«Tomava ecstasy para me sentir melhor nas festas, para me sentir sociável e integrado. É uma droga que nos deixa bem. Mas aquilo causa dependência. Tenho visto nas festas muitos miúdos completamente apanhadinhos». A frase é de Nuno Machado, 43 anos, estafeta, ex-toxicodependente que há menos de um ano sofreu uma recaída e voltou a tomar ecstasy. «Comecei a consumir drogas aos 17 anos, por mera curiosidade, para ver como era. Fumava charros, e foi nessa altura que tomei contacto com o ecstasy que já existia em Espanha. Foi o tempo em que se andava de festa em festa durante um fim-de-semana grande, sempre sob o efeito da droga».

O tempo fez o resto. Das drogas ditas leves, como o haxixe, Nuno acabou por percorrer o calvário das drogas pesadas – heroína e cocaína. E apesar do ecstasy estar conotado com um público mais jovem, Nuno continua seduzido por ela: «Fiz vários tratamentos e no ano passado fui a várias festas e acabei por ter uma recaída e voltei a consumir. Agora estou limpo há nove meses». As drogas sintéticas como o ecstasy estão a dominar o mercado do consumo e do tráfico de estupefacientes em Portugal, principalmente junto do público mais jovem. A nova geração de consumidores prefere as drogas sintetizadas por serem mais limpas, melhor aceites socialmente, mais baratas (de 7 a 15 Euros cada comprimido), não deixarem marcas exteriores da degradação física que denunciam o consumo e não serem facilmente detectadas por pais ou familiares.

Uma ideia defendida por João Figueira, inspector-chefe da Direcção Central de Investigação ao Tráfico de Estupefacientes (DCITE) da Polícia Judiciária (PJ), para quem o ecstasy se impôs como a droga da moda: «Houve uma viragem de hábitos nos consumos das drogas clássicas. Verificamos um decréscimo no tráfico das chamadas drogas duras, como a heroína, que já pouco se consome, para assistirmos a um crescimento do ecstasy, principalmente desde meados da década de noventa. Aquilo que concluímos é que quem está nas drogas duras vai continuar a consumir por necessidade. Mas os mais jovens optam pelas drogas sintéticas».

Uma droga que pode levar ao consumo de outras drogas, nomeadamente, a cocaína. Uma transição que segundo Paula Andrade, responsável do Núcleo de Redução de Danos do Instituto da Droga e da Toxicodependência é uma situação preocupante: «São duas drogas estimulantes. O preocupante é se essas pessoas para anularem os efeitos destas drogas mais estimulantes se começam a virar para o consumo de drogas depressoras como a heroína com consequências absolutamente devastadoras.

Quando as pessoas estão três ou quatro noites numa festa, a tomar pastilhas, há uma altura em que têm de parar, têm de fazer o chill out, porque tanto a cocaína como o ecstasy podem provocar aquilo a que os consumidores chamam o craving, uma situação muito dolorosa, com uma angústia muito grande. Depois daquele speed todo como é que se pára, como é que se adormece e como é que se descansa? Eventualmente com o recurso a indutores do sono, com a cannabis ou com álcool, ainda que este misturado com o ecstasy seja perigosíssimo».

Embora seja uma droga de dependência psicológica, e não física, o ecstasy despoletou o consumo de outras substâncias que tinham desaparecido do mercado: «Quem consume ecstasy não é toxicodependente. Mas pode ficar. Ainda recentemente consumidores desta droga deram a cara na televisão a dizer que têm o cérebro frito. É o resultado da toma prolongada dos químicos. Agora, estas substâncias recrudesceram outras que estavam adormecidas. Não se ouvia falar de ácidos há anos, desde as trips dos anos setenta e oitenta. E de repente com as festas dispararam os ácidos, os cogumelos mágicos, que são alucinógeneos e a cannabis, que é uma droga eclética e transversal».

Uma mistura confirmada por um estudo realizado recentemente em Coimbra para uma tese de mestrado na Escola Superior de Enfermagem daquela cidade. Segundo Lurdes Lomba, a autora, os jovens portugueses consomem cada vez mais ecstasy, começam cada vez mais cedo e fazem-no cada vez mais associado a outras substâncias. O estudo revela também que o seu consumo vai muito além da camada jovem, para ajudar gente socialmente integrada a descomprimir da semana de trabalho.

Lurdes Lomba é enfermeira pediátrica de formação. A vivência próxima de um caso que, em seis meses, experimentou ecstasy e acabou detido, dependente de heroína, levou-a a escolher as drogas para a sua tese de mestrado. Falou com 223 consumidores dos 14 aos 25 anos.

O estudo revelou também que quase todos os consumidores de ecstasy bebem álcool e consomem vários comprimidos de cada vez.. 54% consomem ocasionalmente (não mais de uma vez por mês), 60%, revelam um consumo excessivo e 58% afirmaram associar outras substâncias, nomeadamente álcool, cocaína e haxixe. Até para relaxar depois da excitação.

Quanto à primeira experiência com esta droga, a idade média do primeiro consumo foi aos 17,8 anos, contra os 21,3 encontrados num estudo de 1996. Este inquérito registou casos de iniciação aos 13 anos tendo um deles tomado a primeira pastilha aos 8 anos, fornecida por um irmão. Um dos factos que mais chocou Lurdes Lomba, foi, segundo disse à imprensa, cerca de 19% dos consumidores apontarem uma atitude permissiva ou condescendente dos pais face ao consumo de drogas. A ecstasy é uma droga que passa despercebida, por não deixar sinais exteriores que denunciam o seu consumo. Os seus sintomas confundem-se com os de uma vulgar bebedeira. «São drogas limpas, não metem seringa, não metem sangue, basta um comprimido. Quem é que vê? Quem é que se apercebe?», questiona Paula Andrade.

«Por outro lado, quem consome ecstasy não considera o seu consumo problemático. Existe mesmo um estudo que revela que a representação social destes consumidores junto dos seus pares é positiva. Não deixa aquela imagem degradante do agarrado a uma droga pesada», acrescenta Paula Andrade.

Esta imagem leva a um outro factor. Como não se consideram a si próprios toxicodependentes, os consumidores de ecstasy não aparecem nos centros de apoio a pedir ajuda, mas sim nos hospitais: «Aparecem nas urgências psiquiátricas com ataques de pânico, ansiedade e surtos psicóticos. Aparecem nas consultas de clínica geral e raramente nos serviços de apoio à toxicodependência», revela Paula Andrade.

Aqui entra a importância da atenção que os pais devem prestar aos comportamentos dos filhos. «Tenho uma filha com 19 anos e outra com 14. A mais velha já passou um bocado a fase de sair mais, de se divertir na noite. A mais nova está a entrar nessa fase e, tal como fiz com a mais velha, vou dar a máxima liberdade com a máxima responsabilidade, mas tendo sempre atenção a tudo», defende João Ferreira, professor de História no Ensino Secundário.

João Ferreira era um daqueles pais que saia de casa de madrugada para ir buscar a filha às discotecas, e não se arrepende: «Ela sempre pôde divertir-se como quis e com quem quis. Mas fê-lo sempre com muita abertura e com um compromisso comigo. Penso que é fundamental estarmos atentos ao grupo de amigos, aos locais que frequentam, sem asfixiar a liberdade deles. Eu preferia ir buscá-la por razões de segurança, e os outros pais faziam o mesmo. Com a mais nova penso que vou voltar a usar a mesma metodologia».

Marcadamente urbanas, estas novas drogas são classificadas como club drugs, ou seja, drogas para serem consumidas em festas, discotecas, rave-party’s e concertos de música house e trance, de forma a permitir ao consumidor um acréscimo de energia e consequentemente mais prazer. Mas elas podem ser mortais: «São drogas que estimulam, provocam desinibição social e que permitem ao consumidor estar toda a noite a dançar sem parar. Tornam as pessoas mais eufóricas e enérgicas. Mas depois de passar o efeito, dá lugar a um sentimento de prostração, de cansaço e apatia. E o pior é que se desconhece quais são os verdadeiros efeitos que provocam nos indivíduos ao nível físico ou mental, nomeadamente no respeitante a lesões cerebrais ou mesmo a morte», adianta João Figueira do Policia Judiciária.

E o reverso da medalha pode ser, de facto, devastador. Basta pensar que ao ingerir um simples comprimido de ecstasy, o consumidor faz disparar de imediato a temperatura sanguínea – entra em hipertermia, o que o obriga a consumir muita água para não desidratar e sente o coração bater ao ritmo das batidas da música. O pior é quando se associa a droga a outra bebida, principalmente álcool: é um cocktail explosivo uma vez que o álcool vai aumentar a desidratação.

Segundo um estudo do Professor Félix Carvalho do Serviço de Toxicologia da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, pensa-se que o consumo desta droga pelos mais novos, pode resultar de uma forma de pensar estereotipada, segundo a qual o ecstasy não tem potencialidades para criar dependência ou matar. Ainda segundo este estudo, é falsa a sensação de que os efeitos tóxicos associados ao seu consumo são exclusivamente devido à sua utilização em espaços com elevada temperatura ambiental ou à adulteração das pastilhas com produtos tóxicos.

Entre os efeitos tóxicos mais frequentes citam-se a hipertermia, a rabdomiólise (danos na musculatura esquelética), nefrotocidade e hepatoxicidade (danos nos rins e no fígado) e complicações cardiovasculares.

O mais grave, é que segundo Félix Carvalho, os efeitos tóxicos podem acontecer logo após o consumo da primeira pastilha, podendo provocar a morte. Por outro lado, pode originar graves danos cerebrais, caracterizados por deficiências cognitivas, psicoses e esquizofrenia.

«Nos locais que frequento à noite, observa-se mais o consumo de cocaína. O ecstasy é consumido em locais mais específicos, com determinadas características», defende Joana Cadete, 26 anos, recém-licenciada em Sociologia e a frequentar locais nocturnos deste os 16 anos. Afirma nunca ter consumido este tipo de drogas, mas já ter presenciado os seus efeitos: «Há uns anos, no Festival Tejo, o ecstasy era vendido livremente. Num dos dias reparei num rapaz eufórico a dançar freneticamente, que não conseguia parar quieto, estava a suar em bica, cheio de tiques faciais. São sinais que não enganam».

Há uns anos, um estudo efectuado pela Universidade de Amesterdão Holanda, concluiu que quem consome ecstasy pela primeira vez pode sofrer danos cerebrais e perturbações de memória, mesmo que seja pequena a dose ingerida: uma só pastilha. Mas foi considerado pouco fiável.

Em Portugal, na ausência de estudos científicos semelhantes, a estratégia passa pelo alerta e pela informação a potenciais consumidores. Para João Saraiva, psicólogo da Associação Outros Olhares, vocacionada para a intervenção de proximidade, prevenção e redução de riscos, junto a espaços de diversão nocturna, os maiores riscos estão na sobredosagem: «O comprador pode deparar-se com pastilha vendidas como sendo de ecstasy, mas cuja composição vai do LSD à simples cafeína, passando por anfetaminas. Há quem consuma até dez pastilhas numa só noite».

Daí que, na impossibilidade de dissuadir o seu consumo o conselho do psicólogo seja dizer ao consumidor que o faça com cuidado: «Deve começar por apenas meia ou uma pastilha e esperar um mínimo de uma hora pelo respectivo efeito. Porque se há pastilhas cujos efeitos se sentem ao fim de 15 ou 30 minutos, existem outras em que é preciso esperar uma hora ou até mais».

Em Portugal ainda não há registo de casos de morte provocadas pelo ecstasy, mas elas tem ocorrido um pouco por toda a Europa.

Segundo o relatório de 2005 do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT), quando comparadas com as mortes relacionadas com opiáceos, as mortes com o consumo de ecstasy são relativamente raras, muito em especial quando o ecstasy é a única droga envolvida. Segundo os dados disponíveis, em 2003 a Áustria a e República Checa registaram dois casos, a França oito, a Alemanha dez, Reino Unido quarenta e nove e a Holanda sete.

Em Portugal, o ecstasy foi detectado em 2% dos casos de overdose provocadas por outras drogas. O ecstasy foi sintetizado e patenteado em 1912 pelos laboratórios Merck, mas só foi utilizada no final dos anos sessenta como auxiliar psicoterápico em doente com distúrbios mentais. O uso foi proibido por provocar estados de alucinação graves. No entanto nos anos oitenta do século XX o ecstasy entra no mercado de rua. Como não foi rentável, o laboratório não fez mais estudos sobre a substância.

O mesmo ter-se-á passado com a totalidade das drogas sintéticas. Desenvolvidas nos anos cinquenta e sessenta do século XX - o período áureo da investigação médica, onde se acreditava ter solução para todas as maleitas - estas drogas foram usadas principalmente em doentes do foro psiquiátrico. Mas os elevados efeitos secundários levaram ao seu abandono, até caírem na rua.

A mudança de hábitos de consumo está a ocorrer a uma tal velocidade, que de um momento para o outro a Europa, ao invés do que acontecia, deixou de importar drogas, passando a exportá-las. Segundo a PJ, existem indicadores que permitem afirmar que países da América do Sul, de onde vinham as drogas duras, são agora países importadores, tal como os Estados Unidos. Questionado sobre se existe produção Portugal, João Figueira é peremptório: «Aqui não produzimos. Apenas recebemos e distribuímos. Quanto muito, a droga vem em pó e depois é prensada no nosso país. Mas não temos laboratórios de produção de ecstasy em Portugal. As redes têm esses locais noutros países, nomeadamente na Holanda, mandando a droga já pronta a ser consumida».

Em 2006 foram apreendidas em Portugal 213807 comprimidos de ecstasy pelas diversas forças de segurança, sendo que a maioria foi detectada nos distritos de Braga, Porto, Aveiro, Castelo Branco, Leiria, Lisboa, Setúbal e Faro.

Os sintéticos do mercado

Ecstasy (3,4 metilenodioxi-N-metanfetamina) É a substância que mais se associa às club drugs. A droga foi sintetizada e patenteada em 1912 pelos Laboratórios Merck, mas só foi utilizada nos finais dos anos sessenta, quando o professor da Universidade de Berkeley, EUA, Alexander Shulgin, começou a utilizá-la como auxiliar psicoterápico. O uso foi de imediato proibido devido aos efeitos secundários. O primeiro relato de morte atribuído à substância é de 1987. É uma droga derivada da anfetamina, com propriedades estimulantes e alucinógenas. É capaz de causar bem-estar, conforto, empatia com os outros. Mas por outro lado, provoca hipertermia, desidratação, hiponatremia, blackouts e exaustão. Pode levar à morte.

LSD (dietalamida do ácido lisérgico) É o alucinógeno mais conhecido. Sintetizado em 1938, foi amplamente usado nos anos sessenta como “expansor da mente” sem sessões psicoterápicas. Foi proibido no final dos anos sessenta. Provoca aceleração do pensamento, ilusões e alucinações visuais, auditivas e tácteis e um sinergismo de sensações (as cores têm som, e o som tem cores), sintomas de pânico e quadros de paranóia.

2C-B (4 -bromo-2,5-dimetoxifenetilamina) 2C-T-7 (2,5-dimetoxi-4(n)-propitiofenetilamnina) São psicodélicos desenvolvidos por Alexander Shulgin durante os anos setenta. A primeira é conhecida por Nexus ou Bromo. Apesar de pouco conhecidos, voltaram a ser usados na Europa. Tem efeitos semelhantes ao LSD.

4-MTA (metiltioanfetamina) É um derivado anfetamínico, menos potente que as anfetaminas convencionais. Foi desenvolvida nos anos setenta. Em doses mais elevadas, pode provocar a morte, tendo sido já detectada em Inglaterra, Holanda, Alemanha e Portugal.

PMA (para – metoxianfetamina) PMMA (para – metoximetilanfetamina) São derivados anfetamínicos. Provocam hipertermia, tendo sido já registadas mortes por sobredosagem. Têm sido vendidas como sendo ecstasy, sob a forma de comprimidos, com a marca Mistsubishi.

Metanfetamina Trata-se de um derivado anfetamínico presente muito consumido nos Estados Unidos, devido à grande quantidade de laboratórios clandestinos, que sintetizam esta droga de abuso neste país. Começou a ser sintetizada em 1919 no Japão e pode levar à psicose anfetamínica.

Quetamina (Special – K) Foi sintetizada nos anos 60. Trata-se de um anestésico incapaz de deprimir a frequência respiratória e cardíaca. Apesar disso, o seu uso ficou restrito ao uso veterinário. Produz sedação leve, alucinações, e um sentimento de bem-estar e aceitação social.

Óxido nitroso Trata-se de um gás que quando inalado causa analgesia, euforia, sedação leve e sintomas psicadélicos. É conhecido como gás hilariante.

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