Luís Nunes, de 32 anos, do Porto, foi picado por uma abelha no braço e tirou o ferrão com a ajuda de uma pinça. Mas as dores aumentavam, bem como a comichão, o que o levou a coçar a zona picada e provocar um edema, isto é, um inchaço. No dia seguinte, como o inchaço e as dores não diminuíam, decidiu ir ao hospital. Por não ter logo recorrido aos cuidados médicos quando os sintomas se agravaram e por ter coçado a ferida, aquela simples picada deu origem a uma infecção local. Com um antibiótico e um creme anti-alérgico, curou-se em três dias. As picadas e mordeduras de insectos e animais marinhos, não costumam originar mais do que uma dor temporária ou prurido durante dois ou três dias. A maior parte das vezes apenas requerem um tratamento rápido e eficaz. Mas há casos em que obrigam a uma consulta médica. «As picadas ou mordeduras de insectos provocam pequenas reacções cutâneas que poderão transformar-se em infecções secundárias, devido às substâncias deixadas pelo insecto na picada», diz Mário Freitas, médico cirurgião no Hospital de Cascais. O caso torna-se mais complicado para as pessoas alérgicas ao veneno de certos insectos. «Além do efeito tóxico das picadas ou mordeduras, surgem reacções alérgicas intensas, como dores abdominais, falta de ar, edema da glote ou hipertensão», salienta Fernando Ribas dos Santos, dermatologista e chefe de serviço do Centro Regional do Norte do Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil. «Nestes casos, as vítimas devem recorrer imediatamente a cuidados médicos.»

Abelhas e vespas

Para distinguir se a picada é de abelha ou de vespa, observe a marca que deixou: a de abelha conservará o ferrão e, seguramente, parte do abdómen, enquanto que, no caso da vespa, apenas se vê um ponto na pele. Retire o ferrão da abelha, com uma agulha esterilizada e nunca com as unhas. Lave a zona afectada com água e depois aplique um creme anti-alérgico, anti-histamínico ou corticóide.

Se não tiver à mão um creme deste tipo, aplique água fria ou compressas frias sobre a picada. «Nunca se deve coçar a zona afectada, para não originar uma reacção local pior do que a provocada pelo insecto», diz Fernando Ribas dos Santos. No entanto, uma picada na boca ou na garganta pode ser grave, dado que a tumefacção pode obstruir a respiração. A vítima deverá chupar cubos de gelo e procurar de imediato auxílio médico.

Aranhas e aranhiços

«Entre os vários tipos de aranha existentes no nosso país, no Sul existem aranhas como a viúva negra e as suas várias sub-espécies, cuja picada, embora tanto quanto se sabe não seja mortal, poderá ter implicações secundárias», diz António Santos Grácio, professor associado com agregação de entomologia médica no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. Contudo, a picada de aranha não dói e os sintomas apenas aparecem mais tarde. «O primeiro sintoma é um inchaço central, com uma reacção irregular eritematosa envolvente, precedendo a formação de uma bolha e em seguida de uma mancha preta», explica Fernando Ribas dos Santos. «Esta infecção cicatriza lentamente e dá muita comichão. Não coçar e limpar a zona com desinfetante é a melhor forma de debelar estes sintomas.» Perante qualquer reacção preocupante ou dúvida, dirija-se a um centro médico, já que, em certos casos, uma simples picada de aranha, poderá originar reacções alérgicas como febre, falta de ar, dores musculares ou hemorragias. «Isto acontece se a aranha possuir um veneno potente, como o da viúva negra, sendo mais afectadas as pessoas com menos defesas no organismo, as crianças e os idosos, por exemplo», explica Jorge Atouguia, director da Unidade de Ensino e Investigação de Clínica das Doenças Tropicais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical.

Melgas e mosquitos

Só as fêmeas é que nos chupam o sangue, e apenas após terem copulado, pois os seus ovos só amadurecem depois de terem feito uma refeição de sangue. O inchaço e a comichão que uma picada de mosquito provoca é uma reacção alérgica do nosso corpo ao anticoagulante que nos injecta para que o nosso sangue continue a fluir. «As picadas de melgas e mosquitos só produzem uma reacção local, pelo que não são necessários cuidados especiais», diz Mário Freitas. «Basta aplicar uma pomada anti-alérgica e tomar um analgésico contra as dores, caso surjam.» É importante não esquecer que estes insectos, sobretudo os mosquitos, podem transportar consigo outras doenças. Por isso, os repelentes de insectos assumem um papel fundamental. Se for picado, convém lavar imediatamente a zona com água e sabão.

«Até ao final dos anos 50, existiam em Portugal mosquitos vectores da malária», diz António Santos Grácio. «Actualmente, embora estes mosquitos continuem a existir, a doença apenas é importada de países onde existe malária — África, América Latina e Ásia. Porém, há espécies que podem transmitir vírus — os arbovírus.» Segundo Jorge Atouguia, o vírus west nile, transmitido pelo mosquito, provoca sintomas ligeiros como febre, vómitos, náuseas, manchas na pele e quadros graves como encefalites, que podem evoluir para coma e morte. Também na praia podemos ter encontros imediatos com uma fauna pouco disposta a ver o seu habitat invadido por seres humanos.

Alforrecas

A picada das medusas — entre elas, a comum alforreca — costuma ser perigosa, não pela irritação cutânea que provoca na pele, mas pela dor que causa, que pode dificultar a natação de quem a sofre. «As alforrecas possuem uma célula com um pequeno sensor, que faz disparar um espigão», explica Gonçalo David Nunes, biólogo marinho no Oceanário, em Lisboa. «O espigão penetra na pele das vítimas e é através dele que injectam um veneno tóxico.» Deve-se lavar a zona afetada com água corrente, sem esfregar, sobretudo não limpar com areia, por exemplo, para tirar os filamentos e remover algumas partes da alforreca que tenham ficado agarradas à pele. «Em casos extremos, como dores mais intensas ou queimadura, receitamos analgésicos, para controlar a dor, e cremes anti-histamínicos devido ao prurido», diz Mário Freitas. As alforrecas não têm poder de deslocação e, dependendo da espécie, podem lutar mais ou menos contra a ondulação. Esta espécie está presente durante todo o ano em toda a costa marítima, embora a zona da península de Tróia e o rio Tejo sejam as suas zonas preferidas. Felizmente, não existem medusas venenosas na nossa costa, mas a mais urticante é a Pelagia nocticula, usual nas costas mediterrânicas.

Ouriços-do-mar

«Ao caminharem à beira-mar, as pessoas podem ser picadas pelos ouriços-do-mar que costumam estar camuflados nas rochas, podendo estas estar ou não cobertas pela água do mar, dependendo do estado da maré», explica Gonçalo David Nunes. Os espinhos desta espécie marinha, que se encontra em toda a nossa orla costeira, ficam incrustrados na pele e é difícil extraí-los, porque são segmentados e partem-se com facilidade. Embora possam ser rejeitados pelo organismo ao fim de alguns dias ou semanas, por vezes, enquistam e produz-se uma pústula. Deve-se extraí-los com um alfinete esterilizado, quando a zona afectada ainda está molhada. No entanto, as picadas são mais perigosas nos trópicos porque os ouriços-do-mar têm espinhos maiores. «Se o espinho se encravar numa articulação ou num nervo, algo muito raro de acontecer, poderá ser necessária uma intervenção cirúrgica», refere Mário Freitas. «É possível, ainda, surgirem reacções alérgicas aos espinhos, como eritemas ou edemas.»

Peixe-aranha

No Verão passado, Sofia Sabido, de 24 anos, de Tires, estava a tomar banho na praia de Carcavelos, quando, de repente, sentiu uma forte picada no pé esquerdo. «Pensei que me tinha cortado numa concha e saí logo da água», conta. Passados uns 20 minutos, como o pé começou a inchar e a dor a aumentar e a alastrar-se por toda a perna até que ficar dormente, foi ao posto de saúde da praia. Soube então que tinha sido picada por um peixe-aranha. «Colocaram-me o pé numa recipiente com água muito quente e deram-me uma injecção contra o tétano», acrescenta. O peixe-aranha, de cor amarelada, possui um corpo cilíndrico, é ligeiramente achatado na cabeça e tem espinhos na barbatana dorsal de tonalidade negra. Este simpático animal marinho costuma habitar em zonas de grandes areais e onde o mar é mais calmo, como na linha de Cascais, na Figueira da Foz, no Algarve ou em Setúbal, e fica camuflado debaixo da areia. Em geral, os banhistas são picados durante a baixa-mar. «Quando a maré vaza, as pessoas andam até mais longe e entram na zona deles», diz José Silva, do Instituto de Socorros a Náufragos, em Paço d’ Arcos. «Quando os pisam, defendem-se picando com a barbatana dorsal que possui um veneno paralisante.» Em 1999, foram registados 50 casos destes em todo o litoral. Dores muito fortes, dormência e inchaço são as reacções provocadas por uma picada deste peixe. «A imersão imediata do pé em água quente, até que os sintomas desapareçam, é o melhor tratamento, já que o veneno deste peixe é destruído pelo calor», diz Mário Freitas. «Em certos casos faz-se o reforço da vacina do têtano. Se não houver tratamento adequado, poderá ocorrer uma infecção secundária.» Sofia sofreu durante duas semanas as consequências do seu «encontro picante». «Custava-me andar e fiquei com o pé e a perna inchados, isto porque não recorri de imediato aos cuidados médicos.» Apesar das picadas e das mordeduras, esta época do ano é maravilhosa. Por isso, com algumas precauções, podemos gozar ao máximo o contacto com a Natureza.

No campo ou na praia

• Evite usar perfumes, cosméticos e cremes solares com um odor adocicado, já que estes produtos atraem os insectos.

• Aplique um repelente de insectos à base da mistura de óleos de lavanda e de citronela antes de iniciar a excursão. Por precaução, a aplicação deve ser renovada aproximadamente de duas em duas horas, uma vez que a transpiração e o contacto com a roupa diminuem a eficácia de oito horas garantidas pelos fabricantes.

• Os vaporizadores e os difusores eléctricos podem também afastar estes insectos, mas só devem ser utilizados quando estritamente necessário, pois não são totalmente inofensivos para o ser humano. • Não faça movimentos bruscos quando uma abelha ou uma vespa se aproximarem de si. Se for picado, abandone rapidamente o local onde se encontra. É que, depois de picarem, as abelhas e as vespas libertam um cheiro que atrai as outras. • Deve-se ir ao médico se aparecer uma reacção generalizada ou algum destes sintomas: erupção cutânea exagerada e com dor, inflamação extensa, palidez e debilidade, náuseas e/ou vómitos, opressão no peito, nariz ou pescoço, febre.

Adaptado de «Saúde e Bem-Estar» © «Saúde e Bem-Estar» (Julho de 1999)

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2 Comentários

Luisa Costa on 02 Setembro 2011 ,11:17

Sou uma mártir com as picadelas de insectos, existe algum alimento que possa ingerir que sirva de repelente?

marina on 13 Abril 2011 ,12:54

O peixe pode matar? E têm a certeza que a água quente destrói o veneno todo? Disseram-me que o sangue pode sair dos vasos sanguineos. Estou com medo.

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