Nuclear: A resposta para a crise?

Não sabendo que a Torre Eiffel se acende pontualmente a cada hora, as crianças apinharam-se na janela, de pijamas vestidos, enquanto Ursula, de olho no relógio, apontou o comando da TV e com um gesto dramático carregou num botão.
«Voilà», sorriu, e os miúdos aplaudiram a torre iluminada por 20 000 lâmpadas.
Esta avó inteligente não é o único mágico de França. O país inteiro sorri porque é iluminado por uma provisão abundante de electricidade barata. E porque a sua energia é «limpa», os gases de efeito de estufa emitidos por pessoa em França são um terço da média europeia.
França é o exemplo a seguir, reclama Nicolas Sarkozy, o presidente do país. «Estamos a mostrar como reduzir a dependência do petróleo, cortar emissões e produzir alguma da mais barata electricidade do Mundo.»
Como? Pela opção nuclear. Perto de 80% da electricidade de França é gerada pelas suas 58 centrais nucleares.
Apesar de 143 centrais nucleares em 14 países da UE produzirem cerca de um terço da sua electricidade, a energia nuclear está longe de ser a estrela da economia que é em França.
A Europa de Leste tem sido mais fácil de convencer porque o encerramento em 2006 e 2009 das exportações de gás russas deixou diversos países ao frio, sem energia para aquecimento, e com o petróleo do mar do Norte Ocidental e as reservas de gás por baixo deste quase exauridas. E os gases de efeito de estufa responsáveis pelo aquecimento climático têm que ser reduzidos. Em qualquer caso, a energia nuclear – não apenas limpa em termos de poluição, mas disponível – é de repente politicamente correcta. «Um renascimento nuclear ganha movimento agora em todo o Mundo», relata John Ritch, director da Associação Nuclear Mundial.
As soluções técnicas não param de avançar. Os novos reactores pressurizados europeus, planeados no Reino Unido e já em construção na Finlândia e França, prometem poupanças de combustível na ordem dos 17%, redução dos detritos em 30% e produção de energia superior em 36%.
Fazendo reviravoltas espectaculares, os Governos da Itália e Suíça reavaliam a opção nuclear (a Suíça pode precisar de referendos para construir novos reactores no lugar dos velhos). A Finlândia já decidiu construir dois novos. A Espanha e a Bélgica estão a prolongar o tempo de vida operacional dos reactores existentes, e a Suécia vai substituir as centrais antigas por novas. Os países de Leste estão a substituir reactores da era soviética por novos modelos de alta tecnologia. No total, quatro reactores estão neste momento em construção, enquanto mais nove estão prestes a ser começados.
A mudança mais dramática na paisagem política foi efectuada pela chanceler alemã Angela Merkel. Em Setembro passado, numa medida transitória, ela propôs alongar o ciclo de vida dos 17 reactores do país que deviam cessar funções até 2022. As centrais foram construídas para funcionar 30-40 anos, mas agora contemplam 8-14 anos mais.
Apesar de o objectivo de Merkel ser assegurar os preços de electricidade competitivos cruciais para a economia, apenas um terço dos alemães apoia a sua política, segundo uma sondagem da estação de televisão ZDF. E ainda precisa de passar por legislação, pelas câmaras do Parlamento ou pelo Supremo Tribunal.
Além disso, a Alemanha tem investido fortemente em energia solar e eólica, e a parcela de recursos renováveis representa agora cerca de 16% da produção nacional de electricidade. Entidades oficiais alemãs decidiram recentemente encorajar novos campos eólicos no mar do Norte e no Báltico, que podem produzir 25000 MW por ano em 2030; isto representa a produção de 20 centrais nucleares actuais. A energia solar também é popular na Alemanha, com sistemas novos a adicionarem 3000 MW por ano.
A nova política nuclear de Merkel mina os objectivos de longo prazo das energias renováveis, de acordo com o director da Umweltbundesamt, a agência federal do ambiente, que também alerta para os perigos inerentes à operação de centrais nucleares.
O preço da energia eólica e solar é elevado. O RWI, um instituto económico em Essen, reporta que os subsídios para gerar energia solar na Alemanha nos últimos 10 anos somam 53 biliões de euros. Isto teria pago seis centrais nucleares. Os subsídios para energia eólica totalizaram 20 biliões de euros, ou 3 centrais nucleares. O investimento em investigação em energia nuclear, em comparação, custou ao contribuinte 15 biliões de euros até agora.
A Espanha tem uma política de energias renováveis comparável à da Alemanha, mas está a cortar subsídios enquanto em Abril passado o Reino Unido começou a cortar os subsídios para painéis solares. O Governo Checo também está a cortar os subsídios à energia solar, vistos como demasiado generosos.
Diz Manuel Frondel, um dos autores do relatório RWI: «A política alemã impõe custos elevados sem benefícios nas emissões de C02, no emprego, segurança energética ou inovação tecnológica – no entanto, a energia nuclear é uma alternativa credível e até bastante verde.»
Mesmo alguns activistas verdes concordam. «A Alemanha é um caso exemplar», diz Chris Goodall, um de alguns líderes ambientalistas do RU e dos EUA – incluindo um co-fundador do Greenpeace e um seu ex-director no RU – que agora apoiam a energia nuclear. «Apesar de enormes subsídios para painéis solares, a energia fotovoltaica ainda mal substituiu 1% da electricidade gerada por combustíveis fósseis.»
O cientista James Lovelock, autor da teoria de Gaia, que sustenta que a Terra se comporta como um organismo vivo, acrescenta: «O nuclear é a única solução verde.»
Dois terços dos alemães ainda acham isto difícil de acreditar. A maior parte defende o programa nacional de energias renováveis, com os seus espectaculares campos de geradores eólicos, barragens e painéis solares, apesar dos seus elevados custos e muitas desvantagens.
• A produção nuclear de energia é permanente e constante, enquanto as turbinas de vento geram energia 22% do tempo, na melhor das hipóteses, e os painéis solares não funcionam no escuro ou com mau tempo. De igual modo, os sistemas de apoio que funcionam como combustíveis fósseis importados precisam de manter-se em funcionamento, e portanto as vantagens em emissões perdem-se.
• As fugas de radiação são pequenas. No passado, a enorme central de reprocessamento no cabo da Hague, perto de Cherburgo, em França, deixou fugir alguma radiação, mas os investigadores não conseguiram estabelecer uma ligação causal entre isso e o aumento de casos de leucemia na região. As fugas de radiação estavam dentro dos limites europeus tolerados.
• A energia nuclear poderá ser a fonte de energia importante mais segura do Mundo. Tirando 56 pessoas mortas em Chernobyl, nenhuma pessoa fora da indústria foi ferida num acidente nuclear. O carvão, petróleo, gás e mesmo a produção hidroeléctrica causam muitas vezes mais acidentes, enquanto a poluição por combustíveis fósseis mata milhares por ano.
• Uma vez que esteja a funcionar, a energia de uma central nuclear é a mais barata do Mundo. O Ministério da Economia alemão estima o custo médio da energia nuclear em 2,56 cêntimos a unidade, contra o carvão, a 3,65 cêntimos, 4,3 da hidroeléctrica, 4,9 o gás, vento a 9,0 e solar a 54 cêntimos.
• Em termos de «custos externos»
– efeitos em coisas como a saúde e o ambiente –, o nuclear ganha de caras. Um relatório da CE considera que, se estes custos fossem incluídos, o preço da electricidade produzida a carvão duplicaria e por gás aumentaria um terço.
– Torre Eiffel incluída – durante 15 meses. Para fazer o mesmo, uma central a carvão típica precisa de uma carruagem de 20t de carvão a cada 12 minutos.
Mas é com o final do processo que as pessoas se preocupam mais – com o lixo. O combustível nuclear usado que sai de um reactor é extremamente radioactivo e permanece perigoso durante milhares de anos.
O terrorismo não é considerado uma grande ameaça. «Para matar muita gente há formas muito mais fáceis do que tentar usar lixo nuclear», diz Pradel. «Fuel usado não pode ser transformado numa bomba.»
Comparado com as montanhas de cinza, ácido, poeira e químicos tóxicos emitidos pelas centrais a carvão, um ano de lixo nuclear de alto nível por pessoa é apenas de 5g, mais pequeno do que uma moeda de 20 cêntimos.
Os cientistas nucleares afirmam que as preocupações do público com a armazenagem do lixo nuclear serão em breve hipotéticas graças aos novos reactores rápidos de Geração IV, agora a ser desenhados por um consórcio de 12 países e da UE. «A nossa grande esperança é que eles funcionem com o lixo dos outros reactores, façam fuel para o futuro, precisem de 100 vezes menos urânio que os reactores actuais e produzam 1000 vezes menos lixo», diz Jean-Claude Garnier, chefe de inovação tecnológica na CEA.
Eis apenas um exemplo dos espectaculares avanços agora atingidos.
«Isto transforma o problema completamente», diz o cientista Bernard Vray.
O conceito extraordinário de um sistema de energia que faz o seu próprio fuel e consome praticamente todos os seus subprodutos não é um castelo de areia. No próximo ano (2011), os engenheiros vão decidir quais dos 6 protótipos serão escolhidos. A construção do protótipo começará em 2015 e estará a operar entre 2020 e 2025. «Trará uma dimensão completamente nova à energia nuclear», diz Pradel. «É uma solução para séculos.»
Hans Blix, ex-director da Agência de Energia Atómica Internacional e inspector-chefe de armas da ONU, apoia o conceito. «O vento e o sol estão em todo o lado, mas têm que ser recolhidos, enquanto um quilo de urânio gera 50000 kW/h de electricidade.»
Os políticos europeus têm cada vez mais fé nos extraordinários progressos feitos pelos cientistas nucleares. Eles sabem que, apesar de os custos iniciais serem elevados, o preço da energia nuclear é tão baixo que não pode ser ignorado.
Eles têm que tirar os seus países de uma recessão com preços de energia competitivos e convencer o público de que a energia nuclear é aceitável. De outra forma, as luzes da Europa apagar-se-ão – e uma avó em Paris terá que encontrar uma nova forma de enganar os seus pequenos visitantes.
Poder nuclear em ascensão
Bélgica: A vida útil de três reactores foi prolongada até 2025. Inglaterra: 4 reactores antes de 2020. República Checa: Dois novos reactores a ser construídos. Finlândia: O quinto reactor ficará operacional em 2013. França: Dois novos reactores a caminho. Hungria: Propostos dois novos reactores. Itália: Projectos para construir estações de energia nuclear em todo o país após um interregno de 22 anos. Lituânia, Polónia, Letónia e Estónia: planos para construir um reactor nuclear conjunto que ficará pronto em 2018. Polónia: Projectos para um ou dois reactores antes de 2020. Roménia: planos para dois novos reactores em 2017. Eslováquia: Dois novos reactores vão operar a partir de 2012. Eslovénia: O segundo reactor está planeado para antes de 2020. Suécia: Anulados os planos para fechar todos os 10 reactores em 2010. Suíça: Três novos reactores planeados para depois de 2020.
Fonte: Associação Nuclear Mundial
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2 Comentários |
| Cesário on 07 Junho 2011 ,15:07 O que? Isso é capcioso: "Tirando 56 pessoas mortas em Chernobyl, nenhuma pessoa fora da indústria foi ferida num acidente nuclear. " E quantas crianças nasceram DEFORMADAS?!? SEM BRAÇOS? Mal informados vocês são! Isso chega a ser criminoso! |
| Pedro Sampaio Mumes on 08 Dezembro 2010 ,10:52 Finalmente um artigo claro a dizer as realidades que podem ajudar Portugal a sair da difícil situação em que se encontra. A politica até agora seguida no nosso País, embora bem-intencionada, salda-se por um rotundo fracasso por razões de total desconhecimento dos nossos responsáveis sobre a tecnologia nuclear, a principal forma de geração eléctrica da Europa. O resultado são os aumentos constantes da factura eléctrica e a enorme dívida que se acumulou. Penso que este artigo vai fazer mais pela nossa recuperação do que muitos estudos de consultores pagos a peso de ouro. Parabens. |
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