Obesidade na infância. Ei! Ó Gordo!
A obesidade nas crianças é um grande problema, que está a tornar-se maior a cada dia.
By Hester de Waard«Bebé gordo» era o que todos lhe chamavam. Mas os refegos que Alexander van Maden, de 7 anos, tinha quando era pequenino mantiveram-se. A mãe, Inez, teve que admitir que o problema de obesidade do filho residia num estilo de vida doentio. «Alexander é o nosso único filho e nós temos a tendência de o mimar em demasia. Não lhe dizemos “não”.»
Estava tudo bem quando a criança não queria comer os legumes, e cedo desenvolveu um gosto particular por batatas fritas e bolos. Detestava água, mas era fã de refrigerantes. Passatempos? Ver televisão e jogar video games. «O pediatra da escola disse-nos que ele estava muitos, muitos quilos acima do peso. Se não fizéssemos nada, iria ser pior: diabetes, doeças cardíacas, hipertensão, seria esse o seu futuro. Ficámos tão envergonhados. Não estávamos a mimá-lo. Estávamos a negligenciá-lo!»
No ano passado, a família Van Maden procurou um nutricionista e um fisioterapeuta, que ajudaram Alexander a fazer escolhas alimentares saudáveis e a exercitar-se através de técnicas divertidas e apelativas.
Inez relata: «Fizemos uma mudança completa.» Actualmente, Alexander joga ténis e pratica natação com os pais todos os fins-de-semana. Tentam levá-lo à escola a pé, pelo menos, três vezes por semana. Substituíram os doces por fruta e os refrigerantes por água e chá sem açúcar. Devagar, mas com segurança, o seu peso vai-se aproximando do nível saudável.
«A maior diferença que encontramos é que temos agora uma criança mais integrada a nível físico», explica Inez. «O Alexander nunca foi do tipo de criança que gostasse de actividades ao ar livre, ou, pelo menos, era o que achávamos. No entanto, ultimamente reparamos que a consola fica a apanhar pó, porque ele está lá fora a jogar à bola com os amigos.»
Alexander pertence a um cada vez maior grupo de crianças com problemas de obesidade.
O excesso de peso nas crianças é um problema sério que persiste na idade adulta. As crianças gordas são muitas vezes alvo de bullying, sofrem de baixa auto-estima e têm problemas em integrar-se no desporto. O excesso de peso está associado a maiores riscos para a saúde, incluindo a diabetes e as doenças cardíacas. Os adultos obesos levam mais tempo a encontrar emprego e têm uma maior taxa de depressão.
Um estudo realizado pela TNO Qualidade de Vida revelou que o excesso de peso na infância está associado à obesidade na idade adulta. Se a situação assumir as dimensões que tem nos Estados Unidos, o problema é muito, muito sério: nos EUA, cerca de uma em cada três crianças tem excesso de peso.
As crianças que vivem nas zonas urbanas têm duas vezes mais possibilidade de ter excesso de peso do que as outras. Isso pode ter a ver com uma dieta pouco saudável, mas também pode estar relacionado com o mau planeamento dos bairros, sem espaço para as crianças andarem ao ar livre.
A dieta é o factor «número 1» da obesidade. As crianças que não tomam pequeno-almoço têm duas vezes mais hipótese de ter excesso de peso. Mais: os miúdos, hoje, consomem muitos refrigerantes e passam uma média de duas horas por dia em frente à televisão.
Aos 10 anos, Lisa Muilman, de Delft, estava muito bem na actividade desportiva. Jogava corfebol três vezes por semana, fazia ginástica na escola, mas, mesmo assim, tinha muito peso a mais. Aos 9 anos, pesava 63 kg: mais 20 do que o peso normal. «Na escola, gozavam muito comigo. Chamavam-me gorda. Custava-me tanto que não queria ir para a escola.»
A mãe, Christy Muilman, é franca e honesta. «A culpa era nossa. Sempre que ela queria batatas fritas, eu dava--lhas. E não via mal nenhum em repetir e voltar a repetir ao jantar. Devíamos ter actuado mais cedo.»
Quando Christy levou Lisa ao pediatra devido a outro problema, o médico falou no problema de excesso de peso que a menina tinha. Lisa tinha 9 anos naquela altura. Christy recorda: «O pediatra falou-nos deste curso chamado “Door Dik en Dun” (forte, firme e fino, em português), que tinha sido criado para ajudar miúdos a desenvolverem estilos de vida saudáveis. Acabou por ser exactamente o incentivo que nos faltava.»
Lisa teve duas horas de aulas todas as quartas-feiras à tarde com um nutricionista, um fisioterapeuta e um terapeuta. Também os seus pais receberam informação e treino sobre a aquisição e manutenção de hábitos saudáveis.
Berdien van Wezel, nutricionista e líder deste grupo de tratamento em Haia, explica: «Muitas vezes, vemos que os pais e os irmãos da criança também têm excesso de peso. Nem sempre é fácil para os assistentes sociais, os pediatras das escolas e os médicos oferecerem ajuda. Isso tende a ser encarado como uma interferência na educação.»
Ainda assim, é exactamente o que precisa de ser feito. Afinal de contas, apesar de haver uma série de estudos que mostram que existem muitos pais que se sentem incompetentes para educar os seus filhos, são poucos os que pedem ajuda. Van Wezel esclarece: «Não culpamos os pais directamente. Mas sentamo-nos com eles e analisamos como podem lidar com o problema de excesso de peso dos filhos. Assisto a muitos casos angustiantes: miúdos com 5 ou 6 anos que já têm mais 10 ou 15 kg do que os que deviam ter.»
O objectivo da organização é gerar uma mudança comportamental. Isto requer pequeninos passos em forma de acções, do género: «Hoje vou para a escola a pé», «Hoje vou beber só um copo de refrigerante», «Quando voltar da escola, vou comer primeiro uma coisa saudável» ou «Vou-me inscrever numa aula de ténis grátis para experimentar».
Lisa está no programa há um ano e já perdeu cerca de 10 kg. Christy está orgulhosa da filha. «Tenho hoje uma criança completamente diferente. Está mais confiante e gosta outra vez de ir para a escola.» Lisa resume: «Agora que perdi peso, pararam de gozar comigo. Agora posso usar roupas giras outra vez, o que é mesmo muito bom. Estou a vestir roupa que nunca tinha experimentado antes.»
Pieter Sauer, professor de Pediatria na Universidade do Centro Médico de Groningen (UMGC), crê que nunca é cedo demais para começar a prevenir a obesidade. «Os bebés são enfiados em cadeirinhas em frente à televisão ou conduzidos em carrinhos.»
Sauer considera surpreendente como há pais que não vêem que o seu filho está com excesso de peso. «Em casos de obesidade clara, apenas cerca de metade dos pais acredita que o filho está com peso a mais. Quando o peso de uma criança é normal, muitos pais acham que o miúdo está magrinho, e a indústria alimentar adora tirar partido disso. Veja-se o lanche que os miúdos levam para a escola para comer a meio da manhã. É completamente desnecessário! Se a criança tomou um bom pequeno-almoço, não precisa de levar lanche para a escola. Uma maçã serve perfeitamente. A indústria faz passar a mensagem de que, se a criança não comer aquele lanche, vai morrer de fome.»
Tamara Traas, de 18 anos, sempre teve entre 10 e 15 kg a mais. O peso tornou-se um problema quando entrou no 6.º ano. O mau ambiente em casa fez que começasse a comer sem controle. «Definitivamente, como para me compensar emocionalmente. Comer é uma distracção.» Quando a dor nos tornozelos a afastou dos relvados – o futebol era o seu passatempo favorito –, acabou por pedir ajuda. Pesava 127 kg.
Até agora, Tamara está em tratamento há um ano. Metade desse tempo foi passada em internamento em Heideheuvel, em Hilversum, numa clínica para crianças com obesidade mórbida. «A nutricionista ajuda-me com alimentação saudável. Também estou a aprender quanto tempo preciso de estar activa e a exercitar-me e como. O psicólogo está aqui para me ajudar a lidar com os meus problemas emocionais. O médico, para ajudar com os meus problemas físicos, e o líder do grupo apoia-me quando preciso.»
O tratamento está a resultar. Tamara perdeu 14 kg em três meses. «Aprendi aqui que posso fazer outras coisas para além de comer para lidar com os meus problemas. Tal como pedir ajuda. O meu maior desejo é ser saudável para poder voltar a jogar futebol sem me doerem os tornozelos.»
Janetta Huisman, pediatra na equipa do Hospital Heideheuvel, enumera os problemas que podem acompanhar a obesidade mórbida: «Vemos miúdos que já têm tipos de diabetes comuns em idosos ou estágios iniciais de diabetes tipo 2, o que nos leva a crer que vão desenvolver a doença ao longo da vida. Por vezes, temos que usar medicação para tratar casos de hipertensão em crianças. O excesso de peso também causa apneia do sono, o que leva a dores de cabeça, fadiga e dificuldades de concentração durante o dia e, consequentemente, acarreta problemas de aproveitamento escolar. As crianças obesas sofrem igualmente de dores nas articulações, em particular nas costas, ancas, joelhos e tornozelos.»
A juntar aos problemas físicos, estas crianças são confrontadas com problemas emocionais e sociais. Huisman explica: «Possivelmente, estes problemas têm um impacto ainda maior na vida de crianças obesas. Tome-se como exemplo o bullying, que leva ao isolamento e à perda de auto-estima. Sei de miúdos que deixaram simplesmente de ir à escola por essa razão.» Huisman adverte os pais de crianças cujo peso é um problema (crescente) que levem a questão a sério. «Falem com o médico de família, por exemplo. As mudanças comportamentais são difíceis para toda a gente, mas não esperem até que o caso tome proporções alarmantes.»
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