Mulheres de armas

Alguém disse um dia a Winston Churchill – primeiro-ministro britânico durante a II Guerra Mundial – que no ano 2000 as mulheres mandariam no Mundo. Com o seu habitual humor sarcástico, Churchill terá dito: «Ainda ...?»
Tenha falado a sério ou a brincar, o certo é que a resposta do carismático político inglês reflectia já uma tendência das sociedades ocidentais e da europeia em particular: o crescente papel da mulher em postos de decisão e a sua emancipação face ao homem. E aquele que parecia ser o último reduto dos homens, o serviço militar, também acabou conquistado por elas. E não deixam os créditos por mãos alheias, conseguindo chegar rapidamente às patentes de oficiais. Ou não fossem elas mais determinadas do que eles.
Regina Ramos, de 43 anos, é uma dessas mulheres. Nascida em Moçambique e residente na Figueira da Foz desde os 9 anos, foi sempre uma aluna aplicada, e foi sem surpresa que os pais a viram ingressar em Medicina na Universidade de Coimbra.
Após seis anos de curso e dois de internato geral, ingressou na Força Aérea para fazer a recruta como qualquer militar, deixando de lado uma carreira civil: «A principal razão que me levou a escolher a vida militar tem a ver com a especialidade que eu sempre quis tirar. Eu desde o 4.º ano da faculdade que sabia que queria ser cirurgiã geral, e ao mesmo tempo sabia que na vida civil havia uma certa dificuldade em ingressar nos quadros. Quando acabei o curso e o internato geral, a Força Aérea fez uma comunicação a todos os policlínicos que estavam a acabar o estágio a propor o alistamento. Eu vim aqui ao Lumiar e informei-me de todas as condições e das possibilidades de ingressar nos quadros, porque procurava alguma segurança, e alistei-me», conta às Selecções do Reader’s Digest.
Dessa forma, evitou uma eventual colocação num hospital longe de casa. Hoje, passados 15 anos, não se arrepende da escolha, até porque a vida militar tem a ver com a sua própria personalidade: «Gosto de ser militar porque tenho uma personalidade compatível com o rigor militar, com a disciplina, porque eu própria sou uma pessoa disciplinada e organizada, mas sê-lo-ia mesmo que não fosse militar», garante.
A desempenhar funções na Direcção de Saúde no Hospital da Força Aérea, no Lumiar, acaba por ter mais liberdade que os militares destacados nas unidades operacionais, mas sempre que pode experimenta essa vida mais espartana quando parte em missão para o estrangeiro: «A minha participação em missões no estrangeiro tem a ver com uma ideia básica: o serviço de saúde da Força Aérea existe para prestar assistência, preservar a vida e tratar as doenças dos militares, mantendo-os saudáveis e preparados para qualquer missão. Ou seja, antes, durante e depois de qualquer missão. Dessa forma, aceito acompanhá-los nessas missões», diz Regina Ramos.
Esta médica, com a patente de tenente-coronel, tem-se voluntariado para esse tipo de missões, desde o terramoto no Paquistão, que acabou por não ir devido ao cancelamento da missão, a São Tomé e Príncipe. Esteve também em Bodo, na Noruega, numa missão dos F-16, na Lituânia, nos Balcãs e, mais recentemente, no Afeganistão, em Cabul: «Tenho sido sempre voluntária, até porque actualmente tenho um posto em que já não sou obrigada a ir para missões operacionais. Habitualmente, vão os mais novos, os tenentes, os capitães, até porque a missão que nós destacamos de apoio sanitário é para apoiar as esquadras de voo ao nível de prestação de cuidados, que tem a ver com os cuidados primários de saúde e a urgência pré-hospitalar, e teoricamente são os tenentes e os capitães que prestam esse serviço. Eu já estou numa fase mais avançada da minha carreira», explica às Selecções.
A Força aérea foi a primeira
Casada, mas sem filhos por opção própria, Regina Ramos diz que não é difícil conjugar a vida da farda com a vida familiar: «O meu marido foi pára-quedista no serviço militar obrigatório, e já estávamos casados quando eu vim para a Força Aérea, e ele até acha piada ao facto de eu ser militar.»
Actualmente, Regina Ramos prepara ao pormenor mais uma missão em Cabul, no KAIA – Kabul International Airport. Foi incumbida de organizar e preparar um grupo de militares dos três ramos das forças armadas que irão estar destacados um ano no Afeganistão: «Eu sou chefe da 2.ª Repartição da Direcção de Saúde da Força Aérea, sendo responsável pela medicina operacional. A missão primária é manter a área da saúde operacional na FA sempre a funcionar nas bases, e tenho também a responsabilidade de preparar as missões de apoio sanitário no exterior. Nesse sentido, vai decorrer a partir de Julho uma missão conjunta dos três ramos em Cabul, missão liderada pela França e em que uma equipa de saúde operacional irá integrar o pessoal hospitalar, num total de 15 pessoas, durante um ano, fazendo rotações de quatro meses. Sou a chefe do grupo de trabalho responsável pela preparação e vou organizar a equipa portuguesa», explica.
Quinze anos depois de ter entrado para a Força Aérea, Regina Ramos é dos rostos mais conhecidos, e não é pelo facto de ser mulher. Segundo ela, nunca sentiu qualquer discriminação nas fileiras, até porque este foi o ramo das forças armadas que primeiro se abriu às mulheres e onde «elas» dão cartas. Para Regina Ramos, isso deve-se à própria natureza das mulheres: «Penso que tem a ver com a psicologia das mulheres na adolescência. Os homens amadurecem mais tarde, e as raparigas são melhores alunas.
Elas são mais determinadas, mais pacientes. Quando chegam ao 12.º ano, estão mais bem preparadas para uma faculdade ou outro percurso que escolham.»
Discriminação foi coisa que Regina Ramos nunca sentiu e nunca viu. Embora no início, quando as FA se abriram às mulheres, tenha havido alguns problemas. Mas isso foi há muitos anos. A Força Aérea recebeu as primeiras militares do sexo feminino, as enfermeiras pára-quedistas, em 1961 e foi também o primeiro ramo das forças armadas a abrir as portas da Academia da Força Aérea a candidatas em 1988.
Em 1998, as mulheres representavam cerca de 9,5% do total de efectivos militares. Eram cerca de 712 mulheres. Actualmente, a Força Aérea é servida por 1245 militares do sexo feminino, o que representa cerca de 17% do efectivo militar deste ramo das forças armadas. As áreas em que estão mais presentes são a área de apoio, com cerca de 79% do efectivo militar feminino, seguida pela área operacional, com 11% do total, e por último surge a área da manutenção, com cerca de 10% do universo militar feminino da Força Aérea.
Um crescimento que tem sido sentido nos outros ramos, como o Exército, onde representam já 19% do total de efectivos, estando presentes desde a componente de combate à componente administrativa, à excepção das tropas especiais, nomeadamente os Comandos e as Operações Especiais.
A primeira mulher do quadro permanente foi incorporada em Abril de 1989. Dois anos depois, a Academia Militar incorporou as primeiras cadetes femininas. Em 1992, realizou-se a primeira incorporação feminina, no Batalhão de Informações e Reconhecimento das Transmissões, na Trafaria.
E desde aí o número tem vindo a crescer de ano para ano.
Elisabete Silva, de 29 anos, capitã de cavalaria, ingressou na Academia Militar em 1997, sem nunca antes ter pensado em seguir a vida das armas. Mas o destino pregou-lhe a partida: «Sempre pensei em seguir a Faculdade de Desporto, porque foi uma área de que sempre gostei – queria algo que tivesse a ver com a actividade física. Mas no final do ensino secundário tive conhecimento do concurso para a Academia Militar e decidi concorrer. Como na fase de concurso existia uma prova de aptidão militar de quatro semanas, onde deu para ter contacto com a vida militar, apercebi-me de que a actividade física era uma componente importante e fiquei interessada devido exactamente a essa componente», explica.
Quando chegou a casa, em Lousada, disse aos pais que pensava seguir a vida militar. Não a levaram a sério. Mas, determinada, concorreu à Faculdade de Desporto e à Academia Militar: «Como só tinha 17 anos na altura do concurso, o meu pai teve de assinar os papéis de autorização. Foi nessa altura que ele e a minha mãe se convenceram de que era o que eu queria.»
Apoio da família
No Verão de 1997, é chamada a prestar provas na Academia e passa à primeira. Estava traçado o seu destino.
No final do primeiro ano de curso, foi obrigada a escolher qual a arma que pretendia seguir e também não hesitou: escolheu cavalaria. Completado o curso, fez o último, o do tirocínio, na velha Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, entretanto desactivada.
Quando passou a pronta, foi destacada para Santa Margarida, para o Regimento de Cavalaria n.º 4, onde foi comandar um pelotão do Esquadrão de Carros de Combate. E também já teve a sua dose de adrenalina em missão no exterior: «Estive por duas vezes na Bósnia-Herzegovina, em 2004 e 2006, no âmbito das missões SFOR e EUFOR, respectivamente, naquele território.»
Com uma vida que antes era reservada apenas aos homens, Elisabete Silva tenta conjugar agora a vida de militar com a de mulher: está grávida do primeiro filho, o que a obrigou a uma reorganização da sua vida, mas sem abdicar de nada: «A minha vida esteve sempre organizada em função do que faço, mas não altera nada, até porque o meu marido também é militar. O facto de estar a comandar um Esquadrão de Comando e Serviços, que tem menos actividade operacional do que um Esquadrão de Carros de Combate, proporcionou-me maior disponibilidade para a vida pessoal», explica às Selecções do Reader’s Digest.
Sobre eventuais discriminações, Elisabete Silva diz que nunca sentiu qualquer atitude, mas que «somos olhadas de forma diferente, somos sempre olhadas dessa forma».
Gisela Antunes, de 28 anos, tenente da Marinha, diz também não ter sentido qualquer discriminação quando entrou na Escola Naval: «Não notei qualquer atitude menos correcta. Acredito que nos primeiros anos em que entraram mulheres para a Marinha naturalmente que deve ter havido uma maior atenção sobre elas, mas quando eu entrei já não notei nada, embora sentisse que havia muita gente que observava», explica.
O ingresso de Gisela Antunes na Marinha foi quase um acto natural, tendo em conta que o pai também passou pelo mesmo ramo das forças armadas: «O meu pai foi militar na Marinha, e eu já estava familiarizada com a vida militar. Quando fiz o 12.º ano, foi organizada pela Marinha uma visita à Escola Naval, a vários navios e ao Planetário para nos mostrarem o que era a vida militar e ver se alguns dos alunos se interessavam, e eu fiz essa opção.»
Quando chegou a casa, em Coimbra, disse aos pais que pensava seguir a vida militar. Não a levaram a sério. Mas, determinada, concorreu à Universidade de Coimbra e à Escola Naval.
Em 1998, entrou na Escola Naval para o curso de Marinha, tendo embarcado pela primeira vez nesse ano durante o concurso à Escola Naval. «Ao longo do curso de cinco anos, os cadetes embarcam por diversas vezes para colocar em prática aquilo que aprendem na Escola Naval», explica.
Em 2003, como aspirante, cumpriu o embarque durante cerca de seis meses a bordo da fragata Comandante Sacadura Cabral e das corvetas Afonso Cerqueira e João Roby, onde desempenhou funções de chefe de serviço. Entre 2006 e 2008, comandou a lancha Sagitário, tendo sido a primeira mulher comandante de um navio da Marinha de Guerra Portuguesa.
Actualmente, está a desempenhar funções na Escola Naval como comandante de companhia. E no currículo tem já diversas missões em águas internacionais: «Na corveta Afonso Cerqueira, estive destacada na Islândia um mês e meio, onde fizemos fiscalização de pescas juntamente com inspectores do Instituto Geral das Pescas. Estive em Cabo Verde numa missão conjunta com a Polícia Judiciária durante cerca de um mês; também um mês nas proximidades da Guiné-Bissau durante um período eleitoral, numa missão de apoio aos cidadãos portugueses», explica às Selecções do Reader’s Digest.
Mais bem preparadas
E, tal como Regina Ramos, também Gisela Antunes acha que as mulheres, quando chegam à vida militar, vão mais bem preparadas que os homens: «Acho que, na generalidade, a formação de base das mulheres é melhor. Elas vão mais bem preparadas para o ensino superior; julgo que tem a ver com o empenho e a dedicação.»
Na Marinha Portuguesa, a entrada de mulheres começou a fazer-se em 1992. Actualmente, existem 886 militares femininos na fileiras da Armada, o que representa 8,7% do total do efectivo, sendo que a percentagem de cadetes femininos a frequentarem presentemente a Escola Naval é cerca de 15 %.
Em 2000, havia 363 mulheres; em 2005, o número subiu para 610, a maior subida nos últimos 10 anos.
Na distribuição de desempenho de funções, na classe de oficiais elas estão representadas nas áreas de técnicos superiores navais, saúde e classe de Marinha. Na classe de sargentos, ocupam as áreas de saúde e informática, e na de praças desempenham funções nas áreas de manobras, serviços, operações e administrativos.
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