Pelos caminhos da fé

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«É a primeira vez que venho a pé a Fátima. Venho para experimentar coisas novas, por curiosidade». A confissão é de Cátia Grilo, 17 anos, peregrina que trocou o conforto de casa, no Catujal, Loures, pelas dezenas de quilómetros de estrada até Fátima. E nem as dores nos pés a fazem esmorecer: «As dores são suportáveis, o caminho faz-se bem e o grupo é animado», diz enquanto pára junto do carro de apoio para se abastecer de água, à saída da Póvoa de Santarém.
«O almoço é na Torre do Bispo, junto à igreja, já não falta muito, é só mais um bocadinho», garante Ana Sofia, 31 anos, responsável pela organização deste grupo e pelo carro de apoio. Esta administrativa do Forte da Casa, é peregrina deste os 17 anos e começou pela mão da mãe, grande devota da senhora de Fátima.
Agora, é ela uma das dinamizadoras de vários grupos da paróquia onde reside e que se deslocam à Cova da Iria em Outubro e Maio: «Eu venho pela minha fé, porque gosto e porque me sabe muito bem. Há quem venha por curiosidade, por um compromisso de vida, por promessas feitas, por desespero.
E não são apenas católicos, há pessoas de diversos credos ou até quem não acredite em nada. Mas sentem que precisam de um dia fazer esta caminhada. Já apanhei uma peregrina que vinha à procura de algo em que acreditar», diz enquanto vai distribuindo garrafas de água aos membros do seu grupo, e incentivando-os a continuar. Para que o grupo de 48 pessoas possa caminhar sem preocupações que não seja o trânsito intenso, há por detrás uma máquina logística que começou a ser tratada vários meses antes: «Em cada peregrinação trazemos dois carros de apoio com quatro elementos. Um anda sempre perto do grupo, o outro vai à frente para tratar do almoço ou do jantar e das dormidas.
Nós como somos do Forte da Casa, embora venham pessoas de outras paróquias connosco, fazemos isto em três dias e duas noites. Pernoitamos na Cruz Vermelha no Cartaxo e no centro Paroquial em Alcanena. Na peregrinação de Outubro vêm mais jovens, como ainda não estão em exames, têm mais tempo para poder fazer a caminhada» As despesas, essas, são divididas por todos.
Mas o que faz tantos milhares de pessoas caminharem centenas de quilómetros em direcção a um santuário mariano?
Os números oficiais do próprio santuário não deixam margens para dúvidas: há cada vez mais peregrinos em Fátima. Em 2005 foram perto de 4.107 388, em 2006 foram 4.203 321 e em 2007 o número chegou aos 4.880 497. Será que em tempos de crise, as pessoas sentem mais necessidade de conforto espiritual?
Moisés Espírito Santo, sociólogo e fundador do Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da Universidade Nova de Lisboa, confirma essa tese: «Aquilo é o terreiro da crise. O Santuário de Fátima é um excelente barómetro para aferir a sociedade e o estado da sociedade.
Quando se vivem crises, e as pessoas sentem que nada mais as pode ajudar, recorrem à Senhora de Fátima. E repare que as pessoas não vão a Fátima rezar a Deus ou a Jesus Cristo. Vão rezar a Nossa Senhora, atribuindo-lhe um papel de Super Deusa, que está lá para ajudar, para salvar Portugal. Isto também é fruto da nossa cultura, de matriz matriarcal, que leva todas aquelas pessoas a sentirem necessidade de lhe pedirem ajuda, de se sentirem reconfortadas no regaço materno».
Para o aumento de peregrinos contribuiu também a Igreja da Santíssima Trindade, inaugurada a 12 de Outubro de 2007 e em funções plenas desde 2 de Dezembro desse ano. O número de fiéis nas missas passou de 34280 para 74550, ou seja, mais que duplicou.
O aumento tem também a ver com o facto de em 2007 se terem comemorado os 90 anos das aparições e por ser ali que se encontram os restos mortais da irmã Lúcia, cujo processo de beatificação está em curso. Dos cerca de 500 mil peregrinos que se deslocam em Maio a Fátima, cerca de 30 a 35 mil fazem-no a pé.
E cada vez mais, os peregrinos são mais jovens. Na sua maioria casais. No recinto do Santuário, é frequente vê-los, absortos ao que os rodeia, a pagaram promessas de joelhos, desde a Cruz Alta até à Capelinha das Aparições ou à volta dela.
No rosto, além do cansaço, vislumbram-se marcas de desespero, de súplica, mas também de esperança. Sinais de crise? «Um dos motivos do culto de Fátima, actualmente, é a família, a unidade e a coesão familiar. Os mais velhos sentem o perigo da desagregação das famílias, mas os jovens sentem o perigo da destruição do seu próprio casamento, da sua própria família. Ainda mais quando se sabe que em casa 100 casamentos 48 acabam em divórcio», explica Moisés Espírito Santo.
Dai as preces a Nossa Senhora: «Nossa senhora é a Mãe, o cimento da união familiar. São essencialmente as crises familiares que levam a que os jovens recorram a Fátima. Repare que eles vão a Fátima, não vão à igreja onde vivem ao culto dominical, mas vão ao Santuário. Porque é o culto da Mãe, unificadora, da família, da aldeia, da pátria, etc..»
Mas não podemos esquecer também a crise económica, o desemprego, e o desespero que ele provoca: «A crise económica traz o desemprego e ele a desagregação social, e por consequência, perigo para as famílias. Por outro lado há também o crescente individualismo moderno. Antes tínhamos as aldeias. Toda a gente se conhecia, se relacionava, havia um sentido identitário muito forte, de coesão e um sentido de família que desapareceu.
Hoje são apenas casas dispersas. Esse desmembramento, provoca a solidão, o medo pessoal. Nesse cenário, Fátima funciona como um porto de abrigo, como uma bóia», defende Moisés Espírito Santo.
Talvez por isso, uma das maiores ofertas feitas ao Santuário são os vestidos de noiva, que posteriormente são vendidos e as receitas encaminhadas para instituições de caridade. Em 2007 foram oferecidos 80 vestidos.
Mas são as ofertas em dinheiro que dominam no Santuário, sendo mesmo uma das suas principais fontes de receita, entre sete e nove milhões de euros por ano. Junta-se a isto, e segundo dados oficiais do Santuário, uma média anual de 20 quilos de peças em ouro, o que equivale a 340 mil euros.
A hora de almoço está a chegar. Nas traseiras da igreja de Torre do Bispo, Maria da Conceição, 57 anos, e Manuel Oliveira, 46 anos, preparam o almoço do grupo do Forte da Casa, cujos elementos vão chegando aos poucos. De uma carrinha impecavelmente arrumada saem assadores e sacos de carvão. O almoço já está há muito decidido: «Vão comer umas sardinhas e febras assadas que comprámos pelo caminho, com pão, água ou vinho e fruta», explica Manuel Oliveira, que há vinte anos faz o caminho para Fátima, sempre pela fé: «Fiz uma promessa num momento de aflição. As coisas resolveram-se e agora venho sempre».
O mesmo se passa com Maria da Conceição. As pernas já não a deixam calcorrear tanto quilómetro, mas nunca deixa de vir: «Estive sempre mais no apoio, e gosto de vir, é um momento de fé em que colaboro com os que precisam. Se ficasse em casa ficava doente. Isto mexe muito com a gente porque mesmo quem não acredita vem à procura de alguma coisa. E a senhora de Fátima é a defensora de Portugal», diz com os olhos rasos de água.
Encostado a uma árvore, um dístico resume o que é ser peregrino: «Peregrinação não é apenas deslocarmo-nos de um lado para o outro. É caminhar ao interior de nós mesmo, abrindo o coração à graça que Deus reservou para cada um».
Na Torre do Bispo, o grupo está ainda a meio da jornada. E o pior ainda está para vir. É preciso continuar a enfrentar o trânsito que nem sempre respeita os peregrinos, subir a Serra de Aire e Candeeiros passando pelo Covão do Coelho antes de se entrar na recta de Boleiros que há-de levar ao Santuário.
Por estas alturas as pernas fraquejam e o corpo implora por descanso. Mas é aqui que, inexplicavelmente, se ganham forças e se acelera o passo: «Podemos estar muito cansados, exaustos, mas quando vemos ao longe o cimo da torre da Basílica, parece que ganhamos outra alma, as dores desaparecem e seguimos até ao destino», diz emocionado Joaquim Medines, 56 anos, organizador de um grupo de Reguengos de Monsaraz que habitualmente demora sete dias a chegar ao Santuário, depois de percorridos 204 quilómetros passando por Évora, Montemor-o-Novo, Coruche, Almeirim, e Louriceira.
Joaquim é peregrino há 14 anos, onze dos quais feitos sempre a pé. Mas um acidente vascular cerebral limitou-lhe os movimentos, mas não a energia, o entusiasmo e a fé. Fica agora na retaguarda a preparar tudo, desde os restaurantes onde param para comer até às dormidas.
Quando saem de Reguengos, os elementos do grupo recebem um guia detalhado, onde nada falha: «Cada elemento paga 145 euros. Mas esse valor dá para tudo, alimentação, dormidas e para as despesas de apoio. Não têm que se preocupar com nada», explica momentos antes do grupo sair de Boleiros para os últimos quilómetros que os separam do santuário. Com energia redobrada e uma alegria esfuziante.
No santuário, por momentos temos a sensação de estar numa babilónia, tantas são as nacionalidades dos peregrinos, uns sozinhos, outros em grandes grupos organizados e ávidos de tudo verem.
Na banca das velas, duas mulheres de alguma idade não escondem o fervor da sua fé e a satisfação de estarem no «altar do mundo». São cunhadas.
Erminia Argenza tem 58, Francesca Argenza, 77 anos. São italianas mas vivem em Londres. E vieram de propósito a Fátima: «Tenho muita fé em Fátima. Já cá tinha vindo. E dessa vez estive cara a cara com a irmã Lúcia. Não dissemos nada uma à outra. Mas foi um momento mágico, muito intenso. As lágrimas caiam-me pela cara e a ela só sorria para mim. Desde esse dia que falo a todos sobre Fátima», explica Erminia.
Esta italiana acredita mesmo que foi um milagre que salvou a cunhada de um acidente certo, e que lhe poderia ter sido fatal. Milagre, porque nessa altura apelou à senhora de Fátima para ajudar a cunhada. E acredita que por isso tem uma missão: «Há uma voz dentro de mim que me diz que devo dizer às pessoas o que me aconteceu».
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