«Ficámos mais ricos, mas não exactamente no sentido que esperávamos.»

Quando se decide passar um mês sem gastar dinheiro, o som mais assustador do Mundo é qualquer coisa parecida com «grlug, grlug, grlug», seguido da voz da minha mulher a dizer: «Ai, meu Deus. Querido, temos que chamar o canalizador!»

A nossa experiência de vida sem gastar dinheiro seguia bem e a bom ritmo. Estávamos a gastar alegremente o que havia na despensa, a pedir emprestado em vez de comprar e a desfrutar dos efeitos da semana de experiência grátis no ginásio mais próximo. Mas agora – e tinha que ser durante um fim-de-semana comprido e às 11 da noite, claro – uma pasta negra, nojenta e pútrida começou a sair em cogumelo pelo ralo do chuveiro, e isso só podia significar uma coisa: um trabalho fora de horas do canalizador.

«Raciocina!», pensei eu, enquanto a minha mulher, Ruth, procurava o cartão do canalizador. «Raciocina.»

Eu ainda era caloiro neste processo de não gastar, mas já estava em união com o Zen desta vida sem dinheiro. Respira fundo. Há sempre uma forma de evitar abrir os cordões à bolsa.

A ideia de parar de gastar dinheiro já pairava há algum tempo, mas foi uma ida à loja Target, uma tarde, que finalmente me decidiu. Com Sebastian, o nosso filho de 4 anos, pela mão, a Ruth e eu carregámos o carrinho de pacotes de roupa interior, tapetes de casa de banho, utensílios para a churrasqueira, brinquedos do Homem-Aranha, utensílios de cozinha e uma engenhoca que se ligava às tomadas de electricidade que garantia que matava mosquitos.

Quando nos aproximávamos da caixa registadora, pensei: «Não precisamos de nada desta tralha.» E abandonámos o carrinho (depois de desviarmos a atenção do Sebastian com um gelado), poupando assim 300 dólares.

Foi isto que me fez pensar em todas as nossas despesas supérfluas: DVDs por correio, almoços fora, lavagens do carro, brinquedos «em promoção», bebidas de café especiais e praticamente tudo aquilo que tenho comprado nos sites eBay e Amazon . Em especial, dado o clima económico corrente, já para não falar da enormidade das lixeiras, de repente tudo aquilo me pareceu um excesso. Com a promessa de que parávamos se nos déssemos muito mal, convenci a família a dar o salto de gigante para a frugalidade.

As regras eram que durante 30 dias não compraríamos nada, à excepção de coisas absolutamente essenciais, como leite e vegetais; e mesmo nestes, após um exagero inicial de deslocações «essenciais» ao mercado nos primeiros dias, limitei a 100 dólares os gastos até ao fim do mês.

Algumas despesas-chave, como a nossa hipoteca, artigos de higiene e as propinas do Sebastian, ficaram de fora, mas as idas a restaurantes, os estacionamentos pagos, a roupa, os artigos de toilette, o acesso à Internet, os custos com babysitters e, sim, também a gasolina estavam todos na rubrica «Não comprar». E, a menos que eu não o conseguisse evitar, caríssimas reparações de canalizadores também estavam.

Infelizmente, utilizar um desentupidor no ralo do chuveiro só serviu para irar os deuses dos esgotos, e a nojeira engrossou. Ao fazer buscas na Internet (obrigado, meu caro vizinho, por não utilizar protecção com palavra-chave), li casos de pobres almas que tinham pago 200, 400 ou mesmo 1 500 dólares para resolver o mesmo problema. E foi então que me deparei com a Brigada do Detergente.

Num site da Internet denominado thriftyfun.com, milhares de utilizadores davam dicas e mais dicas baratas sobre como não gastar dinheiro. Ao que parecia, não havia crise à face da Terra que não pudesse ser evitada com uma combinação de fermento para bolos, vinagre branco, sumo de limão, sal e um certo detergente para loiça.

Esguichei um pouco de detergente da loiça numa chaleira de água a ferver, despejei-a para dentro do chuveiro e a pasta espessa começou a sair pelo ralo. Materiais utilizados: 10 cêntimos. Expressão na cara de Ruth depois de ver-me arranjar alguma coisa: impagável.

Eu sei que muitas pessoas vivem assim todo o tempo por necessidade, não por escolha, e já me vejo a receber cartas a dizer: «Ai, coitadinho, teve que deixar de beber o seu cappuccino descafeinado!» Mas nós não estávamos a «brincar aos pobres.» O nosso mês sem gastar dinheiro era um sinal de alerta financeiro, uma oportunidade para reequilibrar a nossa relação com o dinheiro numa altura em que todas as pessoas que conheço só pensam em dinheiro todo o tempo.

Necessitamos mesmo de todas as coisas que compramos? A aquisição de coisas tem algum valor real nas nossas vidas? Não poderemos ser tão ou mais felizes gastando muito menos?

A nossa aventura começou em grande. A seguir àquele primeiro dia, escrevi no meu diário: «Estou entusiasmado. Temos tanto! Em que é que haveríamos de ter que gastar dinheiro?

Às 9 da manhã, a Ruth já tinha feito compota de morangos, que já não estavam frescos, e apanhado flores que eu nem sabia que tínhamos no jardim. Lavei o carro à mão pela primeira vez em anos e ainda encontrei um filão de feijão-preto na parte de trás do armário. Boa! Ah, e ainda li e devolvi o jornal do vizinho antes de ele acordar. Despesa total do dia: zero dólares. Isto vai ser muito, muito, muito divertido.»

Depois, chegou o Segundo Dia. Uma pessoa rica disse-me uma vez que o dinheiro só é importante para quem não tem nenhum. Entendi isso de repente quando me calhou a vez de entreter o Sebastian. Normalmente, paramos na loja de livros de banda desenhada e na geladaria que tem gelados de iogurte, e talvez na livraria, gastando dinheiro durante todo o trajecto.

Agora, não tínhamos autorização nem para alimentar o parquímetro. O Sebastian estava a perder a paciência, mas senti uma onda de inspiração. «Olha lá, Bubba», disse-lhe. «Queres andar numa carruagem prateada e ver coisas giras e comer comida de plástico (fast food)?»

«Queeeeeeero!», gritou ele. Pronto, está bem, ser empurrado num carrinho de supermercado não é exactamente a montanha-russa, mas as lojas Costco têm mesmo coisas giras e uma coisa ainda melhor: provas grátis. Durante uma hora, comemos salsichas de frango, raviolis de queijo, folhados de salsicha, rebuçados de framboesa, sumo de amora e pudim de chocolate (a nutrição sai pela janela quando se come o que se arranja).

O que foi espantoso foi a sensação de liberdade de estar numa catedral do consumismo daquelas e não gastar um cêntimo. Fico sempre perplexo quando oiço pessoas gabarem-se muito do que «poupam» por serem sócias de lojas grossistas. Na minha experiência, nunca consegui sair da loja Costco ou Wal-Mart sem ter gasto menos de 200 dólares. Agora, poupança a sério? Experimente ir lá sem levar a carteira.

Um dos benefícios inesperados de não gastar é que nos aproxima das pessoas. Há um estigma na nossa cultura contra falar sobre dinheiro, mas a mera menção do nosso projecto motivou amigos, vizinhos e até desconhecidos a abrirem-se, a maioria das vezes para contarem como são forretas. Os conselhos foram óptimos: utilize um programa da Internet como o Skype para fazer chamadas grátis.

Peça a vizinhos que tenham horta que lhe dêem hortaliças e ervas aromáticas excedentes. Utilize a biblioteca para ler jornais e livros. E a minha dica preferida: preencha os talões de encomenda dos catálogos, espere e veja se ainda quer aquelas coisas daqui a uma semana. Não vai querer.

Comunidades online como a Craigslist e a Freecycle têm coisas suficientes grátis para atravancar um pequeno país. Máquinas fotográficas, esquis, répteis, terra, tudo. Eu consegui uma pilha de revistas financeiras (sabiam que o homem mais rico do Mundo não utiliza computador?) e depois voltei a colocá-las na lista. Na terceira semana da nossa dieta financeira, a Ruth conseguiu um corte de cabelo grátis de um cabeleireiro que procurava angariar clientes para o seu salão de prestígio.

Enquanto os dias se transformavam em semanas, tornámo-nos tão talentosos para viver frugalmente que até metia medo. Começámos a andar de bicicleta para poupar gasolina. As folhas de papel pintadas pelo Sebastian com os dedos foram recicladas em papel de embrulho para os presentes de aniversário do meu pai, que fizemos em casa.

Descobrimos qual era a hora ideal para aparecer no mercado dos lavradores para obter produtos oferecidos. A Ruth transformava pão duro em torradas e pão ainda mais duro em pão ralado. Um dia, o Sebastian e eu almoçámos maravilhosamente sem pagar no templo local dos Hare Krishna.

No entanto, a dada altura, a excitação foi-se e a realidade abateu-se sobre nós. Ter apenas o suficiente não é suficiente. Eu adoro o meu iPhone. A Ruth adora o nosso frigorífico brilhante de aço inoxidável. O Sebastian adora os ténis que acendem luzes.

É patético, eu sei. Cheguei à triste conclusão de que gastar dinheiro nos leva a acreditar que vivemos vidas relevantes, bem-sucedidas, excitantes. Tirem-nos isso e com que ficamos? De repente, não tinha a certeza.

Ao entrar na última semana do mês, tinha apenas 8,72 dólares de sobra para as despesas essenciais, sentia pena de mim próprio e estava um pouco rabugento. Quase esganei uma amiga que nos veio visitar quando ela deitou fora copos de leite que tanto nos esforçávamos para guardar. A Ruth e eu começámos a implicar um com o outro quando ela comprou por 99 cêntimos na loja dos 300 uma esponja – não estava na minha lista de coisas essenciais. E numa das nossas idas à loja Costco, o Sebastian chorou porque alguém agarrou primeiro o último bocado de um snack de frango com o feitio de um dinossauro.

Um psiquiatra que eu já consultara concordou em dar-me uma consulta em troca de lhe fazer recados. Ele ouviu-me. Depois, sorriu simpaticamente e disse-me: «Vá para casa. Brinque com o Sebastian. Diga à Ruth que a ama e pense em formas de ajudar os outros.»

Que solução inédita! Gratidão. Servir. Daaaaaa! Senti-me um idiota. Felizmente, aquele tempo todo longe dos restaurantes e das compras deu-me tempo para fazer exactamente o que ele me disse. Pedalei até casa e inventei um novo jogo do espaço com cartas para entreter o Sebastian.

Entretanto, a Ruth e eu passámos os nossos últimos dias a fazer trabalho voluntário no Café Bread and Roses, perto de nossa casa, em Venice, na Califórnia. Desde 1989, o café serve 150 pessoas necessitadas todas as manhãs, num ambiente de restaurante. A Ruth levava os pratos de massa e servia o café, e eu ajudava o cozinheiro ao fogão. Entre pratos, conhecemos pessoas que tinham de sobreviver com o mínimo de recursos. «Este estabelecimento é tudo para mim», disse-me um velho sem-abrigo. «Cada vez que me sinto zangado com a minha situação, penso: as coisas podiam ser bem piores. Pelo menos, tenho pessoas que se preocupam. Ajuda pensar assim.»

Foi provavelmente o melhor conselho que recebi durante todo aquele mês e foi completamente grátis.

No final, tínhamos poupado 2 000 dólares com o controle de gastos durante um mês. Quando começámos, imaginei que, mal acabássemos a experiência, iríamos a correr comprar víveres, depois de um lauto pequeno-almoço na nossa pastelaria preferida. E que a seguir talvez fôssemos ao centro comercial ou ao cinema. Mas não fizemos nada disso. Ficámos por perto de casa. E jogámos póquer espacial. E passei um cheque à ordem do Café Bread and Roses.

Faça mais:
Experimente o desafio de não gastar. Durante 30 dias, compre somente o que realmente precisa. Limite-se às compras essenciais e tente não armazenar ou planear a longo prazo. A maioria de nós já tem mais do que realmente necessita.

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