Marco Paulo

Nesta conversa, realizada há já algum tempo na sua quinta, nos arredores de Sintra, abriu o coração de uma forma surpreendente. Falou do amor que sente pela mãe e da dificuldade em lidar com o pai, das suas companheiras fictícias na maioria das ocasiões, criações de revistas -, do cancro que o deixou à morte, da sua experiência durante a guerra colonial, do seu nome verdadeiro, dos brinquedos que não teve na infância e do fim da carreira. Esta é uma viagem ao mundo espantoso de Marco Paulo. Para uns o mundo do incontestado rei da música «pimba», para outros o território de um homem que reinventou a canção popular em Portugal. No entanto, uns e outros concordarão que esta entrevista é uma viagem ao interior de um homem absolutamente inimitável.
Entrevista de Luís Osório
Luís Osório - Sei que está a comemorar mais um ano de carreira..
Marco Paulo - E são já 35 anos a cantar, imagine só. Tanto tempo que quase parece, bem, quase parece que a pessoa que sou hoje nada tem a ver com a pessoa que fui... Passei muitas dificuldades no início, não foram apenas rosas.
LO - Que tipo de dificuldades?
MP - No início tive de cumprir 18 meses de serviço militar obrigatório, depois tive também de viver com o que diziam e faziam os meus críticos. Durante muitos anos o meu nome esteve vetado na televisão. Fui muitas vezes mal tratado. Recordo uma entrevista do Carlos Cruz, uma entrevista em que ele começava por dizer que não gostava da minha música nem do que eu representava.
LO - O que lhe respondeu?
MP - Respondi-lhe que eu, pelo contrário, gostava muito do trabalho dele.
LO - Apesar de tudo, é hoje uma figura mais consensual.
MP - Sim, isso é verdade. Criou-se uma grande familiaridade entre mim e o público. Acho que ao longo de todos estes anos tive sempre uma atitude positiva: tentei melhorar e fazer coisas melhores num panorama musical que não é muito saudável. Ainda há uns dias, uma amiga que mora nos Estados Unidos dizia-me que as pessoas em Portugal devem estar todas malucas, e eu não tive resposta...
LO - Ela deu-lhe exemplos?
MP - O sucesso do Big Brother e do Zé Cabra, só para lhe dar dois exemplos. Mas o que é isto? Então as pessoas andaram para trás? Quando cantava os Dois Amores, era considerado um cantor piroso e não ia à televisão, agora está tudo de boca aberta com estas novas tendências.
LO - Incomoda-o o facto de já ter sido mais falado?
MP - De forma nenhuma, de forma nenhuma. Há uma coisa que ninguém me tira: a dignidade no desempenho na minha profissão. São 35 anos de carreira. Naquela parede atrás de si estão dezenas de discos de platina e de ouro, há milhões de pessoas que compraram discos meus e que os têm em casa.
LO - É interessante reconhecer que era considerado um cantor piroso.
MP - Um piroso que fazia música para sopeiras. Sempre achei que não merecia essas críticas. A minha sorte é que nunca me apercebi delas, tinha pessoas que me protegiam totalmente, pessoas que sabiam que eu sou uma pessoa frágil. Os que me criticavam desejavam simplesmente que deixasse de cantar. Mas o destino foi mais forte e eu continuei.
LO - E agora? Sente-se menos injustiçado?
MP - As coisas são diferentes, mas permanecem alguns sinais do passado.
LO - Voltando um pouco atrás. Onde cumpriu o serviço militar?
MP - Na Guiné. Quando fui para a guerra, já tinha gravado dois ou três discos, discos sem grandes sucesso mas que passavam na rádio e que já vendiam alguma coisa. Ao regressar da guerra, não fazia ideia do que seria a minha vida no futuro, não era líquido que o meu futuro passasse pelas cantigas.
LO - Recorda o dia em que partiu para a guerra?
MP - Muito bem. No fundo, não sabia para onde ia. Foram dias muito inquietantes, mas por sorte acabei por ir parar a Bissau. Os meus pais choraram quando se despediram de mim, choraram tanto como eu. Aliás, lembro-me de ter chorado duas vezes na minha vida: nessa ocasião e quando me deram a notícia de que tinha um cancro. Não é nada fácil alguém me ver chorar, nada fácil mesmo.
LO - O estatuto de cantor beneficiou-o de alguma forma durante a Guerra Colonial?
MP - De forma nenhuma. Por sorte, não estive nos sítios onde se vivia a guerra, limitei-me a estar numa zona mais resguardada. Fui obrigado a ir. Estava numa secção de escritório a fazer cartas, para mim foram quase umas férias. Só me apercebia de que existia guerra quando me convidavam para ir cantar a algum hospital ou à Força Aérea; no sítio onde estava não percebia nada. Deu-me muito prazer cantar na Guiné, os meus camaradas pediam-me e eu nunca recusava.
LO - A segunda vez que chorou não tem nada a ver com a primeira.
MP - Foi uma situação muito mais dramática. Recordo-me todos os dias do que passei naquele ano e meio de convalescença. O grande apoio que tive foi o de todas as pessoas anónimas, que a toda a hora estavam preocupadas comigo. Ainda hoje existem pessoas que me tratam como se estivesse doente, tratam-me com um carinho comovente. Posso contar-lhe todo o processo?
LO - Claro que sim.
MP - Senti uma dor a meio da noite e fui acordar os meus compadres no andar de cima. Subi as escadas de rastos para lhes pedir ajuda. Eram quatro da manhã! Ficaram muito admirados e telefonaram para o meu médico, que, muito simpaticamente, me recebeu no consultório ainda nessa madrugada. Quando lá cheguei, pensava que era um problema de coluna, mas o médico notou um inchaço qualquer e mandou-me fazer uma ressonância magnética no dia a seguir. Menos de uma semana depois, fui operado, o que acabou por me salvar... Tive a sorte de encontrar médicos muito competentes.
LO - Quem lhe disse que tinha um cancro?
MP - Praticamente, toda a gente sabia menos eu. No primeiro dia dos exames médicos, o meu compadre chamou-me à parte e disse-me que tinha de ser operado já porque uma doença me estava a matar. Senti-me de tal maneira pequenino, senti que, se calhar, a vida tem de ser levada de outra maneira, que não faz sentido ser arrogante nem maldoso. Perguntei a Deus porque é que me estava a acontecer a mim. Quando entrei para a sala de operações, não sabia se iria acordar ou não. A operação durou seis longas horas. Saí de lá com muita fome.
LO - Os seus pais estavam no hospital?
MP - Não. A minha mãe só me veio visitar algum tempo depois, já eu estava careca por causa da quimioterapia. Ela julgava que era uma gripe, e quando chegou a minha casa, perguntou ao meu compadre quem era aquele senhor sem cabelo que ali estava sentado no sofá. Quando lhe respondeu que era o Marco, agarrou-se a mim a chorar e perguntou-me muitas vezes o porquê de eu estar assim.
LO - Como se chama a sua mãe?
MP - Isabel. Não sabia porque é que estava assim, expliquei-lhe que era um tratamento e que estava a correr muito bem.
LO - E o seu pai?
MP - Chama-se João.
LO - Que é também o seu nome.
MP - Que é também o meu nome.
LO - Como é que eles o chamam?
MP - Chamam-me João. Fiz, só para acabar este ponto, seis meses de quimioterapia, mas quando me olhava ao espelho sentia-me profundamente infeliz. Olhava-me ao espelho e odiava o que via, odiava a minha imagem. Enfim... A solidariedade das pessoas e o amor do meu afilhado, que é quase como um filho, deram-me muita força. Muita gente que passa por este problema deve ter esperança no futuro; uma pessoa com cancro não está condenada à partida.
LO - Sei que pouco tempo depois da primeira operação cantou num espectáculo.
MP - Cerca de 15 dias depois, cantei na Madeira. Os médicos pediram-me para não cantar mais de 10 minutos, e eu estive em palco uma hora.
LO - Tem medo de morrer?
MP - Tenho medo, sim, tenho medo de morrer. Não é pelas coisas materiais, mas pela própria vida. Acordar de manhã é um grande prazer. Mesmo quando estive entre a vida e a morte, não pensava que ia morrer, gosto muito de viver. O meu maior desgosto é saber que a minha mãe está a aproximar-se desse momento, penso nisso todos os dias. Os meus pais são um casal de namorados, têm os dois 80 anos, mas continuam apaixonados. Quando apareço na televisão, seja a que horas for, a minha mãe vê sempre. Depois, telefona e diz-me coisas bonitas.
LO - Nunca sentiu a necessidade de ter alguém com quem envelhecer?
MP - Nunca senti necessidade de construir uma família. As revistas faziam-me casamentos e eu alimentava um pouco isso. Há uns tempos, uma revista, que não posso dizer o nome, propôs-me que encenasse um romance com uma mulher que eles próprios arranjavam. Não aceitei porque entrar numa coisa dessas é mentir descaradamente aos leitores. Preservo muito o meu espaço, não gosto que ninguém se envolva com as minhas coisas. Mas eu nunca estou sozinho, não tenho por isso problemas de solidão.
LO - Não o conheço, mas parece-me uma pessoa mimada.
MP - Mesmo não me conhecendo, acertou em cheio. Sou muito mimado. Quando quero estar sozinho vou para o meu quarto. É aí que dirijo tudo, eu sou empresário de mim próprio. Para o bem e para o mal, sou o primeiro responsável pela minha carreira. Não é que tenha algum jeito para negociar, mas a última palavra é sempre a minha. Orgulho-me de ser um grande profissional. Nos espectáculos, sou sempre um dos primeiros a chegar, antes de qualquer músico.
LO - Sei que a sua infância foi tudo menos fácil. Nesses dias difíceis, alguma vez imaginou o futuro?
MP - Se alguma vez imaginei no que me iria tornar?
LO - Exactamente.
MP - Não, nunca pensei que viria a ser o Marco Paulo. Tenho uma carreira, pessoas que me amam e uma casa tão bonita. Uma casa que só comprei porque há já muitos anos a editora me adiantou o dinheiro. Foram muito simpáticos e emprestaram-me. Conforme as minhas possibilidades, fui construindo-a a pouco e pouco, é o meu recanto e é aqui que gosto de estar. Falava-me há pouco das dificuldades da minha infância, mas a minha infância tem também muito boas recordações. Os natais passados em família, algumas prendas mais especiais. O meu pai ofereceu-me uma telefonia e foi uma prenda decisiva para o meu futuro... Ouvia as músicas e repetia-as depois. Ainda tenho esse rádio.
LO - Dá de si próprio uma imagem de alguma ingenuidade.
MP - Como assim?
LO - Quando me confessou há pouco que nem sequer sabia que as pessoas o consideravam um cantor piroso.
MP - Era muito mais ingénuo do que sou hoje. Agora é muito mais difícil ser amigo de alguém ou acreditar no que me dizem. Antigamente, talvez porque as pessoas me mimavam muito, fazia amizades com muita facilidade e, muitas vezes, acabei por me lixar. Cheguei a uma altura em que quero conservar as velhas amizades, isso basta-me.
LO - Lembra-se de algum brinquedo de infância?
MP - Nunca tive brinquedos. Talvez por isso tenha mimado o meu afilhado com brinquedos, é a lei das compensações. Transformava os paus de vassoura em microfones e inventava um mundo muito próprio. De facto, nunca imaginei que a minha carreira fosse tão bonita. Sou um cantor que agrada a avós, pais e filhos. Os miúdos que têm 15 ou 20 anos cresceram a ouvir-me cantar, o meu afilhado está sempre a pedir-me para lhe pôr os meus discos antigos.
LO - Imagina-se a cantar aos 70 anos?
MP - Não me imagino, sinceramente. Mais cinco anos. Já o digo com saudades porque estou a falar da minha vida, mas cinco anos é o meu limite. Estou sempre ansioso pelo meu próximo espectáculo, não sei como irei conseguir superar a falta dos palcos, mas na vida tudo tem um princípio e um fim. Não quero arrastar-me nem quero que as pessoas vejam a minha decadência. Cinco anos, cinco discos. Se as coisas correrem muitíssimo bem, então prolongarei mais um pouco, mas não acredito. Tenho medo de que as pessoas possam ter pena do Marco Paulo, tenho muito medo do ridículo.
LO - Foi isso que sentiu quando cantou na festa da escola?
MP - Quando tinha 14 anos? Quem lhe contou isso? Há quanto tempo não me lembrava disso! Esganicei imenso a voz. Tinha cantado no ano anterior e as coisas tinham corrido muito bem, tão bem que me tinha tornado o ídolo do Liceu de Alenquer. No segundo ano, ia todo convencido e dei aquela fífia. Fui a correr para casa e chorei o dia todo; nunca me senti tão envergonhado como nesse dia.
LO - Antes de começarmos esta conversa, fez uma promessa ao seu afilhado.
MP - Que depois da entrevista poderíamos ver os dois a Rita Catita, somos completamente fãs. É um personagem que aparece no Batatoon. Sou um homem muito responsável, mas talvez ainda permaneçam alguns traços de infância.
LO - Voltou a ter convites para fazer televisão?
MP - Na maioria dos casos, propus e não aceitaram os projectos. Agora também não quero que façam nada, no dia em que morrer não quero que me façam nada. Não quero nomes em ruas, não quero homenagens, nada. Mas ainda é cedo para eu pensar nisso, o público ainda exige demasiado de mim.
LO - Continua a conduzir carros desportivos?
MP - Não, não. Gosto de conduzir, mas tive muitas dificuldades para tirar a carta. Acabei por a tirar na Madeira, aproveitei um espectáculo e regularizei a situação. As fotografias que me tiravam ao lado de carros desportivos eram mais para impressionar. Todos os que viajam comigo dizem-me que conduzo bem, posso dizer-lhe que me preocupo muito com os que viajam ao meu lado. Tenho um Volvo, um BMW e o Porsche.
LO - Mas já não tem os seus caracóis.
MP - E não tenho nenhumas saudades deles. Foi um estilo que marcou muito, um estilo que marcou uma época. Era comum homens e mulheres chegarem ao cabeleireiro e pedirem caracóis como tinha o Marco Paulo.
LO - Tal e qual como a mudança do microfone.
MP - A mesma coisa. Quando não faço isso, as pessoas estranham, mas tudo isso foi muito natural. Nunca fiz nada para tirar benefícios posteriores. E quantas pessoas se chamam Marco Paulo? Até eu aparecer, o nome Marco não era nada comum, isso orgulha-me muito.
LO - As pessoas mais próximas chamam-lhe Marco ou João?
MP - Marco. João é um nome só para a mãe. Mesmo os meus irmãos, e tenho três, me chamam Marco.
LO - Fala tão pouco do seu pai.
MP - O meu pai nunca me deu muito apoio no princípio da carreira, talvez seja por isso que não fale tanto dele. Ele perdoa-me e não me leva a mal a preferência pela minha mãe. A verdade é que nem tivemos uma relação difícil, lembro-me apenas de uma vez me ter dado uma bofetada.
LO - Qual foi o motivo?
MP - Estava a ouvir uma música muito alto e ele já me tinha avisado. Não o fez por mal. É um bom pai, mas os nossos feitios chocam um bocado. Com a minha mãe apenas preciso de trocar um olhar. Quando a visito, levo o que ela precisa...
LO - Onde é que moram?
MP - No Barreiro. Continuam a guardar religiosamente tudo o que sai a meu respeito, o que lhes dá uma enorme alegria.
LO - Sente-se um homem realizado?
MP - Só quando estou no palco. Aí, sinto-me verdadeiramente realizado.
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3 of 4 Comentários |
| Nelson Camacho on 23 Novembro 2011 ,23:56 Marco Paulo é e será sempre o artista mais popular e querido dos portugueses e tem amigos por toda a parte. Alguns não aparecem com tanta reguralidade mas a amizade não se compra adquire-se e para verem que é verdade podem procura-lo em http:ocantodonelson.blogs.sapo.pt Um abraço |
| isa nogueira on 09 Dezembro 2010 ,23:46 marco,foste o meu idolo de criança.recordo crescer a ouvir-te.sabia e escrevia todas as letras.simplesmente és maravilhoso amo-te do fundo do coração és o maior |
| Manuel Ribeiro on 11 August 2010 ,00:55 Por tudo isto que se lê nesta entrvista e muito mais, gostava que ouvissem esta homenagem ao Marco Paulo. http://www.youtube.com/watch?v=PDBtMK8OJV0 | Ver Mais Comentários |
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