Tinham uma vida boa, bem controlada. Até que a ideia de acolher três crianças desemparadas se tornou avassaladora.

Passava pouco das 9 da noite. António e Teresa tinham petiscado qualquer coisa, uma sopa, pão e queijo, um copo de vinho tinto a meias. A casa silenciosa, como gostavam, sem a televisão a falar para o nada, no seu hipnótico embalar. Lá fora, a chuva de Dezembro, grossa, a bater nas vidraças. António sentou-se à mesa da sala, rodeado de papéis com números, traços, equações complexas e impenetráveis. Para a tese de doutoramento em Engenharia Civil já tinha faltado menos.

Teresa sentou-se ao computador, na cabeceira da mesa oposta à dele. António levantou os olhos da papelada e mirou-a, sem que ela reparasse. Pensou no bom que era aquela certeza, a certeza de a saber a mulher da sua vida, uma convicção que durava há já 13 anos. Foi quando a olhava, absorto, que viu o rosto dela desfigurar-se. Os olhos a agigantarem-se, a boca aberta, um uivo de susto. Em seguida, os olhos dela cruzaram-se com os dele: «Nem vais acreditar! A lista! Temos a lista!» Ele levantou-se num repente, deixando a cadeira cair para trás. Aquele estrépito marcava o princípio do fim do silêncio naquela casa. Era quase Natal, do ano de 2004.

«Acho graça a estes três», atirou António. Estavam os dois lado a lado, há uns dez minutos assim, estáticos, a ler nomes. Nomes sem fotografias. Nomes apenas. Duas dúzias de nomes: Ivana, Márcia, Joel, Luciana, Josivaldo. Nomes e idades que chegavam de longe por e-mail. Do Brasil. Dois anos, seis anos, três, dez, sete. Ela não sorriu. «Estás doido! Três? Três irmãos? Três crianças assim de repente?» Ele encolheu os ombros. Sabia que a melhor maneira de a convencer era atirar para o ar e repetir até que a ideia, primeiro impossível de aceitar, começasse a ganhar forma até se tornar uma realidade. «Não sei porquê. Mas os meus olhos só se fixam nestes três. Acho-lhes graça, pronto. Se calhar é um sinal.»

O número de crianças não era a única preocupação de Teresa. Assustavam-na as idades. Desde que tinha – tinham – começado a pensar no assunto, no assunto de ter filhos, sempre imaginara um bebé a entrar-lhe pela casa, agarrado aos seus ombros, todo dentro do seu colo. Podia ser rapaz ou rapariga, branco, preto, amarelo. De cabelos loiros, castanhos ou carapinha. Era indiferente. Mas não deveria ter mais de dois anos. Dois anos ainda é pouca vida, pensava Teresa, ainda é fácil esquecer o curto passado, entregar-se de braços abertos a um novo futuro. Se o passado tiver sido muito mau, muito carregado de violência e abandono, é mais fácil apagá-lo, aos dois anos.

António e Teresa não tinham nem têm qualquer problema de infertilidade. Estão casados há 13 anos, namoram há 16. Ter filhos nunca foi prioridade. Nunca esteve na mesa para discussão. Quando, antes de casar, começaram a definir as coisas que são importantes, o ter filhos não fazia parte da lista. Não discutiram nomes, nem se os poriam, a esses filhos que não imaginavam ter, na escola pública ou num colégio.

Viveram sem filhos durante dez anos. Eles é que tinham as rédeas da vida. A televisão desligada, o silêncio a ocupar o espaço, o casal no centro de tudo. Mas um dia, uma colega de Maria Teresa, contou-lhe que estava num processo de adopção internacional. Ela, sem perceber como nem porquê, deixou-se fascinar pela conversa. E, nessa noite, chegou a casa e perguntou: E se? António, sem perceber porquê nem como, acabou a pensar no assunto. E no dia seguinte a terem sido apanhados num fascínio que desconheciam, inscreveram-se na Segurança Social. Mas o tempo anda devagarinho em Portugal. E a Internet chega depressa a todo o Mundo. Procuraram informação sobre adopção internacional, apostaram no Brasil. E, finalmente, ficaram assim, num ânimo crescente, a olhar para duas dúzias de nomes, vindos de outro continente. Nomes sem rosto. Nomes, apenas. Mas não para António e Teresa.

Como sempre, ele foi ganhando terreno. «Aqueles três… Hã? Que dizes? Já pensaste? Três crianças a correr aqui em casa?» Teresa começou a sorrir. Antónia tinha sete anos, Vanda tinha cinco, Duarte dois. «Mas e a mais velha? Como será a adaptação? E mesmo a outra, a do meio? Não será uma loucura, isto?» Nessa noite, não dormiram. Ele virado para o lado esquerdo na cama, ela voltada para o direito, ambos com o pensamento no mesmo lugar. Nessa noite, houve três nomes a ganhar espaço e tempo na cabeça de cada um. Os três irmãos não sabiam. Mas estavam a começar a entrar naquela família de Avintes, no Porto.

Uns dias depois, responderam. Queriam aqueles três. Receberam uma resposta que lhes espicaçou ainda mais o interesse. Havia outro casal interessado, em Itália. Como sempre, as contrariedades aumentam o desejo. Aqueles três nomes começaram a fazer parte do dia-a-dia. Finalmente, um e-mail. António e Teresa tinham tudo para adoptar as crianças. Precisariam de estar dois meses em Fortaleza, até o processo estar legalmente concluído. Os dois tornaram a não dormir nessa noite. E em várias outras que se seguiram.

Faltava um mês para a viagem quando receberam outra carta. A casa já tinha um pouco menos do silêncio de sempre. Havia quartos a sofrer remodelações, caminhas de criança a entrar, e bonecos, e roupa, e fraldas. A carta que chegou pela net pedia uma fotografia do casal: «Queremos começar a acostumar as crianças aos vossos rostos», diziam da instituição brasileira. António e Teresa procuraram a fotografia certa. Queriam uma em que ambos estivessem bem, um retrato que mostrasse mais do que só as suas caras, queriam um pedaço da sua felicidade, da sua harmonia, um rectângulo de paz para que os três irmãos sentissem vontade de lhes pertencer. E fizeram mais. Pediram um retrato deles. Afinal, até então eles eram só três nomes. Duas meninas e um rapaz com os rostos que eles lhes inventaram. No dia em que receberam a fotografia, passaram a existir. Materializaram-se. Deixaram de ser só uma possibilidade E eram lindos. «Tinhas razão. São eles. São mesmo eles!» Mais uma vez, nessa noite, António Fidalgo e Maria Teresa Pinto Fonseca não dormiram.

Em Agosto de 2005 partiram para Fortaleza. O coração a bater em descontrolo, mais tempo de vigília, a vida toda prestes a mudar para sempre. «Estes são os vossos futuros pais.» Antónia, Vanda e Duarte mediram-nos de alto a baixo. Antónia, sobretudo. Aos 7 anos, já tinha desistido de acreditar que aquele dia chegaria realmente. Estava amarga mas agarrou-se de imediato ao pai. Focalizou-se nele. Já Duarte, não queria nenhum dos dois. Não suportava o contacto humano, abraços, beijos, o toque. Só era possível falar-lhe sem olhar nos seus olhos. Até os bonecos ele mandava para longe, com violência. Tinha-se protegido numa cápsula e experimentava uma espécie de autismo defensivo. Não reagia, estava ausente.

Vanda era agreste. Por ser tão bonita, tinha a rejeição demasiado marcada na carne, na alma, na vida. Todos os que visitavam a instituição a miravam, exclamavam como era linda, pegavam-lhe ao colo, queriam levá-la. Depois, sabiam que havia mais dois irmãos. Que teriam de levar três. E pousavam-na, quase com repulsa. Vanda passou por isto vezes demais. De tal modo que, durante muito tempo, guinchava de horror sempre que os pais desapareciam do horizonte. Um dia, um deles perguntou: «Mas tu achas que nós vamos embora?» Ela respondeu sem hesitar: «Acho.»

Durante 15 dias, aprenderam a conhecer-se. Iam buscá-los e depois voltavam a deixá-los no centro de acolhimento. Comiam gelados, bebiam água de coco, riam. Lidavam com a agressão e sabiam que eles os punham à prova. Antónia desprezava a mãe. Ostensivamente. Dizia que não gostava dela, que só amava o pai. Teresa ia-se abaixo mas voltava a ganhar forças. Tinha lido muito e, como médica, sabia que estava a passar por um teste. Um duro exame de maternidade.

Os dois meses foram, de resto, de uma violência psicológica enorme. A polícia federal seguia-os, ia fazer perguntas ao hotel onde estavam, vasculhava tudo para se certificar da sua idoneidade. Depois, as confusões dos papéis. Certidões de nascimento atrasadas, passaportes que não havia maneira de ficarem prontos. Burocracia atrás de burocracia num país estranho, com três crianças que acabavam de conhecer.

Depois de lida a sentença, os cinco vieram para Portugal. Chegaram a um sábado, dia 1 de Outubro de 2005. Começava uma nova vida para todos. No momento em que a porta de casa se abriu, o silêncio morreu, por fim. Os miúdos mexeram, olharam, mediram. Riram, choraram. Estavam longe do seu país, longe da instituição onde viviam há três anos, longe de um percurso de abandono. Tinham colo, finalmente. E, no entanto, não sabiam ainda bem o que fazer com ele.

Hoje, os cinco são uma família como as outras. Passaram dois anos. Vanda é, talvez, a que ainda procura mais respostas. «Porque é que vocês nos deixaram lá? Onde é que andaram? Estavam aqui e nós lá?» E mais: «De onde nascem os bebés? Da barriga das mães? E eu? Nasci da tua barriga? Não?! Então eu sou a única pessoa que não nasceu de uma barriga?»

Mas os pais também procuram a serenidade que tanta convulsão provocou, de repente. Teresa passou pelo processo do pós-parto, sem ter parido. Teve uma leve depressão, chorou, teve os medos todos que os pais recentes têm. Só que os seus ainda duram. Tem medo que tenham frio, medo que tenham fome, quer dar-lhes tudo aquilo de que foram privados, no início das suas histórias. E tem horror a que lhes aconteça alguma coisa, um horror presente, quase persecutório: «Penso assim: mudei o destino destas crianças, supostamente para melhor, não é? Mas... e se são atropelados? E se lhes acontece alguma coisa má? Fomos nós que lhes mudámos o percurso. Tudo tem de ser quase perfeito. E eu vivo a pensar nisto.»

António e Teresa não são heróis. Recusam o epíteto. Querem gritar ao mundo que heroínas são as crianças, abandonadas e deixadas a crescer em instituições, sem amor, sem família, sem se sentirem únicas para alguém. Os três irmãos são heróis. Cresceram, têm bom aproveitamento escolar, estão perfeitamente integrados. Mas António e Teresa não podem rejeitar o cognome. Afinal, eles mudaram três percursos. Três vidas. Três destinos.

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