O que os professores do seu filho gostariam de dizer-lhe

Hoje em dia, são o bombo da festa, mas os professores portugueses têm umas verdades para dizer aos pais, daquelas que as linguagens do «eduquês» e do politicamente correcto impedem de dizer. Foi o que fomos descobrir numa sondagem inédita entre os professores do ensino secundário. Propusemos 12 afirmações, e os professores escolheram. Depois, perguntámos se havia mais a dizer, e os professores responderam.
Mês e meio depois do regresso às aulas do seu filho, tem ideia das questões na ordem do dia na escola dele? Sabe o que os professores pensam do desempenho dos alunos e como pode conciliar as suas expectativas com o percurso escolar do estudante de que é pai ou mãe?
As afirmações com que mais professores do secundário concordaram – aquelas frases que 50% dos inquiridos gostariam de dizer aos pais dos seus alunos – têm a ver com a responsabilização dos filhos e educadores. Abaixo do limiar dos 50% de aceitação, ficaram as afirmações sobre casos extremos; professores incompetentes, alunos problemáticos ou pais que falsificam a autoria dos trabalhos.
86% dos professores gostariam de dizer aos pais dos seus alunos:
«Nos meus tempos de estudante, quando chumbava a culpa era minha, não era dos professores. O seu filho tem de trabalhar mais.»
«Os pais muitas vezes atribuem o insucesso dos seus filhos apenas a factores externos (professor, colégio, ambiente da turma), e inversamente em relação ao sucesso», afirma Ana Isabel Santos, professora de Português, Latim e Religião no Colégio Santa Doroteia, em Lisboa. «Se o aluno não fez o trabalho de casa, a culpa é do professor porque não avisou diariamente que o aluno não o fazia.»
«Os estudantes têm que ser responsabilizados pelo seu rendimento escolar, sem subterfúgios nem políticas infantilizantes. É o trabalho individual de cada estudante que lhe permite preparar-se para a vida num mundo globalizado», recorda Vítor Oliveira, professor de Biologia e Geologia na Escola Secundária de Santo António, no Barreiro.
«Os alunos aprenderam a tomar para si todos os proveitos que lhe são oferecidos pela disputa entre professores e encarregados de educação», afirma Paula Martins, professora de Educação Visual e Tecnológica na Escola Secundária de Santo António, no Barreiro. «Culpam frequentemente a escola de não cumprir o seu papel.» Por outro lado, «os pais acreditam seriamente nos seus filhos, sem pôr qualquer dúvida no que lhes é relatado, o que se tem reflectido numa geração que não aceita a responsabilidade dos seus actos e não respeita os seus professores», afirma.
Quando questionados sobre a frequência com que gostariam de dizê-lo, as respostas dos professores situam-se num valor médio de 2,3 (de 0 – nenhuma vez a 3 – muitas vezes). Só 14% dos inquiridos na sondagem responderam ter sentido poucas vezes vontade de dizê-lo aos educadores.
O conselho dos professores «Os alunos devem ser mais responsáveis», diz Andreia Ferreira. «A questão não é encontrar culpados, mas sim trabalhar em conjunto, de modo a encontrar as verdadeiras razões das suas dificuldades», acrescenta Catarina Gião, professora de Físico-Química e Religião no Colégio Santa Doroteia, em Lisboa.
80% dos professores gostariam de dizer: .
«Ajudar o seu filho nos trabalhos de casa é muito diferente de mostrar-lhe como é que se copia tudo da Internet.»
Além disso, 15% dos inquiridos consideram esta a afirmação mais importante da sondagem.
«Diria isto por outras palavras: “mostre-lhe como se pode ir buscar a informação à Internet, mas ajude-o a trabalhar essa informação e evite que ele copie tudo”», sugere Maria do Céu Tarouca. «A ajuda pessoal do pai ou da mãe é muito mais positiva para um filho do que remetê-lo para encontrar todas as soluções na Internet», diz Joana Basto, professora de Química e Matemática há 5 anos. «Copiar não é aprender. Dessa forma, o processo de assimilação das aprendizagens não se concretiza», acrescenta Andreia Ferreira, professora de Inglês e Alemão.
O conselho dos professores A Internet deve ser utilizada como um meio de pesquisa e uma ferramenta de trabalho. Serve para adquirir conhecimentos e complementar a informação adquirida nas aulas, por exemplo. «Em caso algum deve ser usada como base para substituir as aprendizagens através da cópia dos seus conteúdos», defende Nuno Teodósio, professor de Português.
74% dos professores gostariam de dizer:
«O seu filho precisa de descontrair depois das aulas. Não faz mal nenhum ver um bocado de televisão.»
Ou seja, nem só de reparos aos alunos se poderia fazer uma conversa franca entre professores e os pais dos estudantes do secundário. Uma larga fatia sugere aos pais que deixem os filhos terem lazer.
«Depende dos casos. Existem alunos muito responsáveis e exigentes que por vezes se tornam muito ansiosos e nervosos. Acontece frequentemente com alunos que querem entrar na universidade em cursos que exigem médias elevadas, como Medicina. Nestes casos, é necessário conversar com eles e com os pais, de modo que consigam ser equilibrados. Noutras situações, talvez a maioria, temos que dizer o contrário», diz Catarina Gião.
«Concordo, mas sublinho “em alguns momentos”. O grosso do tempo dos estudantes deve ser investido (não gasto) a estudar, a saber, a aprofundar, a aprender a gostar de saber. O gosto pelo conhecimento é a melhor herança que podemos deixar aos nossos filhos», recorda Vítor Oliveira. E acrescenta: «Um estudante tem uma função social, que é estudar. No nosso país, exige-se muito pouco dos estudantes, não se premeia o esforço nem se incentiva a competitividade. Se compararmos o nosso sistema de ensino com os dos países com melhores performances na Matemática e nas Ciências, notamos de imediato diferenças abismais na exigência e no ritmo de trabalho.»
O conselho dos professores «Não será pelo facto de haver alguns momentos de descontracção que o aluno irá ter menos sucesso. Obviamente que esses momentos são também imprescindíveis. Cabe aos pais ajudarem a incutir aos filhos a noção da gestão cuidada desses tempos», sugere Nuno Teodósio.
74% dos professores gostariam de dizer:
«Não acredito que fale com o seu filho; 15 minutos por dia bastariam.»
E 39% dos inquiridos, de longe a maior percentagem, consideraram esta frase a mais importante das que lhes foram propostas na sondagem.
Vítor Oliveira «concorda absolutamente» que uma conversa entre pais e filhos é insubstituível. «Embora mantendo os diferentes papéis que lhes são conferidos pela idade e experiência de vida, é fundamental que os pais façam um esforço real para entender o mundo dos jovens – só desse modo poderão ser ouvidos e as suas opiniões levadas em conta.»
«Muitos pais não o fazem ou fazem-no mal, ou seja, em vez de conversar, discutem. Uma coisa é trocar ideias e estar a par sem se meter na vida do filho, outra é bombardeá-lo com perguntas às quais ele perde a vontade de responder e sente como uma intromissão na sua vida privada», afirma Maria do Céu Tarouca, professora de Inglês e Alemão há 28 anos, agora docente na Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Benfica, Lisboa.
O conselho dos professores «O hábito do diálogo resulta em partilha e confiança … como fazemos com um amigo, ouvimo-lo e nem sempre o devemos aconselhar. Muitas vezes, ele só quer que o ouçam!», resume Paula Martins.
«É cada vez mais necessário que os pais dialoguem com os filhos, demonstrem as suas preocupações e manifestem predisposição para os ajudar na resolução dos problemas», acrescenta Andreia Ferreira, há cinco anos professora de Inglês e Alemão no Externato Fernando Pessoa, em Lisboa.
68% dos professores gostariam de dizer:
«Porque terei de abdicar do meu tempo livre, quando os pais nem se dão ao trabalho de aparecer?»
«Parece-me que a Escola é, por vezes, o “Lar” do aluno, uma vez que cada vez mais os pais se encontram ausentes e indisponíveis», afirma Andreia Ferreira. Mas Joana Basto acredita que «a função do professor é educar e ensinar os alunos, e não seguir o exemplo dos pais». «Ser professor é também uma missão, e não só um modo de subsistência, e, sendo assim, há que investir no aluno, sobretudo se em casa isso não acontece», defende Ana Isabel Santos, do Colégio Santa Doroteia.
«É um problema complicado. Os filhos muitas vezes também não gostam que os pais vão à escola. Os pais acham que têm que ir falar de coisas de que não entendem nada ou que têm que apresentar queixas. Se fazem uma sugestão na reunião de pais que resulta em nada, nunca mais lá aparecem. Os pais deles também já não apareciam na escola … «Como dizia o Eça de Queirós, “o português quer é pirar-se!”», observa Luís Ribeiro, reformado do ensino secundário (em que deu aulas de Português, Francês, Inglês e História) e actualmente professor na sua escola de música, na Maia.
O conselho dos professores «Existem várias formas de contacto: papel/caderno/caderneta, telefone na hora de atendimento ou outra que o director de turma disponibilize», recorda Paula Martins. Além das horas de atendimento semanal ou mensal, conforme o nível de ensino e as seis reuniões ao longo do ano lectivo. «Uma percentagem muito acima de 50% dos encarregados de educação dos alunos de uma turma não chega a comparecer na escola em nenhuma destas situações …»
«Se houver acompanhamento dos alunos pelos professores e pelos pais, as crianças começam a perceber que é preciso fazer escolhas na vida e que elas podem ser orientadas. Nos grandes momentos da vida, não está lá o pai nem a mãe, mas é importante ter aprendido», sugere Luís Ribeiro.
66% dos professores gostariam de dizer:
«Está muito iludido sobre as reais capacidades do seu filho.»
Para Vítor Oliveira, excluindo os casos de patologia medicamente comprovada, «os casos de abandono ou retenção são resultado de uma cultura da ignorância, da facilidade, da total ausência de perspectivas, da marginalidade ou, muito simplesmente, do alheamento dos pais relativamente às actividades escolares dos filhos».
9% dos professores consideraram que esta é a frase mais importante das que lhes foram propostas na sondagem.
Catarina Gião admite que se faça alguma pedagogia para conciliar as expectativas dos pais aos interesses dos filhos. «Lembro-me do caso de uma aluna com notas relativamente boas, 14-15 valores, que os pais queriam muito que entrasse em Medicina, onde são exigidas médias de 18-19 valores. Perguntei aos pais se queriam que a filha fosse feliz ou tivesse boas notas, e os pais responderam: “Ah, mas Medicina é o que ela quer …” A filha dizia: “É o que os meus pais querem.” A mãe já andava a ver as médias de entrada em Faculdades de Medicina em Espanha …», conta a professora de Físico-Química.
O conselho dos professores «A responsabilização dos alunos devia partir dos pais, para que estes se consciencializem da necessidade de esforço e trabalho, se alcancem os objectivos e as expectativas não sejam goradas pelo facto de excederem a realidade», diz Nuno Teodósio. «Não há alunos iguais e, apesar das expectativas que os pais possam gerar face aos seus filhos, há que, num acompanhamento contínuo, incutir-lhes a consciencialização da realidade. Sem criar choques, há sempre a possibilidade, pela experiência, de os induzir na leitura dos dados reais para não criarem falsas expectativas.»
56% dos professores gostariam de dizer:
«É intolerável ter de andar tanto tempo atrás do seu filho para que ele entregue os trabalhos. Isso devia ser tarefa sua».
«Existe um limite para aceitar um trabalho de casa. É definida uma data de entrega; passada essa data, e se a justificação não for plausível, faço uma redução à percentagem de avaliação como penalização», diz Paula Martins. Um professor «não consegue realizar o seu trabalho se acumular os elementos de avaliação ao longo do período».
O conselho dos professores «O cumprimento de prazos é algo absolutamente essencial para a integração na sociedade e é algo que tem de ser aprendido bem cedo pelos alunos», diz Vítor Oliveira. «Seja em que idade for, o aluno tem que ser responsável pelo seu trabalho. Os pais e os professores só têm que trabalhar juntos nessa responsabilização da criança ou do adolescente», defende Ana Isabel Santos, do Colégio Santa Doroteia, de Lisboa.
55% dos professores gostariam de dizer:
«Por favor, diga ao seu filho para se lavar antes de vir para a escola.»
«Como já passei pela situação de ter de tirar piolhos a uma aluna noutra escola nas imediações de Lisboa, sei bem o que isto pode significar. Por vezes, é necessário dizer “coisas difíceis” aos pais, pois alguns não compreendem outra linguagem. E há alunos cuja higiene deixa muito a desejar …», diz Maria do Céu Tarouca.
O conselho dos professores «As regras de higiene pessoal são básicas para a socialização e a integração do aluno no grupo. É a família que as deve transmitir e implementar», resume Vítor Oliveira.
38% dos professores gostariam de dizer:
«Estou a gostar muito das suas redacções, mas o seu filho é que devia escrevê-las.»
«Concordo que se deva transmitir aos pais o seu dever de incentivarem os filhos a trabalhar desenvolvendo as suas próprias ideias», diz Joana Basto, há cinco anos professora de Química e Matemática, agora no Externato Fernando Pessoa, em Lisboa.
«Ajudar os jovens nos seus trabalhos de casa não significa fazê-los por eles. Muito pelo contrário. Ao fazer isso, estamos simplesmente a infantilizá-los e a impedi-los de crescer, que é a melhor forma de aprender. Os pais devem incentivar, verificar, corrigir erros óbvios e propor mudanças, mas respeitar estilos e opções dos seus filhos», diz Vítor Oliveira. O contrário leva «ao desinteresse e à desresponsabilização por parte dos filhos», afirma Nuno Teodósio, há 22 anos professor de Português.
«Muitos pais não sabem como ajudar o filho a estudar e a fazer os seus trabalhos. Assim, dá-lhes menos trabalho e gastam menos tempo se os fizerem eles pelos filhos. Essa substituição não permite o crescimento da autonomia nem da auto-estima», regista Paula Martins.
O conselho dos professores Os pais devem incentivar e apoiar a realização dos trabalhos de casa pelos alunos e não assumir a tarefa como sendo deles próprios. «O facto de os pais ajudarem os filhos nos trabalhos escolares é muito positivo. No entanto, quando essa ajuda se torna uma alternativa a algo que o aluno não quer fazer ou quer fazer muito bem feito, já se torna mais complicado, pois devem ser ambos orientados», sustenta Maria do Céu Tarouca, professora de Inglês e Alemão na Escola Secundária de José Gomes Ferreira.
27% dos professores gostariam de dizer:
«Deixe-se de sonhos. Há professores que muito simplesmente são incompetentes.»
«Se me apercebo de algum problema com outro professor, devo tentar ajudar a resolvê-lo ou simplesmente aconselhar os pais a falarem directamente com esse outro professor», diz Catarina Gião.
Maria do Céu Tarouca é uma das professoras que rejeitam a afirmação. «Nunca diria isto. Apesar de reconhecer que, tal como em todas as outras profissões, há pessoas mais competentes do que outras, nunca o diria nem o compararia a sonhos. Um professor não se faz sozinho!»
O conselho dos professores «Em todas as profissões existem pessoas incompetentes, com falta de vocação e preparação para fazer o que se propõem, por vezes de modo quase desonesto, tendo em conta as suas habilitações e motivações, mas, sendo nossos colegas, não se apresentam aos pais os assuntos nestes termos. Deve haver com esses colegas um diálogo que consiga estabelecer meios de remediar essas situações consideradas de incompetência», sustenta Ana Isabel Santos, do Colégio Santa Doroteia.
SONDAGEM REALIZADA JUNTO DE PROFESSORES DO ENSINO SECUNDÁRIO. AMOSTRA REPRESENTATIVA DE 287 ENTREVISTAS TELEFÓNICAS, SEGUNDO O MÉTODO «BOLA DE NEVE», A PARTIR DE UMA LISTA DE CONTACTOS OBTIDA JUNTO DE PROFESSORES DE DUAS ESCOLAS SECUNDÁRIAS DE LISBOA E DUAS DO PORTO. O TRABALHO DE CAMPO DECORREU ENTRE OS DIAS 26 E 29 DE SETEMBRO DE 2006. RESPONSABILIDADE DO ESTUDO: AXIMAGE COMUNICAÇÃO E IMAGEM, LDA., SOB A DIRECÇÃO TÉCNICA DE JORGE DE SÁ.
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