Mas a alegria foi interrompida quando o navio em que trabalhavam foi capturado por piratas da Somália.

A tarde passava lentamente
debaixo do sol abrasador do Corno de África naquele dia 5 de Maio de 2009. No ar seco e calor do costume, sentia-se também perigo no ar. O golfo de Adem é um dos pontos preferidos pelos piratas somalis. No dia 1 de Maio, o MV Victoria, um cargueiro de tamanho médio, deixara o porto indiano de Kandla rumo a Jeddah, na Arábia Saudita, carregando 10000t de arroz. A tripulação era constituída por 11 romenos. Em caso de ataque, seria uma presa fácil para os piratas, uma vez que não ultrapassava os 14 nós e a balaustrada distava apenas 3m da linha de água.

Ruxandra Sarchizian, oficial de convés, estava de vigia no convés de comando juntamente com o comandante, Petru Tinu, e um timoneiro. «Estávamos a observar os parâmetros indicados nos instrumentos de navegação. Navegávamos a 120km do porto iemenita de Al Mukalla, no corredor de trânsito recomendado pela força militar internacional presente na área», recorda ela.

Tinham mais um dia pela frente antes de deixar o golfo. Navegavam precisamente na mesma rota em que tinham feito rumo a Kandla. Estavam por isso seriamente preparados para um ataque de piratas: as vigias inferiores estavam soldadas, tinham canhões de água para deter eventuais assaltantes e não havia qualquer escadaria exterior para o convés de comando, dificultando assim o acesso a pessoas indesejadas.

Com 32 anos, Ruxandra contava com sete de experiência nos mares do Mundo, e estava com o Victoria há sete meses. Segundo as regras próprias do meio, depois de seis meses a bordo pode pedir-se autorização para ir a casa. Mas ela tinha uma razão especial para querer fazer uma viagem mais longa. «Cinco meses antes, no porto de Aviles, no golfo da Biscaia, no Norte de Espanha, Hartin Sarchizian, o meu pai, que não via há dois anos, tinha vindo a bordo para substituir o mecânico-chefe.»

Nesse ano, Hartin, um arménio de poucas palavras, nascido há 64 anos no porto romeno de Constanta, celebrava três décadas passadas nos mares do Mundo. Tinha sido sempre contra a decisão de Ruxandra de seguir os seus passos: «Ando em navios desde 1969, e sei bem o que significa o mar», dizia. Mas quem o ouvia? Encorajada pela sua mãe, uma mulher férrea, Ruxandra formou-se em 2001 pela Universidade Marítima de Constanta, a primeira mulher a licenciar-se em toda a história daquela instituição.

Os instrumentos de navegação indicavam a posição da embarcação: latitude de 13 graus e 22 minutos norte e longitude de 49 graus e 23 minutos. Subitamente, um barco suspeito apareceu no radar, aproximando-se rapidamente, perpendicular à rota do Victoria, a cerca de 20 nós. «Logo a seguir, vi-os. Oito africanos num pequeno barco com dois motores, disparando as suas Kalashnikov para o ar. Um deles tinha um lança-granadas», recorda Ruxandra, trémula.

Petru Tinu, o comandante, pressionou o botão de segurança, por forma a alertar os donos do navio, uma empresa de navegação em Haren, na Alemanha. Emitiu também um sinal de perigo por rádio, pedindo ajuda ao navio militar mais próximo. Seguindo o protocolo de segurança, ordenou manobras para evitar o barco. Mas um cargueiro completamente cheio não tem a mesma destreza que uma pequena lancha. Tocou o alarme, anunciando que estavam a ser atacados por piratas, e mandou activar os canhões de água. De seguida, barricou-se no convés de comando juntamente com Ruxandra e o timoneiro, que estava de vigia naquele momento. Recorrendo a escadotes de alumínio, alguns dos piratas conseguiram subir a bordo, desactivando imediatamente os canhões de água. Depois, atacaram o comando. Passado o choque inicial, Ruxandra foi assaltada por uma onda de pensamentos. Era a única mulher no navio. Estava precisamente a pensar nisso quando uma bala estilhaçou a janela da cabina de comando.

Entre 80 e 100 milhas de distância, o navio militar mais próximo era a fragata turca TCG Giresun, que não conseguiria chegar ao local em menos de três horas. Por isso, enviaram um helicóptero, com ordem para disparar à vontade sobre a lancha dos piratas. Chegou pouco depois das 15.40, hora local, mas nessa altura o Victoria já tinha sido capturado. A solução militar estava posta de lado a partir do momento em que todos estavam no convés. Tornava-se demasiado perigoso distinguir os atacantes da tripulação original. O helicóptero regressou à base. Tinham bastado 15 minutos para os piratas dominarem totalmente a situação.

Cornel Panchici, um ex-marinheiro de 41 anos, tem contactos na cidade de Constanta e no Mundo inteiro. Empreendedor por natureza, em 2002 começou a sua própria empresa de tripulação, Kru Maritime, colocando tripulações em navios romenos e estrangeiros.

Quando o seu telemóvel tocou naquela tarde de terça-feira 5 de Maio, percebeu imediatamente que algo estava mal. O ecrã indicava um número que ele reconheceu como sendo da mulher de um director da empresa de navegação alemã a quem recentemente fornecera uma tripulação de 11 romenos, na sua maioria de Constanta, como ele. «Só podia ser algo fora do comum. Ela não me costumava ligar», recorda. Confirmou-se. Ela contou-lhe que o MV Victoria tinha sido capturado por piratas e pediu-lhe que transmitisse a notícia às famílias: «As pessoas são a nossa prioridade», assegurou.

A empresa já tinha tomado medidas para enfrentar a crise. Contratara uma outra empresa especializada neste género de negociações. Entretanto, estava a enviar um representante para a Roménia, um ex-marinheiro nascido neste país. Estaria à disposição das famílias dos detidos para prestar assistência. Panchici ofereceu também todo o seu apoio. As pessoas envolvidas eram como família para ele.

Tal como a sua filha Ruxandra, Elena Sarchizian é, nas palavras de Cornel Panchici, uma lutadora. Mas nada a preparara para a batalha que estava prestes a começar no seu coração. Tinha acabado uma série de tarefas caseiras e às 18h levou os cães a passear. Ao chegar, recebeu uma chamada de Panchici, da Kru Maritime. Ele acabara de colocar o seu marido, Hartin, no mesmo navio que a sua filha Ruxandra. Agora, pai e filha estavam, pela primeira vez, a navegar juntos. Era natural que lhe fizessem chegar notícias.

«Sr.ª Sarchizian, onde está?», perguntou Panchici.

Sem motivo aparente, naquele instante o coração de Elena Sarchizian começou a bater mais depressa. Sentiu que algo não estava bem. Não falava com a filha desde o dia 30 de Abril, quando se preparava para deixar a Índia. Quando Panchici lhe contou o que se passara, percebeu que afinal não era nenhuma bênção o facto de os dois marinheiros da sua família terem sido reunidos no mesmo navio.

Quando soou o alarme do navio, o mecânico-chefe Hartin Sarchizian e o segundo-oficial mecânico estavam nos seus postos, na casa das máquinas, e não conseguiam ver o que se estava a passar. Os piratas reuniram todos os tripulantes no convés de comando. Obrigaram-nos a deitarem-se no chão. Entretanto, um agente da segurança da empresa de navegação telefonou para confirmar se o sinal de alarme recebido era genuíno. Confirmaram-lhe que o navio tinha sido capturado.

Os piratas mostraram ao comandante um ponto no mapa e indicaram-lhe que deveria dirigir o navio para sul. Isso significava que Hartin e o oficial mecânico deviam regressar à casa das máquinas para supervisionar o bom funcionamento do motor. Os piratas não iam lá com muita frequência, mas eles estavam confinados àquela sala, longe da luz do Sol. Ao menos, o resto da tripulação estava presa no convés de cima, que tinha janelas. Mas a casa das máquinas não tinha.

Depois da captura, seguiram viagem durante dois dias, sempre sob a mira das armas, até que se aproximaram da vila de Eyl, na costa leste da Somália. Situada na província de Puntland, que declarara a independência do resto do país, Eyl tornou-se mundialmente famosa por ser um ninho de piratas.

No terceiro dia, largaram âncora numa zona com costa alta. Do mar não se conseguia ver nada em terra. Os piratas embarcavam e desembarcavam, o seu número foi aumentando, nunca estando menos de 16 a bordo.

Eram altos e magros, usando velhas T-shirts, calções e sandálias de plástico, sempre acompanhados dos seus acessórios indispensáveis: Kalashnikovs. Tinham trazido também uma metralhadora com cinto de munições, que instalaram num tripé diante do convés de comando, o ponto de maior visibilidade do navio.

Apenas dois ou três percebiam algo de inglês. Era muito complicado comunicar. Na maior parte, utilizavam gestos. Por isso, os cativos sentiram-se muito aliviados quando apareceu um negociador somali, educado e fluente em inglês. Com a sua ajuda, o comandante conseguiu convencer os piratas a levá-lo e aos restantes tripulantes para o convés inferior, onde teriam mais espaço, estando igualmente bem guardados. O representante da segurança da empresa de navegação já tinha pedido para falar com cada membro da tripulação para se certificar de que estavam vivos e bem.

«Tocaram-te?», perguntou a Ruxandra.

«Não», respondeu ela.

Tinha começado o jogo das negociações.

O tempo médio para negociações com piratas modernos é de 60 dias. Muitos dos detalhes legais e financeiros da operação são resolvidos em Londres, o centro da indústria global marítima. Os escritórios da seguradora do Victoria encontravam-se naquela cidade. Normalmente, os piratas pedem um resgate superior a cinco milhões de dólares. O dono do navio faz uma contraproposta e começa um jogo de paciência. Eventualmente, a empresa de navegação paga entre um e dois milhões de dólares.

«Rigorosamente, a captura de navios no golfo de Adem não é pirataria, mas rapto marítimo. Os chamados piratas apenas querem dinheiro em troca da vida de cada tripulante. Negociar vidas humanas por dinheiro é tudo menos fácil», disse às Selecções o representante de uma empresa de navegação que preferiu não ser identificado.

No dia 17 de Maio, o cozinheiro começou a racionar a comida. Tinham planeado abastecer-se de alimentos na próxima paragem quando foram capturados. Agora, tinham também os somalis para alimentar. Já só havia massa e arroz, muito arroz, claro ... Então, os piratas começaram a trazer comida a bordo, bem como água engarrafada e até cabras vivas, que matavam e cozinhavam no local. Até tinham o seu próprio cozinheiro. Todos os dias recebiam carregamentos de qat, um narcótico que mastigavam e que os acalmava, mas ficavam irritadiços quando não o tinham. Em mais do que uma ocasião rebentaram lutas porque alguém se recusava a partilhar a sua ração de qat com os outros.

Depois de várias noites sem pregar olho, Elena Sarchizian recebeu o telefonema que tanto esperava. Era Ruxandra. Tranquilizou-a, explicando que estavam todos bem. Os somalis tratavam-na com um misto de simpatia e respeito, chamando-a «comandante Ruxandra».

Chegou a conversar com um deles, que era educado e parecia tratar da contabilidade. Descobriu que ele tinha 23 anos, havia frequentado o ensino primário e secundário antes de decidir tornar-se pirata. Um dia perguntou-lhe: «Ganha-se bem neste negócio? És rico?»

«Não sou milionário», respondeu.

Deixou entender que tinha umas centenas de milhares de dólares, um valor imenso na Somália. Disse que estava a pensar deixar o ramo depois deste último golpe.

Estavam cativos há um mês. Cerca da meia-noite, o primeiro-oficial Mihai Traian Vasile, um marinheiro da cidade romena de Câmpina, de 54 anos, recebeu uma ordem surpreendente dos piratas. Tinham acabado de falar ao telefone com alguém em terra e indicaram por gestos que devia partir imediatamente para sul. Ele tentou explicar que o motor levava 30 minutos a arrancar em segurança; para além disso, não podia levantar âncora sem ordens do comandante. Trouxeram o comandante até ao convés de comando, insistindo que o navio deveria partir a toda a pressa. O primeiro-oficial começou a zangar-se e elevou a voz. Corriam o risco de destruir um motor de 5000cv se o navio zarpasse sem chegar aos parâmetros adequados. Mas como é que se explica uma coisa dessas por gestos?

«Calma!», disse o comandante, pedindo para falar ao telefone com o negociador somali.

O negociador traduziu o problema por telefone aos piratas. Então, um deles colocou um novo cartucho na sua Kalashnikov e apontou a mão, na forma de uma arma, à cabeça do comandante, com o dedo indicador em direcção à testa. Um gesto calmo, mas mais eloquente que qualquer ameaça.

O comandante e o primeiro-oficial empalideceram. Engolindo as suas palavras, autorizaram o arranque imediato do motor. Felizmente, correu tudo bem e o alívio foi geral. Navegaram 65 milhas náuticas para sul, em direcção à capital da Somália, Mogadíscio, e no dia seguinte regressaram a Eyl. Provavelmente, tinham-no feito para fugir a um grupo rival em terra.

No dia 18 de Julho de 2009, o 77.º dia de cativeiro, cerca do meio-dia um avião voou por cima do Victoria. Os piratas levaram os romenos para o convés para que os tripulantes do avião os pudessem ver e fotografar antes de lançar o resgate ao mar. Os piratas recolheram os seus ganhos e dividiram-nos a bordo. Os tripulantes tinham sido avisados para se manter retirados durante este tempo para evitar eventuais confrontos que pudessem despoletar. No dia seguinte, pouco antes das 6h, o último barco de piratas deixou o Victoria. A operação tinha sido um sucesso. Os romenos tinham ordem para desembarcar num porto próximo, cujo nome se mantinha secreto, de onde um avião os levaria para casa. Uma nova tripulação encarregar-se-ia do navio e levá-lo-ia a salvo para Jeddah.

Desde que voltou, Ruxandra dorme menos do que era normal. O seu pai regressou mais magro, parecendo uma sombra. «Não faz mal, pu-lo a fazer uma dieta de engorda!», diz-nos Elena Sarchizian, fazendo festas ao marido. O facto de terem a família novamente reunida é para eles o melhor presente de todos.

6
Gosta deste Artigo?Vote!

Mais Populares em Edição Atual

  1. Onde estão as nossas maneiras?
  2. Vida depois do cancro
  3. Dar de comer a quem tem fome

Mais: Revista

Faça um Comentário

Nome*
Email*
Comentário*

Favoritos da Semana

Receitas e Alimentos

Pão de chá com passas

Dicas e Truques

Cozinhar e poupar

Alimentação Saudável

O leite artificial

Destinos e Viagens

Vilar do Pinheiro

Notas de Lazer

Os que mais comem peixe

Consultas de Especialistas

Cuidado com os antibióticos

Precisa-se: Uma Boa História!

Escreva-nos e poderá ganhar:

50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Envie-nos!