Eu hei-de lembrar-me!

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Uma história extraordinária de memória perdida e recuperada.
Andrew Engel estava completamente confuso. Poucos dias depois de entrar na Universidade de Rutgers, estava sentado na Sala 101 de Sociologia, ouvindo outros alunos a conversar. Mas não fazia ideia de que é que eles estavam a falar. Fizera os trabalhos de casa, prestara atenção nas aulas e tirara apontamentos. Mas nada lhe era familiar. São todos tão mais inteligentes do que eu, pensou ele. Era um sentimento estranho, pois sempre fora um bom aluno, e acabara o liceu com altas classificações.
O resto do seu dia desenrolou-se como um episódio de The Twilight Zone. Perdeu-se outra vez a caminho da cafetaria, apesar de lá ter estado umas horas antes. De volta ao dormitório, cumprimentou o seu companheiro de quarto com um «Olá, como é que vai isso?», pensando entretanto: «Já me esqueci do nome dele outra vez».
Comportava-se como um doente de Alzheimer – e tinha apenas 17 anos. No fim de Setembro desistira de uma das cadeiras e estudava com um explicador, mas continuava em dificuldades. Até chegar à conclusão de que a única coisa a fazer era desistir, e dizer a uns pais perplexos que não tinha perfil para a Faculdade.
Há muito que Andrew queria tirar uma licenciatura e trabalhar na área de cuidados médicos, e estava destroçado por ver esse sonho desfeito. Estava também perturbado por ter de se separar pela primeira vez do seu irmão gémeo, Jason, também aluno da Rutgers. Chorou durante a maior parte do caminho até casa dos seus pais, em Maryland.
Primeiro, pensaram que fosse ansiedade, e levaram Andrew a um psiquiatra. Mas o médico não conseguiu encontrar uma causa para o estado de Andrew, e atribuiu-o a stress. Andrew continuava a ter um comportamento estranho, e tinha dificuldade em dizer coisas acertadas. Era capaz de perguntar «O que é o jantar?» pouco depois de ter jantado. Ou ficar desorientado ao conduzir pelas ruas que conhecia tão bem. E enquanto andava à deriva, esquecia-se por que razão é que tinha saído de casa. «Era estranho. Nunca antes tinha tido problemas de saúde», diz Andrew. «Sentia que aquilo tinha de ser psicológico. Sentia-me confuso e com a cabeça nublada.»
Diagnóstico Devastador
A mãe de Andrew estava cada vez mais preocupada com seu estranho comportamento, e quando ele começou a ter sintomas físicos, incluindo uma sede insaciável e micções frequentes, ela levou-o imediatamente ao médico. Uma ressonância magnética ao cérebro explicou tudo: Andrew tinha um tumor maligno do tamanho de um caroço de pêssego que estava a pressionar a parte do cérebro que guarda as memórias recentes, e que se não fosse tratado poderia ser fatal. Andrew ficou assustado, mas aliviado por saber a razão do seu comportamento.
«Basicamente o que ele tinha era amnésia», explica David Schretlen, Professor do Hospital Johns Hopkins de Baltimore e neurologista de Andrew. «Este é o tipo de memória que as pessoas perdem quando envelhecem, em especial os doentes de Alzheimer.»
As memórias ficam impressas no cérebro como a informação fica impressa num disco duro. Toda a informação que Andrew tinha armazenado antes de o tumor ter aparecido, (pormenores autobiográficos, capacidades motoras e tudo o que aprendera na escola) estava intacta. Mas o tumor tinha danificado o software usado para gravar informação recente, razão pela qual a amnésia apenas se tornou notoriamente óbvia quando ele frequentava a universidade, um ambiente novo e com o qual estava pouco familiarizado.
Os médicos retiraram parte do tumor e atacaram o restante com radioterapia, deixando Andrew tão abatido que perdeu quase 14 kg. O cancro desaparecera, mas o alívio foi de curta dura, pois disseram-lhe que provavelmente nunca poderia voltar a estudar. Tinha um quociente de inteligência verbal acima da média, mas a sua capacidade de memória estava apenas no nível 68, comparável com o de uma pessoa com deficiência mental. As suas opções de carreira estavam verosimilmente reduzidas a um trabalho manual altamente supervisionado.
«Mesmo enquanto me estavam a dizer isto, eu soube que queria voltar à Faculdade», diz Andrew. «Não sabia se era capaz, mas estava muito motivado. Queria dar tudo para recuperar a minha memória.»
Os pais temiam que ele estivesse a cavar o seu próprio insucesso, e pediram-lhe que falasse com os médicos, o neurologista Dustin Gordon, nessa altura já doutorado, e o chefe deste, Schretlen. Andrew procurava uma forma de reeducar o cérebro e melhorar a memória. Os médicos nunca tinham conhecido ninguém tão determinado, e decidiram conceber algumas estratégias para ajudar Andrew a absorver informação nas aulas e enquanto estudava, bem como técnicas para organizar as ideias, de forma a conseguir escrever. Teria que trabalhar dez vezes mais que os outros alunos e, se começasse a sentir-se confuso, possivelmente teria de desistir de estudar.
Dedicação Extrema
Andrew começou por ir a uma aula de inglês na Faculdade de Howard Community, perto de sua casa. Em dado momento, descobriu que o facto de ler as coisas pelo menos cinco vezes aumentava a sua capacidade de reter a informação. Escrevia apontamentos muito pormenorizados durante as aulas, e com a ajuda das notas tiradas por algum colega suplementava o que tinha perdido.
Relia os apontamentos várias vezes por dia, e a seguir dactilografava-os, bem como à matéria correspondente do livro. Estudava 12 horas por dia, sete dias por semana, fazendo apenas intervalos para assistir às aulas, comer ou fazer exercício. Para se lembrar de listas e dados usava acrónimos e mnemónicas.
Quando fez o exame de crédito no semestre seguinte, conseguiu ter um A (nota máx. equivalente a 18/20). «Fiquei feliz», diz ele. «Mas não tinha a certeza de conseguir esta nota nas outras disciplinas.» Inscreveu-se na Universidade de Maryland, no condado de Baltimore, fazendo apenas uma ou duas disciplinas por semestre, de um bacharelato de ciências de gestão de saúde.
Apesar de ter encontrado forma de compensar durante as aulas, a vida do dia a dia ainda era um desafio. Levava mapas e listas sempre que ia às lojas, mas uma noite, depois de ter saído de um bar de Baltimore, andou às voltas nas ruas durante horas. Só por volta das 3 da madrugada conseguiu finalmente encontrar o sítio onde estacionara o carro. A partir daí, passou a andar sempre com um GPS no seu telemóvel e instrumentos digitais onde grava «lembretes».
Andrew persistiu no seu programa. E em Maio de 2007, com 29 anos, mais de 10 anos depois de ter começado, foi ovacionado em pé ao receber o diploma da licenciatura com a alta classificação de 4 (sendo 5 a nota máxima).
Seis meses mais tarde, Andrew está sentado à sua secretária nos escritórios da Erickson Retirement Communities, em Catonsville, Baltimore, onde trabalha na divisão de operações. Ao que viria a ser seu patrão, Russ Caccamisi, Andrew contou todos os problemas de memória que tinha tido. «Não fiquei preocupado», diz Caccamisi. «Esses dez anos de Faculdade mostram bem a perseverança de Andrew.» Andrew continua a usar as estratégias que usava na faculdade e os lembretes no calendário do computador, além de todas as ferramentas de que todos nós dependemos para não nos esquecermos de alguma coisa. «O que resulta melhor é a repetição, e usar mais de uma maneira de me lembrar de qualquer coisa», explica Andrew. «Escrevo, repito em voz alta, gravo e volto a ouvir.»
É claro que ter uma memória imperfeita continua a ser frustrante. Andrew gosta de ir ao cinema, mas perde o fio à meada do enredo. Lembra-se vagamente de uma viagem que fez com a família ao Havai e está a tentar convencer os pais a voltarem lá. E depois tem a sua adorada equipa de futebol. Não conseguirá lembrar-se do resultado dos jogos, mas sabe dizer se ganharam. E quando perdem? Às vezes é bom esquecer.
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