Sem pulsação
Apoiada nas almofadas, Julie Mills perguntava-se por que é que haveria tanta gente a passar pela sua cama no Hospital John Radcliffe, em Oxford, Inglaterra. Julie, de 21 anos, que estudava para ser professora, tinha cabelo castanho e a pele rosada típica das inglesas. Ela não o sabia, mas era a heroína do dia. O monitor que seguia a sua tensão arterial exibia uma linha horizontal. As enfermeiras que auscultavam o seu peito com estetoscópios só detectavam um zumbido apagado. Os médicos que colocavam os dedos nas veias do seu pulso não detectavam a pulsação.
A jovem sem pulso fora submetida a uma operação cirúrgica de emergência, durante a qual fora inserida no seu peito uma nova bomba eléctrica revolucionária. O seu coração, parado para que pudesse descansar, estava a recuperar de um ataque viral devastador. A operação foi um triunfo para dois pioneiros. Em Pittsburgh, nos EUA, George Magovern lia os relatórios diários sobre a evolução de Julie Mills cada vez mais entusiasmado. O especialista de cardiologia, de 74 anos, tinha finalmente provas de que a bomba que inventara e a cujo aperfeiçoamento devotara anos de trabalho funcionava. E para o cirurgião Stephen Westaby, a decisão de arriscar a operação revelara-se adequada. A bomba, chamada AB-180, salvara a vida de uma jovem. Poderia salvar as de muitos outros.
Derrotar os cépticos
As doenças cardíacas nas suas formas mais graves, como as insuficiências cardíacas congestivas, tornam a vida de 4 milhões de norte-americanos um inferno, sendo responsáveis anualmente por cerca de um milhão de hospitalizações e 260 000 mortes. Os transplantes, uns 2500 por ano, só podem ajudar uma percentagem ínfima dos doentes. Na Grã-Bretanha, a situação não é muito melhor. De 100 000 pessoas sofrendo de insuficiências cardíacas graves, em 1998, apenas 343, uma pequena percentagem dos candidatos, recebeu um transplante. Estatísticas sombrias como estas há muito que pressionam para que se encontre uma alternativa fabricada pelo homem. Mas substituir a mecânica de um músculo humano que bate uns 40 milhões de vezes por ano era mais do que um problema de engenharia.
Quando o primeiro coração artificial foi usado, em 1969, manteve o paciente vivo durante 64 horas até ele receber um transplante humano. O doente morreu pouco depois, e o processo atolou-se numa controvérsia sobre questões éticas. Cientistas e engenheiros centraram-se então em aparelhos destinados a manter o paciente vivo até haver um dador disponível para um transplante. Mas estes aparelhos eram grandes, pouco práticos e caros. No Hospital Geral dos Allegheny, em Pittsburgh, o cirurgião-chefe George Magovern desafiou os seus investigadores. «Precisamos de um aparelho de assistência cardíaca prático e fácil de utilizar», disse ele. «Tem que ser simples, rápido de implantar e barato.»
O maior obstáculo era o batimento. O complexo sistema de válvulas, pistões e foles das bombas cardíacas tinha tendência para gerar fricção e calor, que por sua vez provocava perigosos coágulos sanguíneos. Magovern tinha outras ideias. O efeito da pulsação era, para ele, uma complicação desnecessária. Um fluxo contínuo, como o produzido pelas bombas de água dos carros ou das máquinas de lavar, devia funcionar bem. Tal como outros cirurgiões cardíacos, Magovern usava diariamente este tipo de bombas nas máquinas cardiopulmonares que mantêm as funções vitais durante as operações cirúrgicas. Embora, estritamente, isso não fosse aprovado, ele usava muitas vezes a máquina durante alguns dias para ajudar os pacientes, quando os seus próprios corações eram lentos a recuperar.
Magovern argumentava que uma bomba de fluxo contínuo funcionaria durante períodos prolongados; os especialistas mantinham-se cépticos. Na opinião destes, o corpo precisava de pulsação para conseguir fazer o sangue circular correctamente. «Há-de funcionar», dizia Magovern. Ainda assim, conseguir fazer uma bomba suficientemente pequena e sem problemas para introduzir no tórax era um grande desafio. O aparelho produzido pela sua equipa ao fim de cinco anos era radicalmente novo. Parecido com a campaínha de uma bicicleta, mais ou menos do mesmo tamanho e pesando 225 g, o AB-180 tinha apenas uma parte móvel, uma turbina de seis lâminas impulsionada por electromagnetos.
Um pequeno fluxo de água fornecia os fluidos necessários a que a turbina pudesse girar quase sem fricção nem geração de calor. Fora concebida para funcionar durante 180 dias, e era tão simples que um técnico ligou um AB-180 a uma mangueira de jardim para vazar a fossa sanitária da sua casa. A bomba minúscula foi testada com êxito em ovelhas, mas os efeitos da ausência de pulsação por um período prolongado nos seres humanos eram ainda desconhecidos. A FDA aprovou os testes do AB-180 em seres humanos em 1997, mas só como último recurso.
Candidata ideal. Entretanto, Richard E. Clark, consultor médico do projecto AB-180, encontrara-se casualmente com Stephen Westaby em Washington. Westaby estava interessado na descoberta recente de que, quando muitos dos pacientes transplantados a quem foram aplicados bombas cardíacas de curto prazo tinham sido abertos, os seus próprios corações tinham recuperado o tamanho e o vigor normais. Ao descansarem, mesmo que só alguns dias, os corações danificados podiam curar-se sozinhos.
Westaby viu imediatamente as vantagens do aparelho que Clark lhe descrevia. «O AB-180 parece-me muito interessante», disse. «Vou fazer alguns testes clínicos em Oxford.» Clark partiu para Oxford e a equipa de Westaby começou a treinar com modelos do AB-180. A 7 de Agosto de 1998, chegou o verdadeiro aparelho. Dois dias mais tarde, pouco depois das duas da manhã, o telefone tocou na mesa de cabeceira de Westaby. Era um cardiologista a ligar de Londres.Uma das suas pacientes, Julie Mills, adoecera com sintomas que pareciam de gripe, em consequência de um vírus. O seu coração estava a ficar rígido e inflamado. À medida que bombeava cada vez menos sangue, os seus órgãos vitais estavam a apagar-se.
Os médicos de Julie já não sabiam o que fazer, e perdiam as esperanças. Os seus pais e a irmã mais nova, em choque, tinham vindo fazer as últimas despedidas. Foi então que alguém se lembrou de que Westaby estava sempre a experimentar novas engenhocas. Será que ele podia fazer alguma coisa? Westaby acabava de obter a luz verde do comité de ética do seu hospital para usar o AB-180. Os testes deveriam ser feitos com doentes que tivessem sido operados ao coração e aos pulmões. Mas Westaby não era do género de deixar morrer um doente por causa de um pormenor burocrático.
«Tragam-ma para Oxford o mais depressa que puderem», disse ele. «Vou preparar a equipa.» Um homem alto, de voz grave, Westaby ganhara a alcunha de Jaws (maxilares, e também o título inglês do filme Tubarão) por causa da sua rapidez a operar. Também gostava de jogar râguebi. Tendo quebrado o maxilar numa partida, estava deitado numa maca quando um estudante deu entrada no hospital com uma ruptura na aorta. Não havia ninguém disponível para operar, de maneira que Westaby foi fazê-lo ele mesmo, ainda vestido com o seu equipamento de râguebi lamacento e cuspindo sangue de vez em quando para um balde. Mais tarde, transformou o Centro do Coração de Oxford numa unidade de renome mundial, onde se fazem 1800 operações por ano.
Westaby foi esperar a ambulância vinda de Londres. O fígado e os rins de Julie Mills tinham deixado de funcionar e a sua tensão arterial era quase nula. «Só uma coisa pode salvá-la», disse ele aos pais ansiosos. «Posso implantar-lhe uma nova bomba cardíaca que acaba de chegar dos Estados Unidos. Foi usada lá três vezes, e os pacientes morreram, mas em todas as ocasiões a bomba funcionou perfeitamente e a morte foi causada por outras complicações. A Julie é uma candidata ideal, porque é jovem e a sua doença foi curta.» Os pais assinaram as autorizações necessárias. Era a última hipótese da filha.
Numa operação de três horas, Westaby implantou o AB-180 no lado direito da cavidade torácica de Julie, e depois ligou-o ao coração. Ligaram a bomba. Foram aumentando a velocidade do aparelho, e o sangue começou a ser desviado em cada vez maior quantidade do coração da jovem, que mal batia. Finalmente, com o AB-180 a 4000 r. p. m., o coração de Julie praticamente parou. Imagens de ecografia revelaram que as câmaras do seu coração estavam vazias, as válvulas fechadas, o músculo em descanso. Só um ligeiro estremecimento revelava que a habitual actividade eléctrica prosseguia. A linha direita no monitor da tensão arterial enervava a enfermeira Desiree Robson. Não conseguia deixar de pensar que o monitor estava avariado. Para ter a certeza, colocou um novo detector no peito de Julie.
Depois, todos ficaram à espera para ver se a cura de descanso funcionava. Quarenta e oito horas após a operação, começou a aparecer um ligeiro blip no monitor que media a tensão arterial de Julie. O seu coração voltava a dar sinais de vida. O blip foi crescendo cada vez mais, a bomba foi gradualmente desacelerada, e os músculos cardíacos de Julie responderam. Sete dias depois de ter sido implantada, a bomba foi retirada. Com êxito.
Nova era
Por ironia, o teste clínico em Oxford foi suspenso por falta de fundos. Mas outras instalações clínicas na Europa, África do Sul e Estados Unidos ou já começaram os testes ou estão à espera de autorização para fazê-lo. Em finais de Outubro de 1999, o AB-180 já tinha sido usado com êxito em 14 pacientes, sem nunca falhar. «Torna-se cada vez mais evidente que nem todos os que estão à espera de um transplante precisam mesmo de um coração novo», diz Magovern. «Ao permitir que o coração descanse, recorrendo a um aparelho como o AB-180 durante alguns dias, ou mesmo semanas, talvez até um terço dos pacientes à espera de serem transplantados possam ir para casa com a saúde melhorada e os seus corações intactos. Além disso, ao permitir que os corações descansem numa fase precoce da doença, muitos não chegarão sequer a entrar para a lista de espera dos transplantes.
Bombas cardíacas simples estão também a ser testadas para serem usadas nas intervenções médicas de urgência. Em menos de uma hora, com anestesia local e sem grande cirurgia, um cardiologista pode introduzir um catéter no coração e ligá-lo a um AB-180 preso à coxa ou ao abdómen do paciente. A circulação sanguínea pode ser retomada, salvando os órgãos vitais e dando aos corações doentes uma hipótese de se regenerarem. No mínimo, uma intervenção tão rápida e simples como esta pode fazer ganhar tempo. «São notícias potencialmente excelentes para as pessoas que sofrem ataques cardíacos maciços», diz Howard Cohen, um cardiologista destacado da Universidade de Pittsburgh. «Este procedimento pode ter uma importância decisiva.»
Mesmo antes do Natal de 1998, os 25 engenheiros e investigadores de Pittsburgh que trabalharam no AB-180 foram chamados a uma sala de conferências para uma reunião extraordinária. Ninguém sabia porquê… até que Julie Mills entrou na sala. A jovem sem pulso foi imediatamente reconhecida pelas fotos penduradas nos placards de anúncios. Houve um momento de silêncio, seguido de ruidosos aplausos. Julie corou quando George Magovern lhe apertou a mão e disse: «A sua presença aqui é o melhor presente de Natal que cada um de nós poderia desejar.»
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