No caminho do sal
"Esta vila de Melinde está em uma angra e está assentada ao longo de uma praia, a qual vila se quer parecer com Alcochete; e as casas são altas, e mui bem caiadas; e tem ao longo dela, da banda do sertão que está pegado com casas, um palmeiral muito grande, e toda a terra derredor são lavouras de milho e outras legumes." [Álvaro Velho, Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama (1497-1499).]
Alcochete
Do Samouco até ao rio das Enguias, passando por Alcochete, a paisagem dominante são as marinhas de sal.
Alcochete, terra onde nasceu D. Manuel I, é ainda uma das mais belas terras da margem sul do estuário do rio Tejo. Está implantada num local estratégico sobre o Tejo, dominando quase todo o Mar da Palha e a área ocupada pela Reserva Natural do Estuário do Tejo. Uma vila muito frequentada por reis e fidalgos.
O núcleo histórico encontra-se muito bem conservado, convidando a um passeio. No centro da vila, situa-se o Museu Municipal de Alcochete, que apresenta de uma forma diacrónica e sincrónica a evolução histórica do concelho desde a Pré-História até à actualidade.
Em Alcochete, terra do Padre Cruz, as igrejas merecem uma visita pelos seguintes motivos: a igreja matriz, com uma frontaria que apresenta uma torre sineira manuelina de coruchéu pontiagudo e um belo portal gótico de quatro arquivoltas apontadas e colunas simples de capitéis vegetalistas; a Ermida de Nossa Senhora da Vida, pequeno templo do século XVI, com belos painéis de azulejos azuis e brancos setecentistas com Passos da vida mariana; a Igreja da Misericórdia, notável templo erguido à beira-rio, que constitui hoje o Museu de Arte Sacra, incorporando pinturas quinhentistas e seis tábuas maneiristas, entre outras obras de arte.
Os arredores de Alcochete são formosos e atraentes. A Quinta da Barroca de Alva é um desses arredores que possuem uma beleza encantadora e que Jacome Ratton, no princípio do século XIX, soube construir com equipamentos agrícolas inovadores para a plantação de vinhas, arrozais e exploração de sal.
Alcochete, reserva natural do Tejo
Alcochete é o principal ponto de partida para a observação da Reserva Natural do Estuário do Tejo. No centro da vila, situa-se a sua sede, local de informação para o visitante.
A partir daqui, poderá ser realizado um passeio a pé de 2 km até às Hortas, local de onde se avista a extensa mancha de sapal e onde acorrem, no período Outono-Inverno (Setembro a Fevereiro), diversas espécies de anatídeos, nomeadamente a marrequinha, o pato-trombeteiro e a piadeira.
É ainda possível observar durante o mesmo período, alimentando-se nos lodos deixados a descoberto na maré baixa, várias espécies de limícolas, como o alfaiate, a tarambola-cinzenta, o maçarico-de-bico-direito, entre outros.
Os serviços da reserva têm aqui preparado um miradouro para que melhor se possam observar de longe as aves em toda esta vasta área. De seguida, pode ir-se pela marinha de Vale de Frades, Pancas, Batorelhas até à marinha de Vaza-Sacos. Este sítio compreende um conjunto de sali¬nas junto à margem esquerda da foz do Sorraia, com a área total de 146 ha, que constitui, na maré alta, um dos refúgios mais importantes para algumas espécies de limícolas do Tejo.
Como área de refúgio, zona de alimentação e mesmo de nidificação do perna-longa, as salinas proporcionam aqui, sobretudo na preia-mar, a observação da maioria das espécies que ocorrem em Portugal, entre as quais o alfaiate, o combatente, o perna-vermelha, o perna-verde, o maçarico-de-bico-direito, os borrelhos e os pilritos, verificando-se as maiores concentrações no Inverno e durante as passagens migra¬tórias (início da Primavera e começo do Outono). Deve ainda citar-se a ocorrência neste ponto do flamingo-comum e do tartaranhão-ruivo-dos-pauis. Este local, na verdade, goza de um enorme e indiscutível valor ornitológico.
Para completar o percurso da Reserva do Estuário do Tejo, o visitante deve seguir até ao Porto Alto e tomar a estrada (EN 10) em direcção a Vila Franca de Xira; depois de passar o rio Sorraia, corta à esquerda para atravessar a lezíria até à ponta da Erva.
Tem-se aqui um contacto directo com a lezíria, observando nos campos os campinos, os touros e os cavalos, e atinge-se um local estratégico para observar um largo panorama sobre o Tejo, onde se podem ver aves aquáticas, nomeadamente limícolas (maçaricos, tarambola-cinzenta, pilritos, etc.) e anatídeos (pato-real, marrequinha e ganso-comum, entre outros).
Nas imediações deste local, fica a marinha da Saragoça, antiga salina desde há muito abandonada em termos de exploração salineira e que actualmente é um dos principais locais de nidificação do perna-longa na área da Reserva Natural do Estuário do Tejo. Também aqui podem observar-se os flamingos.
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