A aldeia é um caso exemplar de um espaço ocupado por populações que se foram sucedendo no tempo. Século após século, nunca este meandro aprazível do Ponsul que corre pela vasta Campanha Raiana deixou de ser habitado. Provam-no os vestígios de ocupação paleolítica num dos terraços do rio ou o Cabeça da Forca onde se situam os restos de uma anta.
Lado a lado, com testemunhos de um passado mais remoto, coexistem as velhas azenhas, o original lagar de azeite com todos os seus mecanismos, o forno de cozer pão que, tal como outrora, permanece lugar privilegiado de convívio e de trabalho.
Tenha presente ainda a vegetação natural: as velhas azinheiras (com destaque para uma delas, que incorporou as suas raízes nas pedras da muralha romana, símbolo pleno da efemeridade das obras humanas), os freixos que bordejam o rio, principalmente o freixo do rei Wamba, por cuja seiva correm histórias e lendas; os olivais que com o seu óleo dourado alimentaram e alumiaram gerações, as pequenas hortas nas margens do Ponsul, os testemunhos de saberes da terra; os pequenos baldios dentro do espaço da aldeia onde nasce o cardo de grandes flores azuis, usado outrora como hoje, no ancestral fabrico de queijo...
Todos estes tempos do longo fio do Tempo devem estar presentes ao visitar o que foi a antiga cidade romana, capital dos Igaeditani, sede de próspera diocese visigoda, cidade muçulmana, bastidão de fronteira em tempos medievais... Vindo da estrada, encontrará à sua direita a antiga Capela de S. Sebastião, que marcava o limite do povoado no período medieval.
Observará em seguida uma das portas que conduziam ao interior da cidade romana. Construídas entre os séculos III e IV, as muralhas abraçam a pequena aldeia com os seus fortes muros em cuja edificação se utilizaram restos de outras construções.
A aldeia é dominada pela Casa Marrocos, que nos traz à lembrança um mundo sofrido provocado pela desigual posse e fruto da terra. É um edifício ecléctico, de altos muros e portões fechados, onde apenas os ninhos das cegonhas, que encimam os telhados, dão uma nota de vida. Atente-se no trabalho de cantaria em granito entrelaçado das suas varandas e beirais.
Passando pela refrescante sombra da velha amoreira, virando à direita, o pelourinho manuelino recorda-nos autonomias já perdidas destes velhos concelhos da Beira e todo o empenho que D. Manuel teve pela Idanha, ao conceder-lhe foral em 1510. Em frente, a antiga Casa da Câmara com o símbolo da Ordem de Cristo.
A matriz, a que se ascende por escadaria, foi antiga Misericórdia numa época em que o esplendor da Idanha já pouco se sentia. Continue agora em direcção ao castelo, construção de dois pisos que assenta sobre o podium de um templo romano. O timpano que encima a janela tem a seguinte inscrição. "Na era de César de 1283 no reinado de D. Sancho 11, o Mestre do Templo Martim Martins na posse da Egitânia, sendo comendador R. Pedro". Ao contemplar as ruínas, lembremo-nos como ficaram longe as persistentes tentativas de repovoamento da velha cidade romana por parte dos nossos primeiros monarcas. Tempo agora de se aproximar da catedral, o locus sagrado histórico da povoação.
Descubra o antigo baptistério paleocristão. O interior da catedral é dominado pelas grossas cotunatas e muros que ainda conservam os restos do antigo programa decorativo de rendilhados mármores do período visigodo ou a severidade dos seus frescos quinhentistas. Aqui encontrará O visitante reunido o maior conjunto de epigrafia romana recolhido numa só estação arqueológica. São pedras cheias de vozes e de sentimentos. Como ficar indiferente às preces, alegrias e tristezas ou aos nomes dos deuses: Reve, Band, lado a lado com Júpiter, Juno, Marte, que emanam e perduraram. Continue em direcção à porta sul do recinto.
Pise o antigo caminho que conduzia até Mérida. Salte por entre as poldras. Percorra as pequenas hortas e circunde a muralha. Pare junto da secular azinheira, perto das ruínas de umas antigas termas romanas. Siga em direcção à ponte romano-medieval. O rio corre-lhe aos pés, indiferente aos ritmos dos tempos e às mudanças dos homens. E, ao fundo do caminho, a copa verdejante do freixo do rei Wamba convida-o ao silêncio.