Evitar as falsificações
O euro é popular entre os falsários, tal como cidadãos inocentes já sentiram na pele. Mas a maré está a mudar.
By Philip Jacobson
Relacionados
Já passa bastante da meia-noite em Munique, e Andrew Towers e a namorada põem um ponto final numa noite agradável quando chamam um táxi de regresso a casa. O preço da curta viagem chega a 10 euros, que Andrew paga com uma nota de 50. De troco, recebe duas notas de 20. «O motorista perguntou se queria fatura, mas eu não lha pedi.»
Na manhã seguinte, Andrew foi até ao quiosque da esquina comprar um maço de cigarros, que pagou com uma dessas notas de 20. «A senhora que me atendeu disse-me de imediato que a nota era falsa», lembra. «Pô-la à contraluz e podia ver-se que as cores não estavam certas. O passo seguinte foi chamar a Polícia.»
Os agentes quiseram ver todo o dinheiro que Andrew tinha na carteira. «Foi quando dei conta de que a outra nota de 20 que recebi de troco no táxi também era falsa.» Andrew, de 50 anos, que gere um pequeno negócio de compra e venda de CDs e DVDs em segunda mão, foi levado para a esquadra.
«Só pensava: “Bem, eu sou a parte inocente nesta história”, mas o polícia disse-me que eu poderia ser acusado de conscientemente passar moeda falsa. Fiquei em choque quando ele me disse que isso me podia valer 12 meses de cadeia.»
Dias depois, Andrew recebeu em casa uma carta registada que o informava de que podia evitar uma ida a tribunal se pagasse uma multa de 2700 euros. «Achei aquilo um absurdo e resolvi lutar.» As autoridades da Baviera concederam-lhe um advogado, e após uma breve audiência foi absolvido.
«Com esta situação, aprendi duas coisas», resume. «Nunca se deve pagar uma pequena corrida de táxi com uma nota grande e deve-se pedir sempre fatura.»
O que aconteceu a Andrew não é uma situação rara. À medida que aumenta o número de utilizadores do euro – mais de 300 milhões de pessoas usam esta moeda todos os dias, já que o euro é a segunda moeda mais utilizada nas transações comerciais, ultrapassado apenas pelo dólar norte-americano –, também aumenta o número de vítimas de falsários.
Que o diga Steve Cripps, empresário do sector da construção, que, pouco depois de ter chegado à Áustria para umas férias na neve, se apercebeu de que os 2000 euros que tinha para gastar eram falsos. «A Polícia manteve-me detido durante 10 horas, tiraram-me as impressões digitais e exigiram uma amostra de ADN», recorda.
Ou o caso do Sr. Kim, que tem uma pequena tabacaria no 20.° Bairro em Paris. Eram tantas as notas falsas que lhe chegavam que acabou por comprar um detetor de ultravioletas. «Só que mesmo a lâmpada não as apanha todas!», lamenta-se. «Esta manhã mesmo, fui ao banco pagar contas com dinheiro e não me aceitaram duas notas de 5.»
QUANDO O EURO FOI LANÇADO, em janeiro de 2002, o Banco Central Europeu (BCE) – responsável pela condução da política monetária europeia – elogiou o facto de se tratar da moeda mais difícil de falsificar do Mundo. As novas notas tinham incorporada uma série de tecnologia topo de gama: um filete de segurança embebido no papel fiduciário, microimpressão e complexos hologramas, bandas iridescentes e um pequeno retângulo, semelhante a uma «raspadinha», que ajuda a tornar as falsificações identificáveis pelo tato.
Apesar de o BCE ter previsto que os falsificadores iriam ser rápidos a testar as defesas das novas notas antes de o público se habituar ao euro, não houve contrafação em larga escala no imediato. «As primeiras contrafações que apareceram eram de má qualidade», conta Michael Rauschenbach, chefe da unidade de análise de contrafação da EUROPOL, a Polícia Europeia com sede na Haia. «Levou algum tempo até os gangs do crime organizado se familiarizarem com o euro, mas assim que o fizeram a qualidade subiu rapidamente e o nosso trabalho aumentou bastante.»
Durante o ano de 2007, o número de notas falsas recuperadas subiu 12%, e no ano seguinte houve outro aumento de dois dígitos. Não obstante, os números continuam a aumentar. Nos primeiros seis meses do ano passado (2011), no entanto, registou-se uma simpática descida dos números para 296 000 notas contrafeitas retiradas de circulação – é o valor mais baixo desde 2008, entre cerca de 13 biliões de notas verdadeiras a circularem por aí nas carteiras. Apesar de tudo, o BCE avisa que é preciso que o público «continue alerta».
No escritório desarrumado de Michael Rauschenbach, onde equipamentos de deteção sofisticados ocupam a maior parte do espaço, ele espalha uma seleção de notas falsas pela mesa, tal como se fosse um dealer num casino. Agita uma nota de 200, a que chama «Princesa» e que considera uma das melhores falsificações que já lhe passaram pelas mãos. «É perfeita a 80%, o que é muito mais do que a maior parte das notas que por aqui passam.»
No seu fato escuro e gravata sóbria, Michael Rauschenbach, de 48 anos, parece-se bastante com o agente que em tempos dirigiu a unidade anticontrafação da Polícia Criminal Alemã. «Trabalhei lá por 15 anos, e cada vez mais o mundo da falsificação de moeda me fascinava. Com uma distribuição virtualmente mundial, o euro é particularmente atraente para os falsificadores.»
A EUROPOL calcula que cerca de 70% dos falsificadores estão ligados a um punhado de gangs localizados em Itália e nos Balcãs, com a Bulgária à cabeça.
Os especialistas da agência trabalham em estreita colaboração com as autoridades locais. Em maio de 2010, uma operação conjunta entre a EUROPOL e a Polícia Búlgara resultou na recuperação de mais de meio milhão de notas contrafeitas de alta qualidade em rusgas feitas a gráficas ilegais. As notas mais frequentemente falsificadas são aquelas que mais uso têm nas compras de todos os dias: as notas de 20 e de 50 euros representam mais de 80% de todas as falsificações recuperadas.
Rauschenbach avisa todos os cidadãos cumpridores da lei a redobrarem a vigilância sempre que estiverem em sítios onde se juntam grandes multidões e há trocas comerciais de baixo valor – tal como o Festival da Cerveja de Munique ou os jogos da Liga dos Campeões. E um especialista do Banco Central Europeu acrescenta que muitas das transações que envolvem notas falsas acontecem em locais com luzes fluorescentes desagradáveis, como lojas, bancos e restaurantes. «São as piores condições para detetar dinheiro falso.»
A maior parte dos euros forjados ainda são «fabricados» em máquinas de impressão em offset que são pesadas e caras. Mas a crescente sofisticação das copiadoras digitais, que são mais baratas, mais pequenas e mais fáceis de transportar de esconderijo para esconderijo, preocupa Gunter Seibold, especialista em contrafação no Gabinete de Investigação do estado da Baviera. «É uma competição em que cada um dos lados trabalha que nem um louco para estar sempre um passo à frente do outro lado», resume.
TODOS OS GANGS de falsificadores apoiam-se numa equipa de «mulas» para colocar as suas notas em circulação. Um gráfico na parede do escritório de Michael Rauschenbach na EUROPOL mostra a rota que uma «equipa de distribuição» búlgara foi instruída a utilizar, com avisos rabiscados sobre zonas específicas, tal como a Alemanha do Norte, onde o risco de ser apanhado seria maior.
«Operações como estas são organizadas com uma precisão militar», diz Rauschenbach, «e se alguma coisa dá para o torto, as “mulas” são sacrificadas.» Quantos são os euros «de brincar» que circulam no Mundo ninguém sabe ao certo. As estatísticas oficiais refletem apenas as notas apreendidas em rusgas policiais ou retiradas de circulação após serem descobertas. A contrafação é tão antiga quanto o próprio dinheiro. À procura de uma vantagem tecnológica, o Banco Central Europeu está a desenvolver um projeto ambicioso que visa embeber etiquetas de identificação por radiofrequência nas fibras de todas as notas acima de 20 euros. Além de proporcionar um método eficaz de eliminar as contrafações, este projeto também iria permitir à EUROPOL e às polícias nacionais rastrearem «dinheiro sujo» em todo o processo de «lavagem». Mas o BCE recusa-se a tecer mais comentários relativamente às novas características de segurança. «Não tomamos parte em nenhum tipo de especulação.»
Esta última frase é de Michael Rauschenbach, que rapidamente reconhece que «as pessoas têm elevadas expectativas quanto à EUROPOL proteger o euro dos falsários». Os gangs do crime organizado estão sempre a tentar melhorar as suas técnicas de contrafação», acrescenta. «Mas deixe-me garantir que não ficaremos sentados e não permitiremos que essas pessoas ataquem o euro.»
|
| |||||
1 Comentários |
| Jose Vacondeus on 03 January 2012 ,15:52 O concurso está bem planeado e atyrai pessoas a participar. Eu, porém, já conheço as Sewlecções há mais de 50 anos, pois trabalhei em 1951 na Livraria Bertrand que, então, era quem distribuia a revista em Portugal. |
Faça um Comentário
| Nome* | |
| Email* | |
| Comentário* | |

Mais Populares
Mais Populares
Favoritos da Semana
![]() Receitas e Alimentos | ![]() Dicas e Truques | ![]() Alimentação Saudável | ![]() Destinos e Viagens | ![]() Notas de Lazer | ![]() Consultas de Especialistas |
Precisa-se: Uma Boa História!
Precisa-se: Uma Boa História!
Escreva-nos e poderá ganhar:
50€ por cada história verídica e inédita que for publicada em Flagrantes da Vida Real.
20€ por cada texto publicado em Rir é o Melhor Remédio.

Partilhe






.jpg)
















