Desde o momento em que soube que ganhara o Prémio Nobel de Medicina, Hamilton Smith temeu o que teria pela frente. Naquela manhã de há 21 anos, cumpriu os rituais da celebração — beber champanhe, acenar aos que o cumprimentavam, posar para os fotógrafos — na Faculdade de Medicina da Universidade de Johns Hopkins, como se estivesse numa nuvem. Depois, eclipsou-se.

Perguntava-se se não teria havido algum erro. A descoberta que lhe valera o prémio acontecera após uma breve experiência, que fizera quase por impulso. «Está a brincar?», perguntara espantado quando um repórter lhe falara no prémio. Alto, desengonçado e com um riso ingénuo, faltava-lhe a confiança para tornar-se um bom professor e via-se como um «químico de cozinha». Mas, sozinho no seu laboratório, Hamilton Smith era um grande cientista. O que ele conseguira abrira as portas que possibilitavam decifrar o ADN, que contém o código genético de todas as formas de vida. Ganhar o Prémio Nobel poderia ter sido o momento mais triunfal na vida de Hamilton Smith, mas em vez disso, deixou-o acabrunhado. A sua mulher, Liz, nunca esquecerá a sua reacção angustiada. «Olha, deram-me o Nobel», disse-lhe ele. «Agora, tenho que merecê-lo.»

Sementes de futuro

A carreira científica de Hamilton Smith começou na casa dos seus pais, em Urbana, Illinois. O pai, Bunnie O. Smith, era professor de Educação na Universidade do Illinois. A mãe, Tommie, frequentemente tensa e esgotada, fora professora do secundário. No princípio dos anos 40, Hamilton, então com 10 anos, e o irmão Norman, de 11, montaram um laboratório na cave. Os dois rapazes, ambos tímidos, trabalhavam lado a lado durante horas sem trocarem uma palavra. Era a sua fortaleza de solidão. Usando sucata e peças de refugo, construíram uma centrifugadora, um maçarico e um telescópio. Poucos anos depois de os primeiros motores a jacto terem sido construídos, os dois rapazes tentaram fazer um a partir de um velho carburador. Hamilton era o discípulo, confidente e melhor amigo de Norman. Ambos pularam um ano no liceu. Ambos conseguiram entrar para a Universidade da Califórnia em Berkeley, onde ocupavam carteiras ao lado uma da outra, no quarto que partilhavam, chamando-se mutuamente pela mesma alcunha: Butch. Durante o último ano de Hamilton em Berkeley, Norman começou a ouvir um barulho persistente, como pratos a bater uns contra os outros em cima de um frigorífico velho. Também começou a andar cada vez mais preocupado e convenceu-se de que alguém queria envenená-lo. Norman foi finalmente a um psiquiatra, que lhe diagnosticou esquizofrenia, doença que pode provocar alucinações e pensamentos enganadores. Arrasado, Hamilton preocupava-se também consigo. A esquizofrenia é uma doença hereditária. Durante vinte anos, ele e o irmão tinham partilhado tudo. Será que também partilhariam a doença? Quando se licenciou em Medicina, em 1956, Hamilton tinha apenas um punhado de amigos próximos e saíra só com duas raparigas, com resultados desastrosos. Uma noite, quando era interno no Hospital de Barnes, em St. Louis, uma estudante de enfermagem loura convidou-o para irem ao bowling. «Ele era muito tímido», lembra-se Liz Smith. No seu namoro não havia trocas de confidências ou declarações apaixonadas. Mas sentiam-se bem um com o outro. Na Primavera seguinte, casaram.

Desvelar o ADN

Pouco depois, Smith viu num jornal uma história sobre um novo teste para algumas doenças hereditárias. Na Faculdade de Medicina, nem sequer ouvira falar no ADN, mas em finais dos anos 50, os cientistas descobriram ligações entre os genes e as doenças. Intrigado, leu todos os relatórios de investigações que conseguiu descobrir sobre este novo campo, a biologia molecular. Os cientistas chegaram à conclusão de que o ADN contém as «instruções» da vida e que os genes são feitos de ADN. Sabiam que o ADN é uma cadeia com quatro componentes químicos (chamados bases) — adenina, timina, citosina e guanina, abreviadas para A, T, C e G. Segundo o número e a sequência destes quatro componentes químicos, estas «instruções» podem dar origem a uma bactéria ou um escaravelho, uma baleia azul ou um ser humano. Abandonando a sua carreira médica para dedicar-se ao estudo do ADN, Smith tornou-se professor assistente na Universidade de Johns Hopkins, onde centrou os seus estudos de genética na bactéria Haemophilus influenzae. Kent Wilcox, um seu estudante já licenciado, reparou que quando combinava ADN de vírus com um extracto de proteínas de bactérias, o ADN viral parecia desaparecer. «Ouve, podemos fazer uma experiência», disse Smith a Wilcox. Pegaram numa solução de enzimas de bactérias e meteram-na num tubo de ensaio que continha ADN viral. Viram o ADN viral separar-se, e Smith percebeu de imediato que alguma coisa estava a destruí-lo. Descobriu mais tarde que, para proteger-se da infecção, a bactéria produzia químicos que seccionavam o ADN do invasor, cortando-o nalguns pontos previsíveis. A sua descoberta destes químicos — «enzimas restringentes» — revolucionaria a genética. Durante anos, os cientistas tinham procurado uma forma de localizar os genes, isolá-los e determinar como funcionavam. Agora tinham-na. Seguindo o exemplo de Hamilton Smith, em 1973, dois cientistas californianos usaram enzimas restringentes para implantar um gene de uma rã noutro organismo. Assim nasceu a engenharia genética. A descoberta de Hamilton Smith iria conduzir aos testes sobre as doenças hereditárias, como algumas formas de cancro do cólon, e ao desenvolvimento de hormonas sintéticas como a insulina.

Caos em casa

Os cinco filhos de Hamilton Smith, quatro rapazes e uma rapariga, tinham sempre sentido, em silêncio, uma grande pressão para estarem à altura dos êxitos do pai. Depois de ele ter ganho o Nobel, todas as esperanças de o conseguirem evaporaram-se. Derek, o terceiro, então com 14 anos, começou a ser picado com frases do género: «Se o teu pai é tão inteligente, como é que tu saíste tão estúpido?»

Hamilton Smith raramente impunha limites ou dava ordens aos filhos. Nunca tivera a confiança necessária para dizer aos filhos o que esperava deles, confessa. A casa da família em Riderwood, Maryland, «era um jardim zoológico», diz o filho mais velho, Joel, que não concluiu a universidade e se tornou camionista. Barry, o segundo, aos 16 anos, era um revoltado. Frequentava bares e companhias indesejáveis, com quem cometia actos de vandalismo. Depois de chumbar duas vezes no 11.° ano, abandonou os estudos. Derek era o mais precoce (aos cinco anos conseguia desmontar e voltar a montar um telefone). Mas no secundário diagnosticaram que era «hiperactivo» e deram-lhe medicamentos para acalmá-lo. Finalmente, chumbou no 10.° ano e desistiu. Só os dois mais novos, Bryan e Kirsten, fizeram a universidade. Os falhanços dos filhos deixavam Hamilton Smith frustrado. A sua atitude era: «Se eu consigo, por que é que vocês não?» Aquilo com que não conseguia lidar, ignorava. Smith continuou a estudar a sua bactéria no laboratório da Johns Hopkins, onde a maior parte das suas investigações eram pagas pelo Instituto Nacional de Oncologia, dependente do Instituto Nacional de Saúde (INS). Mas os funcionários começaram a ficar cépticos quanto às possibilidades de o Haemophilus vir a dar origem a novos tratamentos contra o cancro. Em 1989, os seus pedidos de subsídios foram rejeitados. Humilhado, Smith surripiava fornecimentos e aceitou ajuda financeira da escola. Não era suficiente. Em 1993, decidiu encerrar o seu laboratório e deixar-se ficar a marcar passo até à reforma. Com menos obrigações, voltou a dedicar-se a Norman. Embora hospitalizado três vezes por causa da esquizofrenia, Norman conseguira fazer um mestrado em engenharia, casara e criara dois filhos. Trabalhava sobretudo como investigador para o pai.

Durante vinte anos, Hamilton raramente vira Norman. «Eu negava a doença do meu irmão», diz ele. Era mais do que vergonha ou um medo irracional de também ficar esquizofrénico. Conhecia as leis da hereditariedade: se a posição de algumas bases tivesse sido alterada, Norman poderia ter conquistado o Nobel. Não fazia sentido, é claro, mas Hamilton sentia um complexo de culpa.

Príncipe das trevas

Na Primavera de 1993, o quase esquecido vencedor do Nobel foi a uma conferência sobre genética em Bilbau. Lá encontrou-se com o investigador Craig Venter. «Onde é que estão os teus cornichos?», disse-lhe Smith na brincadeira. Com olhos azuis incisivos, sobrancelhas espessas e madeixas grisalhas no cabelo, Venter, então com 46 anos, não tinha apenas um aspecto mefistofélico. Muitos dos seus colegas viam-no como o príncipe das trevas da biologia molecular, que se dedicava a pilhar os tesouros do ADN. Irritara-os quando, sendo um cientista do INS, registara patentes para centenas de genes que havia identificado. Depois de deixar o INS, iria ganhar qualquer coisa como 9 milhões de dólares a fazer investigação para uma instituição privada. Nessa noite, em Espanha, Smith ouviu Venter falar-lhe do seu amor pela ciência, insistindo que o retrato de mercenário que lhe tinham pintado não lhe assentava. Para sua surpresa, Hamilton Smith começou a concordar. Venter convidou-o para tornar-se consultor no Instituto de Investigação Genómica, no condado de Montgomery, no Maryland. Aceitou. Os cientistas sonhavam há muito descobrir a sequência do genoma de um organismo celular, isto é, identificar todos os genes. Era um passo importante para compreender como a química cria a vida. O primeiro a consegui-lo faria história. Em 1993, num encontro no instituto de Venter, Smith perguntou: «Estarias interessado em descobrir a sequência de um genoma?» E sugeriu a sua «bactéria de estimação», a Haemophilus. «Claro», respondeu Venter. «Estou interessadíssimo.» Treze meses depois do início dos trabalhos, a equipa de Venter completava a sequência. Em Maio de 1995, num encontro em Washington, Venter relatou que ele, Smith e a sua equipa tinham registado todos os 1 830 137 de bases do genoma da Haemophilus. Codificados nessa cadeia de bases estavam 1743 genes. A descoberta entusiasmou os cientistas genéticos. Sabiam que agora era só uma questão de tempo até descobrirem o código genético de todas as formas de vida.

A corrida da sua vida

Hamilton Smith nunca se imaginara a procurar responder às maiores questões da biologia. Assumira que a descoberta da sequência do ADN humano — uma cadeia com uns 3000 milhões de bases — seria feita pelas centenas de investigadores do Projecto do Genoma Humano, que trabalhavam no âmbito do INS. Contudo, ao fim de oito anos, o INS conseguira cartografar o genoma, mas desvelara apenas 6% da sequência. O seu trabalho, que iria custar 3000 milhões de dólares, deveria estar completado em 2005. Então, no ano passado, Venter deixou Smith em choque com a sua última inspiração. «Vamos aplicar o método ‘shotgun’ ao genoma humano», disse-lhe ele. O «shotgun» era uma técnica de atalho que a equipa usara para estabelecer a sequência do genoma da Haemophilus. Mas Hamilton Smith achava-a demasiado rudimentar para ser usada com o ADN humano. Emudeceu e ficou em pânico. Venter estava a propor não só que ultrapassassem e batessem o Governo, mas dizia-lhe que os dois podiam conseguir esse objectivo quatro anos mais cedo e por apenas 300 milhões de dólares. Quando os planos de Venter apareceram escarrapachados nas primeiras páginas dos jornais, Francis Collins, um director do Projecto do Genoma Humano, escarneceu. Disse a um jornalista que a estratégia de Venter iria criar «os Cliffs Notes (uma espécie de Apontamentos Europa-América) ou a versão revista Mad» do livro da vida da humanidade. Em Setembro de 1998, Collins mudou o prazo do INS para 2003.

Assim, aos 66 anos, a idade em que a maioria das pessoas se reforma, Hamilton Smith foi arrastado para um dos esforços mais ambiciosos da história da ciência. Para apresentar o genoma humano completo em Dezembro de 2001, os computadores da Celera Genomics Corporation, a nova empresa de Venter, têm de tratar dados de dezenas de milhões de fragmentos de ADN. Isso nunca foi feito, mas Smith procura ser optimista. «Estamos convencidos de que vamos consegui-lo», diz ele.

Em paz

Ao pôr-do-Sol, passeando-se por um campo acabado de ceifar, Smith vigia a sua nova casa no condado de Baltimore, no Maryland. Chama-lhe Epoch Farm, e espera que represente «uma nova época» para a família Smith. Ele e Liz mudaram-se para a casa do caseiro e deram a casa principal da propriedade à filha, Kirsten, e ao marido, para se dedicarem a um negócio de cavalos. Apontando para as colinas junto de sua casa, Hamilton diz que pediu aos filhos que ali construíssem casas, para a família poder estar reunida. Não é um sonho impossível. No ano passado, vários membros da família reuniram-se no restaurante de Joel. Ao posarem para o retrato de família, encostaram-se uns aos outros para ficarem mais juntinhos. Não houve beijos nem abraços; não é hábito na família. Apesar disso, pareciam estar satisfeitos por os seus ombros e joelhos se tocarem, por estarem juntos. Após anos de trabalho na selva da investigação científica, procurando dar provas do seu valor, Hamilton Smith voltou para dar novo impulso à biologia. Nada poderia entusiasmá-lo mais que conseguir completar o código genético humano. «Vai ser o alicerce de toda a biologia e toda a medicina nos próximos 100 ou 200 anos», diz ele. Mesmo que não seja, Hamilton Smith não tem razões para desânimo. Está empenhado numa das investigações mais importantes da ciência, a fazer aquilo de que gosta. E já não está sozinho perante o mundo.

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