O dia em que a filha decidiu pôr termo à vida está gravado ao pormenor na memória de Joana Mateus*, de Ourique. "Foi a 28 de Maio de 1999, na véspera de fazer 16 anos, numa daquelas manhãs cheias de sol, como faz aqui no Alentejo", conta, com a tristeza e a dor estampadas na cara. "A Rita* estava atrasada para as aulas, e o táxi já estava a apitar na rua.

Acabou de pentear-se, dirigiu-se para a porta e disse: Mãe, adeus! Ouviste, mãe? Adeus!" Era meio-dia quando Joana Mateus ouviu o telefone tocar várias vezes. "Estava a trabalhar com o meu marido no monte - somos agricultores - e encontrávamo-nos a regar o milho -, recorda, os olhos rasos de lágrimas. "Quando aqui cheguei, já a minha cunhada tinha atendido o telefone e os professores vinham a chegar.

Depois de me contarem o que se tinha passado com a minha filha, eu disse: O quê? Deu um tiro? E quem lhe deu a arma? E a professora respondeu-me: Era isso que nós queríamos saber! Lembrei-me então da arma do pai. Fui à procura dela e não a encontrei. "Todos consideravam a Rita Mateus uma adolescente exemplar. Para os professores, era uma aluna acima da média e estava à vontade em qualquer área de estudo. As amigas viam nela um modelo de camaradagem e amizade. Aparentemente, nada fazia prever que decidisse acabar com a vida de forma tão violenta.

Nessa manhã, Rita escondeu na mochila a arma e um cartucho de munições, que tinha tirado ao pai, juntamente com alguns livros, cassetes e CDs, que pretendia devolver às colegas num gesto de despedida. Assim o fez, e, sem levantar qualquer suspeita, dirigiu-se sozinha para a casa de banho, onde desferiu o tiro fatal. "Pensamos sempre que nunca nos acontece a nós", diz Joana Mateus. "Achava que a minha filha tinha tudo o que queria. E tinha, tinha aquilo que lhe podíamos dar." Ao que o marido acrescenta: "A nossa Rita nunca deixou transparecer aquilo que queria fazer.

Escondeu tudo lá dentro." Muitas famílias como a dos Mateus estão a lidar com esta dor que parece nunca desaparecer. "Embora o número de suicídios entre adolescentes em Portugal tenha baixado, este problema não deixa de ser preocupante", diz Abílio Oliveira, investigador do Núcleo de Estudos do Suicídio (NES). "Em Portugal, é a segunda causa de morte entre os jovens, depois dos acidentes de viação, podendo por isso ser considerado um problema de saúde pública." Segundo dados deste organismo, entre 1994 e 1996 observaram-se 325 casos de tentativas de suicídio e de comportamentos suicidários entre adolescentes, números que são superiores aos observados durante o período compreendido entre 1997 e 1999, em que se contabilizaram 160 casos.

Mesmo assim, suicidam-se anualmente no nosso país cerca de 80 jovens entre os 10 e os 24 anos. O mesmo será dizer que, semanalmente, morrem por suicídio 1 a 2 jovens. "Sabemos que há muitos casos de morte que não são relatados como suicídio", acrescenta Abílio Oliveira. "Em geral, são atribuídos a causas desconhecidas ou a acidentes, ou omitidos por motivos de ordem cultural ou religiosa, particularmente no Norte do País.

Também se sabe que as raparigas fazem mais tentativas de suicídio e os rapazes suicidam-se mais e de modo mais violento." Sinais de alarme

Apesar de haver mais investigação nesta área, as causas que levam a atitudes suicidárias continuam um mistério. Os especialistas e técnicos apontam para a influência dos conflitos familiares, as rupturas afectivas, os problemas escolares, o abuso de drogas, a dificuldade em conseguir o primeiro emprego ou mesmo a entrada no mundo universitário, bem como o stress da vida moderna.

No entanto, é difícil explicar porque é que morrem por suicídio mais homens do que mulheres. Segundo Abílio Oliveira, é mais fácil para as raparigas falarem sobre as suas dificuldades e fraquezas. "Elas podem falar sobre a sua tristeza, angústia e desespero em público, podem até chorar", diz. "Os rapazes, não. E esses sentimentos reprimidos podem tornar-se num motivo de grande tensão, chegando ao ponto de não aguentarem viver com essa angústia." Embora os pais precisem de perceber quando os filhos podem estar em risco, não devem entrar em pânico.

Não é invulgar um adolescente ter ideias suicidas. Segundo revelam os resultados do último estudo do NES, que abrangeu 822 adolescentes de várias regiões do País com idades compreendidas entre os 15 e os 23 anos, 34% já pensaram em suicídio e 7% já tentaram suicidar-se pelo menos uma vez. "Quando entram na adolescência, os jovens deparam-se com uma série de transformações a nível fisiológico com as quais muitas vezes não conseguem lidar muito bem", diz Abílio Oliveira. "Se já estão a vivenciar uma perturbação, o problema com a imagem vem agravar a situação." Além disso, se a transição da infância para o estado adulto lhes confere mais liberdade, também lhes traz mais responsabilidades e, consequentemente, um acréscimo de pressões. "De um modo geral, um jovem tenta suicidar-se porque não conseguiu realizar-se a vários níveis: individual, familiar, grupal e social", acrescenta.

"É alguém que chegou a um ponto tal de desespero, solidão e tristeza que não suporta mais a vida que tem. E muitas vezes os pais, os professores e os adultos também não conseguem ajudá-lo."

Os pais devem saber distinguir entre um comportamento fora do normal e as normais mudanças de humor e comportamento características nos adolescentes. “Quebras importantes no rendimento escolar, isolamento dos colegas e amigos, desleixo ou negligência em relação à aparência, alteração súbita e significativa de peso, apatia, Ž que podem ser sinais de aviso importantes”, diz Paulo Soeiro, psicólogo clínico do NES. “Poderá também haver alguma expressão mais directa através de material artístico que refira temas como a morte e o suicídio ou de expressões verbais como: “Não aguento mais!”, “A vida é uma chatice!” ou “Estou farto de viver!”. Em situações destas, é indicado perguntar-lhes o que está a passar-se, porque se alguém faz este tipo de apelo é porque procura ajuda, e, se não a obtiver, a situação pode agravar-se.”

Paulo Soeiro nega o preconceito de que falar abertamente sobre o suicídio possa induzir essa ideia nos jovens. “Se os pais estão preocupados, é melhor perguntarem abertamente aos filhos se eles pensam em suicídio do que permanecerem em silêncio”, diz. “A comunicação com o adolescente é muito importante: ao falarem com ele e ao estarem disponíveis para ouvi-lo, os pais mostram que se preocupam com ele e dão-lhe uma oportunidade de falar dos problemas que o afligem. O mais importante é de facto os pais, e até os professores, n‹o terem medo de estabelecerem laços de proximidade, de intimidade. Só assim os adolescentes se sentirão à vontade para falar quando n‹o estão bem.” Cláudia Antunes, hoje uma alegre jovem de 23 anos que vive no concelho de Óbidos, fez várias tentativas de suicídio, a primeira das quais por volta dos 18 anos.

“Sentia-me frustrada com a vida que tinha”, conta. “As minhas colegas e amigas tinham conseguido entrar na universidade e eu não, começaram a namorar e foram-se afastando. Nem sequer sabia o que queria fazer, tinha uma constante insatisfação.” Cláudia entrou em depressão e, depois da sua primeira tentativa de suicídio, foi tratada por psiquiatras e psicólogos. “Felizmente, tive muito apoio dos meus pais, que sempre estiveram do meu lado, e isso ajudou-me muito”, diz.

“Voltei a estudar, quero fazer um curso em Educação Especial para ajudar crianças com problemas e já perspectivo o meu futuro com confiança. Graças a Deus, continuo cá.” Partindo da sua experiência, Cláudia Antunes dá o seguinte conselho aos adolescentes: “O suicídio não é nenhuma saída.

Eu sei que às vezes é muito difícil fazer que nos compreendam, mas o principal é aceitarmo-nos como somos, com as nossas qualidades e principalmente os nossos defeitos, e saber viver com eles.” E aos pais: “A maioria dos pais n‹o tem tempo para ouvir os filhos, mas é muito importante saber ouvi-los e até questioná-los, porque nessas alturas é natural eles não falarem espontaneamente. E estar atentos aos primeiros sintomas.” Em caso de suspeita, os pais não devem hesitar em perguntar aos colegas e amigos se também repararam nalgum comportamento fora do normal do filho e contactar a escola para saber se as suas preocupações também são partilhadas pelos professores ou director de turma. Numa situação de crise em que há manifesto risco de suicídio, para evitar o perigo de actos impulsivos os pais não devem deixar à vista os medicamentos que lhes foram receitados ou os de venda livre, como os que contém paracetamol, que, se for tomada uma mão-cheia deles, podem causar uma deficiência hepática dolorosa e potencialmente letal. Armas de fogo, produtos químicos ou pesticidas devem também ser guardados em total segurança. Entrevistas a jovens que tentaram o suicídio com overdoses de medicamentos revelaram que um em cada dez n‹o pensou seriamente em suicidar-se durante mais de 24 horas. “O período de alto risco n‹o dura habitualmente mais de algumas horas ou dias”, confirma Paulo Soeiro. No entanto, vários estudos efectuados demonstraram que 60 a 70% das pessoas que tentam o suicídio já pensaram nisso pelo menos seis meses antes. “Por vezes, dão indícios”, explica Paulo Soeiro. “Depois, poderá é haver o “factor precipitante”, ou seja, aquilo que precipita o acto. Contudo, há uma multiplicidade de factores que podem conduzir a uma situação angustiante de sofrimento e ao desespero - e em que um factor precipitante pode levar à tentativa de suicídio ou ao suicídio consumado.” De facto, os jovens ainda não têm a experiência de vida que lhes permite saber que os maus momentos não duram para sempre, e por isso tendem a agir impulsivamente. “Uma discussão com o namorado ou uma m‡ nota num exame podem ser a gota de água e conduzir um adolescente que já se encontre em sofrimento e n‹o tenha encontrado com quem falar e partilhar a sua angústia a um gesto de desespero”, acrescenta. “No entanto, se conseguirmos ajudar a ultrapassar este período de alto risco, a angústia diminui e teremos oportunidade de trabalhar com o jovem, em termos terapêuticos, todas as dificuldades que o levaram a ter falta de esperança e a desenvolver um projecto com futuro.”

Muitas vezes, a família é vista pelos outros como falhada e co-responsável pelo acto do suicídio. Ajuda à família

Quando um adolescente decide pôr fim à vida, isso tem um efeito devastador na família. "Os pais, além do sentimento de culpa, raiva e derrota que os outros pais enlutados têm, carregam a "vergonha social" do suicídio", afirma Maria Emília Pires, presidente da associação de pais em luto A Nossa âncora. Segundo Maria Emília Pires, por "vergonha social" do suicídio entende-se toda a herança cultural, social e religiosa da nossa sociedade que chegou até aos nossos dias e que nos leva a encarar o suicídio como uma atitude que envergonha e culpabiliza, estigmatizando não só o suicida, como a sua família, que por vezes é vista pelos outros como falhada e co-responsável. De facto, o flagelo do suicídio pode abalar profundamente toda a estabilidade de uma família.

António Lopes, técnico especializado da construção civil, dirige com a sua mulher, Teresa, um pequeno restaurante em Vila do Conde, onde vivem. Quando Bruno, de 18 anos, filho do primeiro casamento de Teresa, anunciou que ia viver com a namorada ali perto, a mãe achou que ele ia finalmente ter a tranquilidade que merecia, pois a separação do seu primeiro marido tinha-lhe provocado alguma instabilidade emocional nos primeiros anos da adolescência.

No dia 19 de Maio do ano passado, após seis meses de vida em comum, uma discussão mais acalorada, provocada por ciúmes, fez que a companheira de Bruno decidisse regressar a casa dos pais. Desesperado, Bruno compra E-605 forte, um veneno poderoso, e, sozinho em casa, suicida-se.

"Esta situação dolorosa provocou um enorme constrangimento na nossa família", diz António Lopes. "Tive que deixar de trabalhar para estar à frente do estabelecimento, porque a minha mulher não consegue encarar os clientes. Está inconsolável e passa os dias lá em cima a chorar." Teresa continua de facto muito abalada pela morte do filho. "Só consigo falar com a médica de família e com a minha filha, que, coitada, só me diz para não chorar mais", diz. "Tenho vergonha de olhar para as pessoas no restaurante, do que possam estar a pensar acerca desta situação, mas gostava de poder desabafar sobre o meu sofrimento."

Ao contrário de outras situações de luto, em geral os amigos e vizinhos sentem-se demasiado embaraçados para dar conforto ou mesmo as condolências após um suicídio. Na verdade, serem ouvidas de forma compreensiva e construtiva, sem conselhos moralistas, é o que estas famílias necessitam para conseguir controlar a sua dor. Este tipo de apoio e conforto poderá encontrá-lo na associação A Nossa Âncora, que integra pais de todo o País que perderam os seus filhos das mais diversas formas, mas têm em comum a cooperação e a partilha de uma dor que os une e que eles querem transformar em algo positivo nas suas vidas.

"O luto não é uma doença do corpo que se cura com sedativos", diz Maria Emília Pires, que perdeu uma filha de 18 anos. "É uma doença da alma que se cura com muita paciência, amor e carinho."

No Alentejo, Joana Mateus lamenta a ausência de maior apoio e informação. "Aqui, a única ajuda que temos é a da médica de família, que mesmo assim nos vai ajudando como pode, mas era importante poder falar com outras pessoas que também passaram pelo mesmo. " A associação A Nossa Âncora, que é membro da organização internacional The Compassionate Friends, tem em funcionamento vários grupos de entre-ajuda em Lisboa, Coimbra, Almada, Setúbal, Aveiro, Parede e Sintra. Pode ser contactada na Rua Dr. Almada Guerra, 25, Portela de Sintra, pelo telefone 219 10 57 50, ou ainda na Internet, no site http://www.anossaancora.pt

Também os jovens podem contar com algum apoio. O Núcleo de Estudos do Suicídio (NES) tem vindo a desenvolver várias iniciativas de combate ao problema do suicídio na adolescência. Este organismo pode ser contactado no 4.o piso do Hospital de Santa Maria, serviço de psiquiatria, em Lisboa, ou pelo telefone: 217 80 50 00. Os Hospitais da Universidade de Coimbra e o Hospital Regional de Portalegre, entre outros, também dispõem de consultas de prevenção do suicídio.

O Centro SOS - Voz Amiga, telefones 213 54 45 45 ou 800 20 26 69, é outro serviço, disponível a nível nacional, de ajuda na solidão, angústia, desespero e prevenção do suicídio. Muitas escolas e universidades têm sido alvo de acções de informação e debates, uma vez que a melhor forma de lidar com o suicídio é através da prevenção. Recentemente, alunos da Escola Secundária de Ourique, no Alentejo, convidaram especialistas do NES para um debate na escola sobre o tema "O Suicídio na Adolescência". "É fundamental, em termos de prevenção, falar-se sobre esta questão, nomeadamente nas escolas e noutras actividades", diz Abílio Oliveira.

"Só assim é possível compreendê-la, perceber como é que surge, quais os seus contextos e contornos. E os adolescentes mostram-se interessados, querem compreender, pois preocupam-se com a morte e o suicídio." Maria Emília Pires considera que uma tragédia pode transformar-se em algo de positivo. "Dar continuidade às actividades ou ideais do seu filho é um modo de enaltecer a sua memória, e pode funcionar como uma excelente terapia", diz. Numa certa ocasião, Maria Emília emprestou o fato de ballet que era da filha à filha de uma amiga, e foi com enorme alegria e saudade que a viu a dançar. "Nessa altura, pensei que a minha filha deveria estar a sentir-se também muito feliz!", diz, relembrando também a história de um casal seu conhecido que perdeu um filho que gostava de fazer windsurf. Durante um tempo, viveram a memória do filho praticando este desporto e apoiando a prática do windsurf, frequentando e divulgando os locais onde a modalidade é praticada.

Chegaram a dizer-me: "Estamos no sítio onde ele gostava de estar, a fazer aquilo que ele gostava de fazer!" E conclui: "Se de facto quiserem "honrar" a memória do vosso filho, seria óptimo que conseguissem voltar a sorrir e a serem felizes, porque era isso com certeza que ele gostaria que fizessem."

*Estes nomes foram alterados para protecção da privacidade.

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3 Comentários

rose on 26 Março 2011 ,22:39

Minha filha tentou suicidar-se, consegui salvá-la a tempo, levei-a para o hospital onde fez uma lavagem, foi a terceira tentativa dela em uma semana, agora está internada e já não falo com ela há cinco dias, a conselho médico. Dói tanto que nem sei expressar, gostaria de ter ouvido queixas e apelos, mas ela não fez nenhum, nenhum sinal de que faria o que fez, eu tentaria ajudá-la, e porisso me senti impotente. Parece que minha vida foi dilacerada, nós a cercamos de amor e mesmo assim não foi o bastante para evitar esse sofrimento todo. Espero que depois que isso passar possamos recomeçar nossas vidas.

marta on 21 February 2011 ,15:22

hoje é um dia complicado..ja a algum tempo que vivo com uma enorme angustia, nao sei qe fazer, os meus pais deixaram de me apoiar e os meus amigos chamam-me de maluca, era como se estivesse sozinha. estudo, trabalho e cheguei a namorar, ate qe acabou, entrei em depressao, e estou a fazer tratamento mas tenho recaidas, apetece me morrerm acabar com tudo para fazer as outras pessoas felizes, ao pedir ajuda, voltam me as costas e fico mais uma vez sozinha. talvez se tudo acabasse os meus problemas e os pedidos de ajuda acabavam e todas essas pessoas ficavam muito mais descansadas. Doi no inicio mas depois passa. Sentimos que precisamos de ajuda mas toda a gente nos volta as costas, e o sentimento que tenho é mesmo de morte...

patriciacardoso on 23 Maio 2010 ,17:41

Gostei muito de ler vários assuntos sobre este tema e das historias de adolecentes que como a minha filha de 17 anos decediu por termo a vida, no dia 21-01-2010 quando se atirou para um comboio rapido e perdeu assim a sua vida , nao consigo deixar de pensar todos os dias o que a levou a fazer tal coisa .

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