E os Portugueses? A Reader’s Digest foi investigar.

A culpa é sua, sabia? Durante 50 anos, o seu comportamento irresponsável tornou os dias mais quentes, o nível das águas mais elevado, enquanto as barragens não têm o que armazenar. Humanidade, espero que estejas feliz!

Claro que não está satisfeita! Ninguém está satisfeito: estamos todos preocupados com o facto de o planeta estar a converter-se num inferno em tão pouco tempo. Na verdade, até há bem pouco tempo a maior parte de nós não teria acreditado se lhe tivessem dito que em 2030, e com a subida do nível das águas, a Ópera de Sydney se pode converter numa piscina rasa.

É aí que está a dificuldade: quando os obstáculos e as ameaças nos esperam a cada esquina, é difícil não nos sentirmos petulantes – tal como um adolescente a quem é dito vezes e vezes sem conta que uma toalha molhada no chão estraga a carpete. Sabemos que o aquecimento global é um problema, mas a verdade é que mesmo os mais razoáveis pisam o risco se estiverem constantemente a ser lembrados de que estamos a dar cabo de um planeta perfeito se não usarmos apenas meio autoclismo, não formos de bicicleta para o trabalho ou algo semelhante.

Estamos a lutar para encontrar o nosso «amuleto» verde?
Para descobrir se o caminho para salvar o planeta está a desmotivar os comuns australianos, a Reader’s Digest apresentou um questionário a uma amostra representativa de 1500 pessoas.

E esta é a ecoverdade nua e crua: o principal obstáculo à preservação do planeta somos nós. Nós, exactamente. Uma esmagadora maioria de 98% dos australianos diz-se empenhada. Mas no que toca à realidade, aos actos, encontramos quase sempre desculpas para não cumprir. Apenas uma em 30 pessoas diz que está completamente empenhada, e duas em cada três descrevem-se como apenas «meio empenhadas» ou pior.

Na vida quotidiana, evitamos dar provas da nossa convicção ecológica, considerando que é: a) nem sempre possível; b) impraticável, ou c) simplesmente não dá jeito.

A verdade é que, se os nossos pecados ecológicos forem calculados nos portões do Paraíso, a maior parte de nós deveria ser deixada na sala de espera do Purgatório por aceitar sacos de plástico para levar as compras (94% dos inquiridos), por tomar longos banhos (85%), por levar o carro a sítios onde se chega muito bem de autocarro, de comboio ou mesmo a pé (76%) e por imprimir ou fotocopiar páginas e páginas desnecessárias e, dessa forma, gastar papel (69%). Tudo mudanças pequenas e simples, mas não estamos dispostos a fazê-las no dia-a-dia.

Pedimos aos Australianos que nos digam como se sentem após quebrar 12 simples e bem definidos hábitos que ajudam a diminuir o peso da nossa passagem pelo planeta. Sentem-se rebeldes? Aborrecidos consigo? Talvez com uma pitada de culpa?

Em resumo, esta é a forma como os Australianos olham para as questões ambientais:
São rebeldes
Um em cada cinco sente um assomo de rebeldia de cada vez que aceita um saco de plástico, deixa as luzes acesas em divisões desocupadas ou põe a máquina da loiça meio vazia a funcionar.

Metade quebra as regras e não sente rigorosamente nada – não se arrepende nem fica aborrecida consigo própria. Os Australianos também não se sentem demasiado culpados. Cerca de 76% põem o ar condicionado no máximo, 78% são capazes de pôr o lixo no contentor errado e 90% não sentem a menor espécie de culpa por usar um carro que gasta gasolina até mais não. Hmm.

E os Portugueses, como se comportam?
Segundo um estudo da consultora DBK, o volume de produtos reciclados em Portugal atingiu 2,6 milhões de toneladas em 2008, mais 12,3% do que no ano anterior. Os resultados de 2008 – ainda não existem dados de 2009 – consolidam a tendência de «crescimento» dos últimos anos. Segundo este estudo, o volume de reciclagem – de metal, papel e cartão, madeira, vidro e plástico – continua a crescer, com destaque para a reciclagem de resíduos de metal, com um volume em 2008 de 1,3 milhões de toneladas (metade do total reciclado).

Mas, e no dia-a-dia? Como é que cada um se vê a si próprio em questões ambientais? Pedimos a um grupo de 152 leitores das Selecções do Reader’s Digest que respondessem a um pequeno inquérito, e os resultados são contraditórios. A esmagadora maioria considera que é ecologicamente responsável, afirmando mesmo que numa escala de 0 a 20 está entre o 15 e o 20. Mas quando se pergunta se deixam a torneira aberta enquanto lavam os dentes ou fazem a barba, metade dos inquiridos assume que fecha pouco ou não fecha de todo. E, apesar disso, defendem que se deve poupar água durante os banhos. Apenas oito se mostraram indiferentes ao tema, achando que se deve «poupar água noutros locais», ou «não é um banho que faz a diferença». A maioria (74 pessoas) assume que tem complexos de culpa por tomar banhos mais prolongados, enquanto 30 garantem não ter remorso algum. Os restantes não dispensam um banho de imersão!

O que irrita mais os Australianos no movimento verde?
Um homem residente em Brisbane resume: «Ter que tolerar pessoas que acham que não deveria viver a minha vida da maneira que vivo sem me sentir culpado por cada sopro de ar que respiro.» Uma mulher de Sydney contou-nos que aceita sacos de plástico no supermercado – porque poupa dinheiro ao usá-los como sacos para o lixo. Um homem idoso em Perth assume sem rodeios: «Uso um carro que gasta muita gasolina por razões financeiras e de saúde.»

Enquanto a causa verde permanecer cheia de contradições, nós continuamos a encontrar justificações para as nossas atitudes negligentes. Normalmente, isto equivale a comentários do género: «Porque é que eu hei-de comprar lâmpadas de baixo consumo se elas vêm em embalagens não-recicláveis?»


Hábitos verdes? Os portugueses sabem o que têm de fazer.        

Mas alguns preferem viver com o sentimento de culpa.   

78% defendem taxas elevadas para quem produz muito lixo
27% raramente usam os ecopontos ou fazem reciclagem
67% admitem mudar os hábitos de condução e deixar o carro em casa
95% acham que se deve poupar água no banho
74%usam sacos de plástico mas reutilizam
26% usam sacos biodegradáveis ou papel

 


Desculpa, planeta! Sabemos que não devíamos, mas ...

15%      sentem-se
culpados por usar todas as toalhas nos hotéis – mas usam-nas na mesma
25%   sentem culpa por conduzir o seu carro, sabendo que existem opções mais ecológicas
20%   pensam «Ooops!» quando carregam no botão da descarga completa do autoclismo
22%     lamentam despejar o lixo no caixote errado
19% sentem-se culpados quando deixam luzes acesas sem que ninguém esteja em casa
24%   sabem que não deviam manter a torneira a correr enquanto lavam os dentes

                 
                   
A «guerra ecológica» necessita de uma cosmética
«A marca “Verde” está danificada», considera Todd Sampson, director executivo da agência de publicidade Leo Burnett, na Austrália, e membro de um painel no programa da estação de televisão ABC The Gruen Transfer («A Transferência Gruen», numa tradução literal). Agora, associamos automaticamente a cor verde à responsabilidade ambiental, mas a constante repetição por parte dos media causou saturação e fez que a mensagem perdesse impacto e ganhássemos o que descreve como «cansaço verde».

Para Sampson, é tempo de baralhar e voltar a dar: «É escusado dizer que é absolutamente necessário ter consciência ambiental porque o Mundo vai acabar, porque o Mundo não vai acabar para quem já cá está!»

Em Portugal, o sentimento não é muito diferente. O «excesso de verde» começa a fazer mossa. Um terço do painel por nós inquirido acha que os «ecologistas são fundamentalistas» ou que «abusam naquilo que exigem». Mesmo assim, a maioria ainda «ouve» os ecologistas.

Sampson defende que o mais provável é que o medo gerado por uma possibilidade distante paralise as pessoas mais do que as faça mudar de hábitos. Mas nós conseguimos fazê-lo, diz. Um evento anual pode ter um impacto maior do que um matraquear constante. No ano passado, por exemplo, a Hora do Planeta fez que mais de 1000 milhões de pessoas em 85 países apagassem as luzes – a coisa mais simples. «Se tivéssemos pedido às pessoas que fossem a pé para o trabalho ou que usassem roupas de fibras naturais, teríamos aí uns dez participantes», sublinha Sampson. A intenção da Hora do Planeta, da qual foi co-autor, foi pôr as pessoas a pararem para pensar, a reflectirem e isso foi um sucesso. «Após a primeira Hora do Planeta, os Australianos pensaram em cinco ou mais formas de reduzir as suas emissões.»


Lynne Jordan, 58 anos
Há demasiados sacos de plástico no ambiente, pensa Lynne Jordan, que – não obstante – não se sente nada culpada quando os aceita para levar as suas compras para casa. «É ridículo que os supermercados direccionem os seus esforços ambientais para o consumidor, e não para a cadeia de produção», indigna-se. Enquanto se descreve como uma pessoa «amiga do ambiente», diz que os sacos de compras são o seu «pesadelo verde». «Praticamente, tudo o que se compra num supermercado vem embrulhado em plástico, mesmo os produtos orgânicos.» Porque achou que devia, Lynne tentou usar papel higiénico reciclado, mas odiou. «Forças  subliminares têm estado a trabalhar na minha consciência», explica.

E enquanto desliga as luzes na Hora do Planeta, admite que o faz mais pelas circunstâncias do que pelo ambiente. «Temos velas a arder, é uma noite de paz – apesar de não estar certa de que ajude a salvar o planeta.»

Opinião semelhante têm os leitores portugueses das Selecções. Quase por unanimidade, defendem que os sacos de plástico são uma praga nas compras, mas compensam esse facto reutilizando-os noutras ocasiões, ou usando sacos biodegradáveis. Não será alheio a esta atitude o facto de a maioria dos supermercados ter começado a cobrar por cada saco fornecido.


Katja Gordon, 43 anos
Ser «verde» é uma viagem emocional para Katja Gordon. «Uma acção, por pequena que seja, dá esperança e a pessoa sente-se muito melhor.» Esta mãe de dois filhos vive em Sydney, onde escreve The Green News («Notícias Verdes»), uma newsletter para a escola primária onde estudam os seus filhos, o que tem ajudado a escola a minimizar a sua pegada ecológica. Katja é também um membro activo do North Shore Climate Action Group (Grupo de Acção contra as Alterações Climáticas da Costa Norte).

A casa de Katja Gordon é limpa e ecológica. «Temos aquecimento solar, quintal e galinhas», conta. «Vestimos mais camisolas em vez de usar aquecedores e usamos produtos de limpeza amigos do ambiente.»

A família juntou-se-lhe nesta cruzada, apesar de Katja admitir que é assim uma espécie de «chefe de equipa». No entanto – diz –, o marido, Rob, e os filhos também estão empenhados. «Por vezes, a tarefa parece esmagadora, mas há um efeito de onda», explica. «Se as pessoas começarem com uma coisa pequena e com isso inspirarem outras pessoas, a mudança acontece.»


Factos sobre as lâmpadas economizadoras
O que sabemos: Em 2015, toda a gente na Austrália terá que mudar para lâmpadas de baixo consumo, altura em que as ineficientes lâmpadas incandescentes serão descontinuadas. A diferença no gasto de energia é dramática. As lâmpadas fluorescentes compactas (CFL, na sigla em inglês) amigas do ambiente duram, pelo menos, seis vezes mais, o que poupa energia também em termos de transportes e de produção. Cada CFL produz apenas 25% do gás com efeito de estufa de uma lâmpada incandescente. E apesar de terem um preço de custo mais alto, saem mais barato: ao durarem seis vezes mais, poupa 45 dólares por cada uma.

O que achamos: «As novas lâmpadas são muito aborrecidas comparadas com as antigas.» Mulher, Nova Gales do Sul. Por cá, o cenário é diferente. Os Portugueses interiorizaram a necessidade de poupar electricidade, e os nossos leitores garantem que desligam as luzes desnecessárias, nomeadamente quando saem de casa. Aliás, alguns vão mais longe e desligam algumas tomadas por causa dos consumos dos aparelhos quando estão em standby.

Papel Reciclado
O que sabemos: Existem duas boas razões para reciclar papel. Poupar as árvores que são destruídas para fazer papel novo e os recursos e a energia necessários à sua produção. Fazer papel reciclado gasta 50% menos energia e 10% da água usada para fazer novo. A segunda razão, segundo a Planet Ark, é a de que o papel deitado fora decompõe-se e gera metano, um gás com efeito de estufa que é 21 vezes mais potente que o dióxido de carbono no que diz respeito ao aquecimento global.

O que achamos: «Espero que o papel reciclado seja tão bom quanto o papel novo, para que não me sinta tão culpada quando imprimo documentos.» Mulher, Sydney. Os Portugueses já perderam a desconfiança em relação aos papéis reciclados. Na equação da reciclagem, o papel e o cartão são os produtos que mais são depositados nos ecopontos.

Autoclismos de dupla recarga
O que sabemos: Nestes últimos 10 anos, percebemos que a água é um bem a preservar, não é um recurso ilimitado. Autoclismos de descarga única têm vindo a ser substituídos em muitos locais por modelos de dupla descarga, porque, enquanto um autoclismo de descarga única pode usar cerca de 12l de água, no modo «meia descarga», um modelo de dupla descarga gasta apenas 3l – isso permite poupar cerca de 15000l de água por ano.

O que achamos: «É difícil usar a meia descarga quando apenas uma descarga funciona.» Mulher, Queensland.


Trafford Judd, 25 anos
Este consultor de recursos humanos oriundo de Sydney é pró-ambiente. No entanto, assume-se irritado com a forma como começa a ser complicado fazer coisas tão básicas como ... deitar o lixo fora. Tal como muita gente, Trafford Judd questiona a utilidade ambiental de separar seis categorias de lixo diferente para serem postas em seis caixotes diferentes, que vão ser recolhidos por seis camiões diferentes.

«Ponho todo o lixo num único saco de plástico [porque não tenho espaço em casa] e passo uma hora lá em baixo a tirar lixo do saco e a pô-lo no caixote certo», conta.

As regras ambientais também o fazem dar em doido: «Em todo o lado, há sinais que dizem o que fazer. Há um sinal que avisa que apenas um saco de plástico no caixote errado pode embrulhar-se na máquina de triagem e arruinar todo o sistema de reciclagem de Sydney. Outro sinal que diz que não podemos pôr materiais recicláveis no lixo indiferenciado e ainda outro que mostra os dias de recolha do lixo, porque não pode colocar lixo no lixo e já não há espaço para guardar mais lixo ...» E isto antes de os camiões do lixo chegarem.

O nosso painel tem uma posição diferente: a esmagadora maioria faz reciclagem e incentiva os outros a fazerem também. E os que não fazem afirmam que isso só acontece porque não têm ecopontos ao pé de casa.


 

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