Marinha Grande é hoje uma cidade. Venceu na vida a pulso, paradigma que foi de resistência política, de lutas contra poderes estabelecidos de forma tirânica, de movimentos operários que ansiavam por pão e liberdade. Isto são memórias. E a cidade tem de lembrá-las como se fosse um livro do Génesis. Podia dizer-se da Marinha, assim se chamou primeiro, que no princípio era apenas a terra vazia e o mar muito perto. Houve depois um rei que mandou plantar um gigantesco pinhal. Mal ele sabia que no século de Quinhentos e depois o pinhal do Rei, o pinhal de Leiria, ia ser cavername de caravelas e de naus. Homens, carros de bois, insano trabalho.

A Marinha Grande nasceu com os primeiros povoadores, e em 1590 havia já uma Ermida da Senhora do Rosário. Em 1600, o bispo de Coimbra estabelece-a como paróquia e a ermida fica como matriz, até que em 1804 se constrói a igreja matriz actual, com a sua torre do relógio e sinos nas quatro ventanas.

O pinhal alimentou a gente até meados do século XVIII, quando John Beare (1748), com fábrica de vidros estabelecida em Coina, além do Tejo, se transfere para a Marinha, onde o combustível dos fornos e outras matérias-primas se oferecem com abundância.

Em 1769, Guilherme Stephens adquire a fabrica e requalifica-a em máquinas e técnicos vindos de Génova. O marquês de Pombal concede-lhe, para o efeito, privilégios sem conta. E tornou-se das melhores do Mundo, quase, introduzindo-se cedo a técnica da produção do cristal. Quando Guilherme morre (1802), sucede-lhe seu irmão, João Diogo, que em 1826 lega a fábrica à Marinha Grande e ao reino. Mais tarde, outras fábricas nasceram, algumas especializando-se em certos objectos.

Dos fornos de quentura extrema o vidro nascia como massa ígnea, e os homens, como demiurgos, sopravam sobre ele como o Criador com a argila primeira, e uma alma entrava dentro e nascia uma obra-prima, tão frágil quanto Eva e Adão.

Vieram crises de homens e de mercado. Mas hoje a Fábrica-Escola dos Irmãos Stephens vive e a cidade dela se orgulha. Ela é o grande monumento. De outro modo, o seu criador foi homenageado em 1941 com uma estátua.

Monumentos grandes não tem. Nem precisa. O Museu da Fábrica Nacional de Vidros deve tornar-se o melhor livro da sua história.

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