Seja o Seu Próprio guarda- costas
Um curso intensivo de defesa pessoal para iludir assaltantes, sequestradores e outros criminosos
By Joe KitaRoger Dunn* não pressentiu nada de estranho ao verificar que uma carrinha branca de caixa aberta rolava ao seu lado numa via rápida do Illinois ... até que o condutor tentou atirá-lo para fora da estrada. Com a sua mulher no banco de passageiros e os dois filhos, de 11 e 7 anos, no banco de trás, Dunn tentou a todo o custo evitar uma confrontação com um louco. Assim, enveredou pela saída seguinte. Mas o seu antagonista fez o mesmo.
Como a carrinha o perseguia, Dunn parou o carro na berma, esperando que o outro o ultrapassasse. Em vez disso, ele travou em derrapagem, fez marcha atrás e tentou abalroar o carro de Dunn. «Pensei que estava perdido», diz Dunn. «A minha filha e a minha mulher gritavam. O meu filho rezava.»
Dunn arrancou, ziguezagueando pelo meio do tráfego. Desta vez, reparou num carro da Polícia estacionado no parque de um centro comercial de estrada e virou para lá. Minutos depois, o outro condutor, que estava embriagado, foi preso. Dunn nunca viria a saber o que o pôs fora de si.
O mais assustador desta história verdadeira, que nos foi enviada por um leitor da Reader’s Digest, é que ela pode acontecer a qualquer um de nós. Todos somos potenciais vítimas de crime.
O tenente-coronel Dave Grossman, antigo professor de Psicologia em West Point, a Academia Militar dos EUA, entrevistou milhares de pessoas que sobreviveram a situações de vida ou morte. A única coisa que tinham em comum era um plano de acção. «Haviam decidido antecipadamente o que iriam fazer – correr, lutar ou o que fosse preciso para sobreviverem. Por isso, no momento decisivo não ficaram paralisados.»
Aqui ficam outras sugestões para evitar, neutralizar ou escapar a situações perigosas. É tudo o que precisa de saber para se tornar o seu próprio guarda-costas.
* Os nomes foram alterados para proteger a privacidade.
Esteja preparado
Há certas precauções que toda a gente deve tomar.
Tenha consciência do que se passa em redor. «Os criminosos procuram vítimas fáceis, pessoas que não estão atentas. Portanto, vire a situação a seu favor e contra eles», diz Thomas Taylor, especialista em segurança que ajudou a proteger todos os presidentes dos EUA desde Gerald Ford.
«Se estiver no meio de uma multidão, dê atenção às pessoas que se destacam pelo seu comportamento, roupa ou atitude. Pergunte-se a si próprio: quem é que aqui me chama a atenção? E dê ouvidos à sua intuição.»
A equipa de Taylor atribui mesmo nomes a determinados tipos de suspeitos, tais como:
O Organizador
Alguém que mete a mão num saco ou num bolso de um casaco, coisa que a maior parte das pessoas não faz quando está a ouvir um concerto ou atenta a um orador. É algo que um ladrão faria, precisamente antes de puxar de uma arma.
O Grupo Secreto
Duas ou mais pessoas separadas e que fazem entre si sinais por gestos e entreolhares.
O Resmungão
Alguém que numa multidão está a ser evitado por outras pessoas devido ao comportamento, cheiro ou modo de vestir.
O Inspector
Alguém que está a observar a segurança em vez de estar atento ao evento.
Ande com «dinheiro para o ladrão»
Kathy Ortwein* esperava sozinha numa paragem de autocarro na cidade de Jérsia, na Nova Jérsia, quando um grupo de adolescentes agarrou na sua bolsa e fugiu. Exasperada, ela correu atrás deles, acabando por apanhar na cabeça com um rolo de moedas e ser atirada contra um carro. Não ficou gravemente ferida, mas aprendeu uma dura lição. «A melhor maneira de se defender no caso de um crime como este é não se defender», diz ela. «O que eu devia ter feito era esperar que o autocarro chegasse e pedido ao condutor para chamar a Polícia.»
Tony Blauer, administrador da Blauer Tactical Systems, que se especializou em formação de segurança pessoal, concorda. De facto, quando se está num ambiente propício a roubos (em bairros duvidosos ou num país estrangeiro), traga consigo «dinheiro para o ladrão», diz ele. Guarde-o em sítio separado dos outros valores ou numa bolsa exterior a que possa aceder com facilidade. Se se aproximarem de si, largue-a. Se a agredirem, recue para um relvado ou sente-se num banco para minimizar as hipóteses de se magoar numa queda. «Se bem que, geralmente, logo que se entrega esse dinheiro, o assaltante dá-se por satisfeito e foge», diz Blauer.
Esteja Pronto a reagir
Sob ameaça, tenha presente estas sugestões.
Se for atacado Grite «Fogo!» em vez de «Socorro!». A reacção instintiva de muitos dos circunstantes quando ouvem a palavra «socorro» é a autopreservação. «Pensam imediatamente: “Deixa-me ficar fora disto que a coisa parece má.”», diz Blauer. Mas a palavra «fogo» desencadeia uma resposta muito diferente: a maior parte das pessoas pensam que podem ajudar ou, no mínimo, são levadas pela curiosidade a ver o que se passa. Em qualquer dos casos, consegue ajuda.
Durante uma tentativa de intrusão Se a meio da noite for acordado por um barulho estranho, não acenda as luzes, diz Mark Safarik, um criminologista reformado do FBI. Isso fará diminuir a sua visão nocturna. Além disso, se estiver perto de uma janela, um potencial intruso vai poder ver para o interior e instantaneamente saber onde você está. Em vez disso, ligue para o 112 imediatamente, depois carregue no botão de alarme do controle remoto do seu carro (se tiver um).
Pode desencadear o alarme a uma distância de 9 a 18 m, e o barulho pode bem afugentar o intruso.»
A propósito, se está a pensar arranjar uma pistola de protecção, assegure-se de que sabe realmente manuseá-la, diz Safarik. Caso contrário, opte por um cão que ladre bem alto.
Estranhos à sua porta Como os criminosos recorrem frequentemente a ardis para conseguir entrar dentro de uma casa – como usar um uniforme ou dizer que vêm entregar algo –, peça sempre a identificação, mesmo que seja a Polícia. E faça que a mostrem, antes de abrir, através do óculo da porta ou de uma janela, diz Safarik. Ainda não está satisfeito? Peça um número de telefone pelo qual possa verificar se eles são realmente da empresa de que dizem ser.
Se for sequestrado Um rapto é uma das situações mais perigosas, diz Safarik, porque «se trata de um tipo de delinquência muito mais organizada, que certamente obedece a um plano e cujo propósito é levá-lo para um local onde será gravemente magoado ou mesmo assassinado». Para se proteger:
- No princípio, ofereça o máximo de resistência. «Não deixe que o criminoso ganhe controle sobre si», diz Safarik. «Dado que provavelmente o rapto está a passar-se num sítio público, esta altura é a mais vulnerável para o criminoso e a melhor oportunidade de sobrevivência para si. Grite, lute, faça qualquer coisa que lhe permita escapar.» Se ele tem uma arma, meça o risco da sua utilização contra a importância de agir rápido.
- Se estiver a conduzir, provoque um acidente: se está numa situação em que não consegue resistir (ele está no banco da retaguarda com uma pistola apontada à sua cabeça, por exemplo), provoque um pequeno acidente numa rua movimentada. «Se colidir contra um carro, obtém atenção imediata», diz Safarik, «e regra geral o tipo foge.»
- Se estiver trancado na mala de um carro, procure libertar-se: os modelos mais recentes de carros têm um fecho manual de segurança a partir do interior. Se não houver nenhum, parta ou dê um pontapé no farol de trás e acene com a mão ou o pé para chamar a atenção.
Durante uma tentativa de violação «Não há respostas simples sobre que fazer em caso de tentativa de violação», diz Taylor. E tudo o que possa fazer pode piorar a situação. É, portanto, muito importante confiar nos seus instintos. Mas caso venha a encontrar-se numa circunstância como esta, pode ter em conta estas sugestões:
- Repare no disfarce dele. «Se usa uma máscara», diz Safarik, «a sua intenção é, provavelmente, deixá-la viva, pois assim não poderá descrevê-lo à Polícia.» Se não estiver disfarçado, então a situação pode ser perigosa e deve ponderar o risco de fugir.
- Resista passivamente com linguagem corporal: mantenha as pernas juntas e os braços cruzados para transmitir sinais de oposição.
- Destrua a fantasia idealizada da namorada. «Muitos desses tipos têm uma fantasia sobre a violação que você precisa de destruir», indica Safarik. «Traga-os à realidade dizendo: “A sua namorada não vai gostar disto. Eu não gosto disto. Está a magoar-me.” Basicamente, qualquer coisa que faça mudar a percepção dele sobre o que ele imagina ser uma cena de paixão.»
Treino, muito treino
Como é que vai conseguir lembrar-se de tudo isto no calor da batalha? Treine para os momentos difíceis.
Treine chamadas de emergência (com o telefone desligado, claro) Já alguma vez se interrogou porque é que as pessoas ficam brancas quando se assustam? É porque o mecanismo de defesa do corpo redirecciona o sangue da periferia para o interior. Isto provoca uma perda das capacidades motoras mais sofisticadas, de modo que os dedos e até a língua podem não funcionar tão bem como de costume. Por essa razão, é importante não apenas o treino da chamada de pedido de socorro numa emergência, mas também ensaiar o que se vai dizer (por exemplo: «Fala da rua tal, número tal, tal andar ... tenho um intruso em casa ... mandem ajuda.»).
Treinar torna o processo mais automático e menos sensível ao stress. Assim, desligue o telefone da tomada e faça que a sua família treine. Depois, repita com os telemóveis (desligados sempre), lembrando-lhes que devem marcar o número 112.
«Os operadores de telefone de emergência têm uma coisa a que chamam o telefonema obsceno», conta Grossman. «Trata-se geralmente de chamadas feitas por pessoas idosas que estão tão assustadas que nem conseguem falar. Tudo o que os operadores ouvem é a sua respiração ofegante. A ocasião ideal para pensar o que se deve fazer não é durante uma situação de vida ou morte. Nessa altura, a reacção deverá ser automática.»
Treinem situações de violência Nas escolas, empresas e até em muitas casas, fazem-se simulações periódicas de alarme de incêndio. Grossman defende que devíamos adicionar à lista «simulações de violência», durante as quais são planeadas e ensaiadas vias de fuga e de bloqueamento de saídas. Discuta com a família o que devem fazer se um intruso entrar na vossa casa – por que janela fugiriam, que objecto utilizariam para partir essa janela, onde esconder-se. «Há uma tendência para julgar que em casos desta natureza vamos todos portar-nos à altura», acrescenta. «Isso nunca acontece. O que conseguimos fazer é aquilo para que estivermos treinados.»
Grave as cenas de heróis Nem tudo é mau no entretenimento ligeiro – pode treinar-se a reagir a situações ameaçadoras vendo filmes e televisão. Grossman explica que o nosso cérebro contém «neurónios-espelho» que se activam quando reagimos a respostas observadas como se estivéssemos na verdade a vivê-las. Assim, se num filme um personagem parte uma janela com uma cadeira e põe umas crianças a salvo, reveja a cena várias vezes e ensaie mentalmente. «Seja o herói do seu próprio filme», diz Grossman. «Diga para si próprio: se alguma vez estiver nesta situação, é isto que vou fazer. É assim que se preparam com sucesso os militares e a Polícia.»
Grave instantâneos em vez de filmes Já alguma vez se interrogou como é que os agentes secretos conseguem estar em missão de vigilância durante três horas sem se distraírem? É que eles ocupam-se a tirar instantâneos mentais do que os rodeia e a individualizar quem possa causar problemas. Treinam-se a manter a concentração, e você pode fazer o mesmo com o exercício seguinte.
Coloque um baralho de cartas de jogar sobre uma mesa. Depois, o mais depressa que conseguir, faça isto: espreite uma carta de cada vez; quando vir um valete, pouse-o virado para cima; quando vir um nove, coloque-o à direita do valete; quando vir um três, coloque-o à direita do nove. Atire todas as outras cartas para trás das costas – você não está preocupado com elas. Baralhe e comece outra vez.
«É impossível pensar no seu jogo de golfe ou em qualquer outra coisa enquanto está a fazer isto», explica Taylor. «A sua cabeça está totalmente concentrada em cada carta e focada no presente.» Exactamente como deve estar perante uma situação ameaçadora.
Um velho truque de motorista
No trânsito, certifique-se de que mantém uma distância do carro à sua frente que lhe permita ver os pneus de trás. Isto deixa-lhe «espaço para manobra», caso alguém tente entrar no seu carro ou parar à sua frente de repente.
KUNG FU que Toda a Gente Sabe
Acredite ou não, você tem todas as capacidades físicas de que necessita para se defender a si próprio. De facto, tem andado a praticá-las toda a vida. «Quem vê um vídeo da Polícia, uma briga de rua ou mesmo um combate de luta livre, nunca vê ninguém a usar técnicas formais das artes marciais», diz o formador de defesa pessoal Tony Blauer, que descarta da ideia de que você precisa de ser cinturão negro para se defender. Tem dúvidas? Ora, pense nisto:
O pontapé de escada na virilha
Levante uma perna como quando sobe umas escadas e estará a fazer o que é preciso para dar uma joelhada na virilha do adversário.
O fura-olhos do melão
De cada vez que agarra um melão num supermercado para ver se está maduro, faz o movimento de espetar os seus polegares nos olhos de algum malandro.
A cotovelada do cinto de segurança
Quando se senta ao volante e cruza o braço sobre o peito para agarrar o cinto de segurança, está a dar um golpe com o cotovelo direito. Quanto mais rápido fizer isto, mais força terá no cotovelo. Quando está no lugar do passageiro, está a treinar o lado esquerdo.
O empurrão no peito
Todas as vezes que fizer flexões, está a praticar um golpe no peito. «Digamos que algum tipo o agarra pela lapela», diz Blauer. «Ferre os seus dedos no “melão”, e quando o agressor lhe agarrar a cara, dê-lhe um empurrão no peito. Isso vai atirá-lo alguns metros para trás e dá-lhe tempo para fugir. Acredite em mim, qualquer pessoa pode fazer isso. A memória muscular você já a tem.»
Alvos fáceis
Da próxima vez que for ao centro comercial ou passar por um bairro da cidade, imagine que é um ladrão ou um predador. Pergunte a si próprio: quem vai ser o meu alvo e porquê? Enquanto procura alvos fáceis, vai aprendendo a evitar ser um deles.
A corredora com auscultadores nos ouvidos
Ela está a sacrificar um dos seus principais sentidos e a comprometer o seu estado de alerta.
O condutor que estaciona junto a uma furgoneta
Esta tapa a visão e pode bem esconder um criminoso no interior ou do outro lado.
O executivo que pousa a mala
As pessoas pousam as malas numa paragem de autocarro, junto à caixa registadora, seja onde for, e depois distraem-se a falar ao telemóvel ou a ver se o autocarro chega. E, de repente, alguém foge com os seus pertences.
O tipo que aponta onde estão os seus valores
Olhe para alguém durante algum tempo e essa pessoa acabará por tocar na algibeira para se certificar de que a carteira está lá. É isso mesmo que os carteiristas querem.
Mães em conversa despreocupada
Elas estão tão ocupadas a conversar que nem reparam que os filhos se afastaram.
A avó a levantar o cheque da Segurança Social
Ela faz isso a uma sexta-feira, todos os meses à mesma hora. Os criminosos também estudam os hábitos.
O carro não trancado
Quer o seu carro seja velho ou não, tranque-o – alguém pode esconder-se nele.
A senhora elegante com a carteira do lado da estrada
Segue junto à beira do passeio. E está praticamente a pedir que um ladrão passe de carro, a agarre e arranque.
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