Frente a frente com Nelson Mandela

Nasceu em 1918, filho de um membro da casa real da tribo Thembu. As escolas que frequentou eram moldadas no sistema britânico; mais tarde, Mandela diria que fora ensinado a ser «um inglês negro». No entanto, como sul-africano negro, as suas liberdades eram severamente restringidas.
Jovem advogado, aderiu ao Congresso Nacional Africano (ANC), dedicando-se a lutar contra o sistema de apartheid, que assentava na divisão e discriminação raciais. Confrontado com a repressão cada vez mais brutal do regime, foi acusado de organizar um braço armado do ANC. Foi preso em 1962, ao fim de vários meses a viver e trabalhar na clandestinidade. Julgado por traição dois anos depois, foi condenado a prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional.
No princípio, esteve confinado na prisão de segurança máxima de Robben Island, ao largo da Cidade do Cabo, o que poderia facilmente tê-lo levado a ceder ao desespero. Mas Mandela não consentiu que lhe quebrassem o espírito.
«Libertem Nelson Mandela» transformou-se numa palavra de ordem, repetida em todo o Mundo. Foi libertado em 1990, após 27 anos de prisão. Pouco depois, era representante do ANC nas negociações com o Governo, negociações essas que deram origem às primeiras eleições abertas a todos os sul-africanos, nas quais Mandela foi eleito presidente da República da África do Sul em 1994.
A capacidade de Mandela para transcender a amargura do fosso racial aberto no seu país ajudou a frágil democracia sul-africana a sarar as feridas provocadas por esse fosso. Agora, sul-africanos de todas as raças orgulham-se com a transição pacífica levada a cabo pelo seu país, de um governo de minoria branca para uma democracia multirracial – e atribuem a Nelson Mandela o crédito por essa transição.
Mandela, que tem agora 86 anos, deixou o Governo após um único mandato de cinco anos, mas manteve uma agenda intensa que deixaria exausto um homem com metade da sua idade. Partilha com o público as suas alegrias e as suas tristezas. Em Janeiro, por exemplo, revelou que o seu filho Makgatho morrera de SIDA, embora poucas pessoas soubessem sequer que ele estava doente.
A Reader’s Digest conversou com o homem chamado Madiba no gabinete da Fundação Mandela/Rhodes, na Cidade do Cabo.
Reader`s Digest – Quando conseguiu finalmente a liberdade política, depois de tantos anos de perseguição e encarceramento, as pessoas teriam achado compreensível que fosse um líder com sentimentos de vingança. No entanto, o senhor escolheu o caminho da reconciliação. Ficou surpreendido, de algum modo, pela força do impacto dessa opção?
Nelson Mandela – Bem, as pessoas reagem em função da forma como nos relacionamos com elas. Se as abordarmos numa base de violência, reagirão violentamente. Mas se dissermos que queremos paz, que queremos estabilidade, então podemos fazer muitas coisas que contribuem para o progresso da nossa sociedade.
RD – Enquanto era presidente, referiu-se algumas vezes a personagens de histórias da Reader’s Digest, sobretudo aqueles que, como o senhor, triunfaram perante a adversidade. Em Robben Island, lia a revista?
NM – Sim, é verdade. Tem histórias muito interessantes! Uma delas era sobre um jovem canadiano que tinha cancro da perna direita e foi aconselhado a amputá-la. Assim o fez, mas recusou-se a ficar sentado num canto a chorar a perna perdida. Estava na costa atlântica e decidiu caminhar, com uma perna só, até à costa do Pacífico. Desta forma, as histórias da Reader’s Digest encorajam as pessoas. Mesmo sofrendo de uma doença terminal, não temos de baixar os braços. Gozem a vida e desafiem a doença que vos apoquenta. Isso é uma importante ajuda para muitas pessoas que sofrem de problemas similares.
RD – Foi educado na Igreja Metodista.
NM – Sim.
RD – Essa religião, ou a religião em geral, desempenhou um papel importante na sua vida?
NM – É importante não ser hostil àquilo que a maior parte da sociedade adoptou, quer sejam cristãos, hindus ou muçulmanos. É importante respeitar isso porque, quer se acredite ou não na existência de um ser superior, a humanidade acredita nisso. Ser contra isso significa isolarmo-nos, e muitas pessoas não nos olharão como alguém capaz de liderar a sociedade. As relações entre uma pessoa e o seu deus são uma questão pessoal; não se pode desafiar a crença das pessoas num ser superior.
RD – Descreveu o HIV/SIDA como a maior crise de saúde pública de todos os tempos, e parece ter transformado a luta contra a SIDA numa cruzada pessoal, pois acredita que é preciso fazer mais nessa área. Isso é justo?
NM – Sim. Uma das coisas com que temos de lidar é o estigma, a marginalização das pessoas que sofrem de sida. Em contraponto a esse tipo de comportamento, recordemos que a princesa Diana visitou hospitais com doentes de SIDA, sentou-se nas suas camas, apertou-lhes as mãos e destruiu a ideia de que não se pode estar no quarto com um doente de SIDA. Fez muito bem. Em 2000, fui à província do Limpopo (no norte da África do Sul) para a inauguração de uma escola rural. Estava a conversar com populares, que me disseram que, numa casa próxima, o pai e a mãe tinham morrido, deixando vários filhos, o mais velho dos quais tinha oito anos. Perguntei: «Podemos visitá-los?» Oh, eles ficaram muito satisfeitos, e enquanto nos dirigíamos à casa em questão, cantavam canções sobre mim. Entrei na casa e fiquei lá durante cerca de 25 minutos. Quando saí, as mesmas pessoas que tinham estado a cantar sobre mim fugiram. A princípio, não percebi que estavam a afastar-se. Acelerei o passo e elas aceleraram o delas para se manterem longe de mim. Quando compreendi que estavam a fugir de mim, regressei ao meu carro.
RD – Portanto, cabe aos líderes combater a ignorância que leva a esse estigma.
NM – Absolutamente. Havia uma senhora na região de Ciskei (na província do Cabo Oriental, na África do Sul), que tinha HIV. Era corajosa: foi a uma reunião a que eu assisti e admitiu que era seropositiva. Abracei-a e disse aos espectadores: «Não isolem as pessoas que sofrem de doenças terminais, porque isso, só por si, é mais mortal do que a doença propriamente dita.» Quando alguém descobre que já não é visto como um ser humano, perde a vontade de lutar, ao passo que, se for apoiado, sobretudo pelos seus amigos e pelas pessoas em quem confia, tem outra capacidade de reacção. Conheço bastantes pessoas que têm SIDA, mas porque as visitamos e falamos com elas sentem-se encorajadas. Dizemos-lhes: «Não te isoles, não precisas de esconder que tens HIV.» E falo-lhes do meu próprio caso, quando tive tuberculose, na prisão. Quando me disseram isso no hospital, contei ao meu amigo Walter Sisulu (outro líder do ANC e preso político em Robben Island). Walter chamou-me à parte e disse: «Madiba, não deves contar-nos isso; é pessoal.» Eu respondi: «Pessoal, como? Todo o hospital sabe!» Anos depois, quando tive cancro da próstata, convoquei uma conferência de imprensa e falei do assunto com ligeireza. As pessoas gostam desse tipo de atitude, que não se seja demasiado sério ao discutir essa questão.
RD – Para além da SIDA, qual é o maior problema com que o Mundo se confronta neste momento?
NM – A questão da pobreza e da falta de escolaridade. As duas combinadas. É importante para nós garantirmos que toda a gente tem acesso à educação.
RD – Ao longo dos anos, dedicou muito tempo às crianças. Quais pensa serem as lições mais importantes que os pais deviam ter presentes ao educarem os filhos?
NM – Sem escolaridade, as crianças nunca poderão realmente enfrentar os desafios com que serão confrontadas. Pelo que é muito importante proporcionar-lhes educação e explicar-lhes que devem desempenhar um papel pelo seu país. Faço isso muitas vezes com os meus próprios filhos e netos, mas noto que os meus netos sabem mais do que eu!
RD – O que é que aprendeu com as crianças?
NM – As crianças trazem-nos para a terra-mãe em vez de vogarem nas nuvens; essa é uma vantagem de estarmos junto delas. E são capazes de grande franqueza; corrigem alguns erros que cometemos no passado, têm a capacidade de nos recordar os erros que cometemos.
RD – Criticou os Governos dos EUA e do Reino Unido por intervirem no Iraque sem a aprovação das Nações Unidas. Nos últimos meses, pessoas de todo o Mundo têm aguardado que as Nações Unidas tomem posições significativas contra a limpeza étnica na província do Dafur, no Sudão, mas a ONU tem-se mostrado indisponível ou incapaz de o fazer. Isso não mostra a fraqueza da organização?
NM – Não há no Mundo qualquer instituição que não tenha fraquezas. O que temos de fazer é tentar garantir que essas instituições cumpram os objectivos para os quais foram criadas. Temos de lutar no seio dessas organizações. Quando dispomos de uma organização que representa o Mundo inteiro, não é correcto abandoná-la e agir unilateralmente.
RD – Diz que acções unilaterais que ultrapassem as decisões da ONU em países como o Iraque são erradas. Mas agora que a presença de forças estrangeiras é um dado adquirido, qual será a melhor maneira de resolver os problemas no terreno?
NM – A minha condenação da acção de certos países no Iraque baseia-se no meu profundo empenho a favor do multilateralismo. Neste caso, da ONU. Portanto, não digo que me oponho à acção contra Saddam Hussein por si mesma, mas que tenho grandes preocupações quanto ao que aconteceu no Iraque em consequência da presença americana. Já perdi a conta ao número de pessoas que morreram desde o fim da guerra. Quanto à solução para o futuro, essa terá, acima de tudo, de reforçar o princípio do multilateralismo e o papel da ONU.
RD – Então, gostava de ver um reforço das Nações Unidas?
NM – Não sei se diria que a ONU não é suficientemente forte, mas há casos nos quais esperamos que tomem medidas e não o fazem.
RD – Tornou-se líder do braço militar do Congresso Nacional Africano quando o senhor e outros líderes do ANC concluíram que a luta não-violenta não bastava para acabar com a opressão na África do Sul. Há lugares no Mundo de hoje onde a luta armada se justifique?
NM – Tivemos de criar um braço militar do ANC por causa da inflexibilidade do governo do apartheid, que não estava disposto a ter qualquer tipo de discussão connosco. Não estava disposto a abrir-se aos nossos sentimentos, pelo que tivemos de recorrer a métodos capazes de os obrigar a fazê-lo. Fomos bem-sucedidos. Portanto, a decisão que tomamos depende das circunstâncias concretas com que nos deparamos.
RD – Onde traçaria o limite entre terrorismo e resistência legítima?
NM – Defendo o princípio de – e acredito na capacidade dos seres humanos para –encontrar soluções racionais para situações de conflito.
RD – O senhor apenas cumpriu um mandato como presidente da República da África do Sul. E fez um comentário célebre: «Certos líderes não sabem quando devem afastar-se.» Robert Mugabe governa o Zimbabwé há 25 anos em condições cada vez mais repressivas e com uma restrição crescente das liberdades da população. Estará na altura de se afastar?
NM – Não é bom para nenhuma democracia quando um líder permanece no poder durante tanto tempo. No entanto, isso é uma decisão que cabe apenas ao povo do país em questão.
RD – Há alguns vultos internacionais que não tenha chegado a conhecer, mas que gostasse de encontrar?
NM – Há tantos homens e mulheres que não têm qualquer cargo especial, mas cujo contributo para o desenvolvimento da sociedade foi enorme... Alguns deles nem sequer são conhecidos nos seus próprios países, mas quando nos cruzamos com eles, deixam-nos profundamente impressionados. São heróis ou heroínas que nunca devemos esquecer. Devido aos serviços que prestaram à sociedade, não podemos deixar de os admirar.
RD – Então, é a mensagem, e não a maior ou menor notoriedade de quem a diz, que faz a diferença?
NM – Sim, é verdade. É o contributo que uma pessoa, independentemente dos seus antecedentes, deu para o desenvolvimento da sociedade.
RD – Durante todos aqueles longos anos na prisão, em Robben Island e noutros sítios, houve alguma coisa a que se tenha agarrado, algo dentro de si mesmo, uma mensagem, uma passagem de um livro, uma canção, qualquer coisa que o ajudasse a manter o ânimo?
NM – Havia um poema de um poeta inglês, W. E. Henley, intitulado «Invictus». Os últimos versos são:
Não importa quão estreita a porta,
Quão carregado de penas o futuro,
Sou o senhor do meu destino,
O capitão da minha alma.
RD – O que considera ser a sua principal força e a sua principal fraqueza?
NM – Bem, tenho muitas fraquezas. Não creio que tenha muitas forças.
RD – Algumas pessoas dizem que o senhor teria dado um bom pugilista profissional se não estivesse empenhado numa luta pela liberdade. Que outras profissões acha que podiam tê-lo atraído?
NM – Teria gostado de ser um trabalhador vulgar a cavar valas. O boxe é uma coisa que também me agradava muito, mas podia ter sido difícil (como carreira). Um dos lutadores que mais admirei foi Muhamed Ali. Como pugilista, aguentava castigos tremendos sem ripostar; aguentava, aguentava, aguentava. Durante o combate com George Foreman ( no Zaire, em 1974), ao fim de uns quantos rounds comentou: «Estamos a lutar há este tempo todo e ainda nem sequer comecei!». É que não é possível limitarmo-nos a aguentar. Há um limite para aquilo que conseguimos suportar sem retribuir.
RD – Como gostaria que a História o recordasse?
NM – Não quero ser apresentado como uma espécie de ser divino. Gostaria de ser recordado como um ser humano vulgar com qualidades e defeitos.
|
| |||||
Faça um Comentário
| Nome* | |
| Email* | |
| Comentário* | |

Mais Populares
Mais Populares
Favoritos da Semana
![]() Receitas e Alimentos | ![]() Dicas e Truques | ![]() Alimentação Saudável | ![]() Destinos e Viagens | ![]() Notas de Lazer | ![]() Consultas de Especialistas |
Precisa-se: Uma Boa História!
Precisa-se: Uma Boa História!
Escreva-nos e poderá ganhar:
50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Partilhe






.jpg)
















