O Verdadeiro Mr Bean

Rowan Atkinson tem 52 anos e é um dos mais famosos actores de comédia britânicos, o arquétipo do humorista simultaneamente sério e angustiado. A admiração de milhões de fãs em todo o Mundo conquistou-a com o seu desempenho em televisão e no cinema do exasperante Mr. Bean, fonte de embaraços onde quer que apareça. No passado mês de Março, o segundo filme deste personagem, Mr. Bean's Holiday (As Férias de Mr. Bean), estreou internacionalmente.
Atkinson foi o mais novo dos três filhos de uma próspera família de agricultores do Nordeste de Inglaterra. Fez o liceu na Durham`s Cathedral Chorister School (dois anos atrás do primeiro-ministro Tony Blair) e estudou depois Engenharia Eléctrica em Newcastle e Oxford, local onde conheceu Richard Curtis, que viria a ser colaborador frequente num grande leque de projectos de televisão e cinema subsequentes.
Em quatro séries da bem sucedida série televisiva de comédia Blackadder, Atkinson representou o papel de um sempre desconsiderado herói histórico de ficção, mas foi o seu desempenho de um vigário inepto no popular filme Quatro Casamentos e Um Funeral, de 1994, que lhe granjeou a atenção das audiências internacionais. Como espião tanto ou mais incompetente em Johnny English (está na forja uma sequela), novamente conseguiu o louvor da crítica internacional.
No entanto, foi como Mr Bean, a sua criação quase muda, que Rowan Atkinson se tornou uma estrela global. Esse inadaptado de cara de borracha e propensão ao desastre surgiu originalmente numa série de 14 episódios na televisão do Reino Unido, em princípios dos anos 1990. Bean –The Ultimate Disaster Movie (Bean – o Filme-Catástrofe Definitivo) foi lançado em 1997 e exibido em 54 países. Diz-se que a obsessão de sossego de Atkinson o levou a cortar a Itália da lista do distribuidor para não ser incomodado durante as suas férias.
Em 1990, em Nova Iorque, Rowan Atkinson casou com Suneta Sastry, antiga maquilhadora da BBC que conhecera durante as filmagens de Blackadder. O casal vive em Oxford e tem dois filhos, Ben, de 14 anos, e Lily, de 12. Atkinson é tão inexpugnavelmente reservado acerca deles como o próprio Mr. Bean. Uma vez, terá dito: «Só há uma coisa mais importante do que não falar da nossa vida privada, que é não falar de por que razão não falo da minha vida privada.»
«As pessoas julgam», disse ele também, «que, por conseguir fazê-las rir no ecrã, sou capaz de as fazer rir em pessoa. Não pode ser menos o caso. Fundamentalmente, sou uma pessoa discreta e desinteressante, dando-se o acaso de que sou actor.» Coisa com que achámos impossível concordar.
Selecções do Reader`s Digest – Como foi regressar à personagem de Mr. Bean depois de 10 anos de intervalo?
Rowan Atkinson – Honestamente, acho que filmar é sempre muito difícil e bastante maçador. E nem de longe divertido. É uma experiência nos domínios da ansiedade. Estou sempre convencido de que não fui bem, embora a seu tempo chegue sempre a um ponto em que o que basta, basta.
SRD – É então um perfeccionista?...
RA – Sim, acho que sou. É claro que o perigo é ficar implícito que tudo o que se fez é perfeito, o que está muito longe da verdade. Mas tenho sempre uma sensação de que há qualquer coisa ali ao alcance da mão, mas está sempre a fugir-nos. É uma grande frustração.
SRD – E, presumo, um tormento para si.
RA – Absolutamente. Não me parece que o perfeccionismo seja uma qualidade particularmente admirável. Na verdade, parece-me mais uma doença do que uma qualidade, uma coisa a que se deve resistir, mais que encorajar.
SRD – Qual é o maior desafio de representar uma pessoa que quase nunca fala?
RA – Quando não há palavras, e a única maneira de transmitir o que acontece é através da expressão física, torna-se especialmente difícil acertar. E trabalhar visualmente, sem beneficiar do diálogo, é um processo muito, muito mais vagaroso. As cenas levam mais tempo a ficar bem. Quando as pessoas falam, pode-se contar a história muito mais depressa. Onde quer que estivéssemos, parecia que ficávamos sempre sem tempo. Nunca acabávamos as cenas, o que nos obrigava a voltar no dia seguinte, sem ter contado com isso. E não me parece que tenha sido por o realizador ou eu sermos menos empenhados. É que era mais difícil prever quanto tempo tudo levaria a filmar.
SRD – As Férias de Mr. Bean foi inspirado por Monsieur Hulot?
RA – Nem por isso. O senhor Hulot pode ter-me bailado na cabeça, mas há muito tempo atrás. Jacques Tati foi uma grande inspiração para mim, quando era novo. Adorava a comédia visual que ele montava. Mas os dois filmes são muito diferentes. A essência de As Férias do Senhor Hulot era ele viajar durante cinco minutos e passar uma hora e meia na praia, enquanto Mr. Bean viaja uma hora e meia e depois passa cinco minutos na praia. É, portanto, o inverso do filme de Tati.
SRD – E os personagens são muito diferentes?
RA – São. Mr. Bean é muito diferente do senhor Hulot. É muitíssimo mais desagradável, muitíssimo mais agressivo, muitíssimo mais egocêntrico. Sempre considerei Mr. Bean uma criança presa num corpo de homem. É o que lhe dá parte do seu encanto, embora ele não seja fundamentalmente uma pessoa muito encantadora.
SRD – Porque é que o filme se passa em França?
RA – Porque quisemos que ele estivesse num ambiente em que não pudesse comunicar verbalmente. Ele só sabe o que imagina serem três palavras em francês: oui, non e gracias. E sempre acreditei que estava por fazer um filme de estilo europeu com Mr. Bean. O primeiro filme era mais uma espécie de comédia de família à americana. No novo filme, Mr. Bean é o elemento pro-activo que toca a história para diante.
SRD – Mr. Bean é uma figura internacional, mas é mais popular nuns países do que noutros ...
RA – Parece que é muito grande na Europa Ocidental – Itália, Alemanha, Espanha –, embora um pouco menos em França. Acho que a França é um bocadinho como a América, no sentido de que os Franceses sentem-se culturalmente independentes, auto-suficientes. Estou a exagerar só para explicar o meu ponto de vista, mas não me parece que sintam necessidade de importar comédia ou arte de outros povos. Mas foi uma surpresa e tanto para mim descobrir como Mr. Bean era popular no Japão. E, a certa altura, falou-se de fazer a estreia na China, o grande mercado que se segue.
SRD – Gostava de ir de férias com Mr. Bean?
RA – Com certeza que não! Ele é um homem muito esquisito, imprevisível e egoísta. Mas apesar de todas as coisas negativas, também tem um lado de doçura e uma ingenuidade infantil com que podemos identificar-nos. As pessoas tendem a gostar dele, coisa que eu acho sempre um bocadinho surpreendente.
SRD – Tem semelhanças com ele?
RA – Espero que não demasiadas, embora talvez sejamos parecidos nalgumas coisas. Ele veste de maneira muito tradicional; casaco de tweed, camisa branca e gravata encarnada. Gosta de formalidades. Mas, ao mesmo tempo, é um anarquista nato. Isso diz-me bastante. Não tenho dúvidas de que sou uma pessoa que gosta de ser discreta, metida consigo mesma, e levar uma vida normal, civilizada, bem formada. Mas também há em mim uma maldadezinha que quer sair de vez em quando. A sorte é que posso fazer isso através da representação. Não tenho que ir fazer para a rua.
SRD – Ocasionalmente, porém, põe-se a si próprio em relevo na vida real, como quando fez um discurso na Câmara dos Lordes contra a proposta de lei do Governo para banir o ódio religioso.
RA – É, é que eu acredito muito em que não deva haver ideias ou crenças que não possam ser questionadas, ou ridicularizadas, ou criticadas. Todas as religiões merecem igual liberdade de culto e prática, mas nenhuma merece o direito de isenção à crítica. Foi sempre assim na tradição europeia ocidental, e é importante conservar esse património, qualquer que sejam as mudanças na constituição étnica do eleitorado do Reino Unido. Folgo em dizer que foi a emenda dos Lordes à lei que prevaleceu. Se não tivesse prevalecido, teríamos muito mais traumas sociais e problemas.
SRD – Longe da vida pública,como é que gosta de passar os seus tempos livres?
RA – O que eu gosto mais são carros. E em especial corridas. Estou proibido de correr desde Fevereiro de 2006 por razões de seguros que têm a ver com a feitura do novo filme de Mr. Bean. E tive a minha dose de acidentes, nos meus bons tempos – também seria difícil não ter, dado o meu hobby. Houve um carro que me deu muitos problemas... Bom, tinha que deitar as culpas sobre o carro, não era? Mas gosto de carros desde pequeno. Correr é como fazer um filme. A gente diz: «Fazer um filme é muito, muito difícil. Embora fazer.» É o desafio. Mas nunca fico tão nervoso como antes de uma corrida de automóveis. É como aparecer num palco perante milhares de pessoas. Mas feitas as contas, gosto mais de correr do que de representar.
SRD – Não sobe a um palco desde 1988, altura em que fez o papel principal em The Sneeze (O Espirro), uma colectânea de peças de um acto de Chekov.
RA – E receio que isso tenha arruinado inteiramente o meu gosto por teatro. Estive nisso seis meses. Aborreci-me tanto e detestei tanto que nunca mais consegui forçar-me a repetir a dose. Mas é uma forma de arte fantástica. Talvez se eu fizesse qualquer coisa só durante três ou quatro semanas. Talvez então pensasse nisso. Já tive a ambição de ser o Fagin no musical Oliver. Mas acho que nunca vai acontecer.
SRD – São públicas as suas simpatias monárquicas ...
RA – Gosto do facto de ser tão irracional, de não fazer sentido, e todavia ser uma coisa de que as pessoas gostam mesmo e com que se identificam. Suponho que é a minha crença profunda de que as coisas mais importantes da vida são, no fim de contas, irracionais. O amor e a beleza, e a arte, e a música, e a amizade, e a espiritualidade, e a religião – estas coisas é que dão realmente raízes às pessoas. A democracia pode ser um instrumento valioso na manutenção de uma sociedade ordeira, mas não é isso que as pessoas recordam no fim das suas vidas, ao reflectirem sobre o seu tempo na terra. É claro que não faz sentido que pessoas não-eleitas tenham muito poder, e os membros da família real (britânica) são pouco mais que figuras de proa. Mas dizem muito a quem gosta deles.
SRD – O seu grande amigo Stephen Fry disse isto de si, no discurso de padrinho durante o seu casamento: «É como se Deus tivesse um jarro suplementar de talento cómico e, por piada, resolvesse dá-lo a um quimista nortenho de blusão e ar de cromo.» Bem definido?
RA (sorrindo) – Tomei isso metade como graça, metade como verdade. Quanto a que metade é qual ...
Fotos: Universal Pics / Giles Keyte/ Universal Studios/ Aquarius Collection
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3 of 4 Comentários |
| tina.14 de novembro 2011 on 14 Novembro 2011 ,13:40 oi.eu to sem palavras acerca do Mr Bean,ele me tira do serio num dos episodios dele que esta na igreja e de tanto ele nao saber cantar so se limitava a cantar o refrao( Aleluia,Aleluia...) e de admirar.tenho a minha fiilha yone tambem admira muito a ele |
| josiane on 12 July 2011 ,17:31 o bean e muito engraçado eu adoro ele... meus primos entao nem c fale ele mo engraçado parabens bean |
| Everton on 21 Abril 2011 ,13:09 Oi eu acho o mr bean muito massa ainda mais pq meu irmão mais novo é a cara dele, tanto é q o apelido do meu irmãosinhu é bean isso q ele tem cinco anos, a idéia do apelido foi dos garotos da nosso condomínio pq meu irmãosinhu conhece todo mundo aqui, e ele é chato igual o mr bean..hahasuhuah | Ver Mais Comentários |
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