«Não me compra uma marafona?», atira-me de repente uma senhora baixinha, bem mais velha do que eu, que parece ter saído de baixo de alguma pedra. Embalado na subida íngreme do monte, demorei alguns segundos a reagir. D. Maria do Carmo, era esse o seu nome, trazia na mão uma cesta onde se alinhavam bonecas sem rosto, com os braços abertos em cruz. «Dê-me esta», digo, apontando para uma boneca vestida de chita florida azul e branca, com um véu de tons escuros na cabeça. «Sou eu que as faço. E até já fui ao programa do Sr. Jorge Gabriel explicar como se faz», diz-me com orgulho.

A marafona, explica a vinheta que me entregou, é uma «cruz de madeira vestida com aspecto de boneca associada a cultos da fertilidade» - punha-se na cama dos noivos na noite de núpcias, e por isso se diz que não tem olhos para ver as intimidades, nem boca para descrevê-las. Era ainda utilizada «para afastar o perigo das trovoadas». Junto com os adufes, é um dos objectos típicos do artesanato de Monsanto, a aldeia raiana do concelho de Idanha-a-Nova, que em 1938 foi dec1arada a «aldeia mais portuguesa de Portugal».

«Acha que vou bem por aqui?», pergunto, apontando para o caminho lajeado, sinuoso, que vai contornando as casas arrimadas a enormes rochedos graníticos. Lá no alto, envolto no nevoeiro matinal, espreita o castelo.

«Vai muito bem, não tem que enganar. E agora vou levar as minhas cabritas ao monte», despede-se a D. Maria do Carmo.

Monsanto (do latim Mons Sanctus) fica na encosta de um monte escarpado que atinge os 758 m. É habitada desde há muito: escavações arqueológicas revelaram um castro lusitano e vestígios de ocupação romana no campo de S. Lourenço, no sopé do monte. Visigodos e árabes também deixaram vestígios.

Foi conquistada por D. Afonso Henriques em 1165 e entregue aos Templários, cujo grão-mestre, Gualdim Pais, mandou erguer o castelo; o foral data de 1174. Durante a guerra que se seguiu à restauração da independência, em 1640, D. Luís de Haro, ministro de Filipe IV de Espanha, cercou Monsanto, sem conseguir tomá-la; meio século mais tarde, foi a vez de o duque de Berwick tentar o mesmo, com idêntico resultado. Monsanto resistiu sempre.

A 3 de Maio, realiza-se a Festa de Santa Cruz, em que se comemora a resistência aos invasores. Nela, as mulheres levam as marafonas ao castelo e lançam das muralhas cântaros de barro com flores.

Além do castelo, outras sentinelas do passado revelam a importância e a longa história de Monsanto: a Torre de Lucano, os Solares dos Pinheiros e da Graciosa, as igrejas e capelas. Monsanto é um local belíssimo para quem vem de fora e pretende descansar. Mas não é certamente fácil a vida dos que cá ficam. São poucos os jovens, e ainda assim parte deles veio de fora. Não tinha que ser assim. A prová-lo está o dinamismo e a juventude que vemos do lado espanhol da fronteira, nas ruas de Coria ou Moraleja. Parece que o governo da Estremadura espanhola criou incentivos à sua fixação...

Onde ficar:

Estalagem de Monsanto:
Rua da Capela, 3, Monsanto
Telefone: 277 314 471

Onde comer:

Restaurante da Estalagem de Monsanto
Adega O Cruzeiro:
Rua Fernando Namora, 4, Monsanto Telefone: 277 314 528

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