O segredo da eterna juventude

Medicamentos concebidos de acordo com a nossa estrutura genética específica, têm o objectivo perfeito e preciso de eliminar o mal que nos aflige. Minúsculas partículas que destroem os tumores antes de eles terem o tamanho suficiente para ser detectados, eliminando o cancro sem efeitos secundários. Chips de computador que substituem os neurónios do cérebro danificados pela doença de Alzheimer. Durante os próximos 20 a 30 anos, uma progressão de novos tratamentos deverá reduzir drasticamente os grandes assassinos de hoje – as doenças cardíacas, o cancro, o enfarte e a diabetes – o que se traduzirá em vidas mais longas para a maior parte dos seres humanos. Aqui chegados, surge a pergunta: mais longas até que ponto? Alguns especialistas em longevidade estabelecem a meta de vidas mais saudáveis e mais produtivas até cerca dos 90 anos. Outros dizem que é possível prolongá-las aos 120 ou mesmo aos 150 anos.
Surge então a segunda pergunta: Numa idade tão avançada, que tipo de vida se poderá ter? Doente, débil e com incapacidades? Não, obrigado. Mas se pudermos todos viver como Jeanne Calment, talvez. Esta francesa morreu em 1997 com a idade de 122 anos, a vida mais longa que se conhece. Fumadora, Calment apreciava acima de tudo um copo de vinho do Porto. Andava de bicicleta aos 100 anos, estreou-se no cinema aos 114 e permaneceu lúcida praticamente até ao dia em que morreu. Questionada sobre o que achava do seu aspecto, deu esta resposta acutilante: «Tenho uma ruga e estou sentada sobre ela.»
É óbvio que Calment possuía traços genéticos raros. Doutro modo, como poderia sobreviver a 6 milhares de milhões de pessoas? Todos gostaríamos de saber, e é por isso que investigadores de todo o Mundo procuram freneticamente a fonte genética da juventude. O seu objectivo é desvendar os segredos de uma vida longa e saudável para todos nós, não apenas para uma afortunada francesa. Enquanto batalham nos seus laboratórios e computadores, cada um deles deve debater-se ainda com outra questão, a mais dúbia de todas: deverá considerar-se o envelhecimento, que na realidade é a deterioração gradual de todas as células do organismo, como uma «doença» ou como uma parte natural do ciclo da vida?
Na corrida para a obtenção da cura, incluem-se não apenas cientistas e médicos, mas também filósofos e bioéticos, que se questionam e se preocupam demasiado sobre a linha de separação entre o que se pode e o que se deve fazer ao corpo humano. É algo que teremos de aceitar como desafio, quanto mais cedo melhor. Eis um olhar sobre as inovações que vêm a caminho e os dilemas que elas podem apresentar.
Cérebros Reparados
Para que serve uma vida longa se uma pessoa não consegue lembrar-se onde está ou mesmo quem é?
Os investigadores estão a lançar as bases para implantes que poderão, por volta de 2020, reparar os cérebros danificados pela doença de Alzheimer, pelo enfarte e por outras doenças. Theodore Berger, professor de Engenharia Biomédica e Neurociências da Universidade da Califórnia do Sul, está a trabalhar em chips de computador que se destinam a substituir os neurónios danificados no hipocampo, a região do cérebro que transforma as impressões rápidas em memórias a longo prazo. A doença de Alzheimer e outras formas de perda de memória resultam de danos no hipocampo.
Os métodos de Berger parecem espantosamente simples, pelo menos para um leigo. Depois de retirar uma amostra de hipocampo de um animal de laboratório, coloca-a num prato e liga-a a eléctrodos, enquanto um computador vai gerando impulsos que imitam os sinais do cérebro. Ele precisa de saber como é que o hipocampo converte um conjunto de padrões noutro que guarda a memória. Os chips do cérebro que concebeu para ratos de laboratório funcionaram quando os inseriu numa secção de cérebro vivo no Outono passado. A seguir, ele tenciona descodificar os padrões dos macacos Rhesus, que mais se assemelham aos humanos. As experiências clínicas em pessoas ainda terão de esperar entre 12 e 15 anos. Os chips do cérebro não são tão fantásticos como se poderá pensar. Cerca de 30000 pessoas já têm implantado nos seus cérebros o Activa, um dispositivo simples fabricado pela Medtronic, uma firma de aparelhos médicos. O Activa estimula electronicamente secções do cérebro para suprimir os sintomas da doença de Parkinson e outros problemas motores. Outro tipo de implante que está a ser actualmente testado pode ajudar os pacientes com ALS, ou doença de Lou Gehrig, uma das mais devastadoras doenças do cérebro.
Grande Prevenção em Pequenas Doses
Imagine um tratamento do cancro que consegue destruir os tumores antes de eles terem o tamanho suficiente para ser detectados.
Jennifer West, directora do Instituto de Biociências e Bioengenharia da Rice University, investiga curas para o cancro que empregam esferas metálicas (nanoesferas) com cerca de um milionésimo do tamanho das células do sangue humanas. Se tudo correr bem no laboratório, qualquer dia o médico poderá injectar esferas na corrente sanguínea de um paciente. Se um tumor estiver a desenvolver-se, as partículas entrarão nos vasos sanguíneos e juntar-se-ão no tumor, sem penetrar no tecido saudável. Submeter o paciente a uma dose elevada de luz quase infravermelha, que passa facilmente através do corpo, elevaria a temperatura das esferas a 55°C, calor suficiente para destruir o cancro sem danificar o tecido saudável adjacente. Estas nanopartículas não funcionarão apenas para a cura do cancro. A área emergente da farmacogenomia promete usá-las para fabricar drogas no combate à doença de um doente específico ou de um ponto determinado do seu corpo.
Uma melhor compreensão do genoma humano poderá também levar a outras curas. Craig Venter, fundador da Celera Genomics, desempenhou um papel fulcral na sequência do genoma humano, um mapa exacto do nosso ADN. Venter, actual director de um instituto sem fins lucrativos que se dedica ao estudo do genoma, prevê que dentro de uma década os laboratórios possam de mostrar a sequência do genoma de um indivíduo por 1000 dólares. (Actualmente, isso pode custar entre 100 000 e 1 milhão de dólares, dependendo do nível de detalhe.) Assim que o preço baixar, explica ele, o Governo e as companhias de seguros vão querer que toda a gente se submeta a esta análise.
Munido desta informação potencialmente salvadora de vidas, cada indivíduo terá um maior controlo sobre a sua saúde. «A responsabilidade será cada vez mais transferida para os indivíduos», diz Venter. «Quem corre um risco acrescido de cancro colorrectal ou da mama deve fazer exames mais frequentes.»
A Nova Morte
Se as descobertas médicas eliminam as doenças cardíacas, os enfartes e o cancro, de que morrerão as pessoas?
Paradoxalmente, a cura de muitas doenças que não deixam muitas pessoas chegar à velhice criam novos riscos para a saúde. A próxima pandemia global poderá ainda ser mais virulenta que a epidemia de gripe de 1918, diz S. Jay Olshansky, um demógrafo da Universidade do Illinois, em Chicago, que estuda o envelhecimento da população. «Estamos muito mais vulneráveis», explica Olshansky. «Somos uma população muito mais velha.» Há também mais pessoas que têm os sistemas imunitários debilitados por causa do VHI/sida, da quimioterapia e dos tratamentos radioactivos.
Depois, há a morte provocada por nós próprios. Bill Joy, co-fundador da Sun Microsystems, alerta para o facto de «a mesma tecnologia usada para prolongar a vida poder ser usada por outros para nos eliminar». Ele especula que um vírus informático que danifique um coração artificial tanto pode ser disseminado por acaso como intencionalmente. «Pode mandar-se informação por e-mail; plutónio, não», diz Joy.
Outra escola de pensamento sustenta que todos morreremos de velhice, com a diferença de que será mais tarde que a maior parte das pessoas de hoje. Afinal de contas, todos morremos de qualquer coisa. Ou não é assim?
Segundo investigadores independentes como o inventor Ray Kurzweil, é possível quebrar a barreira da idade tratando o corpo humano como uma máquina delicada que merece o melhor combustível e a melhor manutenção. Ele diz que espera nunca morrer.
A aposta já está feita
O gerontologista Steven Austad pensa que a primeira pessoa a viver até aos 150 anos já nasceu. Ele apostou com um colega, o demógrafo S. Jay Ol-shansky, que haverá pelo menos uma pessoa a chegar aos 150 anos em 2150. Cada um deles adiantou 150 dólares, e calculam que com os juros acumulados os herdeiros do vencedor ganharão milhões. Este jogo opõe um optimista a um superoptimista. O demógrafo interno de Olshansky diz-lhe que alguém poderá atingir apenas 130 anos, mais ou menos, na altura de pagar a aposta.
Profetas da imortalidade
O inventor Ray Kurzweil, que tem 57 anos, engole 250 suplementos por dia para tentar evitar o envelhecimento. Pensa que conseguirá substituir partes do corpo indefinidamente. «Quanto tempo dura uma casa?», é a pergunta de retórica que ele faz. «Indefinidamente, se a formos retocando.»
Claro, mas uma casa não é um organismo biológico. Mas Kurzweil diz que por volta de 2040 os seres humanos serão maioritariamente «não-biológicos».
Kurzweil trabalha em inteligência artificial (IA) e cria máquinas que desempenham tarefas para as quais geralmente se pensa que é necessária inteligência.
É conhecido por ter inventado a primeira máquina de leitura para cegos. Quem trabalha com IA costuma pensar no cérebro humano como se ele fosse um computador sofisticado. Afinal de contas, já se trataram corações doentes com pacemakers. Porque não os cérebros? Kurzweil prevê que por volta de 2030 as pessoas estejam a transferir as suas memórias para computadores. Ian Pearson, que está à frente da unidade de futurologia da British Telecom, disse ao jornal The Observer que uma espécie de ciberimortalidade será possível um dia. «Já estamos a procurar descobrir como estruturar um computador que possa tornar-se consciente», diz ele.
«A consciência é de facto mais um sentido, e é nisso que estamos a trabalhar.»
Existe uma diferença, porém, entre inteligência e consciência. Em 1997, o campeão do Mundo de xadrez, Garry Kasparov, foi derrotado por um computador chamado Deep Blue. Houve quem dissesse que era um golpe para a dignidade humana. Ridículo, diz John Searle, professor de Filosofia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que se dedica ao estudo da consciência. «Tudo o que o computador possui é um conjunto de regras para manipular símbolos», explica Searle. «Ele não sabe que está a jogar xadrez.»
Mas poderá pôr-se de parte a ideia de computadores conscientes no futuro? Searle diz: «Se conhecêssemos as reacções mecânicas do nosso cérebro que produziram consciência e as simulássemos num computador, penso que poderíamos dizer que ele era consciente.» Ainda não estamos nessa fase.
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