Lezírias e Touradas
Porto Alto é um cruzamento importante para o visitante tomar o rumo ou em direcção a Alcochete ou ao Sul do País, ou então por terras do Ribatejo.
“O Tejo. Esta grande estrada líquida é o esteio do universo ribatejano. Dela procede a vida - dos homens, dos bichos, das ervas. O seu particular grau de navegabilidade conferiu-lhe, durante séculos, o primado da convivência entre os aglomerados das duas margens, particularmente desde a foz até Abrantes, conquanto haja sido outrora percorrido até um pouco além da sua dimensão lusitana. Mesmo ao extravasar, facilitava a navegação, proporcionando o tráfego de produtos através de alvercas, esteiros, bocas e boqueirões que se escancaravam Lezíria fora." (Maria Micaela Soares, Varinos.)
Porto Alto – Samora Correia
Vamos ficar pelo Ribatejo, que tem campo aberto para espraiar a vista e descobrir uma paisagem agrícola cheia de cor e de vida, fortemente marcada pela presença humana e pelo cavalo e o touro. As valas e o rio Sorraia, que atravessa aqui a Lezíria, funcionam como veias que alimentam continuamente o solo fértil que se expõe à frente dos nossos olhos. Para enriquecer este colorido multicor, aqui e além vemos os barcos avieiros - saveiros actuais do Tejo - nos Cursos de água, preparados para a pesca.
Samora Correia é a primeira vila que se encontra depois de se deixar Porto Alto. A paisagem da Lezíria que nos acompanha em todo este percurso dá sinais claros da fertilidade e abundância destes campos. Vale a pena parar algum tempo nesta povoação muito antiga para efectuar uma visita à Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, que apresenta uma fachada marcada pelas duas torres sineiras, sendo o seu interior revestido a azulejos tipo tapete e historiados, séculos XVII e XVIII. Merecem ainda destaque os altares de talha e o sacrário de talha dourada. Em frente da igreja paroquial, ainda se podem observar estruturas do Palácio da Companhia das Lezírias.
Samora Correia – Benavente
Sempre em plena Lezíria, deixamos Samora Correia e atingimos Benavente, onde o Tejo e os rios Sorraia e Samora transformaram o território em grande centro de produção agrícola, no qual o touro e o cavalo dão movimento e vida à grande planície ribatejana. Os rios que emolduram este concelho ribeirinho oferecem recursos turísticos de grande apreço, designadamente pesca desportiva e desportos náuticos.
O património arquitectónico de Benavente integra-se maravilhosamente no espaço rural dominante. O Museu Municipal é o espelho histórico da intensa actividade agrícola da região, como o documentam os milhares de peças nele depositadas. O pelourinho, a Igreja da Misericórdia e as estações arqueológicas são algumas das marcas da cultura material que ilustram a importância histórica desta vila. No Largo do Calvário deverá ser visto o cruzeiro, de mármore, que assenta a base numa plataforma de cinco degraus, possuindo uma inscrição da sua fundação em 1644 e outra da reforma que ocorreu em 1725.
Nos subúrbios de Benavente, existiu outrora o Convento de Jericó, no qual merece uma chamada de atenção - e uma visita - uma curiosíssima escultura quinhentista representando S. Baco (ou S. Maculo), considerado o advogado das sezões.
Salvaterra de Magos – Muge
A paisagem ribatejana prolonga-se por terras de Salvaterra de Magos, onde na vila se podem encontrar sinais de fidalguia: Falcoaria Real e capela do antigo Paço Real, edifício maneirista. Esta capela, de planta quadrada, definida por colunas e com cobertura em forma de cúpula octogonal, possui um altar de talha dourada do século XVII, uma Pietà do século XVI, arcazes, pinturas e outras imagens dos séculos XVII e XVIII. O porto fluvial e o celeiro são vestígios materiais que documentam a estreita ligação que a vila teve com o rio como via principal para o escoamento dos produtos agrícolas.
Salvaterra de Magos era uma vila ribatejana muito frequentada pela corte devido à presença da Coutada Real, local em que ocorriam contínuas caçadas. Subsiste ainda a torrela das falcoarias, exemplar único no País, adossada à residência que pertenceu aos falcoeiros.
Em Escaroupim, a curta distância de Salvaterra, fica a antiga aldeia dos Avieiros, que conserva ainda alguns testemunhos, quer no tipo de habitações, quer nas actividades ligadas ao rio: embarcações típicas, redes e apetrechos de pesca. Neste local, atraente pela frescura, calma e beleza natural, situa-se um parque de turismo.
Continuando o passeio no itinerário da margem sul, chega-se a Muge, que apresenta o Palácio dos Duques do Cadaval, residência modernizada que conserva vestígios de épocas recuadas nos dois alpendres com colunas que rompem os dois corpos laterais da fachada, e os famosos concheiros pré-históricos, mais uma das pérolas da arqueologia portuguesa. Nestas jazidas mesolíticas ou epipaleolíticas foram encontrados vários esqueletos humanos e restos de cozinha, constituídos por cinzas, carvões, instrumentos de pedra, ossos de animais e, sobretudo, conchas, o que prova a existência de vida sedentária já naquela época histórica.
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