uma das zonas onde a sua densidade é maior é ao largo do sul da Austrália. Para poder ver alguns exemplares desta espécie, Ian Gordon e os Taylor convidam-me a navegar até às Ilhas Neptuno, uma extensão de ilhéus rochosos 70 kms a sul de Port Lincoln. O nosso catamarã de 30 metros ancora a sotavento do arquipélago. Dentro da jaula de metal, quase submersa no fim de um cabo, olho com desconfiança o tubarão gigantesco que nada à minha volta. A jaula tem uma abertura de 60 cm no tecto. Se ceder demasiado, poderei vir a ser uma das 10 pessoas que, anualmente são atacadas por tubarões brancos. Mesmo um abocanhar exploratório pode provocar lesões gravíssimas, graças à compreensível luta que as vítimas tentam dar. A barriga deste esquálido é muito branca e a parte superior do corpo acinzentada desde o bico até à cauda. Na zona abaixo do seu estômago vejo duas protuberâncias, que indicam tratar-se de um exemplar de sexo masculino. Com uma clareza impressionante, vejo as âmpulas de Lorenzini, um conjunto de orifício negros espalhados pelo focinho como que lhe confere um sombreado semelhante ao da barba por fazer. Das profundezas, este tubarão deverá tê-las usado para detectar os impulsos do meu coração galopante. Fascinado, vejo-o abocanhar as barras da jaula com as suas várias filas de dentes muito brancos, que ficam a apenas alguns centímetros da minha cara. Os 24 do maxilar inferior são pontiagudos, para apanhar as presas, enquanto que os 26 do maxilar superior são serrados, para despedaçar a carne. Agora abana a jaula, enchendo a água de um turbilhão de bolhas. Perde um dente, que se vai afundando devagarinho. Mas, graças às explicações de Ron Taylor, sei que tem muitos mais alinhados no interior da boca e que dentro de alguns dias um deles já estará no lugar do que agora caiu. Decide então afastar-se, mas aparece nas minhas costas pouco depois. Faz isto várias vezes, não importa o lado para que eu esteja virado. Ao fim de algum tempo desaparece com um simples abanar de cauda e é então que outro tubarão branco (desta vez mais pequeno) surge diante de mim. O recém-chegado começa então a exibir-se, nadando ora para baixo ora para cima. De repente, sinto um embate e um novo turbilhão de bolhas atrás de mim. É o primeiro tubarão, que deu novamente a volta e enfia agora o nariz na parte horizontal da jaula que serve de janela, tentando abocanhar-me. A jaula torce-se sob o efeito da sua força colossal. Será que estão a caçar em conjunto? Durante uma visita recente a uma colónia de focas ao largo das Ilhas Neptuno, Gordon observou um tubarão branco entrar na zona de baixa profundidade junto às rochas, que distraiu assim as focas, fazendo com que outro as pudesse atacar por trás. Após O Tubarão, os tubarões brancos começaram a ser impiedosamente caçados. A sua apanha por parte de caçadores comerciais nas águas da Califórnia atingiu nada menos de 3652 kg em 1982. Dez anos mais tarde, no entanto, este número baixara já para os 434 kg, numa quebra que se verificou por todo mundo. Graças aos esforços de gente como Gordon e os Taylor, que (tanto na Austrália como noutros pontos do planeta) têm levado a cabo campanhas contra este massacre, os governos da Austrália, EUA, Namíbia e África do Sul declararam o tubarão branco espécie protegida, proibindo a sua pesca nas respectivas águas territoriais. Segundo Gordon, esta foi uma medida importante: tal como os predadores terrestres matam os elementos mais fracos de cada espécie, também os tubarões brancos são necessários para eliminar os mais fracos das diferentes espécies de mamíferos marinhos e peixes, fortalecendo assim o código genético de cada uma delas. No dia seguinte, ouvimos um grito, que faz com que toda a tripulação do catamarã assome ao convés. Gordon transporta consigo uma vara com um dardo em forma de tubo marcado a tinta colorida e, no momento em que um tubarão branco se prepara para comer um pedaço de atum à popa, atinge-lhe o flanco, onde fica presa uma marca de plástico dourada. Quando o tubarão apanha o pedaço de atum, reparamos numa marca de uma dentada recente acima das guelras. É normal ver-se marcas destas nestes tubarões, acreditando-se que são as fêmeas que mais são mordidas durante o acasalamento. «Vamos chamar-lhe Ouch (N. do T. - em português «Ai»)», diz Gordon enquanto regista os seus dados. Trata-se de uma fêmea com cerca de 500 kg. De forma a que se possa descobrir aspectos novos sobre esta espécie, foram já marcados 105 tubarões brancos na zona das Ilhas Neptuno. Gordon regista os pormenores de cada avistamento e do comportamento de cada um deles. No mês passado avistou 20 dos seus tubarões marcados. «Ano após ano tenho visto aqui os mesmos animais. Acredito que façam todos parte de uma família alargada», afirma. Os tubarões de maiores dimensões são normalmente fêmeas. Um exemplar apanhado em Cuba na década de 40 media 6,4 m. Por vezes, também ao largo das Neptuno se avista uma fêmea de seis metros. A fêmea adulta, que segundo se supõe atinge a maturidade sexual aos 15 anos, é o elemento mais importante do grupo, o portador das novas gerações, pelo que raramente se expõe ao perigo. «São mais os imaturos (normalmente masculinos) quem se expõe ao perigo, caçando em conjunto e investigando novas criaturas», refere Gordon. «No mundo dos tubarões brancos são esses os mais dispensáveis». Até hoje ninguém conseguiu ver tubarões brancos a acasalar e muitos pormenores do seu processo de procriação permaneceram envoltos em mistério até ao momento em que o Dr. Senzo Uchida, do Aquário da Exposição de Okinawa, dissecou duas fêmeas grávidas, apanhadas nas redes dos pesqueiros ao largo do Japão. Descobriu então que as crias nascem de invólucros semelhantes a ovos no interior do útero. Segundo Uchida, as ninhadas até hoje descobertas não têm mais de 14 exemplares, mas o tempo que estes permanecem no útero após saírem dos ovos mantém-se uma incógnita. No momento em que saem do ovo já são predadores: as pesquisas efectuadas por Uchida revelam que os fetos de tubarão branco se alimentam dos ovos não-fertilizados existentes no útero antes de nascerem. Os que chegam a nascer medem cerca de 1,5 m e pesam cerca de 26 kg, encontrando-se desde logo prontos a caçar. Após uma semana ao largo das Neptuno é tempo de regressarmos. Para mim, os tubarões brancos nunca mais me parecerão monstros solitários e sem inteligência. Vi-os como eles são: caçadores inteligentes e senhores incontestados dos seus domínios. Gordon regressará para o ano. Valerie e Ron Taylor, cujo fascínio desde que mergulharam junto destes animais pela primeira vez, já lá vão três décadas, nunca mais se dissipou, virão com ele. «Ainda temos muito para aprender sobre estas criaturas», explica Valerie. «Quem sabe o que eles ainda nos poderão vir a dizer sobre o ciclo da vida nos oceanos?»
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2 Comentários |
| jurandir on 17 February 2011 ,10:07 Ele ataca mais os peixes porque e oque tem mais no ambiente, e muitas vezes atacam o homem porque meche com ele porque esta no seu ambiente... Parabens pelo comentario nao sabia que tubaroes pequenos nasciam em invólucros. |
| Julio Cesar on 29 Dezembro 2009 ,01:36 Pois é, se o tubarão prefere comer peixes do seres humanos porque ele ataca seres humanos como em outros vídeos já mostrados. Na água é muito mais fácil para o tubarão achar peixes do que tubarões. Estas pessoas que defendem este animal poderiam fazer um teste mergulhando próximo aos tubarões brancos e com bastante peixes por perto e ver o que acontece para nos contar. AH ! tem mais um vídeo onde o cara quase perdeu sua perna, ele estava em um lugar com bastante peixes, mas o tubarão preferiu a batata da perna dele. |
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