Os caminhos da raia

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Ladoeiro – Monfortinho - Penha Garcia
De Castelo Branco, tome a velha estrada para Escalos de Baixo, onde se vira para leste em direcção à fronteira. A estrada torna-se estreita e sinuosa à medida que nos aproximamos do rio Ponsul, que, aqui, corre num vale apertado entre colinas de xisto. São as chamadas “barreiras do Ponsul”. Transporta a ponte, um pouco depois, é a Campanha da Idanha, cortada por canais de rega ladeados de ulmeiros. Culturas de cereais, tabaco e girassol são quebradas por manchas de azinheiras. Chegado ao Ladoeiro, observe exemplares da antiga arquitectura de terra, blocos de adobe feitos de argila misturada com palha e secos ao sol, um chafariz de granito com as armas de D. Sebastião e alguns portais quinhentistas.
Continue para Segura e atente no topónimo evocador das antigas funções destas aldeias raianas: segurar a soberania de Portugal face ao país vizinho. Da fortaleza já nada resta. Centrando o povoado, ergue-se na praga, defronte da antiga Domus Municipalis, o pelourinho manuelino. Na Igreja da Misericórdia, a porta principal e ladeada por duas colunas cilíndricas de capitéis adornados com motivos geométricos. Sob a cornija, uma inscrição em latim: “Vê a chaga do teu coração e, orando aqui, serás ouvido no céu”.
Na igreja matriz, veja as imagens de Nossa Senhora da Conceição, do Espírito Santo, de Nossa Senhora do Rosário. Rodeando a povoação, existem fragmentos da cerca mandada construir por D. João IV. A 2,5 km de Segura, numa pequena elevação na confluência de dois ribeiros, situa-se a Capela de Santa Marinha, a que o povo de Segura recorre quando a estiagem se prolonga. Perto da estrada internacional, veja a ponte romana que une Portugal e Espanha e o enquadramento do rio Erges e dos antigos moinhos.
Saindo de Segura para Monfortinho, surge na paisagem o branco do casario de Salvaterra do Extremo. Vale a pena o desvio, pois, ao aproximarmo-nos do povoado, sentimos o peso da palavra "extremo". Na estrada, avista-se a Capela de Nossa Senhora da Consolação, onde todos os anos, na segunda-feira a seguir à Páscoa, se realiza o Bodo, festa que comemora a extinção de uma praga de gafanhotos e durante a qual a aldeia oferece pão e carne em abundância. O castelo, hoje apenas um nome na parte alta do casario, vigiou durante séculos a Fortaleza de Peña Fiel, nas escarpas da margem vizinha, já espanhola, do rio Erges.
Na praça, situam-se a igreja matriz e a da Misericórdia. Na matriz, veja o retábulo do altar-mor. A Igreja da Misericórdia guarda importante conjunto de esculturas sacras dos séculos XVII e XVIII. Observe as casas de granito caleado, cujas janelas ostentam rendas de manufactura local, e os antigos poços que irrompem da calçada e esquinam as ruas. Salvaterra conserva ainda o pelourinho e a Casa da Câmara com a torre sineira.
Percorra a velha calçada romana, que conduz ás gargantas do Erges, e descubra a Capela e Cemitério de S. Pedro e as furdas, tradicionais construções de pedra solta e falsa cúpula. A meia encosta, descanse junto às pedras da antiga atalaia fronteiriça e olhe a ravina, sobrevoada por águias-reais. De volta à aldeia, procure as histórias do contrabando, presentes na memória destes últimos raianos.
E chegamos a Monfortinho. A uma nascente termal, cujas águas de valor terapêutico lhe valeram o nome de Fonte Santa, deve a povoação o seu actual desenvolvimento. Em 1862, ao relatar as virtudes terapêuticas das águas, António Pedroza Barreto alertou as autoridades da época para a importância da sua exploração para o desenvolvimento da região. Em 1940, foi inaugurado o actual balneário e anos mais tarde surgiram duas unidades hoteleiras, o Hotel da Fonte Santa e o Astória.
Siga agora para Penha Garcia. Situada num escarpado afloramento de quartzite que domina para poente o rio Ponsul, foi local de povoamento muito antigo. O nome da povoação remonta ao período inicial da história portuguesa e terá a ver com D. Garcia Mendes, personagem importante da região da "penha". As excelentes condições naturais de defesa e a proximidade simultânea em relação à linha do Tejo e à fronteira com Leão e Castela poderão estar relacionadas com a construção do castelo por D. Sancho I. Em 1303, D. Dinis doa a povoação à Ordem do Templo.
Com a extinção desta Ordem em 1312, Penha Garcia passa a integrar os bens da Ordem de Cristo. Mas do castelo resta apenas parte reduzida e degradada do castelejo e vestígios da cerca. Na igreja matriz, veja na fachada vestígios do templo primitivo. Aqui existe uma escultura de pedra de Ançã representando Nossa Senhora a amamentar o Menino Jesus, com inscrição de 1410 na base. O pelourinho tem no capitel dois escudos: um com as armas nacionais, outro com as cinco flores-de-lis e a assinatura dos seus dois lavrantes: Domingos Fernandes e Estevão Simão. Da traça primitiva da Capela do Esprito Santo resta o arco da capela-mor.
Hoje, formam a aldeia dois núcleos distintos: uma parte moderna, no sopé, e o núcleo antigo, de casas de xisto e quartzite, em ruazinhas ajustadas a topografia íngreme do sítio. Nas encostas sobre o Ponsul, onde bilobites e cruzianas são marcas das formas da vida na aurora do Mundo, a quietude da toalha líquida em que a barragem transformou as águas do rio, as velhas azenhas que se confundem com o verde musgoso das rochas, a planura quebrada por raros tufos de arvores, o cheiro doce do fumo da lenha no ar - são, entre outros, alguns dos fios de que se tece a agreste beleza desta aldeia raiana.
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