Colares – Mafra
Para norte da serra de Sintra, logo a nascer no sopé, estende-se a várzea de Colares, fertilíssima, ubérrima, num desafio constante ao ar salgado do oceano, que, ali a dois passos, a limita pelo poente na costa fortemente dentada onde se abrem, em escrínios rochosos pintados a sépia, as praias da Adraga, Maçãs, Azenhas do Mar...

Estamos numa região afamada pelos seus frutos e sobretudo pelos seus vinhos. As vinhas obedecem a uma plantação especial a grandes profundidades. Sem dúvida, é o vinho de Colares, gerado nas areias, onde o inconfundível Ramisco está plantado, que deve ser considerado o maior monumento da região e que tem o seu templo báquico na Adega Cooperativa.

Pela sua prosperidade, plenamente justificada na várzea fértil, cresceram obras de pedra e cal, igrejas, conventos e belas moradias enquadradas em todo o tapete verde que a paisagem oferece ao visitante.

A “Várzea” é cortada pelo rio das Maçãs, que, na Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros, se encontra assim descrito: “Rio mui grandioso que pelo meio destes pomares corre coalhado de muita fruta e flores. E com ruído suave se mete no mar onde faz a repartição delas...com que os navegadores se alegram.”

A velha vila de Colares, que teve importância nos períodos da Pré e da Proto-História, conquistada aos Mouros em 1147, teve foral logo nos alvores da nossa nacionalidade. Não se deixe esta região sem ver o pelourinho de Colares, situado no Largo da Escola Primária, manuelino, de 1516, de fuste torso, com a base e o remate lavrados; a imponente Pedra de Alvidrar e o Fojo, sobranceiros ao mar; a aguarela que são as Azenhas do Mar e, mais adiante, ainda sobre as portentosas arribas, a curiosa Capela de S. Mamede de Janas, templo rural de planta circular e pequena galilé.

Ainda junto à praia das Maçãs, no Outeiro das Mós, encontra-se um monumento funerário, situado no tempo do Neolítico ao Calcolítico, que apresenta uma câmara escavada no calcário, com pequeno átrio e duas câmaras laterais ligadas a um tholos com câmara, galeria e átrio, originalmente coberto por um tumulus.

Siga-se pela costa ate S. João das Lampas, na imponente vizinhança do Atlântico, que se quebra em espuma de encontro às rochas da costa. Voltando à direita, toma-se a estrada que vai de Sintra para a Ericeira. O mar e os campos cultivados dominam a paisagem até à Ericeira, não perdendo de vista, como que um farol da paisagem construída, o Convento de Mafra, visto ao longe.

Perto do lugar de Odrinhas fica uma villa romana sobreposta por uma necrópole medieval, destacando-se os mosaicos, uma abside, as sepulturas-estelas, da época medieval.

Vamos à Ericeira para nos aproximarmos da praia atlântica, onde encontramos bons miradouros para sentir de perto as águas salgadas do mar e apreciar o inesquecível pôr do Sol destas paragens costeiras.

De caminho para Mafra, onde, aqui e além, salpicando a paisagem, aparecem os velhos moinhos de vento, devemos fazer uma paragem no Sobreiro para visitar as olarias de José Franco na sua pequena aldeia encantada.

E passamos a Mafra, onde o convento nos esmaga pela sua escala de grandeza, não habitual na paisagem portuguesa. Monumento setecentista mandado construir por D. João V, segundo projecto do arquitecto João Frederico Ludovice, a sua construção, que decorreu entre 1717 e 1735, envolveu permanentemente cerca de 50 000 operários. A área ocupada por torreões, claustros, edifícios e pátios atinge 40000 m2.

A visita compreende a basílica, dedicada a Santo Ant6nio, e o Falacio Nacional (o antigo hospital do convento e a monumental biblioteca). Duas majestosas torres dominam o edifício, onde se encontram os famosos carrilhões, formados por 45 sinos a norte e 47 sinos a sul, que permitem a realização de concertos aos domingos à tarde.

O interior da basílica é como que um museu do mármore da região de Mafra e de Pêro Pinheiro. À volta do convento, ficam um jardim e a Tapada Real, antigo couto de caçada e notável refúgio natural de árvores, linhas de água e veados.

Este passeio pode ter início na Malveira, onde se pode visitar o Miradouro do Forte de Santa Maria, admirável panorama sobre a Vila, os moinhos de Santa Maria e a Tapada de Mafra. Aqui temos um valioso conjunto de moinhos de vento a funcionar.

São uma memória de uma paisagem saloia ainda salpicada destes velhos engenhos movidos pela energia eólica, mas quase todos em estado de abandono e ruína. De qualquer modo, testemunham a imensa quantidade que outrora cobria toda esta paisagem.

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