Imagine um jogo pensado para mudar a face do Mundo. Como? Juntando desconhecidos e construindo reputações. Parece-lhe engraçado, mas vulgar? Não se engane. Trata-se de um empreendimento absolutamente pragmático, e para Austin Hill, empresário de Montreal, o seu jogo é tudo menos irrelevante. É um protótipo inovador de uma «economia baseada na reputação» verdadeiramente abrangente.
As economias baseadas na reputação não são novas, mas o conceito talvez precise de explicação: a conta em que as pessoas são tidas pelos que as rodeiam – chame-lhe «capital social» – sempre foi de extrema importância para os seres humanos. As pessoas que têm um elevado capital social confiam nas suas redes pessoais para conseguir o que querem, muitas vezes sem que isso lhes custe um tostão. No entanto, o valor da reputação social de uma pessoa sempre foi um conceito vago, implícito e imensurável: difícil de ganhar, fácil de perder e perfeitamente inútil para quem esteja mais distante que o amigo de um amigo. A menos, é claro, que se trate de uma celebridade, e aí a sua reputação é universal.
Isto levou a que Hill se perguntasse: «E se a reputação de toda a gente fosse universal?» E se, perante o endereço de e-mail de um desconhecido, ou através de um número de telefone ou de uma página do Facebook, se conseguisse imediatamente determinar a estima em que essa pessoa é tida medida em – chamemos-lhe assim – «pontos karma»? E se as pessoas com muitos «pontos karma» – bons samaritanos, por outras palavras – fossem celebradas, patrocinadas, presenteadas e convidadas para as melhores festas e para as comunidades mais exclusivas? E se ter muitos pontos destes fosse melhor do que ter muito dinheiro?
Mas de que maneira é que toda uma sociedade baseada nos «pontos karma» pode complementar, ou mesmo substituir, a economia capitalista em que vivemos? Através do facto de que todos vamos ser ricos. Ao longo de todo o século XX, apesar das incontáveis tragédias, a riqueza mundial aumentou 40 vezes. A longo prazo, é possível que esse crescimento se mantenha. O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas estima que, apesar do aquecimento global, o produto interno bruto mundial seja em 2100 entre 10 e 26 vezes maior do que em 2001. E a média das pessoas no mundo desenvolvido será também mais saudável do que a média dos Americanos hoje.
Mas isto não significa que sejamos todos felizes. Mesmo num mundo de abundância, nem todos poderemos frequentar as melhores escolas, as melhores festas ou ser os mais perfeitos naquilo de que gostamos. As coisas mais importantes – o significado, os objectivos, a comunidade, o amor – podem ser mais difíceis de encontrar que nunca. E há estudos que mostram que, a partir do momento em que se consegue um determinado patamar de saúde, não é ter mais dinheiro que torna as pessoas mais felizes.
É aqui que entra a reputação. Neste mundo de futuras abundâncias, será o capital social – mais até que o dinheiro – o mais importante.
Hill, que aos vinte e poucos anos foi proprietário de empresas de Internet avaliadas em milhões, aprendeu a sua lição em primeira mão e está disposto a fazer de si também um crente. Tal como a maior parte dos empresários, é apaixonado e convincente. Durante as suas numerosas palestras, mostra-se confidente, alegre e dinâmico, mas «ao vivo» há sinais de uma ponderação introvertida por detrás da máscara pública. Após uma intervenção, sai para um rápido cigarro. «O meu único vício», admite timidamente.
À parte o cabelo prematuramente grisalho, Hill parece mais novo do que os seus 36 anos. É ainda fácil ver nele o adolescente precoce que em 1989 virou o liceu do avesso. Hill descobriu uma falha no sistema que permitia a qualquer pessoa editar a ficha de qualquer aluno da escola. Imagine a cena: o reitor, chocado, com uma expressão furiosa para o aluno que detectou uma potencial falha na segurança. A maior parte ter-se-ia sentido intimidada. Hill não. Quando lhe perguntaram quanto pedia para resolver a situação, respondeu calmamente: «400 dólares por hora.» Duas semanas e um vírus mais tarde, Hill, com 17 anos, estava 20 000 dólares mais rico ... e foi só o começo.
No ano seguinte, perante o Conselho de Educação de Calgary, afirmou que todos os funcionários precisavam de formação em segurança de dados. Mas porque precisariam desse treino? Os sistemas estavam bem protegidos por palavras-passe. A resposta – explicou Hill – está na engenharia social. As palavras-passe não servem para nada se os funcionários não souberem como as manter secretas. Para o provar, ofereceu-se para telefonar a qualquer empregado e descobrir a sua palavra-passe pelo telefone. Escolheram a directora do departamento financeiro, recentemente informatizado, uma mulher rígida que agia sempre segundo as regras. Hill telefonou-lhe, fazendo-se passar por um elemento do apoio técnico, e conseguiu que ela lhe desse a palavra-passe, à frente de todo o Conselho, que ouvia, por altifalante. De imediato, contrataram-no para treinar 15000 professores. Mais 50000 dólares ... e foi só o começo.
Hill nunca chegou a formar-se na escola que lhe pagou tão generosamente. Em vez disso, tornou-se empresário. «Quando era adolescente, ganhei facilmente dinheiro com base em boa publicidade», explica. «Aprendi que, se me queria sentir orgulhoso, tinha que criar um significado.»
Claro que isso é mais fácil quando já se tem duas empresas de alto perfil e avaliadas em milhões sob a alçada. A primeira, a Total.net, Hill lançou-a com a provecta idade de 21 anos, juntamente com o irmão, Hammett. Três anos depois, era o terceiro maior provedor de Internet do Canadá e venderam-na por 8 milhões de dólares. Em 1997, foram co-fundadores da Zero-Knowledge Systems, que queria fornecer a todos comunicações privadas e invioláveis na Internet. Foi uma época emocionante – até 2001 e ao crash das empresas «.com». «Eu sentia-me como um missionário à frente da Igreja», lembra Hill tristemente. «Um missionário que não sobreviveu à fogueira.» A fonte do dinheiro secou e o empresário teve que repensar a sua criação.
Na altura, aquilo parecia o mais tremendo falhanço, mas não soou assim tão mal a Hill, que, sobre ser empresário, garante que «o fracasso é o preço da aceitação». No entanto, não foi este revés que quase arruinou Hill – para dizer a verdade, a Zero-Knowledge Systems foi incorporada na Radialpoint, uma das empresas de software canadianas que mais rapidamente cresceu. Nem tampouco foi a sua desgraça: Hill enfrenta o desafio intenso e extenuante de construir uma nova empresa a partir do zero. (As suas primeiras férias em vários anos foram no passado mês de Agosto, quando na Grécia ficou noivo e se juntou ao festival comunitário Burning Man, no Nevada.)
O que quase o destruiu foi a morte, com um cancro, do seu irmão Morgan, de 20 anos. «Fiquei completamente perdido», recorda Hill, falando desses tempos. «Bebia muito, usava o álcool como uma muleta. Estava a afundar-me e procurava alguém que me lançasse uma bóia de salvação.» Nessa altura, algumas semanas depois da morte do irmão e ainda profundamente abalado, Hill foi à Califórnia para a conferência TED – Tecnologia, Educação e Design –, que se realiza todos os anos: um evento a que só vai quem é convidado e onde os presidentes de conselhos de administração cheios de dinheiro e os laureados com prémios Nobel se misturam com prodígios dos media, inventores contestatários e artistas avant-garde. Quando chegou, planeava fundar uma organização de caridade com o nome do irmão para ajudar a combater o cancro, mas o optimismo cintilante e a animação da TED fizeram-no mudar de ideias. Cedo se apercebeu de que queria homenagear a vida do irmão, não a sua doença.
É aqui que surge o Akoha, um jogo de sociedade real em que se podem ganhar «pontos karma» ao desempenhar tarefas do dia-a-dia, como «Dar Um Livro a Alguém», «Apoiar Uma Escola Pública» ou «Dar Uma Hora do Seu Tempo». Trocar presentes por reputação é um dos motores que faz funcionar os sites baseados nos conteúdos dos utilizadores. É dessa forma que se desenvolvem as redes sociais, embora de uma forma local, invisível e não-quantificável. É exactamente assim que o Akoha funciona. O que é genial no Akoha é que se trata de uma economia baseada na reputação e que está pensada para chegar a pessoas que ainda não fazem parte dela. Por outras palavras, foi concebido para ser como uma infecção. E isso significa que pode tornar-se um vírus.
O produto ainda está em versão beta, o que significa que o sistema ainda se encontra a ser afinado com o feedback e os dados que estão a ser enviados pelos milhares de utilizadores. O objectivo é que se torne tão fácil quanto possível para que os jogadores se divirtam e pratiquem boas acções. É, no entanto, um negócio complicado. Parece que o actual sistema de cartões quebra regras sociais subtis. Os utilizadores dizem que, após fazerem algo de bom por outra pessoa, dar-lhes um «cartão de missão» fá-los sentir-se mal e, de alguma forma, invalida aquela boa acção. Esse constrangimento representa uma inibição, o que limita o número de pessoas que querem participar.
Os cérebros por detrás do Akoha acreditam que vão conseguir quebrar essas barreiras. Querem ter a certeza de que as boas ideias e as novas missões partem do público, para que, à medida que o jogo cresce, sejam os participantes a determinar que direcção seguir. Querem que qualquer pessoa se sinta impelida a «jogar para a frente» – este é o mote da empresa –, de forma que aquelas pessoas a quem as boas acções são dirigidas fiquem suficientemente intrigadas para participar também como obreiras de boas acções. É que só se o conceito de o Akoha se tornar um vírus, se a taxa de crescimento disparar e a comunidade activa chegar aos milhões, é que os «pontos karma» se tornam realmente importantes. De outra forma, manter-se-ão como uma curiosidade interessante e o Akoha definhará.
E, claro, o timming é tudo. Os blogues demoraram quase uma década a tornarem-se o fenómeno que são hoje. O Facebook é o herdeiro dos já esquecidos Tribe.net e Friendster. Será que o Akoha está também uma década à frente do seu tempo? Não saberemos essa resposta senão alguns meses após o lançamento.
Quer seja ou não um sucesso, quer se torne um fenómeno ou um mero precursor de um aspecto da economia do futuro, uma coisa é certa: Hill honrou a memória do irmão de uma maneira extraordinária. De uma maneira que pode mudar o Mundo.