Agitar-se, chorar, gritar, queixar-se, ou resignar-se, calar-se, ficar quieto? A experiência da dor é individual, solitária e de difícil comunicação: que palavras, que gestos, a podem traduzir? Perante a dor, como se reage?

Sinto dor: queixo-me, reajo, protejo-me

A dor é um fenómeno consciente que se exprime em várias etapas. Identificamos a sensação como uma dor e uma dor específica baseando-nos naquilo que já sabemos. Analisamos a dor associando-a ao nosso tipo de vida, às nossas experiências passadas, pessoais, familiares ou que nos foram transmitidas pela nossa cultura. É por isso que utilizamos metáforas: sensação de queimadura, de picada, de choque eléctrico, pulsátil, etc.

Tentamos encontrar explicação para essa dor: o que é que temos? Porque nos dói? Procuramos a resposta na realidade (ferida, tumor ...) e no imaginário (será por causa de ...). Assim que pressentimos a dor, mudamos de comportamento. Procuramos evitá-la, aliviá-la. A dor força-nos a reagir, a proteger-nos por vezes até à exaustão ...
Adoptamos um comportamento (gritos, palavras, gestos e mímicas próprios de uma cultura) que faz que a nossa dor seja partilhada, comunicada, transmissível.

Do grito de dor, verdadeiro apelo ao outro, à relação estruturada médico-doente, dizer que se sofre é uma ponte estendida e um alívio para a pessoa que está fechada na sua realidade dolorosa.

Sinto dor: tenho medo, torno-me agressivo

Perante a dor, surge a inquietação que não faz mais que reforçar o sofrimento. - A dor dá origem a um stress físico e psicológico que pode ser prejudicial. Assim que a dor se instala, surge a ansiedade, baseada nas experiências anteriores. "Porque me dói? Tenho a certeza de que é grave...» Ansiedade, humor depressivo ou tristeza, pessimismo, ideias tristes ou fadiga coabitam e aumentam a dor.

- Acreditar que a dor é proporcional à gravidade da doença conforta no pessimismo. Do mesmo modo, associa-se muitas vezes a doença cancerosa à dor diz-se que o cancro dói), quando na verdade apenas 60 % dos cancros provocam dor. Numa pessoa curada de cancro, qualquer dor sentida é vista como uma potencial recidiva.

- Aquele que sofre encontra-se perante os seus próprios limites, perante o desconhecido: «Quanto tempo poderei aguentar esta dor? Irá durar muito mais tempo?"

- O medo da indiferença, o erguer de um muro de incompreensão, de uma agressividade face às pessoas que rodeiam o doente, reforçam um profundo sentimento de solidão: «Não consigo fugir desta dor que me invade... Não sei se conseguirei suportá-la. Será que poderei morrer de dor? Quanto tempo terei que aguentar esta dor? Porque é que não me querem aliviar? Não percebem, não me acreditam, continua a doer-me. Não querem saber de mim para nada ou fazem de propósito... Sinto-me tão sozinho.. .»

- A dúvida instala-se, a confiança desaparece: «Os médicos terão diagnosticado e controlado o problema? A dor não passa, isto não é normal. De certeza que se enganaram.» O desconforto (dificuldade de mover-se, de encontrar uma posição confortável, de dormir, de concentrar-se, de comunicar com a família e com os médicos) aumenta esta sensação.

-O sentimento de inferioridade é muitas vezes sentido penosamente. A agressão contra a integridade física e psicológica (situação de dependência física, diminuição do autocontrole) constitui um verdadeiro estado de regressão psicológica.

- O medo de sofrer leva a comportamentos inadaptados, quer por antecipação, quer por memorização de experiências anteriores. Podem tomar-se demasiados antálgicos, ou, pelo contrário, com medo de se tomarem demasiados medicamentos, evita-se a toma até que a dor seja insuportável. Ora, tomado demasiado tarde, o medicamento perde eficácia. Finalmente, o doente acaba por tomar muito mais medicamentos, ao contrário do que ele próprio queria.

- Se a dor persiste, se é vivida como uma agressão sobre a qual não se tem controle (no hospital, durante uma doença ou acto médico), torna-se traumatizante. Com medo de repetir essa experiência, o doente evita tratar-se («não volto a fazer aquele exame, nunca mais me deixo operar...») ou ficará ansioso perante qualquer nova experiência, e o seu limiar de tolerância desmoronar-se-á (efeito de revivescência traumática).

Sinto dor, mas informo-me e fico confiante

A descontracção, a calma, a boa disposição, o optimismo, aumentam a tolerância à dor, cuja intensidade fazem diminuir. A esperança na cura, o sentimento de controle da doença e da dor, a confiança nos seus próprios recursos, na equipa médica e no futuro, são factores que limitam a dor e facilitam o seu desenrolar do tratamento e a respectiva cura.

Compreender a situação
A confiança passa pela compreensão da situação (<

Estar bem informado
Do mesmo modo, é indispensável uma boa informação. A pesquisa mostra que a dor do pós-operatório é aliviada se se souber como enfrentá-la. Quando as pessoas que vão ser submetidas a uma cirurgia têm informações pormenorizadas sobre as dores e as sensações que poderão vir a ter após a operação e sobre a maneira de as controlar (medicamentos, técnicas de respiração e de relaxamento), queixam-se menos e tomam muito menos antálgicos do que as pessoas não informadas. No entanto, embora a informação tenha um papel importante, não é suficiente: fornecida sem mais nada (sem estratégias para combater a dor), pode mesmo reforçar a ansiedade acerca da operação e do que se lhe segue. Fornecer técnicas para enfrentar a dor e a angústia é uma etapa essencial a fim de que a pessoa que sofre desenvolva um sentimento de controle face à dor e ao stress.

Controlar a sua própria dor
O sentimento de poder controlar a sua dor (por si próprio ou por interposta pessoa) reforça a capacidade de tolerância. Cada pessoa dispõe de meios de adaptação para fazer face às agressões, meios esses que podem ser reforçados pela aprendizagem de certas técnicas de auto controle. A preparação para o parto constitui um exemplo deste facto.

Palavras para explicar a dor: Em função da origem cultural de cada pessoa, os grupos de palavras para descrever a dor são diferentes: os adjectivos de ordem emotiva são preferidos pelas populações da zona mediterrânica, enquanto as palavras de ordem sensorial são mais utilizadas pelas do Norte, e isto quaisquer que sejam as causas da dor e o seu impacte emocional.

O sentimento de solidão – o papel dos que o rodeiam: Um ambiente frio, indiferente, incompetente, ou, pelo contrário, reconfortante, tranquilizador e competente faz surgir um sentimento de desconfiança ou de confiança que influencia a percepção da dor. A falta de confiança nas suas capacidades pessoais e nas daqueles que o rodeiam (família, médico), nos tratamentos propostos, o sentimento de não conseguir controlar o seu corpo, a dor e a doença e de não ser compreendido ou ouvido isolam a pessoa no seu sofrimento.

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