Hospitais que matam

As bactérias multirresistentes estão a provocar mortes em locais onde se procura a cura, e a menos que seja controlada, a situação pode tornar-se catastrófica.
Carlos Borges sofria da doença de Crohn – uma doença crónica inflamatória que afecta o tracto gastrintestinal – e aguardava uma cirurgia no Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil (IPOFG), de Lisboa. Devido ao seu estado físico debilitado, os médicos resolveram esperar algum tempo antes de o submeter à operação, alimentando-o entretanto através de um cateter. Foi por essa via que uma bactéria resistente aos antibióticos entrou no organismo deste jornalista de 57 anos, provocando um acidente vascular cerebral.
Transferido primeiro para o Hospital de São Francisco Xavier devido a falta de vaga nos cuidados intensivos do IPO e depois para o Hospital de Santa Maria, Carlos Borges viria a falecer na madrugada do dia 24 de Maio. «A presença, inevitável, dos factores de risco, associada a alguns lapsos nas medidas de higiene básica, conduz ao aparecimento de casos de infecção hospitalar, que no IPOFG não ultrapassam taxas controladas», garante Ana Girão, directora do Internato Médico e adjunta do director clínico do IPOFG.
Chama-se Staphylococcus aureus a bactéria que a família acredita ter sido a causa da morte do jornalista.
É muito comum na espécie humana, com quem coexiste desde sempre, e uma pessoa saudável pode ser portadora sem sofrer nenhum dano. Mas os doentes – pessoas com o sistema imunitário fragilizado – podem morrer, até porque na última metade do século passado, durante a chamada era antibiótica, acumulou sequencialmente mecanismos de resistência que a tornaram imune a praticamente todos os antibióticos desenvolvidos pelo Homem. Segundo o último Inquérito de Prevalência de Infecção, realizado em Maio de 2003, existia uma taxa de prevalência de infecção nosocomial de 9,4% nos hospitais portugueses.
Bactérias e vírus versus antibióticos
«Ao contrário dos vírus, que necessitam de outro organismo onde ir buscar material genético às células para se multiplicarem, as bactérias são seres vivos autónomos que crescem e se multiplicam desde que o ambiente seja favorável», ilustra Laura Brum, do Centro de Bacteriologia do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. «Existem desde sempre em meio hospitalar e são as mesmas que temos na comunidade, mas o consumo excessivo de antibióticos permitiu-lhes desenvolver resistências.»
São também muito mais adaptáveis que os humanos e possuem, além do cromossoma central, pedaços de ADN – ácido desoxirribonucleico – não auto-suficientes, que podem transferir para outras bactérias, permitindo-lhes transmitir entre elas as resistências.
Portugal era, em 2001, o 6.° país da Europa com maior volume de prescrição de antibióticos, em regime ambulatório, de acordo com um estudo do European Surveillance on Antimicrobial Consumption.
Os vírus, apesar da sua maior fragilidade, são mais perigosos devido à enorme e rápida capacidade de multiplicação. «No caso humano, existem espécies direccionadas para tipos específicos de células, como os linfócitos no HIV – síndroma de imunodeficiência adquirida ou Sida – ou os adenovírus, que atacam as vias respiratórias», esclarece Laura Brum. No entanto, os antibióticos não têm qualquer acção sobre os vírus, pelo que recorrer à acção destes químicos para curar uma simples constipação pode levar à criação no organismo de bactérias multirresistentes.
«As bactérias que colonizam a nossa nasofaringe vivem habitualmente em equilíbrio ecológico desde que não sejam agredidas por agentes exteriores (por exemplo, os antibióticos). Elas são benéficas para a construção das nossas defesas imunitárias à medida que crescemos e envelhecemos», explica António Brito Avô, pediatra especialista na investigação da prevalência de bactérias em crianças. «Essa colonização natural é determinante para a nossa saúde e sobrevivência e por isso deve ser preservada e respeitada, pelo que se devem evitar tratamentos antibióticos desnecessários ou excessivos. Os antibióticos são medicamentos poderosos que devem ser usados nas situações de doença provocada por bactérias específicas.»
Até atingir 1 ano de idade, uma criança que frequente infantário tem em média 4 a 6 infecções respiratórias, grande parte das quais causadas por um vírus e que não necessitam de tratamento específico. «Ao ser-lhe receitado e administrado um antibiótico, este vai limpar o organismo de bactérias simples e criar multirresistentes, e não faz nada ao vírus. Na minha opinião, estamos a induzir doenças nas nossas crianças», acrescenta Laura Brum.
Controlar a infecção hospitalar
No início dos anos 1950 – cerca de oito anos após a sua introdução na prática clínica –, já a penicilina era praticamente inútil para o tratamento de infecções causadas pelo Staphylococcus aureus devido à disseminação de estirpes resistentes em todo o Mundo. Os laboratórios farmacêuticos, redesenhando a molécula do antibiótico original, desenvolveram então a meticilina.
Contudo, em 1961, apenas um ano após a introdução deste antibiótico, aparecia um novo mecanismo de resistência em Staphylococcus aureus, que tornou estas bactérias também resistentes à meticilina. Estas estirpes, as MRSA – metilicyl resistent staphylococcus aureus – atingiram proporções epidémicas na Europa na década de 1970. A última opção terapêutica às MRSA é a vancomicina, que em finais dos anos 1990, com o aumento das estirpes de estafilococos resistentes a este antibiótico, lançam o espectro de uma crise de saúde pública gravíssima. Em 1986, também já tinha sido detectada a primeira espécie de Enterococcus – outra bactéria causadora de infecções –, também resistente à vancomicina.
Os hospitais são por natureza locais onde as bactérias e os vírus habitam e proliferam. No entanto, a infecção hospitalar pode ser controlada, e desde 1975 que existem comissões em cada estabelecimento para monitorizar e prevenir exactamente esta situação. «Sabemos que não é possível evitar a infecção de um terço dos doentes internados, mas para cerca de 30% infra-estruturas e práticas adequadas seriam a solução», considera Elaine Pina, coordenadora do PNCI – Programa Nacional de Controle da Infecção Hospitalar.
A prevalência de infecções causadas por bactérias frequentemente multirresistentes – chamadas nosocomiais ou hospitalares – é vigiada anualmente nos serviços de risco, tendo já sido reconhecida como um dos factores que mais contribui para a morbilidade e mortalidade hospitalar, além de aumentar os custos na prestação de cuidados de saúde. Segundo dados recolhidos em 2002, mais de 7 em cada 1000 doentes revelavam infecção da corrente sanguínea (bacteriemia) nosocomial, 24,6% dos quais internados nas unidades de cuidados intensivos. O mesmo relatório refere a utilização do cateter vascular central como um dos factores mais frequentes na origem da infecção.
«O problema das multirresistências ainda não foi abordado com vigor. Há falta de pessoal e de recursos nos hospitais portugueses, e mesmo os novos edifícios têm deficiências a nível de isolamento e barreiras higiénicas, por exemplo, em coisas tão simples como o número de lavatórios existentes e a sua localização», esclarece Elaine Pina. O contágio e a propagação do Staphylococcus aureus podem ser prevenidos pelo gesto rotineiro de lavar as mãos entre a observação de cada doente.
Prevenção
A coordenadora do PNCI considera que a solução passa por investir na prevenção. «As comissões de controle da infecção hospitalar têm feito um grande esforço, mas só por si não são suficientes para resolver o problema, até porque 63% dos doentes das unidades de cuidados intensivos chegam de outras unidades hospitalares a tomar antibióticos e, portanto, já podem ser portadores de bactérias multirresistentes.»
«É necessário levar as condições de higiene e desinfecção ao máximo rigor», opina Laura Brum, «de modo a diminuir as condições para o contágio e transmissão.» Dados do Boletim Eurosurveillance – sobre o Sistema Europeu de Vigilância da Resistência aos Antibióticos – indicam que 60% das infecções hospitalares nos países desenvolvidos se devem a micróbios que resistem aos medicamentos, sendo os mais recentes o Enterococcus, resistente à vancomicina, e o Staphylococcus aureus, resistente à meticilina.
Depois, apenas 40% dos europeus sabem que os antibióticos são ineficazes contra os vírus. O que poderá explicar o facto de, em medicina humana, 60% dos antibióticos serem prescritos para infecções respiratórias superiores, embora a maior parte destas doenças sejam provocadas por vírus.
«É imperativo controlar o uso de antibióticos. Continua-se a consumir excessivamente estas substâncias, porque não foram tomadas medidas preventivas nem houve emissão de normas nenhumas», diz Laura Brum. É prática comum tomarem-se quando não é adequado e quando não é preciso, na opinião de Elaine Pina. «Os antibióticos de largo espectro são seleccionadores de multirresistências e já estão disponíveis na comunidade, quando deveriam ser guardados para os hospitais. A situação é caótica, embora ainda não seja catastrófica, porque pode ser contida desde que as medidas de prevenção sejam tomadas.»
Surto ou epidemia?
Parecia uma epidemia bacteriológica às dezenas de pais que acorriam às urgências dos hospitais no início deste ano com crianças muito pequenas exibindo febre, tosse e problemas respiratórios. «Tratou-se de um surto, e não de uma epidemia, nem nada parecido», esclarece Ana Mouzinho, pediatra do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Para os que viram os seus bebés piorar e morrer dentro do edifício onde deveriam ter sido curados, a culpa do estabelecimento hospitalar parecia óbvia.
«Era um adenovírus com alta capacidade de contágio, mas não foi nada de surpreendente. A pneumonia a adenovírus é sempre classicamente grave, tanto na fase aguda, como por poder deixar sequelas. E as crianças muito pequenas são sempre mais susceptíveis à agressividade deste tipo de organismos.»
Os vírus respiratórios surgem em determinada altura do ano, ligados às condições atmosféricas. Por outro lado, no Inverno, os Portugueses continuam a perpetuar uma cultura de manter as crianças em ambientes fechados, o que favorece o contágio. «As pessoas recorrem às urgências dos hospitais seja qual for a doença, e não há nada mais favorável à disseminação da infecção viral que a sala de espera de uma urgência. Quem não o tinha, ficou com o vírus nessa altura», explica Ana Mouzinho. A pediatra lembra-se de um outro surto há dois ou três anos, depois de um inverno especialmente rigoroso onde houve muito mais a lamentar, com bebés muito novos infectados por um outro virus respiratório (vírus sincicial respiratório).
«Contribui para o desenvolvimento de situações como esta a exposição muito precoce das crianças a ambientes onde proliferam bactérias e vírus, como infantários – entram geralmente aos três meses – e o recurso constante a antibióticos, o que facilita o aparecimento de bactérias multirresistentes», diz Ana Mouzinho. «Basta lembrar que a maior causa de consumo de antibióticos a nível mundial são as otites, causadas na sua maior parte por vírus para os quais não há tratamento, sendo a cura espontânea.»
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