Na sala de reuniões do Hotel Prince, em Kuala Lumpur (Málasia), reina um clima de grande tensão. Sentados em mesas individuais, 46 competidores com expressões ansiosas olham fixamente para baralhos de cartas de jogar virados para baixo, mesmo ali à sua frente. Por fim, ecoa uma voz com um sotaque tipicamente britânico: «Preparar neurónios! Partida!»

Os participantes nos Campeonatos Mundiais de Memória de 2003 viram os seus baralhos para cima e começam a olhar para eles, tentando memorizar a sequência de todas as 52 cartas o mais rapidamente possível. O vencedor conseguirá fazê-lo em menos de um minuto!

«Nunca tivemos uma competição tão renhida», refere Tony Buzan, o árbitro da final que está a ser disputada. Este escritor é conferencista londrino, especializado no campo da aprendizagem e memória, concebeu as dez competições que compoem estes campeonatos em 1991 e acredita que, da mesma forma que o levantamento de halteres desenvolve o corpo, também a memorizagão desenvolve a mente. «E quando se treinam os músculos da memória, treinam-se também os músculos da criatividade, do pensamento geral, da sobrevivência e da resolução de problemas.»

Sentado na primeira fila, encontra-se Andi Bell, de 36 anos, outro londrimo, que é o campeão em título. Vai passando de carta em carta mais depressa do que um distribuidor de cartas de blackjack de Las Vegas. Esta é a sua melhor modalidade e é o detentor do recorde mundial da mesma: 34,03 segundos. Mas Bell enfrenta hoje um desafio bastante perigoso da parte de três outros concorrentes.

O principal elemento desse grupo é Astrid Plessi, uma austríaca de 20 anos que é estudante de Medicina e que leva uma ligeira vantagem sobre Bell à partida para esta última prova. Os organizadores desejam que seja ela a vencer porque acreditam que esta jovern daria uma bela representante pública para os desportos de memória, além de que seria a primeira mulher a vencer uns campeonatos mundiais.

Mesmo à frente de Plessi está Gunther Karsten, de 42 anos, um químico alemão que chama a atenção não só por estar a usar headphones (tal como acontece com a maioria dos concorrentes para se abstrairem de quaisquer ruídos), mas também por ter uns óculos escuros que ele próprio concebeu, com um pequeno orifício em cada lente para concentrar o seu campo de visão naquilo que importa. Conforme vai passando de carta em carta, franze o sobrolho: esta é uma das modalidades em que é mais fraco. A sua melhor são os números binários (0s e 1s, pois consegue memorizar linhas de milhares destes dígitos em 30 minutos.

Do outro lado da sala está um antigo campeão: Ben Pridmore, um contabilista de 27 anos de Derby (Inglaterra). A sua volta, aplicadamente concentrados no objectivo de terminarem entre os 10 primeiros, estão os outros 42 participantes, provenientes da Austrália, China, Índia, Indonésia, Singapura, África do Sul, Alemanha, Áustria, Grã-Bretanha e EUA. Em nove modalidades disputadas em três dias (nas quais caíram cinco recordes mundiais), estes «atletas da memória» memorizaram centenas de dígitos desordenados em apenas 10 minutos e colocaram centenas de palavras soltas em sequências em 15 minutos!

Mas esta é a última prova, a das Cartas em Velocidade, que determinará o vencedor.

O segredo para se memorizar grandes quantidades de dados num curto espaço de tempo chama-se mnemónica, palavra que deriva do nome da deusa da memória da Grecia antiga, Mnemosina. O sistema de mnemónica impõe a lógica e uma estrutura a coisas que, de outra forma, não teriam qualquer relação entre si. Uma técnica de mnemónica é atribuir letras aos números. Por exemplo, o número 58 é memorizado como «Ernest Hemingway», uma vez que o E e o H são a 5.ª e a 8.ª letras do alfabeto.

Todos os participantes na prova de Cartas em Velocidade estão a usar técnicas de mnemónica, criando imagens visuais, histórias, associações e localizações para estabelecerem ligações entre uma determinada carta e algo que já conhecem. Os participantes associam a cada imagem um local seu conhecido, tal como as suas casas ou bairros. Diz-se que o poeta grego Simonides inventou esta «caminhada mental» no século V a. C., quando, tendo escapado por pouco à derrocada de um templo, lhe foi pedido que identificasse os corpos muito maltratados das vítmias. E ele conseguiu fazê-lo ao recordar-se de onde cada uma delas estava sentada no templo.

Agora, cerca de 3000 anos depois, Andi Bell está a memorizar o seu baralho atribuindo a cada carta uma imagem, que depois coloca num dos mais de 2000 locais de Londres que utiliza para este efeito. Por exemplo, olha para o valete de paus, o 9 de ouros e 02 de espadas: um urso, uma serra e um ananás. Mentalmente, coloca os três objectos nas Casas do Parlamento. Daí a poucos minutos, recordarse-á de todas as cartas, recriando para isso uma estranha viagem mental pela cidade de Londres.

A competição teve início dois dias antes, com os participantes a tentarem memorizar um poema não publicado. Os pontos foram atribuídos de acordo com cada linha correctamente recordada. De entre os participantes, Astrid Plessi foi a única que não recorreu ao método da «viagem» nesta prova. Em vez disso, memorizou os poemas palavra a palavra, tal como uma criança em idade escolar memoriza uma passagem de Shakespeare. «Penso que temos que compreender o contexto do poema: porque é como o autor escolheu as palavras», explica.

O resultado foi esmagador: em 15 minutos, a jovern recordou-se de 71 linhas do poema, estilhaçando a antiga média de 52 linhas. A sua vitória foi de tal maneira total que a transformou imediatamente na principal candidata à conquista do título.

Tal como se esperava, Gunther Karsten venceu a prova dos números binários. Utilizando um sistema complicado que transforma sequências de seis dígitos em imagens como uma tesoura (110100), uma ratazana (100001) ou o seu próprio nariz (010000), Karsten memorizou 3009 dígitos em 30 minutos.

Por seu tumo, Andi Bell triunfou na prova de Uma Hora de Cartas ao memorizar 21 baralhos em sequência, recorrendo ao seu sistema de sempre (para identificar a 17.º carta do 20.° baralho visualizou Sócrates atirando uma seta a uma pera na Ponte de Westminster!).

O segundo dia comecou com os participantes a receberem 99 retratos, cada um deles com um nome falso na parte inferior: Paradorn Sirichapo, Paul Baratagui. Olive Provosky e Katie Feldbusch. Ao fim de 15 minutos, receberam fotografias idênticas sem os nomes, sendo-lhes pedido que se recordassem dos mesmos. Bell triunfou ao atribuir os nomes correctos a 66 fotografias, mas Plessi ficou em segundo lugar, com 62, mantendo por isso o comando da classificação geral.

A seguir, veio a prova de Datas Históricas, na qual os participantes receberam folhas com 80 acontecimentos fictícios (por exemplo: 1227 – Camelo caminha sobre as águas do Golfo), tendo-lhes sido dados cinco minutos para se recordarem do maior número possível desses acontecimentos. Pridmore conseguiu estabelecer um novo recorde mundial ao lembrar-se de 60, associando uma imagem a cada ano para criar uma fotografia mental de cada acontecimento.

Relativamente a 1976 («Primeiro Nike Air produzido»), atribui um cão de raça Beagle ao ano de 1976 e imaginou então um beagle calçado com ténis de atletismo. Esta vitória catapultou Pridmore para o primeiro lugar, o que o fez começar a pensar que a vitória final estava ao seu alcance. Mas aguardava-o uma tragédia ...

Estamos a cinco minutos do início da primeira prova do último dia (Palavras Salteadas), e 45 dos 46 participantes estão nos seus lugares. Bell espera na mesa, com os dedos das mãos entrelaçados e descontraído. Sentada a cinco mesas de distância, Plessi dirige um olhar surpreendido a Karsten, que está a fazer malabarismo com quatro bolas por acreditar que isso lhe aviva a memória. Mas a cadeira de Pridmore está vazia.

De repente, o britânico irrompe pela sala com os cabelos desgrenhados e toma o seu lugar quando faltam menos de dois minutos. Acordou apenas há 15 minutos porque não ouviu o alarme. Esta situação vai sair-lhe cara, dado que a sua pontuação irá ser bastante abaixo do normal nas Palavras Salteadas e na penúltima prova, os Números Falados.

Os organizadores do evento deixaram o desafio mais excitante para o fim: as Cartas em Velocidade. À partida para este evento, Plessi ocupa a primeira posição com 6212 pontos, e Bell, a segunda com 6174. Pridmore e Karsten caíram na classificação, levando agora cerca de 400 pontos de desvantagem.

Quando Buzan dá o sinal de partida, Bell pega nas cartas em grupos de três. No primeiro trio aparecem-lhe o 3 de copas, o 7 de ouros e o valete de ouros: um fantasma, uma faca e uma lata de tinta. Imagina um fantasma espetando uma faca num quadro e coloca a imagem sob a sua mesa da sala de jantar. Depois, imagina mais 17 imagens da mesma maneira. Entretanto, Plessi vê três cartas, que converte numa pessoa (a sua mãe), numa acção (pensar sobre) e num objecto (uma bruxa). Depois, coloca mentalmente esta imagem num parque próximo de sua casa. Por sua vez, Pridmore visualiza uma ventoinha e uma lima e coloca-as numa loja do centro comercial da zona onde reside. Quanto a Karsten, distraído e nervoso, vai perdendo as suas imagens.

A mão de Bell é a primeira a erguer-se: cumpriu a prova em 58 segundos! Seis segundos depois, é a vez de Plessi levantar a mão. Por seu tumo, Ben conclui a sua prova em 102 segundos. O tempo de Gunther é de 84 segundos, mas este concorrente não consegue lembrar-se correctamente do seu baralho.

Bell, o grande vencedor destes campeonatos mundiais, com 6701 pontos (apenas 28 acima de Plessi), levanta-se, abraça e cumprimenta a jovern estudante de Medicina. Pridmore fica em terceiro lugar, com 6367 pontos, e Karsten em quarto, com 6276. Um a um, os outros participantes levantam as mãos para anunciar que já memorizaram os seus baralhos. Nenhum deles levou mais de três minutos!

Orgulhoso, Buzan contempla todo o grupo. «Há aqui uma lição para todos nós», refere. «A capacidade de retenção dos nossos cérebros (e a capacidade de nos recordarmos daquilo que nele armazenamos) vai deliciosamente muito além das expectativas dos psicólogos.»

Truques de campeão

Não se consegue lembrar do seu PIN? Ou do número do seu telemóvel? Para auxiliar a sua memória, eis alguns truques de Andi Bell, o Campeão Mundial de Memória 2003.

1. Concentre-se. Seja o que for que pretende memorizar, concentre toda a sua atenção nisso.
2. Use o espaco físico à sua volta para visualizar as informações. Antes de ir para a loja, tente imaginar as coisas que tem na sua lista de compras dispostas pela sua casa.
3. Transforme as informacões difíceis de memorizar em algo visual. Se lhe apresentarem a Maria da Luz, o Miguel e o Tomás, imagine imediatamente um candeeiro junto a um prato de migas com tomate.
4. Divida as coisas em grupos lógicos. Por exemplo, quando aprender vocabulário francês, faça listas com os substantivos masculinos do lado esquerdo da folha e os femininos do lado direito. Recordar-se do lado do papel em que a palavra aparecia ajudá-lo-á depois.
5. A repeticão torna as coisas mais fáceis de recordar. Por isso, leia estes conselhos repetidas vezes até se cansar!

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