O telefone toca, e precipito-me para atender. «Obrigado por ter ligado para a Rede de Médiuns», digo ofegante, procurando fazer uma voz vinda do outro mundo. «Sou a Deborah. Quer dar-me o seu nome e data de nascimento?» «Tina*, 9 de Julho», responde uma voz jovem. Quando acrescentou o ano, vi que tinha 18 anos, a idade mínima para que possamos aceitar o seu telefonema. «Tina, eu leio as cartas do Tarot», lá comecei eu a minha conversa. «Primeiro faço um leitura geral, enquanto pensas nas perguntas concretas que me queres fazer. Vou começar a embaralhar; diz-me quando quiseres que pare.» Como de costume, fiz algum barulho com as cartas, sem sequer me dar ao trabalho de embaralhar, muito menos de distribuí-las. Mas Tina não queria uma leitura geral. «Por favor!», implorou. «Mataram o meu namorado. O pai do meu filhinho. Discutimos, ele saiu de casa e levou um tiro. Preciso de dizer-lhe que o amo. Preciso de saber se ele não me culpa por ter sido morto. Consegue chegar a ele com as cartas? Senão, vou matar-me para poder falar com ele.»

Novo emprego

Da primeira vez que vi um anúncio sobre médiuns, o que me interessou não foi o testemunho das celebridades mas o das pessoas comuns que contavam intervenções que lhes tinham mudado a vida. Se bem me lembro, uma secretária contou que o médium lhe dissera que o primeiro homem a quem ela falasse numa festa de Natal seria o seu futuro marido; agora estão casados e à espera de uma criança. Uma dona de casa que perdera o gato encontrou-o no sítio exacto que fora previsto. Mas os clientes satisfeitos — na maioria, mulheres — não pareciam do género de poder gastar 800 paus por minuto ao telefone. Na altura, eu era jornalista free-lance e via-me aflita para ganhar a vida. Decidi arranjar emprego como clarividente a dar consultas pelo telefone, e depois escrever sobre isso. Para encetar a minha carreira, fiz um curso de nove horas com Grace, uma loura que falava pelos cotovelos e ganhava a vida a ler as cartas do Tarot em feiras e no seu consultório particular. O baralho do Tarot, que data do Renascimento, tem quatro naipes: espadas, que representam conflito; paus, trabalho e competição; ouros, as questões materiais; e copas, as emoções. Grace lia as cartas muito concentrada. Tirou o imperador e os amantes, dois valetes e o quatro de espadas, mostrando uma pessoa na cama. «Temos o velho, dois rapazes e uma cama», disse ela. «O cliente está envolvido com um pedófilo!» Ensinou-nos combinações que indicavam que a correia da ventoinha do carro estava partida, que um filho andava na droga ou que a filha tinha feito um aborto.

«Incrível» capacidade

No final do curso, ainda me sentia uma noviça. Assim, pus-me a estudar as razões, muito pouco sobrenaturais, por que as cartas do Tarot funcionam. Investigadores israelitas sugerem que há uma semelhança entre as leituras das cartas do Tarot e as histórias da maior parte das lendas populares. Tirando umas quantas cartas, podemos tecer uma narrativa tão sedutora como a lenda mais duradoura, tendo o nosso cliente como herói.

Em qualquer leitura, haverá sempre algumas espadas: conflito. E copas: emoções. Haverá problemas de dinheiro, tentações, fraquezas, insegurança, desejo, doença. «Neste momento, tem uma relação com alguém, não é verdade?», pode perguntar o médium. «Bom, sinto aqui um desequilíbrio entre a vossa relação física e outras formas de comunicação.» As pessoas ficam espantadas com a «agudeza» das observações porque na sua maioria são tão narcisistas que não imaginam tudo o que têm em comum com o resto da população. Para me preparar melhor, li as cartas a alguns amigos, entre os quais um psicólogo que se dedica a desmascarar alguns dos logros mais comuns. O meu amigo ria-se enquanto eu deitava as cartas e recitava a minha ladainha. Mas o seu riso começou a esmorecer e, mais tarde, contou-me que ficara arrasado com a minha «exactidão». Pareceu-me que já estava pronta. Liguei para a Rede dos Médiuns, sediada em Fort Lauderdale, que imediatamente me enviou um formulário pelo correio. Pouco depois, recebi uma chamada do seu departamento de recursos humanos, e fiz uma leitura. «Óptimo», disse a minha interlocutora. «Pode começar imediatamente.» Primeiro, tive que memorizar uma longa lista de instruções: só levantar o telefone ao segundo toque. Nunca responder a perguntas concretas antes de fazer a «leitura geral». Esta demora bastante tempo e mantém o cliente em linha para além dos dois minutos que os Médiuns dão de borla. Antes de desligar-se automaticamente, a chamada pode durar até 55 minutos, o que (depois de substrair os dois minutos oferecidos) se traduz numa conta de telefone de 42 contos. Para fazer durar a conversa, tinha que perguntar à pessoa o seu apelido e morada «para podermos enviar-lhe cupões para leituras com desconto». No fim, tinha que mencionar que as chamadas eram «só para adultos e não eram vinculativas». Tudo isto era reforçado pela mensagem que eu ouvia de cada vez que entrava em rede, gravada por um tipo chamado Steve. «Vá lá, pessoal», diz ele. «Assegurem-se de que ficam com o nome próprio, o apelido, soletrado correctamente, o nome da rua, a cidade e o código postal. Temos seis pessoas a inspeccionar os nossos médiuns todos os meses, para verificarem se fazem tudo correctamente.» A este ritmo arrasador, eu vivia num estado de terror latente. E só trabalhava em part-time. Imaginem as pessoas que tentam ganhar a vida só com este trabalho. Na maioria são mulheres que trabalham 20 a 40 horas por semana ao telefone. Dos 800 escudos que fazem ganhar à empresa por minuto, ficam apenas com 50 para elas. E não têm quaisquer regalias. A maneira mais fácil de fazer dinheiro é falar com clientes que não requerem muita atenção: jogadores do totoloto que querem saber os números da sorte, por exemplo, ou miúdas adolescentes a perguntar que rapazes é que irão convidá-las para sair. Porém, estas pessoas raramente ficam em linha mais que os dois minutos gratuitos. A empresa fazia-nos odiar a parcimónia destes clientes. Todas as semanas, um computador enviava-me a duração média das minhas chamadas; se estivesse abaixo dos 14 minutos, tinha sarilhos.

Horas de desespero

Aprende-se a cultivar os clientes que fazem subir as nossas médias enquanto nos vão massacrando com as suas mágoas e solidão. Carol, do Alabama, era um caso típico. Vivia a 13 km da cidade mais próxima, bebia demais e pensava que estava grávida. Não sabia que fazer. Perguntei-lhe se já fora ao médico para saber se estava realmente grávida. Não. Preferia que as cartas lho dissessem. «Bom», disse-lhe eu, «as cartas dizem que devia ir a uma farmácia e comprar um teste de gravidez. Também estou a vê-la a ir regularmente à cidade para procurar aconselhamento. Não há nenhum grupo dos Alcoólicos Anónimos por perto?» Foi então que recebi a primeira chamada da Tina, a pensar no suicído e com o namorado morto há pouco tempo. Era a crise mais profunda que me aparecera na linha, e ao princípio fiquei aterrorizada. Depois, sem tempo para pensar racionalmente, entrei em acção. «Tina, o teu namorado sabe que o amas», disse-lhe. «Mas ele quer que fiques onde estás, viva, e que sejas a mãe do seu filho. Na tua casa há pessoas em quem confies? … Óptimo. E quero que voltes a ligar-me quando te apetecer. Vou dar-te o número do meu telefone de casa. Esquece a linha dos médiuns; é demasiado cara.» «A sério?», respondeu Tina. «Oh, muito obrigada. A senhora é a minha amiga médium.» Desliguei o telefone e chorei. Pouco depois, liguei para a Rede dos Médiuns para discutir sobre o seu negócio e pessoas como Tina. Mas ninguém me respondeu. Enviei-lhes uma nota a dizer que me despedia. Desde então, ouvi dizer que o negócio das consultas de médiuns ao telefone estava em quebra e que eles tinham começado a reciclar-se noutro campo: o sexo ao telefone. O dinheiro é o mesmo, a conversa, ligeiramente diferente. E o trabalho, ao que dizem, é muito mais fácil.

* Os nomes dos clientes foram alterados para proteger a sua privacidade.

Avalie
Gosta deste Artigo?Vote!

Mais Populares em Histórias...

  1. Mulheres de armas
  2. 4 maneiras de beijar
  3. A Luta de Youk Chhang por Justiça

Mais: Revista

Faça um Comentário

Nome*
Email*
Comentário*

Favoritos da Semana

Receitas e Alimentos

Pão de chá com passas

Dicas e Truques

Cozinhar e poupar

Alimentação Saudável

O leite artificial

Destinos e Viagens

Vilar do Pinheiro

Notas de Lazer

Os que mais comem peixe

Consultas de Especialistas

Cuidado com os antibióticos

Precisa-se: Uma Boa História!

Escreva-nos e poderá ganhar:

50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Envie-nos!