Será que Deus existe?

Há novos indícios de que os humanos foram feitos para acreditar em Deus.
Uma noite, em Abril passado, correram rumores de que a Virgem Maria aparecera no sótão de uma casa perto de onde vivo. Manifestava-se sobre a porta de um armário na forma de uma mancha suave de luz dourada, sugerindo uma figura envolta num manto. O proprietário da casa explicou que a imagem só aparecia à noite, quando os candeeiros de rua estavam acesos e a janela frente ao armário aberta.
Junto à casa, centenas de pessoas esperavam em fila, aguardando horas a pé por um vislumbre do milagre. E enquanto via televisão, perguntei-me a mim mesmo: por que será que na nossa sociedade esclarecida tanta gente se deixa atrair para a noite por um arremedo tão esfarrapado de uma aparição de glória? E, segundo: que impulso latente, que desassossego, me impelia a guiar até lá e ocupar o meu lugar na bicha? Estou a almoçar com Andrew Newberg num restaurante dos arredores de Filadélfia. Newberg é professor na Universidade da Pensilvânia e encontrámo-nos para discutir a sua teoria biológica da religião, que, segundo crê, proporciona uma base neurológica à grande sede humana de Deus. A teoria fez de Newberg, que tem 35 anos de idade, uma figura de proa da emergente ciência da neuroteologia, que explora os elos entre a espiritualidade e o cérebro.
Newberg diz-me uma coisa que não tenho a certeza de compreender bem: que a lendária «realidade superior» descrita pelos místicos é, na verdade, real. «Quer dizer figurativamente real ...» digo eu, intrigado. «Não», responde ele. «Real como esta mesa. Mais real que isso, na verdade.» «Está a dizer-me que a sua investigação prova que essa realidade superior existe?», pergunto. «Estou a dizer-lhe que a possibilidade dessa realidade não é inconsistente com a ciência», responde ele. «Mas não se pode observar uma coisa dessas de forma científica, ou pode?» Newberg franze-se. É que ele não só observou esse estado, como conseguiu tirar-lhe uma fotografia.
A teoria de Newberg baseia-se no estudo iniciado em 1970 pelo falecido Eugene d’Aquili, um psiquiatra e antropólogo. A teoria de d’Aquili descreve como a função cerebral pode produzir um leque de experiências religiosas, desde as profundas epifanias dos santos ao sereno sentimento do sagrado experimentado por um crente durante a oração. No início dos anos 1990, d’Aquili fez equipa com Newberg, especialista de radiologia, e ambos afinaram a teoria e passaram à experimentação. Recorreram a uma tecnologia de imagem chamada SPECT, fazendo scannings dos cérebros de monges tibetanos em meditação e dos de freiras franciscanas em oração profunda e contemplativa. Os scanners fotografavam o fluxo sanguíneo — índice dos níveis de actividade neurológica — do cérebro de cada indivíduo no momento em que atingia um pico espiritual intenso.
Quando os cientistas estudaram as imagens obtidas, chamou-lhes a atenção uma porção do lobo parietal esquerdo a que chamavam área de orientação-associação. Esta região do cérebro é responsável pela definição da fronteira entre o eu físico e o resto da existência, uma tarefa que exige um fluxo constante de informação neural com origem nos sentidos. O que as imagens revelavam, contudo, era que nos momentos-pico de meditação ou oração esse fluxo era drasticamente reduzido. Segundo crêem os cientistas, ficando a área de orientação privada da informação necessária para estabelecer a fronteira entre o eu e o Mundo, o indivíduo experimentava uma sensação de consciência ilimitada e comunhão com o infinito.
O que tinham conseguido pareciam ser instantâneos do cérebro numa fase próxima da transcendência mística — descrita por todas as religiões como uma das mais profundas experiências religiosas. Os santos católicos referiam-se a ela como uma «união mística» com Deus. Estas são experiências raras que exigem um quase total bloqueamento da área de orientação. Mas Newberg e d’Aquili acreditavam que um grau menor de bloqueio produziria um leque de experiências espirituais mais serenas e comuns, como quando os crentes «se perdem» em oração ou se sentem em união durante um serviço religioso.
A sua investigação sugere que todos esses sentimentos têm raiz, não na emoção ou numa inclinação voluntária, mas na conformação genética do cérebro. «Quer isso dizer que Deus não é mais que uma percepção gerada pelo cérebro? Ou que o cérebro foi concebido para experimentar a realidade de Deus?», pergunto eu. «A resposta melhor e mais racional que eu posso dar às suas duas perguntas», responde Newberg, «é sim.»
O caminho que me levou até Newberg começou muitos anos antes. Eu tinha um casamento feliz, trabalhava no que gostava e tinha uma família grande e feliz. Em poucos anos, porém, a roda do destino vingou-se. A minha mãe morreu com cancro. O meu irmão foi vítima de um ataque cardíaco. Perdi uma avó, quatro tios e uma tia. O efeito cumulativo de todos estes desgostos deixou-me desfeito. Procurei consolo na oração, mas as palavras tropeçavam-me na boca. Tentei então recordar qual era a sensação de acreditar em Deus. Vi-me em criança sentado numa capela, vibrando até aos ossos com o som dos cânticos latinos. Mas quando tentava recordar a experiência da fé — como era realmente a sensação de acreditar —, as emoções não vinham à superfície.
Do que eu me lembrava era da terrível e secreta santidade que se juntava nos cantos mais escuros da igreja. Na luz das velas, na música, nos gestos rituais do padre. Era enorme, misteriosa e sagrada.
À medida que cresci, esqueci-me dessas coisas santas à espreita nas sombras. Via-me a mim próprio como um tipo racional que já ultrapassara a superstição. E então, à medida que a meia-idade se instalava e o Universo mostrava as garras, deixei de saber para onde me virar. Caíra numa terra-de-ninguém espiritual. Durante esses meses inquietos, o meu agente falou-me de Andrew Newberg e disse-me que procurava um escritor para colaborar com ele na feitura de um livro sobre a religião e o cérebro. Encontrámo-nos um mês mais tarde.
Não foi fácil. Ao ocupar-me do misticismo, senti-me perdido numa sala de espelhos. Um místico islâmico disse: «Nós e as nossas existências somos não-existências.» Um budista contribuiu com isto: «Nunca existiu. Nunca foi não-existente.» E o místico cristão da Idade Média Meister Eckhart nota que Deus «é ser para além do ser, Ele é nada para além do ser». A confusão era tão profunda que não sabia a que me agarrar. Foi então que tropecei numa passagem escrita por Bede Griffiths, um monge beneditino contemporâneo. Griffiths descreve a sua experiência de um passeio nocturno em que ficou subitamente encantado pelo canto de um bando de pássaros. O cantar acordou nele sentidos que nunca usara. De repente, conta, o Mundo pareceu transformar-se, como se tivesse acedido «à presença de um mistério insondável que parecia atrair-me para si».
Era isso: nem sarças ardentes, nem som de trompetes. Apenas um despertar sereno e gentil, uma suave epifania que muitos teriam simplesmente sacudido. Mas que mudou para sempre a vida de Griffiths. Cedo deparei com relatos de revelações semelhantes: pessoas surpreendidas por um maravilhamento ao lerem poesia sondavam o Cosmo ou rezavam. A experiência mística, como eu começava a perceber, não era uma ascensão mágica até um distante paraíso literal. Era um entendimento, sereno e pessoal, de que milagroso e mundano são uma e a mesma coisa e de que ambos estão debaixo dos nossos olhos.
Pela primeira vez desde criança, senti a presença de qualquer coisa misteriosa e boa. O quê, não sei e, de certa forma, nem precisava de saber. Depressa aprendi que, para os místicos, só quando o eu é posto de lado durante a meditação é que conseguimos ver a realidade como na verdade é. De facto, as imagens de Newberg sugerem que o cérebro será capaz de experimentar duas realidades. Numa, a percepção atinge a mente através do filtro do eu. Na outra, o eu é posto de lado, e a percepção torna-se mais ampla.
«E não há maneira de saber se uma é mais real que a outra?», pergunto eu. Andrew Newberg sorri. A realidade, teoriza ele, é uma questão de grau — o que se sente como mais real é mais real. «Os místicos tendem a viver esse estado transcendental como mais real do que a realidade comum», explica. Estou emudecido. Não consigo engolir a noção de que as revelações místicas deveriam conformar a nossa visão prática da existência. Até que encontrei uma passagem escrita por Albert Einstein: «A mais bela coisa que podemos viver é o misterioso. É a emoção fundamental que suporta o berço da verdadeira ciência. Quem já o esqueceu e já não se interroga nem se maravilha é como se estivesse morto.» Vim a saber que a opinião de Einstein é partilhada por outros grandes cientistas — Niels Bohr, Max Planck e Werner Heisenberg —, que chegaram à conclusão de que há lugar no universo racional para maravilhas incompreensíveis.
Não posso afirmar que tenha reencontrado a religião ao escrever o livro. Mas consegui compreender que os maiores e mais fascinantes mistérios são para saborear, e não para resolver. E o mistério rodeia-nos: basta ser humildes e prestar atenção. «A minha salvação consiste em ouvir e responder», escreveu Thomas Merton, um monge trapista. «Por isso, a minha vida tem que ser silenciosa. De onde, no meu silêncio, a minha salvação.» E esse, decidi eu, é o meu novo plano-mor: esquecer-me de andar informado, ou ser interessante ou ser racional. Calar a boca e deixar-me ficar a ouvir.
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1 Comentários |
| Pedro Cabral Cavalcanti on 20 February 2011 ,21:30 O MITO DO DEUS PAI, publicado pela Editora Biblioteca 24X7, é um livro de minha autoria que discute o Universo Inteligente, senhor de sua própria criação, mostrando de maneira definitiva que é impossível existir um Deus Pai no Universo, pois o Infinito não pode se transformar no ser finito, antropomorfo. Ele também traz uma nova teoria sobre a formação das galáxias, estrelas e até formação e evolução dos espíritos. Portanto, não é um livro materialista. Para quem tem dúvidas sobre o 13º signo, aconselho a ler meu livro CONHEÇA A ASTROLOGIA PARA MELHOR SE CONHECER, publicado pela Editora Baraúna. Nele, lanço uma nova teoria sobre o zodíaco como sendo o próprio campo magnético terrestre originado na formação da Terra e imutável. Na realidade, Serpentário não é um signo e sim uma constelação que está entre Escorpião e Sagitário. Existiu sua influência no zodíaco na formação da Terra, porém incorporada às de Escorpião e Sagitário, uma vez que sua separação é apenas na visão das constelações. Pedro Cabral Cavalcanti pcabralcavalcanti@gmail.com |
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