Os alemães estão a habituar-se a um novo tipo de imigrante. Em 1995, um lobo solitário atravessou o rio Neisse na fronteira polaco-alemã. Foi seguido por uma fêmea três anos depois. Na paisagem vazia da Saxónia Oriental, salpicada de minas abandonadas e aldeias em decadência, os lobos encontraram muitos veados e poucos seres humanos.
Segundo Gesa Kluth, bióloga especializada em vida selvagem local, uma segunda alcateia formou-se a partir do grupo original ao fim de cinco anos, pelo que existem agora duas famílias de lobos na região.
Há 100 anos, uma população humana em crescimento, faminta de terra, matou os últimos lobos da Alemanha. Hoje, é o número de seres humanos locais que está ameaçado. As aldeias esvaziam-se devido à baixa taxa de natalidade da região e à fuga das zonas rurais.
Hoyerswerda é a cidade alemã em mais rápida diminuição, tendo perdido 25 000 dos seus 70 000 habitantes nos últimos 15 anos.

Em Portugal, onde a população ocupada na agricultura desceu dos 20% de há 30 anos para cerca de metade, os javalis povoam há anos regiões de onde tinham desaparecido completamente e para onde regressam agora que estão praticamente desertas. E a taxa de natalidade segue a tendência europeia.

Segundo o último relatório da Divisão de População das Nações Unidas, a Europa, que conta com 22 dos 25 países do Mundo com taxas de natalidade mais baixas, perderá 30 milhões de habitantes até 2030, mesmo considerando a emigração continuada. O principal declínio atingirá a Europa rural. À medida que italianos, portugueses, espanhóis, alemães e outros mal produzem três quintos das crianças necessárias para manterem os níveis populacionais, e à medida que a fuga das regiões rurais atrai cada vez mais pessoas para os subúrbios e cidades europeias, o campo perderá cerca de um quarto da sua população, afirmam tanto a ONU como a União Europeia. «É uma tripla bomba-relógio», diz Nuno da Costa, demógrafo da Universidade de Lisboa. «Crianças a menos, demasiados idosos e, dos jovens que restam, um número demasiado elevado a abandonar as aldeias.» As implicações desta transformação afectam tudo, desde o turismo aos locais de gozo de reforma, passando pelas políticas agrícolas e de conservação.

Os postais da Europa habituaram-nos à imagem de um continente onde cada pedacinho de terra foi cultivado, fechado com cercas e ocupado há muito. Mas o continente do futuro pode ter um aspecto muito diferente. «Grandes áreas da Europa serão devolvidas à Natureza», diz Reiner Klingholz, chefe do Instituto Demográfico e de Desenvolvimento de Berlim. A Áustria voltou a ter ursos. Nos vales alpinos da Suíça, as quintas têm vindo a perder terreno para as florestas. Nalgumas regiões da França e da Alemanha, os gatos-bravos e as guias-pesqueiras recuperaram os seus antigos territórios.
Parece um sonho ecoambientalista. Mas a verdade é mais variada e interessante. Enquanto muitas zonas rurais da Europa se esvaziarão, outras conhecerão uma espécie de renascimento. Actualmente, certas áreas atractivas a pouca distância de cidades prósperas já conhecem uma vigorosa vida nova alimentada pela fuga urbana e a fixação de reformados sem filhos. Da Provença ao Piemonte, do Kent à Costa do Sol, da Bretanha ao Alentejo, ex-citadinos apoderam-se de casas de férias, vinhas e quintas com cavalos.
Compare-se isto com o que acontece em zonas menos favorecidas, desde o interior espanhol à Escandinávia e à Europa de Leste. Estas regiões confrontam-se com aldeias moribundas, quintas abandonadas e alterações da paisagem que já não eram vistas havia muitas gerações. Ambos os tipos de região terão de lidar com uma população cada vez mais envelhecida e as correspondentes necessidades em termos de saúde e serviços, diz Gunnar Malmberg, especialista em geografia humana da Universidade de Umeå, na Suécia. «A Europa rural é o laboratório de uma transformação demográfica.»
Veja-se o caso da aldeia grega de Prastós. Antiga povoação de montanha no Peloponeso Oriental, Prastós teve outrora 1000 habitantes, a maioria dos quais trabalhava a terra. Actualmente, resta apenas uma dúzia, maioritariamente entre os 60 e os 70 anos. A escola local está fechada desde 1988. Os sinos da igreja já não tocam aos domingos. «Os moradores mais velhos morrerão», diz Petros Litrivis, de 60 anos, antigo residente de visita à aldeia. «Tudo ficará abandonado.» Sem agricultores para cuidarem dos campos, a chuva arrastou o solo outrora fértil. Como sucede em grande parte do território grego, terrenos que foram pomares e pastos durante 2000 anos estão agora cobertos por um matagal seco que no Verão se incendeia facilmente.

O despovoamento rural não é novo. Há milhares de aldeias como Prastós em toda a Europa, resultado de mais de um século de emigração, industrialização e mecanização da agricultura. «Mas desta vez é diferente, porque a taxa de natalidade nas áreas rurais nunca foi tão baixa», diz o demógrafo Nuno da Costa. No passado, um agricultor conseguia normalmente que pelo menos um dos seus filhos tomasse conta da terra. Actualmente, o mais provável é ter apenas um único filho ou filha, que geralmente trabalha na cidade e raramente se disporá a regressar à aldeia.
Na Itália, mais de 40% dos 1,9 milhões de agricultores do país têm 65 anos ou mais. Quando morrerem, muitas das suas terras juntar-se-ão aos 6 milhões de hectares (um terço do total de terrenos agrícolas da Itália) já abandonados.

As crescentes pressões económicas aumentarão esta tendência. Um terço dos terrenos agrícolas europeus são marginais, desde as planícies do Norte até aos ressequidos montes do Mediterrâneo. A maior parte destes agricultores subsiste graças aos subsídios da UE, visto ser mais barato importar alimentos do estrangeiro. «Sem subsídios, algumas das mais pitorescas paisagens da Europa deixariam de existir», diz Jan-Erik Petersen, perito em ecologia agrícola da Agência Europeia do Ambiente, em Copenhaga. Na Áustria ou nos Alpes Suíços, caracterizados há séculos por pomares, vacas e pastos de grande altitude, o cultivo dos vales escarpados requer trabalho intensivo, cujos custos são suportados em 90% por subsídios. Do outro lado da fronteira, em França e Itália, os subsídios para a agricultura em terrenos de montanha foram reduzidos. Desde essa altura, no Sul dos Alpes as aldeias têm-se esvaziado, e as florestas, alastrado. Fora do raio de alcance dos subsídios, na Bulgária, Roménia e Ucrânia, grandes extensões de terreno estão a regressar ao estado silvestre.

Afinal, isto não é propriamente o sonho ambientalista que poderia parecer. O mato arbustivo e a floresta que crescem em terras abandonadas podem ser bons para veados e lobos, mas são muito menos ricos em espécies do que a agricultura tradicional, com os seus pastos, lagos e as suas cercas. «Quando o mato cobrir tudo, perdem-se os habitats de prado. Todas as flores, ervas, aves e borboletas desaparecem», diz Petersen, da Agência Europeia do Ambiente. «Uma nova floresta só adquire diversidade ao fim de dois séculos.»

Para os governos, o desafio consiste em fomentar políticas que retardem o declínio demográfico ou atraiam novos residentes. Nalguns locais, como a Grã-Bretanha e a França, vastas áreas rurais têm revivido graças a uma crescente classe média urbana abastada que, na sua busca de uma segunda casa, vai repovoando aldeias e quintas. Aldeias como Santo Stefano di Sessanio, na Itália Central, cuja população no início do século XX totalizava 1500 habitantes, mas que entretanto caiu para 100 residentes maioritariamente idosos, contam com o turismo para reviver. Um investidor italo-sueco comprou toda uma secção da aldeia e está a transformar os seus edifícios medievais num complexo de estalagens para turistas e montanhistas. Na Toscana, um conde italiano converteu a aldeia abandonada de Gargonza em residenciais de luxo.

Mas, quando a geração do baby boom começar a morrer por volta de 2020, a população começará a decair tão abruptamente em muitos países europeus que não haverá pura e simplesmente pessoas suficientes para que cada vila ou aldeia se reinvente. É igualmente pouco claro por quanto tempo as actuais políticas governamentais conseguirão adiar o inevitável. No Norte da Suécia, numa vasta área de florestas densas e pequenas povoações rurais, três décadas de enormes gastos não travaram o declínio. «Agora falamos de despovoamento civilizado», diz Mats Johansson, do Real Instituto de Tecnologia de Estocolmo. «Só temos de garantir que as pessoas idosas que deixamos para trás recebam os devidos cuidados.»
No Leste da Alemanha, os contribuintes enterraram mais de 100 000 milhões de euros em zonas rurais sem o mais pequeno efeito sobre a rapidez do declínio. O campo está pejado de elefantes brancos subsidiados, desde uma fábrica de aeronaves falida em Brandemburgo até uma pista de Fórmula 1 que nunca foi utilizada. Centenas de comunidades rurais construíram redes de distribuição de água e sistemas de esgotos excessivamente grandes, sempre na certeza de que isso atrairia novos negócios e novos residentes. Em nove de cada dez casos, um número cada vez mais pequeno de habitantes vê-se confrontado com despesas cada vez mais elevadas. Em certas povoações, não são utilizados autoclismos suficientes para que os esgotos funcionem correctamente, o que resulta em dispendiosos redimensionamentos dos canos.
Algumas comunidades são transformadas pela necessidade em laboratórios de inovação. No cantão suíço de Graubünden, onde o número de crianças caiu acentuadamente, as autoridades reintroduziram as escolas de sala de aula única em várias aldeolas ao longo dos anos de 1980. «Agora, estamos a passar à fase seguinte», diz Dany Bazzell, da Direcção Escolar de Graubünden. «Há tão poucas crianças que nem as escolas de sala de aula única sobreviverão.» Em Portugal, conhecemos também o fenómeno, com várias escolas em meios rurais a encerrarem por escassez ou ausência de alunos e a serem vendidas para segunda habitação. No Norte da Suécia, a Universidade de Umea está a promover o ensino pela Internet, dando aos estudantes um incentivo para ficarem nas suas aldeias, em vez de partirem para a faculdade, de onde raramente regressam.

O maior desafio consiste em encontrar formas criativas de manter os serviços necessários à crescente proporção de cidadãos idosos. Quando a aldeia austríaca de Klaus, dispersa pelo sopé de uma montanha alpina, concluiu que não podia continuar a sustentar uma camioneta regular, a comunidade criou o sistema Dorfmobil (carro da aldeia), um táxi-por-encomenda que serve sobretudo os mais velhos. Na escassamente povoada Lapónia, uma área de 80 000 km2 onde os médicos são pouco numerosos e se encontram a grande distância uns dos outros, os Finlandeses aplicaram a sua sabedoria tecnológica para corresponder à crescente procura de serviços de saúde especializados por meio do Tel Lappi, um serviço que fornece exames médicos à distância recorrendo a videoconferência e à Internet.
Outra pioneira é a aldeia espanhola de Aguaviva. No vasto interior espanhol, uma das regiões europeias que conhece um despovoamento mais rápido, já há muitas aldeias abandonadas, enquanto as 90 sobreviventes, entre as quais se conta Aguaviva, se uniram na Associação Espanhola de Povoações Contra o Despovoamento. Em 2000, o presidente da Câmara, Luís Bricio Manzanares, começou a oferecer bilhetes de avião gratuitos e alojamento a famílias estrangeiras que quisessem fixar-se em Aguaviva, uma freguesia cor de barro com cerca de 600 habitantes na planície seca da província de Teruel. Agora, Aguaviva tem 130 imigrantes, maioritariamente argentinos e romenos, e a sua única escola conta 54 alunos. «A imigração foi uma solução para o problema», diz Bricio Manzanares.

Mas a maior parte dos imigrantes estrangeiros continua a preferir as cidades. E as migrações dentro da Europa limitam-se a exportar o problema. Os habitantes da Europa Ocidental olham para a Europa de Leste como uma fonte de migrantes, no entanto esses países têm taxas de natalidade baixíssimas. A Ucrânia e a Bulgária verão as respectivas populações baixar em pelo menos um terço até meados do século. Até 2015, a Europa ocidental precisa de receber mais 1,1 milhões de imigrantes por ano além dos que recebe agora para manter a estabilidade da população em idade laboral. Uma fonte de migrantes muito mais provável seriam os vizinhos muçulmanos da Europa, cujas populações jovens deverão duplicar nesse período de tempo. Mas isso é uma questão delicada que poucos estão dispostos a enfrentar.

Cada vez mais preocupados, os governos europeus elaboram políticas destinadas a estimular as pessoas a terem mais filhos: desde a oferta de melhores cuidados infantis até abonos familiares proporcionais ao tamanho da família. Esperam imitar a França, que foi o primeiro país a implementar essas políticas nos anos de 1930 e continua a ser um dos muito poucos países europeus em crescimento. Mas embora essas medidas possam aumentar ligeiramente a taxa de natalidade, em grande parte do continente envelhecido não há habitantes suficientes em idade fértil para desempenharem o papel de potenciais pais.
Quanto à terra propriamente dita, regista-se a tendência em muitas regiões para abandonar os terrenos menos produtivos. «Mas, durante milhares de anos, nós, Europeus, habituámo-nos a ver campos, pomares e pastos em torno das nossas cidades», diz Michel Revaz, especialista em floresta alpina suíça. «Está-nos nos genes.» A paisagem, diz ele, é aquilo que os Alemães designam por Kulturlandschaft – uma paisagem esculpida por séculos de acção humana.
O declínio populacional sem precedentes a que assistimos, agravado pela instabilidade da economia agrícola, coloca o futuro de muitas dessas Kulturlandschaften em risco, ao mesmo tempo que aumenta a pressão para cortar os subsídios que as financiam.
Muitos europeus sentem relutância em deixar que a Natureza siga o seu curso. «Ainda choramos quando os bosques se cerram à nossa volta», diz Revaz. A menos, claro, que se seja um fanático de lobos e javalis.

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