Teresa Guilherme em entrevista

Teresa Guilherme é o tipo de mulher que diz: «Desejar é a primeira coisa, tentar é a segunda coisa, fazer é a terceira e conseguir fazer bem é a quarta.» Teresa Guilherme é o tipo de pessoa que muda de vida aos 35 anos. Que repete clichés, que surpreende quando estende um livro de psicologia em inglês, que é fanática das boas energias e acredita no Além.
Tem 53 anos, não tem filhos. É filha de uma mulher bela, cantora, que idolatra e que sabe mais intimamente da filha do que ela própria. É filha de um homem alegre, cantor, que desestabilizava uma casa de mulheres quando aparecia. É uma mulher que sabe que não é bonita, mas que põe toda a gente a olhar para ela – star quality, chamam-lhe os Americanos.
Aos 35 anos, mudou de vida quando começou a fazer televisão. O que está para trás são empregos de circunstância de que já nem ela se lembra. O que ela é: apresentadora e produtora de televisão. O padrasto, outro cantor, Tony de Matos, que não chegou a vê-la em televisão, dizia-lhe que ela comunicava extraordinariamente bem.
É por isso que a conhecemos. Porque Tony de Matos estava certo.
O que talvez não saibamos, e ficamos a saber nesta entrevista, é da sua relação com o dinheiro, com a psicanálise, com o envelhecimento, com as contas que se acertam em família, com a verdade e a mentira.
Teresa Guilherme lê o que está nas coisas que se dizem. As dos outros, também as dela. Como se se submetesse ao polígrafo. Como se, nos exemplos que escolhe, estivesse também o seu não-dito. O programa que apresenta na SIC, líder de popularidade, foi o ponto de partida para a conversa. No dia seguinte, ela iria de férias para Nova Iorque.
Selecções do Reader’s Digest – Quando as pessoas vão ao «Momento da Verdade», têm consciência de que podem ficar completamente despidas, que lhes vão ser feitas perguntas íntimas, relações familiares vão desmoronar-se, máscaras e artifícios vão cair. Vão, mesmo assim. Porque é que aceitam ir?
Teresa Guilherme – Toda a gente acha que as pessoas vão aos concursos por causa do dinheiro. Eu sempre achei, e não é de agora, que o que as pessoas querem é dizer coisas. Aos pais, aos irmãos, aos colegas, a si próprias. Comecei a perceber que havia um certo prazer em dizer coisas como: «Eu sei que isto é um disparate, mas acho que sou mais bonita do que a minha irmã.» Às vezes, têm necessidade de dizer que os pais não lhes dão atenção ...
SRD – Que foram mal-amadas?
TG – Que se sentem mal-amadas. E os pais têm necessidade de contrapor ou não. Uma pergunta, que sempre considerei a mais violenta de todas: «Acha que é melhor mãe para os seus filhos do que a sua mãe foi para si?» Com a mãe lá. E ela responde: «Sim, sou.» Isto é uma coisa que ela quer dizer à mãe, não é? Há ali uma catarse, sente-se que se desprendeu uma verdade calada.
SRD – O programa é sobretudo uma catarse?
TG – Para mim, é. O que eu vejo é a necessidade de desabafar uma coisa que não conseguem dizer à outra pessoa, sozinha com ela, ou a uma família. Torna-se mais importante quando dizem à frente de toda a gente. Junta-se uma espécie de coragem – que é mentira, porque é preciso ter mais coragem para dizer uma verdade olhos nos olhos. Mas fica dito, não é uma coisa que se possa voltar atrás. Foi na televisão, está gravado, as pessoas assistiram.
SRD – Porque é que as pessoas não conseguem dizer uma à outra as coisas que dizem na televisão? Porque é que precisam dessa intermediação?
TG – As pessoas não falam dos sentimentos, não é? Falam dos factos. Perguntam: «Como te sentes?», «Então, está tudo bem?», mas não querem saber. Podiam ser palavras em russo. Responde-se «Sim, sim», e estamos péssimos. É um cumprimento como «Olá» e «Adeus». As pessoas não querem saber como o outro está. Querem manter a opinião que tinham, a sua paz de espírito ...
SRD – Querem manter um quadro seguro, previsível?
TG – É. E vive-se num mal-entendido. Há quem viva num engano a vida inteira. O mais interessante num reality show é perceber o que está por detrás do que está dito. O que é que a pessoa vai limpar. Que é jogador, que gastou uma herança, que roubou uma pessoa, que não gosta da mulher, que não gosta do marido? Um psicólogo pode ler isso com clareza. Há no programa um psicólogo, mas não nos passa as suas notas; só diz se a pessoa está em condições psicológicas de entrar no programa ou não.
SRD – Como é que, resumidamente, o programa é feito?
TG – O casting tem um questionário de 300 perguntas. A partir dessas, forma-se um grupo de 50 perguntas – as do polígrafo. Têm que ser completamente directas. À pergunta que é feita no polígrafo não é mudada uma palavra, uma vírgula. Portanto, a pessoa sabe que aquela pergunta pode sair naqueles termos – não há surpresa. Pode desistir a seguir ao polígrafo, pode desistir em qualquer momento, tem 50 hipóteses para desistir. Se decide ficar, é porque decidiu dizer coisas publicamente. A partir daí, o meu papel como apresentadora é expor factos, mais nada.
SRD – Considera que o dinheiro não é a motivação principal. Então, que peso é que ele tem?
TG – Quando começa a estar muito dinheiro em jogo, a partir dos 25 mil euros, as pessoas ficam obcecadas. A partir dos 25 mil euros, começam a olhar para o quadro – «Quantas perguntas é que faltam para atingir os 250 mil euros?» Aí, dizem seja o que for. Aí, o prazer de ganhar está acima do prazer de dizer. Mas não é por isso que se inscrevem, que se colocam naquela situação desconfortável. É como se fosse um exame: ninguém gosta de ir. (Eu gostava, para ver depois o resultado.) Querem acertar contas. Quais são as contas mais duras de acertar? Filhos e pais. Ou irmãos. Marido e mulher vão ali porque não têm coragem para se separar, e respondem a perguntas que levam a que a outra pessoa se vá embora.
SRD – As respostas são sempre verdade ou mentira? O polígrafo só detecta o branco e o preto?
TG – Detecta a luta. A instabilidade entre o que a pessoa acredita por fora e o que acredita por dentro aparece no polígrafo. O preto, mentira clara, aparece de uma maneira ... Ainda há as inconclusivas.
SRD – Um dos casos mais surpreendentes foi o do homem que batia na mulher: disse à frente da mulher, dos filhos e da mãe que por 250 mil euros era capaz de ter relações homossexuais. Ele queria dizer isso à família? O que é que ele queria dizer?
TG – Por mais odioso que seja um homem que bate numa mulher, não é isso que está em causa. É um concurso, há que respeitar as regras. O que ele queria dizer era que se queria libertar da mãe. Que queria que a mulher fosse mais parceira a todos os níveis. O que ele não queria dizer, mas acabou por dizer, e foi dramático, é que o filho não é aquilo que ele esperava. O filho é uma desilusão para ele como ele foi para o pai. Outra coisa que ele queria dizer à mãe: «O meu pai não gostava de mim porque tu me criticavas.» Foi lá dar imensos recados importantíssimos para ele.
SRD – Este é um discurso de uma mulher psicanalisada. Provavelmente, não estaria tão atenta a este circuito relacional, intrafamiliar, se não tivesse feito a dissecação das suas relações familiares. No divã.
TG – Fazer análise implica olhar para os nossos sentimentos, quer doa, quer não doa, senão não se avança. E obriga a olhar para os sentimentos dos outros. Eu leio imenso estas reacções, os lapsos. Estou sempre a tentar perceber o que é que as pessoas querem dizer com aquilo que dizem. Elas dizem para ver se a outra pessoa descobre. É um jogo do gato e do rato. SRD – Com quem é que aprendeu o que é verdade e o que é mentira, o que é público e o que é íntimo? No fundo, o programa trata disto.
TG – A verdade dos factos é a verdade dos factos. Mas há sempre a interpretação de quem os lê. As desculpas. O que me ensinaram é que mais vale enfrentar as verdades do que contorná- -las com mentiras, porque dá imenso trabalho ... Aprendi com duas pragmáticas, a minha mãe e a minha avó. É melhor ser sincero do que esperar ser descoberto. E que a humilhação, seja ela qual for e em que grau for, é ser apanhada numa mentira, mesmo que na altura pareça justificável dizer a mentira. Depois, há as mentiras piedosas, e essas não contam. O que conta é poder dizer a verdade e dizer uma mentira.
SRD – Essa é a sua regra?
TG – É. No entanto, sou tão mentirosa como as outras pessoas.
SRD – Em que coisas mente?
TG – «Achas que o meu marido tem outras?» [Noutro tom de voz:] «Acho que o vi na rua»... E a resposta é: «Que disparate, ele gosta imenso de ti!» O que é que a gente vai dizer? Vai adiando, à espera de que as coisas se resolvam. Mas foi-me incutida de tal maneira a história de dizer a verdade que acabei por exagerar, como habitualmente faço: sou aquela que aponta o dedo a tudo. Digo a verdade mesmo que não me perguntem nada. É meter o nariz onde não sou chamada, literalmente.
SRD – Porque é que se mete?
TG – Coisas de justiceira. De achar que não dizer, sabendo, é mentir. Omitir é mentir. Mas com o passar dos anos deixei de o fazer.
SRD – O que é que a fez mudar?
TG – A impunidade. Dizer as coisas faz pouquíssima diferença para a maioria das pessoas. E o preço que se paga por isso. As pessoas não ouvem. Ou não querem acreditar.
SRD – A divisória entre o que é íntimo e o que é público: como aprendeu a reconhecê-la, a construí-la?
TG – Tudo é íntimo enquanto se mantém íntimo. Se decide dizer, por sua livre vontade, uma coisa íntima, ela passa a ser pública – tão simples como isto. O que está errado é dizer coisas que não quer dizer e que os outros descobrem.
SRD – De que coisas se fala em público e de que coisas não se fala?
TG – Para a minha avó, o básico era: aquilo que parece bem e aquilo que parece mal. E não se fazem coisas que choquem as outras pessoas.
SRD – A maior parte dos tabus, e isso percebe-se no programa, são do foro sexual.
TG – A nível sexual, os Portugueses são pequeninos, púdicos. Não é hipocrisia, é pudicícia. São falsos púdicos interessadíssimos no assunto. Discutiu-se até à exaustão uma das 300 perguntas do questionário: «Gostava de ter um pénis maior?» É uma banalidade. Qual é o homem que não responderia sim?
SRD – Se fosse concorrente e se submetesse ao polígrafo, o resultado seria surpreendente para os que estão à sua volta? Para a sua mãe e a sua avó, que são as pessoas que lhe são mais íntimas.
TG – A minha mãe tinha mais hipóteses de responder verdadeiramente sobre mim do que eu! Acho mesmo. Ela tem a perspectiva do que é e daquilo que eu gostava que fosse. As coisas que doem estão detectadas – não quer dizer que eu as resolva. Então, ponho uma «fachadazita»; um dia cai a fachada. Qual é a pior pessoa a quem se mente? A nós próprios. E mentimos todos os dias, a toda a hora. Até um dia em que já não se consegue mentir mais.
SRD – Porque é que a sua mãe responderia mais verdadeiramente sobre si?
TG – Ela sabe bem o que é que me motiva, o que faço com sacrifício, o que faço porque sim, o que faço sem pensar nisso. Não se deixa embrulhar, mesmo nas mentiras que eu conto a mim própria.
SRD – Este programa é o primeiro de um ciclo novo na sua vida. O facto de estarmos no seu «velho» escritório é sintomático disso. O que é que ainda a estimula, o que é que a faz correr?
TG – O que sempre fez. O que é que é mais difícil fazer? Onde é que posso aprender? Onde é que posso melhorar? Onde é que posso fazer uma diferença? É o que toda a gente deseja.
SRD – Quer distinguir-se, ser reconhecida na sua singularidade. É uma forma de pedir que gostem de si. Um pouco como aquela que vai fazer o exame à escola com gosto e fica à espera do resultado. Ou seja, fica à espera de um bom resultado porque sabe que isso lhe garante que gostem de si.
TG – É. Todas as pessoas que se expõem publicamente numa profissão como a minha são sempre pessoas que se consideram mal-amadas – não quer dizer que sejam. Ninguém quer ser actor, ninguém quer ser apresentador, ninguém quer ser cantor: só querem ter a certeza de que a mãe gosta deles! Li essa história num sítio qualquer e achei-a muito engraçada. Precisam daquela aprovação: se eu brilho para toda a gente, então também brilho para esta pessoa.
SRD – Tudo isso ainda é virado para fora. E a satisfação íntima, o brilho para dentro?
TG – Uma pessoa também precisa de brilhar para si própria. O meu perfil é o de Narciso – é o pior de todos para envelhecer.
SRD – Diz-se que está riquíssima. Que relação tem com o dinheiro?
TG – Graças a Deus, nunca pedi dinheiro emprestado. A cabeça de merceeiro também a devo à minha avó e à minha mãe. Os meus pais eram cantores, e então era: se há dinheiro para comprar, compra-se, se não há dinheiro, não se compra. Não se gasta nunca tudo, e nunca se conta com o dia de amanhã como seguro. Comprei sempre tudo a pronto, não tenho dívidas nenhumas nem empréstimos.
SRD – Tem um evidente orgulho nisso.
TG – Eu achava que era uma coisa pequenina e provinciana ... As pessoas têm que viajar leves na vida. Elas não podem ter que aceitar um trabalho que não querem fazer, ficar num país onde não querem estar, fazer seja o que for porque estão encalacradas.
SRD – Nunca correu atrás do dinheiro?
TG – Ao contrário, foi sempre a última motivação. O dinheiro é importante, e o nosso trabalho só é reconhecido até por nós próprios, e talvez tenha aprendido isso na psicanálise, se somos pagos como deve ser. Toda a gente sabe que, a nível de fornecedores, a nível de empregados, até podiam os meus clientes não pagar, mas as pessoas tinham que receber o seu dinheiro a tempo e horas – é uma relação simples de patrão e empregado. Os patrões estão lá para dar um emprego e mandar fazer, e o empregado está lá para fazer bem e receber o seu dinheiro – não tem nada que saber. Sempre paguei acima da média, porque as pessoas acabam por sentir que o trabalho delas é reconhecido: se me pagam sempre e se me pagam bem, é porque o meu trabalho é bom e eu sou bom. É uma questão de auto-estima.
SRD – Usa essa estratégia para si própria?
TG – Sim. Nunca dei aquilo que tinha para vender, nem mais barato. Se só têm «aquele» dinheiro, e se for uma coisa de muito interesse para os outros, o que eu faço é escolher uma instituição e dar esse dinheiro – eu não ganho isso. Antigamente, dizia que não queria nada e acabou-se, mas depois pensei que era melhor dar a velhinhos, crianças, a quem precisar. Já faço isto há muitos anos. A minha relação com o dinheiro é muito clara: se é giro ou não é, se quero fazer ou não, e no fim acabo por perguntar quanto é que estão a pensar pagar. No Big Brother, nem sabia quanto é que estava a ganhar. Mas quando me disseram: «Daqui a 17 dias há outro», respondi: «Quero o dobro do que me davam.» E fui sempre dobrando. No fim, estava a ganhar uma fortuna.
SRD – Tem 53 anos. A barreira dos 50 é dura?
TG – É importante porque parei para pensar. A crise dos 40 é: fazer, fazer, fazer, eu ainda estou a tempo de fazer tudo. A crise dos 50 é: faça eu o que fizer, vou morrer sempre. Não tenho nenhum medo de morrer, acredito no Além, acho que é uma passagem. A questão passa a ser: «O que é que vou fazer com o tempo que me resta?» Peço sempre desculpa às pessoas que sofrem de doenças cedíssimo, mas para as que têm a sorte de ser saudáveis, o countdown [contagem decrescente] começa aos 50. Arranjamos tempo para aquilo que achamos que é mais importante, e nunca achamos que o mais importante somos nós. Realmente, já não há tempo nem tiros para desperdiçar. Podemos viver até aos 80, mas não com a mesma qualidade. A minha mãe dizia sempre isto: «Fazer a mesma viagem aos 30, aos 40 e aos 50 são coisas diferentes.»
SRD – Vendeu a sua participação numa empresa de produção que formou com a SIC. Desvinculou-se do canal, mesmo que continue a fazer programas para a SIC. Que ciclo se inaugura?
TG – Toda a vida desejei não trabalhar em Portugal, desejei trabalhar num sítio onde as pessoas fossem todas melhores do que eu, onde eu pudesse brilhar com o brilho dos outros em vez de ter os outros agarrados ao meu. Cansei-me de tomar conta e agora quero estar encostada a alguém. É preciso coragem para parar. Sair daquele «caminhinho» em que íamos. E apagar o medo de perder, o medo de errar. Qual é o próximo passo? Não sei. Mas tenho a certeza de que vou trabalhar no estrangeiro. Estou convencida de que não tenho que me ir embora definitivamente. Aqui é que não. Um país sem dinheiro, onde as pessoas exigem cada vez menos de si próprias e aceitam tudo. Tudo o que é fácil – é o que querem. Acredito que há isso em todos os países, mas também há a HBO!
SRD – A companhia americana que produz séries como Sopranos ou Sexo e a Cidade.
TG – Portanto, eu quero ir trabalhar para a HBO! [Risos.]
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